Beyoncé
Depois de passar mais tempo do que queria para resenhar a discografia da Madonna, é hora de começar a passar a limpo outras discografias. E eu começo por uma que já tem tempo que quero fazer e que finalmente irei começar: a da Beyoncé.
Com apenas quatro álbuns que não resenhei propriamente, a discografia da cantora começa com um dos maiores blockbusters do começo dos anos dois mil e com o trabalho que realmente introduziu a potência da artista de maneira individual. Entretanto, mais de vinte anos depois, é interessante notar que, em termos de qualidade, Dangerously in Love é um álbum com suas limitações, mesmo sendo ainda um trabalho realmente acima da média.
Quando lançou o trabalho em junho de 2003, a Beyoncé não era exatamente uma novata sendo apresentada ao mundo pela primeira vez. Na verdade, a então jovem de 21 anos já poderia se considerar uma veterana devido aos anos passados como principal integrante do Destiny’s Child, com três álbuns lançados, três Grammys, cerca de quase 30 milhões de álbuns vendidos e uma coleção de hits. Apesar das três formações diferentes, existia uma constante: Beyoncé era o grande destaque do girl group. Obviamente, existia o fato de que o seu pai era o empresário do grupo e outros fatores que levaram a algumas polêmicas nas saídas de três integrantes (LeToya Luckett, LaTavia Roberson e Farrah Franklin), o que a fez ser comparada com o que aconteceu com Diana Ross e as The Supremes. Então, era claro que existia uma plataforma para o futuro solo da Beyoncé. Todavia, é preciso notar que, para que a cantora pudesse ter esse destaque, era preciso também que ela tivesse talento, e isso era algo facilmente notável durante os anos iniciais do Destiny’s Child.
Em 2001, o grupo lançou o terceiro álbum, intitulado Survivor, que ajudou a consolidar o grupo no panteão do mundo pop e também a consagrar a formação mais conhecida, com Beyoncé, Kelly e Michelle. Durante a gravação do álbum, foi anunciado que cada uma das integrantes iria lançar, no futuro, um álbum solo. Gravado entre março de 2002 e março de 2003, Dangerously in Love foi o último dos trabalhos das três integrantes a ser lançado, pois Heart to Yours, da Michelle, foi lançado em abril de 2002, e Simply Deep, da Kelly, em outubro do mesmo ano. Entretanto, a construção para o lançamento do debut da Beyoncé foi muito mais grandiosa e bem planejada.
Um ano antes, a artista lançou o seu primeiro single solo com a canção Work It Out (incluída em algumas versões de Dangerously in Love), que foi tema de Austin Powers em O Homem do Membro de Ouro. Filme esse em que a cantora fez o seu debut atuando em um papel secundário. Além disso, Beyoncé foi top 5 da Billboard como featuring de ’03 Bonnie & Clyde, single do então namorado/pretendente Jay-Z. Com essa “tempestade” por trás, Beyoncé começou a trabalhar nos preparativos para o lançamento de seu debut. Todavia, a pièce de résistance da sua nova era só foi finalizada no fim das gravações do álbum, mas, como se estivesse escrito nas estrelas, foi o que a cantora precisava para iniciar a sua carreira de maneira simplesmente lendária no que é hoje considerado um dos marcos modernos do pop: Crazy in Love.
Com produção da Beyoncé ao lado de Rich Harrison, a canção, lançada como primeiro single em maio de 2003, logo se mostrou o carro-chefe perfeito para a carreira solo da cantora. Primeiro, a produção era completamente diferente de tudo o que a artista tinha feito até o momento, criando uma clara diferenciação entre a sua carreira solo e a sua carreira ao lado do Destiny’s Child. Segundo, a qualidade gigantesca da canção era — e ainda é — algo que poucas artistas da época e depois conseguiram alcançar. E, terceiro, o imenso e mundial sucesso da canção fez com que o nome da cantora fosse catapultado para a promessa de um dos grandes nomes de 2003, com, naquela época, a possibilidade de um futuro brilhante. Vencendo dois Grammys (Best R&B Song e Best Rap/Sung Collaboration), Crazy in Love se tornou uma das canções-assinatura da cantora, assim como também um dos momentos pop mais icônicos, musicalmente e visualmente (as apresentações ao vivo e, claro, o videoclipe), da história da música. Mas o que faz a canção ser tão especial?
