19 de outubro de 2026

O Futuro

Hot & talking
Say Now

Enquanto algumas continuam na trilha da mediocridade, o Say Now continua a mostrar que realmente é uma promessa a ser levada a sério. E é isso que a ótima “Hot & Talking” mostra.

Novamente, a canção tem as mãos da PinkPantheress por trás, que empresta um pouco da sua personalidade artística para que o trio comece a encontrar a sua própria. Isso cria uma divertidíssima e vibrante fusão de electroclash com R&B que não é original, mas é um trabalho com uma aura completamente própria e, principalmente, excitante. É pop na medida certa e, ao mesmo tempo, tem traços de experimentalismo aqui e ali, que dão ao resultado final a sensação de que estamos diante apenas do começo da exploração e do refinamento da sonoridade do Say Now.

Além da qualidade da produção, “Hot & Talking” é um trabalho surpreendente de composição ao ser uma irônica, inteligente e refinada “crônica” sobre os boy lixos que ficam incomodando mulheres quando elas claramente não estão a fim: “Your heart and soul, so mystical / Never been told, ‘No’ before”. Sem precisar exatamente “pesar o clima”, mas também acertando no ponto da crítica e da reflexão sem perder nada do senso pop lírico. Além disso, as três integrantes, Ysabelle, Amelia e Madeleine, entregam ótimas performances, especialmente quando a canção deixa cada uma ter espaço suficiente para mostrar sua personalidade individual.

Dessa maneira, o Say Now já tem um dos portfólios mais fortes de uma girl band em 2026.
nota: 8

Um Respiro

Unloveu
KATSEYE


Continuando o “desafio” de ser a girl band de maior sucesso sem ter uma canção realmente boa, o KATSEYE lançou a mediana Unloveu.

Parte do EP WILD, mas que só tinha sido lançada na versão física, a canção é bem melhor do que todas as outras juntas e, sinceramente, daria até certa esperança para a girl band. Todavia, a canção perde a oportunidade de fazer algo bem mais marcante do que essa balada mid-tempo pop, que não explora nada do que uma boa balada pode oferecer, ficando literalmente no meio do caminho entre o “inteligentona” e o tradicional. Faltou criatividade para entregar algo que pudesse ser realmente interessante e não uma pálida cópia do que o The Pussycat Dolls fazia bem melhor.

Além disso, a composição não é ruim, mas é boba e fraca ao não usar seus lugares-comuns e clichês de maneira a extrair uma emoção mais sentida e real, que pudesse criar uma conexão melhor com quem ouve. O que segura “Unloveu” até certo ponto é a presença das integrantes, que deixa claro, novamente, que elas têm “gogo” suficiente para segurar qualquer canção, mas continuam sendo subaproveitadas. Felizmente, aqui elas têm algo mais concreto em que podem se mostrar.

Em algum momento, espero que os anjos digam amém e o KATSEYE tenha, ao menos, uma canção boa nas mãos. Por enquanto, elas seguem sem derrotas ao lançarem apenas canções não boas.
nota: 6,5

16 de outubro de 2026

Primeira Impressão

She's the Best
Troye Sivan



Resistência Pela Sacanagem

Exorcismo
Katy da Voz e as abusadas


Em uma época como a que vivemos, é preciso, a todo custo e de todas as maneiras, ser resistência. Nem que seja pela putaria, mas uma putaria de respeito. Esse é o caso do sensacional Exorcismo, de Katy da Voz e as Abusadas.

Agora como um duo, formado por Katy da Voz e Palladino Proibida após a saída de Degoncé Rabetão, o grupo entrega uma das melhores canções brasileiras do ano: uma mistura escalafobética, gigantesca, ousada, poderosa, inteligente e de personalidade incontestável de eletrônico, dark pop, techno, funk e vogue, sem saídas fáceis ou meias-palavras, que chega como uma verdadeira pancada sonora. E, queridos leitores, é uma pancada que fica na nossa cabeça e não sai mais, pois a produção não tem medo de ir além do esperado para transformar a batida em algo tão espetacular que parece o filho bastardo e sombrio da Arca, que fez um remix de WAP com Thriller, apadrinhado em um baile funk/Ballroom proibidão.

Sonoramente, a canção é um assombro, mostrando como a produção foi capaz de criar tantas texturas sem perder o rumo em nenhum momento, mas também sem entregar um trabalho “limpo”, já que é justamente a sua aspereza que dá o tempero especial. Exorcismo, porém, também vai sendo construída pelas performances espetaculares das integrantes do duo, que abraçam e carregam toda a magnitude da canção de uma forma tão esplendorosa e sem nenhum tipo de amarra que fazem a faixa ganhar ainda mais força criativa. Isso fica especialmente evidente nas mudanças vocais e de performance, que dão o dinamismo necessário para sustentar mais de quatro minutos e meio de duração.

O que dá ainda mais impacto à produção é a composição vulgar, explícita e genial, que fala sobre sexo, mas também aborda, nas entrelinhas, a hipocrisia da relação da sociedade e da religião com aqueles que escolhem viver livremente, sem medo das repercussões que isso possa trazer. E tudo isso fica genialmente sintetizado no refrão: “Chame um exorcista, antes que anoiteça/ Ele chega, faz a reza e me tira de maluca/Daí eu entendi, exorcismo dе puta, Deus não escuta”.

