15 de fevereiro de 2026

Primeira Impressão

Wuthering Heights
Charli xcx



Direto de 1988

Dancing On The Wall
MUNA

Saber como usar a nostalgia é uma dádiva, pois mostra o quão inteligente e criativo é o talento por trás de um trabalho. Em Dancing On The Wall, single da banda Muna, temos o caso perfeito dessa habilidade.

Claramente, a canção é inspirada no synth-pop/pop rock dos anos oitenta, mas em nenhum momento soa datada, clichê ou como uma cópia barata. Existe uma naturalidade latente que confere à canção uma linda e verdadeira força criativa, tornando-a um trabalho irresistível. E a principal razão disso é a sua lapidada, graciosa e precisa produção, que entrega uma faixa com uma construção instrumental relativamente simples, mas extremamente eficiente e cativante.

Dancing On The Wall, porém, também se beneficia de uma composição realmente inspirada. Ao falar sobre uma relação em que não existe reciprocidade, a letra conta uma história com começo, meio e fim, na qual todos os sentimentos são revelados de maneira sentimental, mas sem pieguice barata e com uma estética pop afinadíssima. Há algo na composição que é difícil de explicar, mas que nos dá vontade de cantar cada verso com força, mesmo sem termos passado exatamente pelas mesmas emoções. E, completando o “pacote”, está a presença deliciosa dos vocais de Katie Gavin, que captam perfeitamente toda a aura da canção.

Dancing On The Wall é o que chamo de uma aula sobre como fazer dar certo algo que poderia resultar muito errado.
nota: 8,5

Gostosinha Demais

Charme
Liniker


Tenho um grande apreço por artistas que conseguem se divertir com o seu ofício ao lançar canções leves, descontraídas e despretensiosas. Charme, da Liniker, é um desses exemplos.

Conhecida pelo público devido à apresentação da cantora no Tiny Desk, a canção ganha uma versão de estúdio que capta a sua essência ao ser esse trabalho que não tem a vontade de ser algo grandioso ou profundo, mas, sim, um gostosinho exercício de leveza e divertimento. A batida contagiante de Charme é o seu grande atrativo, pois é impossível ficar impassível com a atmosfera construída, que mistura pop, R&B e boogie de maneira madura e divertida. Não é para elevar a sonoridade da artista e, sim, para fazê-la simplesmente se divertir e divertir o seu público, conduzindo a canção com um carisma solar e radiante. Liricamente, a canção é um trabalho restrito pelas escolhas poéticas que, porém, não atrapalham em nada, já que as escolhas combinam com toda a vibe da canção.

Charme é simples para a gente ficar mais encantado com a presença magnética da Liniker. E isso é o suficiente.
nota: 7,5

Garoto Simpático

Homewrecker
sombr

Boa parte das canções do sombr passa a vibe de ser algo que poderia ser ótimo, mas, ao ser legal, já é meio que o suficiente. É assim com a boa “Homewrecker”.

Capitalizando no sucesso do seu álbum de estreia, a canção é uma mistura redonda, classuda e mais interessante do que parece de indie pop, pop/yacht rock com elementos de tropical music, que assenta bem quando a gente entende as raízes das influências oitentistas da faixa. Com certeza, a canção está longe de ser um grande acerto, pois não tem aquele toque especial capaz de elevar o resultado final. Todavia, existe uma verdade criativa sincera por trás da produção que faz a gente ficar convencido. Talvez, com uma parte final mais grandiosa, “Homewrecker” pudesse funcionar bem melhor, pois a canção termina de maneira anticlimática. A boa composição, com destaque para o cativante refrão, e a performance sóbria e segura do sombr ajudam a arrematar os detalhes finais da canção.

Com esse bom caminho, é possível que o sombr continue arrematando a simpatia de parte do público. Veremos.
nota: 7,5

Bossa Mitski Nova

I’ll Change for You
Mitski

De tempos em tempos, algum artista que considero talentoso tem a capacidade de me surpreender com algo que eu nunca estaria esperando. E é esse o caso da Mitski ao lançar a sublime I’ll Change for You.

Segundo single do seu novo álbum, a canção é simplesmente uma refinadíssima bossa nova que é de cair o queixo devido à sua magistral produção. Respeitando ao máximo o gênero brasileiro, mas adicionando camadas de chamber pop, jazz pop e indie pop que incrementam a canção para levá-la a um outro lugar criativo que liga diretamente com a personalidade artística da cantora. Todavia, o toque de mestre nesse caldeirão é a pitada magistral de samba que arremata I’ll Change for You com chave de ouro.

