8 de março de 2026

Primeira Impressão

Kiss All The Time. Disco, Occasionally.
Harry Styles


A Estética Versus Coteúdo

American Girls
Harry Styles


Segundo single de Kiss All the Time. Disco, Occasionally, American Girls é a representação ideal das qualidades e dos defeitos da sonoridade do Harry Styles.

A produção acerta ao entregar uma animada, mas relativamente contida e atmosférica mistura de alt-pop, soft rock e dance-pop, que tem um instrumental realmente cativante e maduro. Não é exatamente um trabalho brilhante, mas é fácil notar que claramente mostra evolução sonora do Harry ao mesmo tempo em que adiciona novas camadas.

Todavia, American Girls erra novamente no calcanhar de Aquiles do cantor ao ter uma bem-feita, mas vazia composição que parece querer dizer várias coisas que não chegam a ressoar de verdade e, no final, termina sendo uma casca lírica divertida e esquecível. Felizmente, a boa performance de Harry, que capta o espírito da canção, ajuda a aparar algumas pontas soltas.

Uma canção que poderia ser bem mais interessante, mas que termina pelo menos sendo acima da média.
nota: 7,5

Novas Camadas

I Had A Dream She Took My Hand
James Blake

Sempre considero algo auspicioso quando um artista consegue adicionar novas camadas à sua sonoridade sem perder nada da essência. Esse é o caso da espetacular I Had A Dream She Took My Hand, de James Blake.

Segundo single do álbum Trying Times, a canção tem toda a atmosfera de um trabalho do artista, mas é moldada de uma forma que quebra expectativas. E a principal razão é a utilização do sample de It Was Only A Dream, da banda Thee Sinseers, que dá à canção uma base big band/jazz vintage que permeia toda a sua construção, mesclando-se e fundindo-se com a estrutura art pop/R&B alternativo da sonoridade de James. Com uma produção refinadíssima, I Had A Dream She Took My Hand se torna um trabalho elegante, tocante e inspiradíssimo, que vai se desenrolando em uma das canções mais magnéticas e emocionais da carreira de James Blake.

A canção, porém, perderia força se não tivesse aliado à sua produção outros elementos que a fizessem realmente se sobressair. E tudo está intimamente ligado à performance sensacional do cantor que, ao retirar certos efeitos vocais, deixa seu belíssimo timbre brilhar de forma mais natural em uma interpretação realmente impactante, desde o seu começo mais contido e delicado até o clímax mais complexo e poderoso. Além disso, a composição é simples, mas eficiente ao relatar, de maneira sensível, o ato de se apaixonar pela primeira vez: “I had a dream she took my hand / I feel higher than storms, lighter than sand”.

Somando-se a esse resultado o de Death of Love, fica claro que James Blake tem a possibilidade de entregar um dos álbuns do ano.
nota: 8,5

A New Age Of Bebe

New Religion
Bebe Rexha & Faithless


Não esperava que a nova era da Bebe Rexha pudesse ser de verdade o seu triunfal momento de renascimento, mas com New Religion começo realmente a acreditar que isso seja verdade.

Primeiro single oficial de Dirty Blonde, a canção é um trabalho curioso ao ser um “remake” da canção Insomnia, da banda Faithless, sendo algo parecido com o que foi feito em Wild Thoughts. E a grande surpresa é que funciona muito melhor do que o imaginado. Pegando parte da construção da parte final da canção original, New Religion é uma excitante, elegante e eficiente progressive house com dance-pop e diva house que dá certo devido à produção competente e madura, que cria uma canção que funciona sabendo a gente ou não da sua origem. E, mais que isso, há o fato de a produção saber como usar os clichês do gênero de uma maneira inteligente, não duvidando da inteligência de quem escuta.

Outro ponto de destaque é a composição realmente inspirada de New Religion, ao ser um trabalho que tem profundidade temática ao falar sobre alguém se encontrar finalmente na vida. Entretanto, a estética da canção está bem de acordo com os maneirismos do gênero, com frases de efeito que ficam entre o pieguismo e o dramático, mas claramente bem pensadas para exalar de propósito esse estilo. Fechando como a cereja do bolo, está a ótima performance da Bebe, que encontra aqui um dos melhores veículos para demonstrar sua capacidade vocal.

