8 de outubro de 2026

Salvando a Lavoura (Ou Quase Isso)

Different Religion (feat. Model/Actriz)
Miley Cyrus

Apesar de estar definitivamente na sua era flop, Miley ainda tem momentos de salvação da lavoura, ao menos em questão de qualidade. E o melhor desses momentos é em Different Religion.

Melhor canção em Bass Persuades, a canção é uma original, inquietante, interessante e áspera mistura de eletropop, industrial, dance e rock, em uma batida que fica lindamente no limite entre o comercial e o experimental. E isso deixa bem claro que a cantora tem as ferramentas necessárias para continuar a trilhar um caminho artístico realmente excitante, mas que parece ainda não ter encontrado um ponto de equilíbrio, como é o resultado da canção.

Dona de um instrumental inspirado, a grande qualidade de Different Religion está na ótima performance da Miley, assim como na presença cativante do vocalista da banda Model/Actriz, criando um sensacional contrabalanço entre a presença dos envolvidos, que dá mais profundidade para a canção. E a composição é instigante o suficiente para criar ainda mais personalidade para a canção, mesmo que corra o risco de soar como uma pretensiosidade vazia.

De qualquer maneira, a canção é o tipo de trabalho que vai ser valorizado ainda mais no futuro, quando as pessoas perceberem a pérola que ela é na realidade.
nota: 8

Mother Bree

BAGS OF YEN
Bree Runway

Ainda esperando a sua merecida chance de brilhar e ser reconhecida, a britânica Bree Runway continua a fazer o que é necessário ao entregar qualidade no single BAGS OF YEN.

Uma rápida, rasteira e eficiente pop rap/hip hop/Vogue que tem uma produção que até poderia ir mais longe, mas é inteligente o suficiente para não ficar enchendo linguiça quando poderia facilmente se tornar arrastada. Com uma batida divertida, a canção é, na verdade, um perfeito veículo para que Bree desfile a sua presença imponente, versátil e marcante em uma performance realmente poderosa, que sabe se “ajeitar” para qualquer caminho que a produção vai direcionando a canção sem perder, porém, a sua imensa personalidade.

Quem sabe o raio que caiu na carreira da Raye não venha a cair na carreira da Bree Runway?
nota: 8

O Mesmo Bruno

Dance With Me
Bruno Mars


Mesmo preso à sua própria cartilha sonora, Bruno Mars ainda consegue entregar boas canções como Dance With Me.

Single do álbum The Romantic, a canção é uma competente, comercial e chiclete balada pop soul/R&B que é o veículo perfeito para o “crooner” Bruno desfilar seus sedosos vocais e o seu carisma irrepreensível e gigantesco. Sonoramente, a canção tem toques de uma sonoridade vintage sem, porém, soar datada devido à produção elegante do artista ao lado de D'Mile. É um trabalho previsível e sem nada de novo? Completamente. Entretanto, funciona devido à maestria com que é conduzida e à sua grande qualidade técnica.

Espero que a próxima era do Bruninho possa ser algo que renove a sua sonoridade, pois o que estamos vendo ainda está bom, só que está com o prazo de validade se expirando.
nota: 7,5

7 de outubro de 2026

Primeira Impressão

Daughter from Hell
Gracie Abrams



A Garota Que Queria Ser

Look at My Life
Gracie Abrams


Incrivelmente, a Gracie Abrams tem algumas poucas canções boas saídas de Daughter from Hell. Todavia, Look at My Life termina mais como sendo um ponto totalmente fora da curva do que algo que tenha potencial de ser o futuro da artista.

A grande qualidade da canção, de verdade, é que a sua batida sai do lugar “comportado” e linear para ir sendo explorada e ficando cada vez mais grandiosa até o seu final de clímax controladamente grandioso. É algo que dá alguma personalidade, pois funciona como testado em canções de outras cantoras que, porém, fizeram de maneira mais interessante. Entretanto, não tem como não negar que o folk pop/alt-pop ganha vida para a composição clichê, mas segura, e para a performance linear e bonitinha da Gracie.

