14 de agosto de 2026

O Paraíso da Tinashe

Melatonin
Tinashe

Na história desse blog, sempre tive o maior apreço pelo talento da Tinashe, mesmo que a mesma não entregasse algo exatamente à sua altura. E é por isso que não há surpresa em concluir que Melatonin, novo single do seu próximo álbum, Popstar, é o melhor da sua carreira. Na verdade, a canção é a melhor do ano, sem concorrência nenhuma.

Apesar de esperar algo no mínimo acima da média, a qualidade entregue na canção é algo realmente inacreditável devido a todas as complexas camadas que são adicionadas, que em nenhum momento transformam a canção em algo de difícil assimilação. A produção é uma verdadeira aula de como conseguir incluir várias influências em apenas uma canção, que a faz parecer cerca de três ou quatro canções diferentes, mas consegue dar uma liga tão visceral e poderosa que, ao seu final, tudo parece fundido à perfeição.

Uma mistura inspiradíssima de hyperpop e dance-pop que vai sendo incrementada de EDM, ao mesmo tempo em que é uma refinadíssima construção techno, que é apurada com subgêneros como, por exemplo, Detroit techno e acid techno. E ainda tem toques de R&B e electroclash apenas para serem as cerejas em cima do bolo. Dessa maneira, Melatonin poderia facilmente se tornar algo completamente desjuntado e sem foco.

Felizmente, a produção segura o touro na “unha” criativa e entrega uma canção impressionante, fluida e coesa, apesar de algumas mudanças rítmicas importantes. E tudo isso é acompanhado pela performance extraordinária da Tinashe, especialmente quando a sua voz é alterada para entoar o genial refrão. A composição é icônica devido à sua apuração estética e, principalmente, à temática, que é basicamente um recado para todos que estão “dormindo” para a existência da Tinashe.

E assim a Tinashe encontra o seu merecido paraíso musical com uma canção que já nasce lendária.
nota: 9,5

A Nova Onda do Reizinho

She's the Best
Troye Sivan


O crescente na carreira do Troye Sivan fez com que o cantor se tornasse um dos artistas mais competentes do pop contemporâneo. Chegando ao quarto álbum, o cantor enfrenta uma nova fase da sua carreira em que é preciso mostrar evolução contínua e um amadurecimento crescente. Em She's the Best, primeiro single do álbum do mesmo nome, acredito que isso é alcançado de certa maneira.

A canção não é, definitivamente, a melhor da sua carreira, mas deixa bem claro que o mesmo está pronto para arriscar sonoramente. O single é interessante, ousado e tem aquela qualidade de crescer na gente aos poucos devido à produção que mistura indie/alt-pop, synth-pop, chillwave e trap pop em uma atmosfera construída de maneira a deixar certas arestas cirurgicamente ásperas para dar toda a textura que a canção precisa para funcionar. Bem longe dos trabalhos de maior deglutição do cantor, She's the Best funciona quando a gente percebe que existe possivelmente uma influência das produções do Pet Shop Boys misturada com o pop/eletrônico experimental dos anos noventa.

Funciona? Sim, mas é preciso realmente embarcar na proposta da canção, pois posso ver claramente parte do público não conseguindo ultrapassar a estranheza inicial. Outro motivo é a presença de Sivan, que decide seguir o caminho “spoken word” para entoar, deixando os momentos “cantados” para o refrão. Essa decisão, porém, é que dá a liga na canção para que a decisão sonora realmente funcione. Além disso, na parte final de She's the Best, vão sendo adicionados novos elementos vocais que dão mais sustentação e criam novas texturas bem-vindas. A composição é um trabalho bem feito que tem um apelo “cool” misturado com toques de temática queer e algumas passagens divertidas/cringes, mas que funciona devido à maneira como tudo à sua volta também funciona à base de estranheza.

She's the Best é um começo de uma nova era para o Troye Sivan, que pode ser o seu ápice ou um ponto fora da curva. Aguardemos.
nota: 8

13 de agosto de 2026

Sempre Prince

With This Tear
Prince


Um álbum póstumo de um artista sempre me deixa com as duas pernas atrás. Entretanto, de tempos em tempos surge uma exceção cuja existência realmente faz sentido ao não ser apenas um caça-níquel barato. E acredito que esse possa ser o caso de Timeless, do Prince, pois o primeiro single já demonstra isso claramente na incrível With This Tear.

Escrita para a cantora no começo dos anos noventa, para a cantora Jevetta Steele, mas que acabou sendo regravada pela Céline Dion para o álbum de 1992, a gravação original do Prince vem à tona para mostrar o tamanho da sua genialidade. Uma power balada R&B/soul, a canção é um trabalho que tem uma complexidade sonora impressionante sem precisar ter um instrumental complexo, mas, sim, de uma força estrutural em que dá para perceber o cuidado com cada detalhe e, basicamente, a perfeição.

Melancólico e intimista e, ao mesmo tempo, emocional e grandioso, With This Tear também é a demonstração da força do letrista Prince em uma composição avassaladora sobre o vazio que sentimos quando alguém deixa as nossas vidas, mesmo que tenham sido feitas juras de “para sempre”. É tematicamente clichê, mas a honestidade e a força que se encontram nos versos são o tipo de coisa que, infelizmente, não se faz mais atualmente. A canção é emoldurada com chave de ouro pela performance gigantesca e atemporal do Prince, que basicamente entrega uma “tour de force” que poucos têm a capacidade de entregar, sendo ainda menor o grupo que “ofusca” uma performance da Céline.

Atemporal e realmente genial, a canção é o tipo de trabalho que faz a gente entender a grandeza do talento de um mestre como o Prince e que, também, faz a gente ter hype para um álbum desse tipo.
nota: 9

Talarica Reversa

Michael.
Rebecca Black


Como reagir a uma música que foi inspirada no namorado da Lady Gaga? Então, não sei você, mas eu estou realmente fascinado pela existência de Michael, da Rebecca Black.

E, sinceramente, nem é devido à sua inspiração, pois é mais uma brincadeira do que algo realmente concreto, mas pelo excepcional resultado da canção, que é uma das melhores da carreira da Black. Uma espetacular dance-pop refinada com progressive house, que torna a batida da canção um trabalho maduro, cativante, elegante e de cair o queixo devido à sua construção instrumental apuradíssima. É o tipo de trabalho que deixa bem clara a evolução a olhos vistos da artista, deixando qualquer desconfiança para trás.

Liricamente, a canção pode ser inspirada por um Michael, mas funciona muito bem como uma história mais ampla sobre o desejo da Rebecca pela namorada do dito cujo:

His name is Michael
And he's got all the things you need
His love is bible
But what if Michael could be me, be me?


Pode ser a Gaga, mas a canção deixa mais evidente que é algo mais genérico. De qualquer forma, o trabalho aqui é muito bem desenvolvido de maneira a criar uma composição sensual, melancólica e de um apuro pop bem construído. E, por fim, Rebecca entrega uma performance vocal edificante, em que mostra sensualidade e um toque de humor enquanto seu timbre vai emoldurando graciosamente toda a canção.

Esse Michael, quem quer que seja, é um sortudo por ter uma canção tão boa como essa em sua “homenagem” torta.
nota: 8,5