29 de março de 2026

A Mais Fraca

Automatic
Jessie Ware


Se todas as canções mais “fracas” de um artista fossem como Automatic, da Jessie Ware, o mundo com certeza seria um lugar bem melhor.

Terceiro single de Superbloom, a canção é a menos inspirada até agora e, mesmo assim, é um trabalho realmente interessante e gracioso. Acredito que o fato de ter menos de três minutos seja um dos fatores que fazem a canção parecer menor do que o esperado, pois parece que fica faltando tempo para trabalhar melhor a deliciosa produção pop soul com boogie e toques de funk, que dá outra faceta à nova era da cantora. Ter esticado mais o aprofundamento dessa sonoridade daria ainda mais força à canção, já que poderíamos ouvir mais do excepcional instrumental.

Todavia, Automatic é um trabalho que emana a essência da cantora devido a essa produção, que capta perfeitamente toda uma aura vintage sem soar datada, pretensiosa ou baseada em uma nostalgia barata. É fino, elegante e sincero, com um toque delicioso que mistura sensualidade com romance — algo que apenas alguém como Jessie é capaz de entregar. Outro ponto alto é a rápida, mas deliciosa, participação do ator Colman Domingo, com um voiceover que abre a canção e adiciona ainda mais personalidade. E isso tudo porque Automatic nem está no mesmo nível que as canções anteriores. Imagine se estivesse.
nota: 8

Uma Para os Gay Emocionados

The Best
Conan Gray


É ainda um pouco desconcertante para uma pessoa como eu, que tenho alguns anos a mais nas costas que as novas gerações de pessoas queers, que possam, apesar de todos os desafios que ainda enfrentamos, ter artistas queers que fazem da sua arte escapes para os seus sentimentos e que encontrem pessoas que os entendem perfeitamente. Em The Best, o Conan Gray entrega um desses momentos que não teríamos a chance de ouvir alguns anos atrás com tanta facilidade no mainstream.

Single da versão deluxe de Wishbone, a canção é uma power balada pop rock/indie pop que casa perfeitamente com a atmosfera do álbum, mostrando a capacidade de Conan de uma maneira tão clara como o dia. E isso não é novidade, pois o artista vem amadurecendo a olhos vistos e entrega aqui uma das suas canções mais refinadas até o momento. Um dos motivos para isso é a sua ótima composição, que se deixa ser sentimental, emocional e dolorida ao contar sobre o final de um relacionamento que não deu exatamente certo do ponto de vista de uma pessoa queer.

A letra, porém, poderia ser facilmente cantada por um artista de outra sexualidade e/ou gênero, que teria a mesma carga de sentimentos, mas ganha novo significado aqui por poder finalmente ter um ponto de vista que não seria possível anos atrás. E isso é tão importante quanto a mesma falar claramente sobre um romance queer, pois dá vazão a sentimentos que, no final das contas, são iguais para todos. Outro grande momento é a performance de Conan, que carrega a canção de maneira segura e com uma interpretação tocante. E isso é algo que faz de The Best uma canção até mais importante do que a gente espera.
nota: 8

Enfim, Um Comeback?

Don't Make Me Love U
Lizzo


Depois de ensaiar um comeback que não deu certo artisticamente ou comercialmente, a Lizzo prepara um novo retorno com o lançamento de Don't Make Me Love U. E tenho que admitir que é bem mais promissor do que eu esperava.

Não acho que a fase de “flop” da cantora irá passar tão cedo, mas o single é realmente um trabalho ótimo, especialmente devido às decisões acertadas da produção. A maior delas é o uso inteligente e criativo de duas interpolações de canções lendárias: The Best, da Tina Turner, e Livin' on a Prayer, do Bon Jovi. As melodias dessas duas músicas ajudam a construir Don't Make Me Love U, dando claramente à faixa — que mistura dance-pop, synth-pop e pop soul — cara, coração e alma dos anos oitenta. E é uma influência que não parece forçada ou baseada em uma nostalgia barata, devido, principalmente, à inteligência da produção em não deixar a canção ser engolida pelos samples, mas, sim, em utilizá-los apenas como base para uma construção independente.

