16 de outubro de 2026

Primeira Impressão

She's the Best
Troye Sivan



Resistência Pela Sacanagem

Exorcismo
Katy da Voz e as abusadas


Em uma época como a que vivemos, é preciso, a todo custo e de todas as maneiras, ser resistência. Nem que seja pela putaria, mas uma putaria de respeito. Esse é o caso do sensacional Exorcismo, de Katy da Voz e as Abusadas.

Agora como um duo, formado por Katy da Voz e Palladino Proibida após a saída de Degoncé Rabetão, o grupo entrega uma das melhores canções brasileiras do ano: uma mistura escalafobética, gigantesca, ousada, poderosa, inteligente e de personalidade incontestável de eletrônico, dark pop, techno, funk e vogue, sem saídas fáceis ou meias-palavras, que chega como uma verdadeira pancada sonora. E, queridos leitores, é uma pancada que fica na nossa cabeça e não sai mais, pois a produção não tem medo de ir além do esperado para transformar a batida em algo tão espetacular que parece o filho bastardo e sombrio da Arca, que fez um remix de WAP com Thriller, apadrinhado em um baile funk/Ballroom proibidão.

Sonoramente, a canção é um assombro, mostrando como a produção foi capaz de criar tantas texturas sem perder o rumo em nenhum momento, mas também sem entregar um trabalho “limpo”, já que é justamente a sua aspereza que dá o tempero especial. Exorcismo, porém, também vai sendo construída pelas performances espetaculares das integrantes do duo, que abraçam e carregam toda a magnitude da canção de uma forma tão esplendorosa e sem nenhum tipo de amarra que fazem a faixa ganhar ainda mais força criativa. Isso fica especialmente evidente nas mudanças vocais e de performance, que dão o dinamismo necessário para sustentar mais de quatro minutos e meio de duração.

O que dá ainda mais impacto à produção é a composição vulgar, explícita e genial, que fala sobre sexo, mas também aborda, nas entrelinhas, a hipocrisia da relação da sociedade e da religião com aqueles que escolhem viver livremente, sem medo das repercussões que isso possa trazer. E tudo isso fica genialmente sintetizado no refrão: “Chame um exorcista, antes que anoiteça/ Ele chega, faz a reza e me tira de maluca/Daí eu entendi, exorcismo dе puta, Deus não escuta”.

Uma canção que mostra que, independentemente do que aconteça, a força da resistência sempre vai existir das mais diversas formas possíveis. E é isso que ainda nos dá esperança para seguir em frente.
nota: 9

Expectativas Cumpridas

expectations
Olivia Rodrigo & Chappell Roan


O que esperar de uma música que tenha Olivia Rodrigo e Chappell Roan? Uma boa canção seria o mínimo, certo? Então, é exatamente isso que acontece no remix de expectations.

Claro, ajuda e muito o fato de a canção original já ser boa, mas, como já sabemos, o encontro de dois grandes talentos em um remix nem sempre é garantia de um bom resultado. Felizmente, o remix mantém intacta a qualidade da canção e adiciona um novo charme com a presença de Roan, que acrescenta novos versos que se fundem muito bem com o restante da composição e, também, dão sua personalidade à faixa. E isso é meio raro de acontecer em remixes desse tipo, pois parece que os artistas convidados nem sempre conseguem se encaixar de verdade na canção.

Além disso, a escolha da música para o remix foi ideal, já que expectations parece ser uma canção que poderia ser de qualquer uma das duas artistas. E isso se dá devido à produção de Dan Nigro, colaborador de ambas as cantoras, que cria um vínculo sonoro nítido e realmente fluido. A produção entrega, então, um synth-pop/new wave animado, grudento, gracioso e despretensioso, com toques de pop punk, que funciona de maneira azeitada e cativante graças a uma atmosfera descontraída e atemporal. Já a composição, suculentamente ácida e brincalhona, facilita a união das estéticas de Olivia e Chappell por compartilhar pontos essenciais de suas personas artísticas.

Fico realmente contente quando minhas expectativas são atendidas de maneira tão satisfatória.
nota: 8

Gimme More! Much More!

Housewife
Tate McRae


E eis que voltamos para um novo ciclo de tentar entender, de fato, todo o hype em torno de Tate McRae. O novo single, Housewife, não ajuda muito nessa missão.

Longe de ser ruim, a canção carece do principal para realmente funcionar: presença. E isso é algo que falta à jovem, cuja voz soa pasteurizada e sem personalidade, pois fica fácil notar que ela não consegue carregar uma canção de verdade ao entregar uma performance atolada em efeitos vocais e sem qualquer traço de vida. O seu papel até é cumprido se isolarmos sua presença, mas, quando a somamos ao resto, fica claro o quanto ela é inferior.

