17 de agosto de 2026

PinkRobinson

WannaCry
Ninajirachi & Porter Robinson


Nem sempre uma comparação é para mostrar os lados negativos de um objeto de estudo. Por exemplo, a canção WannaCry, parceria dos DJs Porter Robinson e Ninajirachi, soa como se fosse uma versão turbinada de uma canção da PinkPantheress.

A canção é uma excepcional electropop com electro house que mostra a sinergia dos dois envolvidos, especialmente devido a podermos notar as influências de cada um sendo bem exploradas e fundidas. Com um instrumental realmente impressionante, a canção ganha traços que facilmente poderiam ser de outros artistas que, nesse caso, é o da PinkPantheress. A batida até pode ser mais grandiosa que a que a cantora entrega normalmente, mas, sinceramente, WannaCry tem a mesma vibe atmosférica que a mixtape Fancy That, terminando como se fosse algo que a mesma pode alcançar no futuro.

Todavia, isso não tira em nada o brilho da produção dos DJs, já que é claro que a canção tem uma personalidade bem distinta devido à presença de ambos. E um desses motivos é que ambos cantam na canção. Claro, envolvidos em uma dose de efeitos vocais, Robinson (frequente aqui no blog) e Ninajirachi conseguem criar um vínculo entre os dois e com quem escuta de maneira natural, o que os diferencia de canções produzidas por atuais expoentes do eletrônico. Além disso, a intrigante composição é outro ponto de destaque, pois parte da visão de vírus de computador para falar sobre uma relação tóxica, e isso faz a gente entender que o real entendimento artístico dos dois é algo bem acima da média.

Quem sabe uma parceria de um dos dois com a PinkPantheress não resultaria em algo realmente genial? Sonhar não paga imposto.
nota: 8,5

Kelly Still Got It!

I'd Be Lyin'
Kelly Clarkson


Não tem como duvidar que, além de ser a maior vencedora de todos os tempos de um reality musical, a Kelly Clarkson é um dos maiores nomes do pop surgidos nos anos 2000. E, mesmo após tantos anos, a cantora ainda está em “forma” ao entregar uma canção tão boa como é o caso de I’d Be Lyin’.

Lembrando muito a sonoridade da cantora feita por volta de 2010, a canção é uma eficiente, empolgante e contagiante pop rock com toques de synth-pop e country pop. Não passa nem longe de ser algo novo, mas a produção entrega mais do que uma canção sólida, já que temos um cuidado extremo com a instrumentalização, que vai crescendo aos poucos até o seu final realmente grandioso. Entretanto, o grande destaque da canção é, como sempre, a presença magistral e magnética da Kelly. Com a sua qualidade vocal tão precisa, que domina qualquer canção com perfeição, e uma versatilidade pouco vista, a cantora adiciona boa parte da emoção e dá personalidade a I’d Be Lyin’.

Se fosse nos tempos de vacas gordas comercialmente da Kelly, o single seria facilmente topo das paradas. De qualquer forma, o resultado ainda deixa claro que a Kelly continua sendo uma grande artista.
nota: 8

14 de agosto de 2026

O Paraíso da Tinashe

Melatonin
Tinashe

Na história desse blog, sempre tive o maior apreço pelo talento da Tinashe, mesmo que a mesma não entregasse algo exatamente à sua altura. E é por isso que não há surpresa em concluir que Melatonin, novo single do seu próximo álbum, Popstar, é o melhor da sua carreira. Na verdade, a canção é a melhor do ano, sem concorrência nenhuma.

Apesar de esperar algo no mínimo acima da média, a qualidade entregue na canção é algo realmente inacreditável devido a todas as complexas camadas que são adicionadas, que em nenhum momento transformam a canção em algo de difícil assimilação. A produção é uma verdadeira aula de como conseguir incluir várias influências em apenas uma canção, que a faz parecer cerca de três ou quatro canções diferentes, mas consegue dar uma liga tão visceral e poderosa que, ao seu final, tudo parece fundido à perfeição.

Uma mistura inspiradíssima de hyperpop e dance-pop que vai sendo incrementada de EDM, ao mesmo tempo em que é uma refinadíssima construção techno, que é apurada com subgêneros como, por exemplo, Detroit techno e acid techno. E ainda tem toques de R&B e electroclash apenas para serem as cerejas em cima do bolo. Dessa maneira, Melatonin poderia facilmente se tornar algo completamente desjuntado e sem foco.

Felizmente, a produção segura o touro na “unha” criativa e entrega uma canção impressionante, fluida e coesa, apesar de algumas mudanças rítmicas importantes. E tudo isso é acompanhado pela performance extraordinária da Tinashe, especialmente quando a sua voz é alterada para entoar o genial refrão. A composição é icônica devido à sua apuração estética e, principalmente, à temática, que é basicamente um recado para todos que estão “dormindo” para a existência da Tinashe.

E assim a Tinashe encontra o seu merecido paraíso musical com uma canção que já nasce lendária.
nota: 9,5

A Nova Onda do Reizinho

She's the Best
Troye Sivan


O crescente na carreira do Troye Sivan fez com que o cantor se tornasse um dos artistas mais competentes do pop contemporâneo. Chegando ao quarto álbum, o cantor enfrenta uma nova fase da sua carreira em que é preciso mostrar evolução contínua e um amadurecimento crescente. Em She's the Best, primeiro single do álbum do mesmo nome, acredito que isso é alcançado de certa maneira.

A canção não é, definitivamente, a melhor da sua carreira, mas deixa bem claro que o mesmo está pronto para arriscar sonoramente. O single é interessante, ousado e tem aquela qualidade de crescer na gente aos poucos devido à produção que mistura indie/alt-pop, synth-pop, chillwave e trap pop em uma atmosfera construída de maneira a deixar certas arestas cirurgicamente ásperas para dar toda a textura que a canção precisa para funcionar. Bem longe dos trabalhos de maior deglutição do cantor, She's the Best funciona quando a gente percebe que existe possivelmente uma influência das produções do Pet Shop Boys misturada com o pop/eletrônico experimental dos anos noventa.

Funciona? Sim, mas é preciso realmente embarcar na proposta da canção, pois posso ver claramente parte do público não conseguindo ultrapassar a estranheza inicial. Outro motivo é a presença de Sivan, que decide seguir o caminho “spoken word” para entoar, deixando os momentos “cantados” para o refrão. Essa decisão, porém, é que dá a liga na canção para que a decisão sonora realmente funcione. Além disso, na parte final de She's the Best, vão sendo adicionados novos elementos vocais que dão mais sustentação e criam novas texturas bem-vindas. A composição é um trabalho bem feito que tem um apelo “cool” misturado com toques de temática queer e algumas passagens divertidas/cringes, mas que funciona devido à maneira como tudo à sua volta também funciona à base de estranheza.

She's the Best é um começo de uma nova era para o Troye Sivan, que pode ser o seu ápice ou um ponto fora da curva. Aguardemos.
nota: 8