23 de outubro de 2026

Antes Tarde do Que Nunca

Homogenic
Björk




De Volta?

Silencio
U2


Já faz pouco mais de uma década que o U2 não lança nada de relevante ou mesmo que seja acima da média. Todavia, como single do décimo sexto álbum da carreira, Carnaval de Luz, a banda lançou a interessante Silencio.

Longe de ser uma grande canção da banda, a canção é, sim, um bom trabalho que mostra que a banda tem algo para “queimar”. Um rock alternativo eficiente, maduro e bem construído, com influências de post-punk e garage rock, a produção peca, porém, por ser meio travada criativamente, entregando exatamente o que se promete de maneira direta demais. Faltou um brilho aqui e ali para elevar o material que, felizmente, é cercado por um competentíssimo trabalho instrumental.

Além disso, Silencio tem uma letra muito curiosa, com palavras em português que deixam uma marca surpreendente e bem-vinda, mesmo que seja meio estranho. A composição em si é boa ao ser uma crônica política/social com metáforas religiosas que, apesar de terem toques datados e meio clichês, funcionam. Bono entrega uma performance firme e competente, fazendo-nos relembrar o quanto ele é icônico como vocalista de uma das maiores bandas de todos os tempos.

Agora, é aguardar para ver se o álbum vai por esse caminho ou se vai repetir a tragédia que os três anteriores representaram na discografia da banda.
nota: 7,5

O Momento da Shygirl

Mantra
Shygirl


Entregando um hype do que parece ser um álbum realmente incrível, Shygirl coloca um novo tijolo nessa construção com o lançamento de Mantra.

Single de menor impacto de SWALLOW!, a canção ainda é um trabalho bem acima da média devido, principalmente, à produção realmente vigorosa e inteligente, ao entregar uma mistura azeitada de art pop, jungle, ambient, drum and bass e trip hop. Não chega a fundir os gêneros com perfeição, mas dá uma liga excitante, grudenta e elegante.

Gosto particularmente da vertente filosófica/poética que a artista vem usando em suas composições e, novamente, aqui podemos notar essa decisão em uma letra sobre o poder de libertação de poder amar e viver tudo o que isso pode proporcionar de bom e de ruim. Vocalmente, Mantra é outro bom momento de Shygirl, mesmo que certas escolhas na produção da sua voz não combinem tão bem.

E, mesmo não tendo o destaque que merece, Shygirl tem em mãos o que pode ser um dos últimos grandes álbuns de 2026.
nota: 8

20 de outubro de 2026

Um Segunda Chance Para: CON ALTURA

CON ALTURA
ROSALÍA & J Balvin

Existem algumas músicas cuja importância só entendemos algum tempo depois do seu lançamento, pois só assim podemos compreender melhor o seu contexto. Esse é o caso perfeito de Con Altura, da Rosalía.

Quando lançou o single, em março de 2019, a cantora tinha acabado de sair dos trabalhos de divulgação do aclamado El mal querer, de 2018, mas o álbum ainda não havia conectado comercialmente com o público mais mainstream. Então, entre aquele ano e 2021, a cantora lançou diversos singles solo e em parcerias que foram responsáveis por dois pontos importantes em sua carreira: seu breakthrough comercial e a exploração sonora que deu resultado em Motomami. E, olhando em retrospectiva, Con Altura foi o momento mais importante dessa fase.

Um dos maiores sucessos daquele ano ao redor do mundo, o single deu à cantora o veículo perfeito para colocar sua personalidade em uma canção extremamente comercial, que pudesse ser assimilada pelo maior número possível de pessoas que não a conheciam. E essa decisão e exploração foram geniais, pois a canção alcança esse objetivo de maneira tão certeira quanto possível. Artisticamente, o single está bem longe do que a cantora tinha entregado e ainda iria entregar, mas, sinceramente, acho que atualmente é melhor do que eu lembrava.

Divertidíssima, rápida, viciante e com boa personalidade, Con Altura tem uma produção bem amarrada que claramente se apoia no estouro do reggaeton na época, mas adiciona pinceladas de latin pop, art pop e experimentalismo que dão mais vida à faixa e a fazem combinar melhor com a persona da Rosalía. E é a cantora que brilha na canção, sem nenhuma dúvida, pois ela a carrega plenamente com a força de uma diva pop e a sagacidade de uma artista em busca de novos rumos ao experimentar com sua própria sonoridade. Apesar de não ser nada genial, a participação de J Balvin e de El Guincho, coprodutor da canção, funciona, pois ambos adicionam texturas divertidas ao resultado final. O grande problema da canção é sua composição, que cumpre seu papel, mas claramente poderia ser bem mais lapidada e interessante.

