30 de junho de 2026

A Volta de Uma Querida

On Wires
Carly Rae Jepsen


Depois de um hiato de três anos, a Carly Rae Jepsen está de volta para reclamar o seu devido posto como uma das mais aclamadas artistas pop da sua geração. E o começo dessa nova era é com a interessante On Wires.

Possivelmente uma das canções mais “diferentes” lançadas pela cantora, especialmente como primeiro single, o trabalho pode causar estranheza para aqueles que esperavam uma sonoridade pop mais direta e digestível. Todavia, passando por esse primeiro impacto, On Wires é uma madura, elegante, sensual e inteligente fusão de pop rock com neo-psychedelia que tem um dos instrumentais mais robustos da carreira da cantora, em que a gente não parece nunca saber aonde vai ser levado. E isso ajuda a canção a ganhar uma vibe de estarmos possivelmente vendo uma nova evolução da Carly ou, ao menos, uma experimentação em novos territórios.

Como explicado anteriormente, a canção pode demorar um pouquinho a ser captada quando a gente a escuta pela primeira vez. E isso reflete especialmente no refrão, que não parece ser tão eficiente como a gente deseja. Entretanto, depois de um tempo, a gente vai se acostumando com a proposta de On Wires e vai valorizando mais a mudança sonora do refrão, que cria um contraste bem-vindo com o resto da canção, principalmente na performance da Carly. Dona de uma voz sempre delicada e melódica, a cantora mostra perfeitamente que é capaz de se adequar a outros estilos com bastante facilidade, entregando uma performance poderosa dentro da sua personalidade. E isso é uma qualidade bem rara de se ver atualmente.

On Wires é outro acerto da Carly Rae Jepsen que vai abrindo espaço para o que deve ser outra era de sucesso artístico retumbante.
nota: 8

Salvação?

Watch It Burn
Katy Perry


Tentando desesperadamente sair do fundo do poço, a Katy Perry aposta em Watch It Burn. Artisticamente, a canção é melhor que todo o desastre que foi 143 multiplicado por 10. Comercialmente, o resultado é outro desastre.

Apesar de não ter nada de novo, a canção é uma decente e até legal fusão de pop rock com electropop que até chega a empolgar, se a gente não estiver esperando muito mais do que a canção realmente entrega. A produção não acrescenta nada de excitante na batida, mas entrega um sólido trabalho que dá para a Katy algo que a mesma pode trabalhar bem em uma performance realmente muito boa, que mostra força emocional para ir de encontro com a composição. Watch It Burn poderia realmente ser melhor se tivesse uma composição melhor trabalhada, pois, mesmo com uma temática interessante, a letra meio que passa despercebida devido à sua escrita genérica e ao refrão apenas mediano.

Não é a salvação da Katy Perry, mas é uma boia para ajudar a mesma a boiar por um tempo.
nota: 6,5

25 de junho de 2026

Um Ponto Positivo

ICONIC BY MISTAKE
LE SSERAFIM, ILLIT & KATSEYE


Existem canções que têm vários pontos positivos e existem canções que têm apenas um. ICONIC BY MISTAKE é o perfeito caso dessa segunda opção.

Parceria entre três girl groups de K-pop, sendo LE SSERAFIM, ILLIT e KATSEYE, a canção tem como sua melhor qualidade o fato de que praticamente todas as integrantes têm momentos de destaque, criando uma ótima dinâmica de vozes e estilos diferentes. Todavia, isso não é aproveitado em uma das canções mais enganosas possíveis, pois a gente espera que a batida pop rap/trap/alt pop/synth-pop vá crescendo depois de um começo até legal, mas isso não acontece porque a produção decidiu manter todo o instrumental o mais linear possível, sem ter momentos de mudanças rítmicas que deveriam levar a canção para um final realmente explosivo.

ICONIC BY MISTAKE, porém, é jogada às traças de fato devido à sua péssima, sem criatividade e pobre composição, que tenta ser “icônica”, mas acaba sendo um amontoado de vergonhas alheias.

Pelo menos, a canção tem algo de bom, pois, se não, seria só tragédia.
nota: 5,5

2 Por 1 - Kelela

point blank
linknb
Kelela

Novamente, a Kelela vai demonstrando, com o lançamento dos singles do seu próximo projeto, que vai ter em mãos um dos melhores álbuns do ano. E isso não tem discussão com o resultado de linknb e, especialmente, point blank.

Ambas as canções deixam bem claro que a vibe de New Avatar é adicionar uma carga pesada de rock e adjacentes à sonoridade da cantora, criando uma nova e excitante versão da sua já espetacular identidade sonora. Das duas canções, linknb é a menos inspirada, pois, infelizmente, com um pouco menos de dois minutos, não dá tempo suficiente para que a canção realmente ganhe toda a força que poderia ter.

Felizmente, a produção excepcional consegue entregar uma pequena pérola ao construir uma refinada mistura de neo-psychedelia com rock alternativo, salpicada de jersey club e trip hop em um instrumental poderoso, mesmo que bastante breve. Todavia, é em point blank que podemos ouvir toda a engenhosidade criativa da artista em ação.