Crazy in Love é o que podemos chamar de tempestade perfeita. Completamente diferente de tudo o que a cantora tinha feito com o Destiny’s Child, a canção é uma fusão perfeita entre o soul/funk dos anos setenta, o R&B contemporâneo e uma dose generosa de pop. É o tipo de canção que a gente já sabe que vai ser algo diferenciado logo nos primeiros segundos, com a batida extremamente marcante e, claro, os “uh-oh, uh-oh” que grudam na nossa cabeça na hora. O uso excepcional do sample de Are You My Woman (Tell Me So), da banda The Chi-Lites, como base da batida é uma verdadeira masterclass no uso de samples, pois aproveita perfeitamente o que é retirado da canção original para construir em volta toda a melodia, a batida e a atmosfera da nova canção, sem fazê-la dependente exclusivamente do sample, mas também sem desperdiçar nada. E isso é algo que ajuda a transformar a canção em um trabalho atemporal. A canção, porém, não é apenas um grande trabalho sonoro, mas também a confirmação do talento da então promessa Beyoncé.
Parte do que faz Crazy in Love funcionar como essa obra genial e atemporal é a presença magistral da cantora ao entregar uma das performances mais icônicas da sua carreira. Até esse momento, Beyoncé era conhecida por ser a vocalista principal do Destiny’s Child, mostrando claramente o seu potencial ao longo dos anos. Todavia, para a canção era preciso que ela adotasse uma nova “faceta”, ao mostrar o quão impactante era a sua presença completamente solo e como uma verdadeira diva. E isso é comprovado por A+B na maneira monumental com que a cantora domina a canção. Sexy, poderosa, explosiva, cheia de nuances, cativante e inesquecível: essas são algumas das qualidades da performance da cantora, que dá uma verdadeira virada na sua persona até então apenas com essa canção, pois é fácil notar o quão diferente é a sua presença aqui em relação ao que a mesma tinha mostrado como membro do girl group. Além disso, outro ponto decisivo para o impacto da canção é a presença de Jay-Z, pois o rapper liga os pontos emocionais da canção devido ao relacionamento dos dois, como também entrega um dos versos de rap em uma canção pop mais icônicos de todos os tempos. Se o álbum só tivesse Crazy in Love como destaque, já estaria bem acima da média de vários álbuns daquela época, mas Dangerously in Love tem o que considero a maior trindade de abertura de um álbum de todos os tempos.
Logo em seguida que termina a abertura com Crazy in Love, o álbum inicia outro dos grandes momentos da carreira da Beyoncé: a irresistível Naughty Girl. Bem antes de Renaissance, a artista já tinha mergulhado nas águas da disco com essa escandalosamente sexy, deliciosa, suculenta e envolvente mistura de disco, funk e R&B, com toques de música árabe, que é outro ponto de quebra da imagem e da sonoridade da Beyoncé. A alta dosagem de sexualidade dava à cantora uma nova faceta, mas de forma natural, fazendo com que ela finalmente entrasse na fase adulta da carreira. Ao contrário de outras artistas que fizeram essa transição de maneira mais abrupta, Beyoncé caminhou de forma mais tranquila para se tornar um sex symbol pop.
A sua performance vocal ajuda ao ser extremamente sexual ao usar os seus agudos, mas nunca parte para o vulgar. Há uma elegância sedosa que remete a outros nomes como, por exemplo, Diana Ross e, claro, Donna Summer. E é dessa segunda que Naughty Girl ganha outro ponto importantíssimo, que é o toque de genialidade da canção: o uso da interpolação/sample de Love to Love You Baby. Uma das maiores canções da era disco, o uso do sample de maneira tão evidente e importante deixa claro o olhar para o passado da Beyoncé ao reverenciar quem veio antes, mas, ao mesmo tempo, olhando para o seu futuro com a promessa de levar essa tocha adiante. E a trindade se encerra com a presença da deliciosa Baby Boy.