Resumidamente: esse é o novo começo de era para a Bebe Rexha.
nota: 8

New Faces Apresenta: Tiffany Day

START OVER
Tiffany Day


Em um mundo pós-Brat, a possibilidade de ouvir um hyperpop que tenha “inspiração” na Charli XCX é bem alta. Todavia, é refrescante quando nos deparamos com casos em que isso não acontece, como na ótima START OVER, da novata Tiffany Day.

A canção tem como grande qualidade a sua caprichada, autêntica e madura produção, que guia essa mistura de hyperpop e electropop por lugares sonoramente conhecidos, mas que nunca parecem cópias e/ou influências diretas. É uma produção que conhece suas inspirações, criando uma canção que entende muito bem as dinâmicas sonoras e adiciona texturas ao longo de toda a faixa.

Gosto especialmente do seu clímax final, pois consegue adicionar novas nuances sem perder o que foi construído ao longo da canção. Preciso apontar, porém, que tenho certo problema com a batida do sintetizador, que em alguns momentos se sobressai demais em relação ao resto do instrumental, criando certo ruído ao final de START OVER.

Vocalmente, a canção não dá muito espaço para entendermos qual é a real capacidade da Tiffany, mas, felizmente, a cantora entrega uma performance encantadora, sólida e que sabe muito bem usar efeitos vocais para ajudar a incrementar o resultado final. Também é preciso dizer que a composição tem ótimos traços, que são auspiciosos, pois mostram profundidade e, ao mesmo tempo, demonstram um bom senso estético. Não é um trabalho exatamente genial, mas START OVER é o tipo de canção que pode fazer diferença na carreira de Tiffany Day.
nota: 8

Sem Salvação

Save Me Tonight
Jennifer Lopez & David Guetta


Não que eu estivesse esperando uma canção memorável da parceria entre Jennifer Lopez e David Guetta, mas Save Me Tonight é o tipo de trabalho que podemos apontar apenas como totalmente esquecível.

Não chega a ser uma bomba, pois, tecnicamente, é uma produção decente. Todavia, a produção careceu de uma dose cavalar de criatividade, pois entrega exatamente o que se espera — e de forma ainda menos inspirada — de uma mistura de europop com electropop e EDM. Dá até para se divertir às três da manhã quando começar a tocar na balada, mas Save Me Tonight é um trabalho que não tem a menor vontade de ser mais do que realmente é: uma farofada bem morna.

Isso é agravado pela composição mediana, que poderia facilmente ter sido feita por IA, devido à falta de qualquer toque que não seja mecânico e massificado. O ponto positivo da canção é a performance segura da J.Lo que, sinceramente, merecia algo bem mais interessante do que essa farofada sem gosto.
nota: 5,5

1 de março de 2026

Primeira Impressão

The Romantic
Bruno Mars



Nada Arriscado

Risk It All
Bruno Mars

Lançado como segundo single de The Romantic, Risk It All realmente não tem nada de arriscado, mesmo trazendo algumas surpresas. Felizmente, o trabalho ainda carrega o selo de qualidade de Bruno Mars.

A grande sacada dessa balada é a adição de influências latinas, especialmente — e deliciosamente — a inclusão do bolero na mistura da segura base de R&B/soul. E isso dá todo o tempero necessário para a canção se tornar realmente um trabalho diferenciado sem, porém, perder a essência básica do artista.

Todavia, o grande destaque de Risk It All é a inspiradíssima performance de Bruno, que não apenas domina a canção primorosamente, mas também nos faz lembrar do quanto o seu timbre é lindo e aveludado quando ele o deixa se expor dessa maneira. A primeira parte da canção, em especial, em que a sua voz é colocada em evidência, é realmente deslumbrante.

Sem correr riscos, Bruno garante mais um momento verdadeiramente inspirado para a sua carreira.
nota: 7,5