Complexa, engenhosa, experimental, emocional e poderosa, a canção reúne todas essas qualidades e algumas outras ao explorar perfeitamente as possibilidades criadas pela fusão de gêneros como east coast club, UK bass, eletrônico e rock industrial. O instrumental é um trabalho impressionante, pois é completamente rico em nuances, camadas e quebras, que vão sendo intercaladas de maneira inteligente para terminarem em um amálgama impressionante e revigorante.

Só que o que dá a point blank o toque de genialidade é a sua impressionante composição, que acerta com um soco no estômago ao ser uma crônica desconcertante sobre se sentir emocionalmente deixada de lado por quem se ama e, finalmente, começar a cobrar uma mudança. É um trabalho lírico emocional sem ser piegas, inteligente sem ser pretensioso e de um apuro estético cativante e magistral que combina com a canção. E, por fim, a performance tão própria da Kelela, que usa a sua doce voz, mas sempre tão urgente e versátil, para entoar toda a dor da composição ao mesmo tempo em que faz um contraponto à batida marcante da música, é algo que fecha a canção com chave de ouro.

Não que eu duvidasse da capacidade da artista, mas ainda fico surpreso que tamanho talento não atraia ainda mais público para apreciar tamanha qualidade artística.
notas
linknb: 8
point blank: 8,5

De Volta as Origens

My Guy
Sam Smith


É preciso admirar a coragem que Sam Smith teve ao seguir sua vida e carreira da maneira que mais agrada à sua pessoa, sem pensar no que as pessoas falam ou deixam de falar. Dito isso, é bom ouvir sua volta às origens com o sólido single My Guy.

Uma balada pop soul com toques deliciosos de gospel e R&B, a canção deixa exposto o melhor de Sam: a sua voz. Sedosa, melódica e marcante, a voz de Sam preenche os espaços até mesmo nessa contida e reflexiva performance. E isso já é algo que realmente vale a pena ouvir na canção. Apesar de estar longe dos seus melhores momentos, My Guy também destaca a maturidade da vida de Sam ao ser uma canção de amor sobre seu companheiro, o estilista Christian Cowan. Ao contrário dos amores não correspondidos e dos corações quebrados das letras do começo da carreira, Sam celebra o amor queer de maneira simples, sincera e tocante em uma composição certeira e redondinha. O problema da canção é não ter um clímax mais pungente e emocional, pois toda a canção vai levando a gente a acreditar em um final nessa pegada quando, na verdade, é um final contido e introspectivo.

De qualquer forma, a canção é uma volta de Sam às origens sem precisar se comprometer com quem é hoje.
nota: 7,5

Novos Caminhos, Mesmo Rumo

IS IT LOVE
Tyla


É possível notar a evolução da Tyla no quesito sonoro, e isso é auspicioso. Todavia, parece que, no quesito qualidade, a artista está sempre empacada no mesmo lugar, como fica claro em IS IT LOVE.

Single do seu próximo álbum (A*Pop), a canção adiciona uma dose interessante de pop rock e electropop à base consolidada da cantora, que mistura bem afrobeats. Devido a isso, a canção ganha nuances bem delimitadas que ajudam a dar dinamismo à sonoridade da Tyla sem perder, porém, a sua essência. O problema é que a própria produção não sabe pegar essa boa ideia e adicioná-la de uma maneira que a canção possa realmente ser elevada para outro patamar, pois o resultado de IS IT LOVE ainda fica bem no mesmo lugar que basicamente todas as canções da artista: boas, mas poderiam ser bem melhores. Nem a performance refinada e sensual da Tyla realmente faz diferença no resultado final, pois seus esforços não encontram reflexo no material que tem em mãos.

Não apenas caminhar em novas estradas, mas, sim, encontrar novos destinos para realmente crescer artisticamente. E isso está faltando na carreira da Tyla.
nota: 7

23 de junho de 2026

Too Little

Too Easy
Tinashe


Sabe quando uma canção é pequena demais para a sua ideia? Então, esse é o caso perfeito de Too Easy, da Tinashe.

Com um pouco menos de dois minutos, a canção não sustenta a boa intenção devido a não ter tempo suficiente para se desenvolver de verdade, ficando apenas como uma quase preview do que era para ter sido. Aqui, a produção mistura bem electroclash com pop rap, deep house e R&B em uma batida frenética, grudenta e realmente interessante. É uma canção que facilmente poderia se tornar irritante, mas isso é contornado por uma produção madura que equilibra bem os elementos.

Todavia, como apontado antes, Too Easy não tem tempo para realmente levantar voo, pois, quando começa a decolar, já acaba. E isso deixa um gosto amargo em quem escuta, já que a canção tem cara de ser um musicão, mas acaba sendo apenas um bom abridor de apetite. E, mesmo com a boa performance de Tinashe, a canção termina sendo aquela que deveria ser bem mais do que realmente acaba sendo. Uma pena.
nota: 7