O que isso ajuda, no final das contas, é mostrar o quanto a produção prende a artista na cartilha Taylor de fazer música, pois qualquer coisa que dê uma escapadinha já é algo que melhora consideravelmente.
nota: 7,5

O Grande Futuro da Holly

Too Cute To Be Lonely
Holly Humberstone

Acredito que uma das minhas melhores descobertas pessoais em 2026 foi a Holly Humberstone. E, novamente, a cantora comprova a minha visão com o lançamento de Too Cute To Be Lonely.

Single da versão deluxe de Cruel World (Cruel World...So It Ends), a canção é, mais uma vez, uma pérola pop ao ser uma madura, graciosa e cativante synthpop/dance-pop, com forte influência dos anos oitenta e, também, de um pop contemporâneo. Todavia, a produção de Rob Milton e JT Daly consegue dar uma personalidade bem definida para a canção, criando uma barreira que impede comparações que poderiam facilmente passar por “acusações” de ser uma cópia ou de não ter personalidade. E boa parte dessa qualidade também vem da irônica, inteligente e luminosa composição, que vai mostrando a construção de uma persona tão distinta e especial para a Holly.

Acredito que o futuro de Holly Humberstone será algo para se acompanhar de perto devido ao imenso potencial que a artista demonstra claramente.
nota: 8,5

6 de outubro de 2026

Uma Balada de Respeito

I Won't Cry
Remi Wolf


A arte de fazer uma boa balada romântica meio que está perdida atualmente, infelizmente. Todavia, de tempos em tempos, surge uma canção que ocupa esse lugar com mérito. Esse é o caso de I Won't Cry, da Remi Wolf.

Single do seu próximo álbum (Mud), a canção é uma devastadora, melancólica, épica, poderosa e soft rock/pop rock que consegue manter a essência sonora da cantora e, ao mesmo tempo, nos contemplar com uma abordagem mais tradicional de uma canção balada. E isso é sensacional, pois estamos diante de um trabalho realmente acachapante em todos os sentidos, partindo do espetacular instrumental até a sua emocional, crua e cortante composição.

Em I Won't Cry, Remi entrega uma composição que é, basicamente, sobre implorar para ser amada quando quem se ama decide seguir em frente sem olhar para o que foi deixado para trás. Um trabalho que poderia partir para um sentimentalismo piegas, mas que, felizmente, é salvo por uma letra honesta, verdadeira e que tem uma inteligência de construção exemplar ao ser simples e, ao mesmo tempo, explorar sentimentos complexos. E o ponto alto está no ótimo refrão: “Pull me from the shelf and dust me off/Shower me with selfish love/Play me like you want me back around again”. A canção é ainda contemplada por uma performance realmente inspirada e magistral de Remi, que imprime toda a força emocional sem pesar vocalmente ou deixar a desejar.

Uma canção de respeito que faz jus ao talento da artista e ao título de balada, com louvor.
nota: 8,5

Too Cool For Oscar

On Video
Phoebe Bridgers


Em uma corrida para o Oscar de Melhor Canção que pode fazer história, eis que surge uma azarona: Phoebe Bridgers. A canção que pode fazê-la chegar para disputar uma estatueta é a interessante On Video.

Tema do filme Primetime, em que a cantora faz o debut como atriz, a canção tem toda a atmosfera que pode até conseguir chegar a ter uma indicação, mas é tão descolada que nunca terá chance de vencer. E, sinceramente, isso é uma pena, pois o trabalho é um pungente, distinto e inspirado indie rock/post-punk que consegue captar toda a atmosfera do filme e, ao mesmo tempo, ter plenamente todas as qualidades da persona da artista.

Sombria e cortante, On Video não é sonoramente algo genial, especialmente comparando com outros trabalhos de Phoebe, mas é tão distinta e perfeita para ser o tema de um filme tão peculiar como é Primetime. Além disso, a excepcional composição é um trabalho de uma inteligência grandíssima ao se conectar com o filme de maneira nada clichê e totalmente original, o que faz a sua mensagem ainda mais poderosa. E essa também é a percepção sobre a grandiosa performance da Phoebe, que entrega uma emoção sóbria e desconcertante.

Acredito que, caso consiga, a indicação vai ser a vitória, mas quem sabe não exista um milagre aí no caminho?
nota: 8