Tenho um entendimento claro de que a faixa, segundo single do álbum e segundo número um da carreira solo da Beyoncé, pode não ter tantos entusiastas quanto os outros singles, ainda mais por soar como um produto bem da época devido à participação de Sean Paul. Todavia, tenho a certeza absoluta de que o sucesso da canção e a mudança drástica em relação às outras faixas do álbum foram importantíssimos para o começo da solidificação da Beyoncé como uma estrela pop com alcance e versatilidade. Além disso, Baby Boy é deliciosamente datada e possui um carisma sonoro único ao ser uma dançante, inspirada e viciante mistura de dance-pop, dancehall, R&B e pop, que marca na nossa cabeça até a gente não aguentar mais. E, sinceramente, a participação do Sean é, para o bem ou para o mal, simplesmente lendária, refletindo o ápice do jamaicano no mainstream da música. Com essa comissão de frente, Dangerously in Love já se mostra como um dos maiores álbuns dos anos dois mil, mas é preciso apontar que o nível de qualidade não se mantém no resto do trabalho.
Com 15 faixas na versão standard e pouco mais de uma hora de duração, o álbum é um blockbuster sonoro, ainda mais para um trabalho de estreia. E é por isso que fica até fácil a produção meio que se perder ao longo do caminho e não conseguir manter o mesmo nível inicial. Entretanto, o motivo do álbum se perder também passa por outra característica importante: o trabalho é de transição da carreira da Beyoncé, de integrante promissora do Destiny’s Child para uma artista solo. E é por isso que dá para ouvir claramente que várias canções do álbum facilmente poderiam ser gravadas pelo girl group, ao serem, na sua maioria, uma coleção de R&Bs contemporâneos pincelados com hip hop, pop, soul, rap e outros gêneros aqui e ali. Tudo é muito bem feito, com canções que nunca chegam perto de serem medianas, quanto mais ruins. Só que, quando a gente olha para como o álbum começou, existe uma clara diferença de qualidade, estilo e impacto. Isso não quer dizer que não haja grandes momentos no resto do álbum. O maior deles é a maravilhosa Me, Myself and I.
Uma mistura bem azeitada de R&B, neo-soul e hip hop, a canção é uma aula de como escrever uma música com uma história completa sem perder o senso de musicalidade. Ao narrar um relacionamento tóxico, a letra arremata em um refrão que exala empoderamento e amor-próprio. Nada disso, porém, é pretensioso ou clichê, devido à maestria lírica aplicada. A batida é relativamente simples, mas lindamente bem trabalhada, com uma condução rítmica sensacional que segura a nossa atenção em seus cinco minutos de duração. Outro momento importante é a presença da regravação da canção que dá nome ao álbum: Dangerously in Love.
Com a alcunha de Dangerously in Love 2, a canção já tinha aparecido em Survivor, mas foi regravada com algumas alterações. É claro que a sua presença reforça ainda mais a sensação de um álbum de transição, mas não é possível negar que essa power ballad de R&B é um trabalho marcante, especialmente devido à presença vocal impressionante da cantora, que deixa claro todo o seu imenso alcance e poder. Algumas outras faixas de destaque ficam por conta da graciosidade tradicional de Be With You, da sensualidade latente de Speechless e, por fim, do respeito geracional ao adicionar o dueto com o lendário Luther Vandross em The Closer I Get to You.
Dangerously in Love foi apenas o começo da carreira da Beyoncé, que simplesmente começou chutando a porta de maneira inesquecível para marcar o seu nome. Todavia, a cantora só começa a encontrar o seu lugar de fato com o lançamento do segundo álbum, pois é lá que ela se solta artisticamente. E é isso que irei discutir no próximo especial de Antes Tarde do Que Nunca.


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