E a maior discrepância está na boa composição. Housewife é uma reflexão satírica, irônica, divertida e bem construída sobre o peso da fama e, ao mesmo tempo, tenta criar uma persona capaz de responder às polêmicas e à visão que parte do público tem de Tate. Funcionaria se ela tivesse a persona, a bagagem e o talento necessários para carregar uma canção com essa mensagem, como, por exemplo, Britney Spears fez na era Gimme More/Piece of Me. Na verdade, a canção seria um bom retorno para Britney, pois teria o caimento perfeito para ela, que poderia sustentar a intenção criativa por trás desse dance-pop/alt-pop redondinho e com uma boa execução.

Uma pena que Tate não tenha muito mais a oferecer, mesmo quando tem em mãos uma canção com potencial.
nota: 6

15 de outubro de 2026

Um Presente do Passado

She'll Never Be Me
Britney Spears


Como parte do lançamento comemorativo dos 25 anos de Britney, terceiro álbum da cantora, foi lançada a inédita She'll Never Be Me.

Gravada na época e coescrita com o então namorado Justin Timberlake, a canção é basicamente um fruto de seu tempo, que se encaixa perfeitamente na estética sonora do álbum. Não é exatamente um trabalho sensacional, mas mostra o quanto o disco é divertido e redondinho ao entregar um electropop/teen pop efervescente, dançante e viciante que, claramente, tem cara de filler e, por isso, ficou de fora do tracklist final.

Todavia, a canção é um bom lembrete de como o pop verdadeiro pode ser inspirado quando feito de maneira tão direta. A faixa ainda conta com uma ótima performance de Britney, que estava no auge de seu carisma e esbanjava personalidade. Um pequeno regalo para quem sente saudade dessa época.
nota: 7,5


É Dia De Rock, Babê!

i think he's got a girl
Slayyyter

Não há como duvidar de que um dos nomes mais importantes de 2026 é Slayyyter. E a cantora continua a provar que está no topo ao lançar a ótima i think he's got a girl.

Single mais distinto que a artista lançou nesta era, mas que conversa diretamente com a sua sonoridade, a canção deixa um pouco de lado o eletrônico para entregar um pop rock/rock alternativo mais tradicional, em uma produção madura que consegue manter intacta a personalidade da artista. Isso acontece porque ela sempre demonstra que sua sonoridade tem fortes traços de rock, fazendo da canção um trabalho completamente natural e coeso. Além disso, a produção entrega uma batida que não é genial ou inovadora, mas, felizmente, é muito bem estruturada, viciante e conta com um trabalho instrumental na medida.

Entretanto, o que faz i think he's got a girl realmente funcionar é sua força emocional, começando pela performance exemplar e emotiva de Slayyyter. Não espere, porém, nada piegas, mas, sim, uma performance que entrega emoção genuína no momento em que a cantora incorpora com classe sua versão roqueira. O outro ponto é a composição que, novamente, reflete sobre o fim de um relacionamento, com uma letra de honestidade cortante e um senso criativo muito bem delimitado. Talvez um segundo verso mais trabalhado desse ainda mais força à canção, mas esse é um ponto que não afeta o resultado final de maneira nenhuma.

E, dessa maneira, Slayyyter conquista seu devido espaço, faltando apenas o grande “boom” no mainstream.
nota: 8,5

12 de outubro de 2026

Um Tema de Verdade

Into The Deep (Seas Cry)
JADE & Hans Zimmer


Tenho falado recentemente sobre alguns temas de filmes que estão na disputa pelo Oscar. Infelizmente, a melhor canção-tema de 2026 não tem chances de concorrer ao prêmio: a genial Into The Deep (Seas Cry), parceria da Jade com o compositor Hans Zimmer.

Isso acontece porque a canção não é tema de nenhum filme, mas, sim, da série de TV documental Blue Planet III, da BBC. Talvez um Emmy ou Grammy esteja no futuro dessa obra espetacular, que é uma aula de como entregar um tema de efeito, grandioso, inteligente e que se encaixa perfeitamente em seu objeto de inspiração. Novamente trabalhando com uma artista pop, Zimmer entrega uma poderosa e épica balada pop, com elementos de classical pop e art pop, construída de maneira a captar toda a força de entender e perceber a grandiosidade da natureza, especialmente no que diz respeito aos mares e oceanos.

Delicada como uma brisa marítima, devastadora como uma onda durante uma tempestade e colossal como a vastidão da importância da vida marinha para a Terra, Into The Deep (Seas Cry) apresenta um dos trabalhos de instrumentação mais intricados do álbum, que literalmente nos leva a uma jornada impressionante do começo ao fim, com toda a sua atmosfera cinematográfica e inspiradora. Liricamente, a inteligência na construção dos versos é impressionante, pois a canção consegue se associar diretamente ao documentário, fugindo completamente dos lugares-comuns e, ao mesmo tempo, sem ter medo de ser literal, criando algo que parece uma mistura de Céline Dion com Björk. Só que a grande pérola da canção é a performance genial, brilhante e colossal da Jade, que não apenas apresenta a força necessária para sustentar as grandes notas, mas também adiciona delicadeza e sentimento para dar à canção as nuances necessárias.

Uma pena que a canção não possa concorrer ao Oscar, pois, sinceramente, acho que não teria nem concorrência na disputa pela vitória.
nota: 9