Felizmente, porém, a canção não tem apenas essas qualidades, pois tudo é construído em uma pequena e complexa “estufa” de vidro para criar uma canção rara e apaixonante. A simples e contida, mas emocional, composição é uma crônica tocante sobre uma pessoa que tenta entender o fim de um romance ao mesmo tempo que tenta descobrir uma maneira de recuperá-lo. Delicada e pungente, a performance de Mitski é um trabalho que vibra nos nossos ouvidos e corações, pois tem uma mistura de melancolia, tristeza e esperança genuína.

E com esse resultado, que contrasta criativamente tanto com o primeiro single (Where's My Phone?), Mitski vai criando uma jornada completamente inesperada para o que promete ser um dos álbuns do ano.
nota: 8,5

You Better Work

Slight Werk (Club Mix)
Honey Dijon & Bree Runway


Uma das artistas eletrônicas mais importantes da atualidade é, sem dúvida nenhuma, a Honey Dijon. A prova cabal disso é a ótima Slight Werk (Club Mix), com a presença da Bree Runway.

Eletrizante, divertidíssima e contagiante, é uma hip house/tech house com toques pesados e reluzentes de vogue e ballroom. A canção não tenta imitar esses gêneros, mas, sim, é um trabalho que remete perfeitamente a eles devido ao conhecimento prático, teórico e, digamos, espiritual da produção da Honey. Além disso, o trabalho instrumental aplicado na canção é realmente inspirado, pois mostra uma intrincada rede de construção que poderia facilmente se restringir a algumas batidas soltas aqui e ali nas mãos de alguém menos talentoso.

O arremate da canção vem por conta da ótima e cativante performance da Bree Runway, que consegue entender toda a atmosfera da canção ao moldar sua presença para se encaixar nela sem perder personalidade.

E é de personalidade como a da Honey Dijon que a gente precisa ainda mais.
nota: 8

O Caminho Médio

Die For Me
ZAYN


É bastante curioso perceber o caminho que a carreira do Zayn tomou, especialmente em comparação à do Harry Styles. Dois talentosos cantores, mas fica claro que, para o primeiro, faltou trilhar um caminho mais experimental para ter feito a sua carreira explodir como a do segundo. Isso fica claro com o lançamento de Die For Me.

O single, primeiro do seu novo álbum intitulado Konnakol, não é ruim, mas é extremamente seguro e sem um pingo de excitação. Se ele tivesse lançado a canção assim que saiu do One Direction, não faria nenhuma diferença, pois o trabalho não mostra nada de amadurecimento em relação ao que ele mostrou nesse começo da carreira solo. Die For Me é uma power balada pop soul com um instrumental poderoso e grandioso, mas meio arrastado e sem graça. A gente sabe exatamente o que esperar do começo ao fim, tirando boa parte da graça da canção, que poderia ir muito além.

É preciso apontar, porém, que vocalmente Zayn entrega uma performance espetacular ao mostrar não apenas o seu imenso alcance, mas também versatilidade inspirada e uma emoção tangível. Todavia, todo o potencial de Zayn não faz a agulha girar para uma canção melhor, pois Die For Me nasce já sendo um trabalho pouco inspirado, que não está à altura do seu talento. Uma pena.
nota: 6

8 de fevereiro de 2026

O Céu de Loreen

Feels Like Heaven
Loreen

Com uma carreira intimamente ligada às suas duas vitórias no Eurovision, a Loreen ainda não havia encontrado uma canção capaz de mostrar todo o seu potencial fora desse contexto. Feels Like Heaven, no entanto, é exatamente essa música.

Sem se afastar radicalmente do território que a cantora já apresentou ao longo dos anos, o single de seu próximo álbum (WILDFIRE) é uma mistura épica, envolvente e madura de electropop, euro-trance e dark pop, que consegue fugir do lugar-comum no momento em que a produção acerta ao adicionar texturas e construir um instrumental robusto e poderoso. Na verdade, grande parte da qualidade de Feels Like Heaven vem justamente do fato de entregar um trabalho técnico primoroso, que praticamente apaga qualquer sensação de clichê ou de algo datado que a canção poderia carregar.

Outro fator determinante para um resultado tão acima da média é a presença vocal estupenda de Loreen, que entrega uma performance explosiva, emocional e deslumbrante. A forma como ela interpreta a letra é completamente única, deixando de lado aquela sensação recorrente de identificar de imediato uma canção escrita ou coescrita por Sia. Claro, depois de saber desse detalhe, é possível reconhecer a marca da autora de Chandelier na composição, mas trata-se de um trabalho competente e seguro, que não pende a balança nem para cima, nem para baixo.

Feels Like Heaven representa um novo ápice na carreira de Loreen, que pode ter em mãos um álbum realmente surpreendente.
nota: 8,5