Uma canção que mostra que, independentemente do que aconteça, a força da resistência sempre vai existir das mais diversas formas possíveis. E é isso que ainda nos dá esperança para seguir em frente.
nota: 9

Expectativas Cumpridas

expectations
Olivia Rodrigo & Chappell Roan


O que esperar de uma música que tenha Olivia Rodrigo e Chappell Roan? Uma boa canção seria o mínimo, certo? Então, é exatamente isso que acontece no remix de expectations.

Claro, ajuda e muito o fato de a canção original já ser boa, mas, como já sabemos, o encontro de dois grandes talentos em um remix nem sempre é garantia de um bom resultado. Felizmente, o remix mantém intacta a qualidade da canção e adiciona um novo charme com a presença de Roan, que acrescenta novos versos que se fundem muito bem com o restante da composição e, também, dão sua personalidade à faixa. E isso é meio raro de acontecer em remixes desse tipo, pois parece que os artistas convidados nem sempre conseguem se encaixar de verdade na canção.

Além disso, a escolha da música para o remix foi ideal, já que expectations parece ser uma canção que poderia ser de qualquer uma das duas artistas. E isso se dá devido à produção de Dan Nigro, colaborador de ambas as cantoras, que cria um vínculo sonoro nítido e realmente fluido. A produção entrega, então, um synth-pop/new wave animado, grudento, gracioso e despretensioso, com toques de pop punk, que funciona de maneira azeitada e cativante graças a uma atmosfera descontraída e atemporal. Já a composição, suculentamente ácida e brincalhona, facilita a união das estéticas de Olivia e Chappell por compartilhar pontos essenciais de suas personas artísticas.

Fico realmente contente quando minhas expectativas são atendidas de maneira tão satisfatória.
nota: 8

Gimme More! Much More!

Housewife
Tate McRae


E eis que voltamos para um novo ciclo de tentar entender, de fato, todo o hype em torno de Tate McRae. O novo single, Housewife, não ajuda muito nessa missão.

Longe de ser ruim, a canção carece do principal para realmente funcionar: presença. E isso é algo que falta à jovem, cuja voz soa pasteurizada e sem personalidade, pois fica fácil notar que ela não consegue carregar uma canção de verdade ao entregar uma performance atolada em efeitos vocais e sem qualquer traço de vida. O seu papel até é cumprido se isolarmos sua presença, mas, quando a somamos ao resto, fica claro o quanto ela é inferior.

E a maior discrepância está na boa composição. Housewife é uma reflexão satírica, irônica, divertida e bem construída sobre o peso da fama e, ao mesmo tempo, tenta criar uma persona capaz de responder às polêmicas e à visão que parte do público tem de Tate. Funcionaria se ela tivesse a persona, a bagagem e o talento necessários para carregar uma canção com essa mensagem, como, por exemplo, Britney Spears fez na era Gimme More/Piece of Me. Na verdade, a canção seria um bom retorno para Britney, pois teria o caimento perfeito para ela, que poderia sustentar a intenção criativa por trás desse dance-pop/alt-pop redondinho e com uma boa execução.

Uma pena que Tate não tenha muito mais a oferecer, mesmo quando tem em mãos uma canção com potencial.
nota: 6

15 de outubro de 2026

Um Presente do Passado

She'll Never Be Me
Britney Spears


Como parte do lançamento comemorativo dos 25 anos de Britney, terceiro álbum da cantora, foi lançada a inédita She'll Never Be Me.

Gravada na época e coescrita com o então namorado Justin Timberlake, a canção é basicamente um fruto de seu tempo, que se encaixa perfeitamente na estética sonora do álbum. Não é exatamente um trabalho sensacional, mas mostra o quanto o disco é divertido e redondinho ao entregar um electropop/teen pop efervescente, dançante e viciante que, claramente, tem cara de filler e, por isso, ficou de fora do tracklist final.

Todavia, a canção é um bom lembrete de como o pop verdadeiro pode ser inspirado quando feito de maneira tão direta. A faixa ainda conta com uma ótima performance de Britney, que estava no auge de seu carisma e esbanjava personalidade. Um pequeno regalo para quem sente saudade dessa época.
nota: 7,5


É Dia De Rock, Babê!

i think he's got a girl
Slayyyter

Não há como duvidar de que um dos nomes mais importantes de 2026 é Slayyyter. E a cantora continua a provar que está no topo ao lançar a ótima i think he's got a girl.

Single mais distinto que a artista lançou nesta era, mas que conversa diretamente com a sua sonoridade, a canção deixa um pouco de lado o eletrônico para entregar um pop rock/rock alternativo mais tradicional, em uma produção madura que consegue manter intacta a personalidade da artista. Isso acontece porque ela sempre demonstra que sua sonoridade tem fortes traços de rock, fazendo da canção um trabalho completamente natural e coeso. Além disso, a produção entrega uma batida que não é genial ou inovadora, mas, felizmente, é muito bem estruturada, viciante e conta com um trabalho instrumental na medida.

Entretanto, o que faz i think he's got a girl realmente funcionar é sua força emocional, começando pela performance exemplar e emotiva de Slayyyter. Não espere, porém, nada piegas, mas, sim, uma performance que entrega emoção genuína no momento em que a cantora incorpora com classe sua versão roqueira. O outro ponto é a composição que, novamente, reflete sobre o fim de um relacionamento, com uma letra de honestidade cortante e um senso criativo muito bem delimitado. Talvez um segundo verso mais trabalhado desse ainda mais força à canção, mas esse é um ponto que não afeta o resultado final de maneira nenhuma.

E, dessa maneira, Slayyyter conquista seu devido espaço, faltando apenas o grande “boom” no mainstream.
nota: 8,5