É interessante ouvir Con Altura e depois ouvir Saoko, primeiro single de Motomami, pois dá para perceber a influência da primeira na construção da segunda e observar a evolução realizada. Basicamente, sem Con Altura, é bem possível que não tivéssemos a Rosalía atual ou, ao menos, não da maneira como ela se apresenta hoje. E isso é algo louvável.
nota: 7,5

Sem Nuvens no Horizonte

Blue Moon
Zara Larsson


Aproveitando, e com razão, o hype da sua atual era, Zara Larsson lançou mais um single de Midnight Sun: a boa “Blue Moon”.

Assim como basicamente todo o álbum, a canção é cativante, grudenta e redondíssima, um dance-pop com toques de club dance e eletropop que dão personalidade à canção. Não vai muito longe do lugar em que a sonoridade da Zara se fixou, mas, novamente, prova o quanto as canções do álbum são saborosas e iluminadas de maneira geral.

Entretanto, o grande destaque da canção é a presença solar, carismática e deliciosa da cantora, que entrega uma performance que deixa claro o quanto talento a cantora possui e o quanto ainda pode mostrar se tiver canções ainda melhores em mãos. Assim espero que seja o futuro da queridona.
nota: 7,5

19 de outubro de 2026

O Futuro

Hot & talking
Say Now

Enquanto algumas continuam na trilha da mediocridade, o Say Now continua a mostrar que realmente é uma promessa a ser levada a sério. E é isso que a ótima “Hot & Talking” mostra.

Novamente, a canção tem as mãos da PinkPantheress por trás, que empresta um pouco da sua personalidade artística para que o trio comece a encontrar a sua própria. Isso cria uma divertidíssima e vibrante fusão de electroclash com R&B que não é original, mas é um trabalho com uma aura completamente própria e, principalmente, excitante. É pop na medida certa e, ao mesmo tempo, tem traços de experimentalismo aqui e ali, que dão ao resultado final a sensação de que estamos diante apenas do começo da exploração e do refinamento da sonoridade do Say Now.

Além da qualidade da produção, “Hot & Talking” é um trabalho surpreendente de composição ao ser uma irônica, inteligente e refinada “crônica” sobre os boy lixos que ficam incomodando mulheres quando elas claramente não estão a fim: “Your heart and soul, so mystical / Never been told, ‘No’ before”. Sem precisar exatamente “pesar o clima”, mas também acertando no ponto da crítica e da reflexão sem perder nada do senso pop lírico. Além disso, as três integrantes, Ysabelle, Amelia e Madeleine, entregam ótimas performances, especialmente quando a canção deixa cada uma ter espaço suficiente para mostrar sua personalidade individual.

Dessa maneira, o Say Now já tem um dos portfólios mais fortes de uma girl band em 2026.
nota: 8

Um Respiro

Unloveu
KATSEYE


Continuando o “desafio” de ser a girl band de maior sucesso sem ter uma canção realmente boa, o KATSEYE lançou a mediana Unloveu.

Parte do EP WILD, mas que só tinha sido lançada na versão física, a canção é bem melhor do que todas as outras juntas e, sinceramente, daria até certa esperança para a girl band. Todavia, a canção perde a oportunidade de fazer algo bem mais marcante do que essa balada mid-tempo pop, que não explora nada do que uma boa balada pode oferecer, ficando literalmente no meio do caminho entre o “inteligentona” e o tradicional. Faltou criatividade para entregar algo que pudesse ser realmente interessante e não uma pálida cópia do que o The Pussycat Dolls fazia bem melhor.

Além disso, a composição não é ruim, mas é boba e fraca ao não usar seus lugares-comuns e clichês de maneira a extrair uma emoção mais sentida e real, que pudesse criar uma conexão melhor com quem ouve. O que segura “Unloveu” até certo ponto é a presença das integrantes, que deixa claro, novamente, que elas têm “gogo” suficiente para segurar qualquer canção, mas continuam sendo subaproveitadas. Felizmente, aqui elas têm algo mais concreto em que podem se mostrar.

Em algum momento, espero que os anjos digam amém e o KATSEYE tenha, ao menos, uma canção boa nas mãos. Por enquanto, elas seguem sem derrotas ao lançarem apenas canções não boas.
nota: 6,5