Isso fica claro quando a gente escuta pela primeira vez sem saber dessa escolha criativa, pois dá a sensação de ser apenas uma canção inspirada na estética oitentista, e não fortemente dependente dela. E, quando percebemos, tudo passa a fazer total sentido, criando uma dinâmica bem interessante. Outro grande ponto positivo é a performance sensacional da Lizzo, que entende perfeitamente o estilo da canção e entrega uma carga emocional poderosa, além de um desempenho vocal admirável.

O ponto fraco de Don't Make Me Love U é a composição formulaica sobre dar um ultimato em um relacionamento “ioiô”, mas isso não atrapalha o resultado final a ponto de tornar a canção menor do que realmente é.

Pode não ser a salvação da carreira da Lizzo, mas a faixa é uma amostra de que ela ainda tem muito a mostrar.
nota: 8

ArloPantheress

Get Go
Arlo Parks


A “PinkPanthererização” de Arlo Parks deveria, na teoria, não funcionar — mas, na prática, está saindo bem melhor do que o esperado. E isso fica claro em Get Go.

Single de seu próximo álbum, Ambiguous Desire, a canção remete fortemente à estética de PinkPantheress, especialmente pela construção estilizada que mistura alt-pop com gêneros como drum and bass e UK garage, tudo emoldurado por um verniz contido e bastante radiofônico. Ainda assim, a produção consegue “limpar” os elementos que fariam a faixa soar como uma simples cópia, criando algo com a personalidade de Arlo — principalmente ao adicionar mais dramaticidade e toques que remetem à sonoridade do início de sua carreira.

No entanto, o que realmente faz Get Go funcionar é a lírica única da artista. Há uma criatividade genuína que combina simplicidade cativante com uma emoção direta e tocante. Na canção, Arlo narra as dores de curar um coração partido ao reencontrar uma ex e tentar manter algum tipo de amizade. Com uma honestidade delicada, mas pungente, ela consegue expressar sentimentos complexos sem recorrer a grandes floreios líricos. E esse é justamente um dos seus diferenciais: transformar sutileza em impacto, fazendo de Get Go um trabalho que carrega sua identidade, mesmo dialogando com outras sonoridades.
nota: 7,5

22 de março de 2026

Antes Tarde do Que Nunca

B'Day
Beyoncé



Uma Segunda Chance Para: Beautiful Liar

Beautiful Liar
Beyoncé & Shakira


Para marcar o lançamento da versão Deluxe de B’Day, a Beyoncé resolveu lançar como single a canção Beautiful Liar, que marcou a sua primeira grande parceria feminina com a presença da Shakira. Na época, a canção não bateu tão forte em mim, mas, surpreendentemente, envelheceu melhor do que o esperado.

Não dá para negar que o encontro de duas forças é o grande atrativo da canção e que isso é feito da melhor maneira possível, ao dividir quase que por igual a participação de cada uma. Isso dá uma dinâmica incrível à faixa, que se apropria bem do carisma de ambas, sem que nenhuma perca espaço, criando uma boa química entre as duas. Existe, claro, certa fricção devido a personalidades tão marcantes, mas Beautiful Liar se beneficia disso ao gerar uma identidade realmente interessante. O problema aqui é a mixagem da voz da Shakira em algumas partes que, aliada ao seu sotaque, deixa meio difícil entender o que ela canta quando não se conhece a composição. Não é um problema imenso, mas é algo que afeta o resultado final.

Beautiful Liar é sustentada pela produção, que entrega uma eficiente mistura de latin pop, dance-pop e toques de música árabe, sendo ao mesmo tempo altamente comercial e também um tanto clichê. Apesar disso, o trabalho é refinado devido ao cuidado estético aplicado à canção, que consegue criar um instrumental seguro criativamente e com os toques necessários para ser icônico. E assim a composição caminha, mas aqui existe um toque que considero de genialidade ao ser basicamente o mesmo de The Boy Is Mine, da Brandy e Monica, vindo do ponto de vista de duas mulheres maduras que conseguem acertar as contas depois de descobrirem que estavam “saindo” com o mesmo homem.

Com o passar dos anos, Beautiful Liar melhora ao permanecer na memória como uma surpresa inesperada. E também serve como lembrete de que duetos como esse estão cada vez mais raros.
nota: 8

Primeira Impressão

Nothing's About to Happen to Me
Mitski



Primeira Impressão

Cerulean
Danny L Harle