19 de abril de 2026

The Queen, The Mother, The Madonna

I Feel So Free
Madonna


Apesar de estar otimista e ansioso pelo lançamento de Confessions II, preciso admitir que estava cautelosamente otimista, pois, mesmo sendo a Madonna, os últimos lançamentos da cantora são, no mínimo, medianos em sua grande maioria. Então, eis que surge o lançamento de I Feel So Free para mudar a minha concepção, ao me deixar realmente excitado para o álbum, já que a canção é a melhor música da cantora em nada menos que vinte anos.

Na verdade, a canção não é apenas uma ótima canção, mas, sinceramente, já pode ser considerada digna de entrar no panteão das melhores da carreira da Rainha do pop. E isso é algo impressionante para uma artista que parecia estar no automático nos últimos trabalhos. Ao voltar a trabalhar com Stuart Prince, produtor do primeiro Confessions e responsável recentemente por trabalhos ao lado de Jessie Ware e Dua Lipa, a cantora não apenas se reconecta diretamente a uma sonoridade, mas também volta a ter química de verdade com um parceiro de criação. E isso é algo essencial para a construção de qualquer canção de uma artista tão única como a Madonna, e Stuart entende isso à perfeição. Por isso, I Feel So Free é uma verdadeira música com M maiúsculo.

Outra imensa qualidade da canção é o fato de que ela não é apenas uma continuidade da sonoridade do primeiro álbum, mas, sim, uma canção com identidade própria. Na verdade, a melhor definição é que I Feel So Free seria a prima direta de Hung Up/Sorry, mas que tem laços com outras influências. Parecidas, mas nada iguais. A canção, que não é um single oficial, traz uma fusão refinadíssima de deep house com progressive house e dance-pop, criando uma sonoridade esteticamente familiar, mas que vai se desenrolando em um trabalho energético, atmosférico, poderoso e impressionante. A produção consegue dar a gravidade e grandiosidade que uma música da Madonna precisa ter para carregar toda a sua força, lembrando de criar uma vibe que é puramente pop. E esse pop é em sua forma mais Madonna possível, com uma canção de mais de cinco minutos e com uma composição que basicamente é uma celebração da volta da artista, que logo no primeiro verso manda:

Sometimes I like to just hide in the shadows
Create a new persona
A different identity
I can be whoever I wanna be

Vocalmente, a canção é o melhor trabalho da cantora em anos, pois, além de deixar a sua voz o mais natural possível na parte cantada, os momentos em que ela declama os versos casam lindamente com a atmosfera da canção e são a base perfeita para o estouro sonoro do refrão e o ótimo clímax final.

Ainda é um pouco cedo para declarar que esse é o retorno à altura que a Madonna está planejando para si mesma. Todavia, se isso for uma prévia real do que está por vir, é certo que estaremos diante de outro marco da música.
nota: 9

O Tema Não Tema

First Light
Lana Del Rey


E a Lana Del Rey que lançou um ótimo tema para o James Bond, mas não tem nem chance de se unir a Sam Smith, Adele e Billie Eilish, já que a canção é o tema do game do espião e não do próximo filme. Mesmo assim, First Light é um interessante trabalho que funciona até melhor do que seria esperado.

Sinceramente, eu nunca tinha pensado em como seria uma música da Lana ser tema de 007 e, se pensei, não achei que daria tão certo. E o grande acerto da canção é conseguir, de alguma forma, ter elementos de grandes canções-tema da franquia, ao mesmo tempo que carrega a personalidade da cantora impregnada do começo ao fim. Sendo bem realista, First Light é como se a cantora emoldurasse a sua versão de Shirley Bassey, que tem no currículo três clássicos do gênero. E isso é algo impressionante.

Navegando entre o clichê e o épico, a canção tem um instrumental que consegue expressar a grandiosidade cafona dos temas tradicionais do 007 com uma maestria impressionante, mergulhando fundo na referência nada sutil. Ao contrário de Skyfall, da Adele, por exemplo, a canção não busca exatamente ser algo ligado diretamente à artista ou ter um verniz moderno, mas, sim, ser um pastiche lindamente criado. Todavia, a canção brilha quando percebemos a personalidade da Lana, quando ela começa a entoar com os maneirismos de sempre, mas vai se transmutando em uma persona que se encaixa com o explosivo clímax final. Só que, até aqui, ainda é possível ouvirmos a velha Lana colocando sua personalidade. O ponto fraco da canção é a boa, mas restrita, composição, que talvez tenha sido feita de maneira mais tradicional que o resto da canção, sem adicionar o toque da cantora de forma realmente nítida.

De qualquer forma, First Light seria o Oscar da Lana Del Rey, mas fico feliz de apenas existir.
nota: 8,5

Roqueira

idea 1
Kelela


A capacidade de compreender a sua própria sonoridade de uma maneira realmente plena é algo reservado para poucos. E esses poucos têm a capacidade de transmutar sua música sem perder a essência, como é o caso de “Idea 1”, da sempre sensacional Kelela.

Adicionando uma carga imensa e impressionante de rock alternativo e shoegaze à base de R&B alternativo, que é um dos nortes da sua carreira, a cantora é capaz de entregar uma canção poderosa, envolvente e densa. Com um instrumental intrigante e de uma maturidade visível, “Idea 1” é uma canção que vai se derramando em ondas nos nossos sentidos, desde os seus primeiros acordes contidos, até ir se encorpando e ganhando uma forma intrigante e majestosa, para finalmente terminar de maneira reflexiva.

E a presença imponente de Kelela é outro grande acerto, pois a cantora, dona de uma voz doce e aveludada, vai se adequando ao que a canção transmite, indo do sentimental até a grandiosidade com uma maestria louvável. É preciso dizer que, apesar de possuir uma boa e inspirada composição, a canção perde certa força por não ter aquele momento de genialidade pura. Mesmo com esse detalhe, Kelela não deixa de mostrar a infinitude de seu talento.
nota: 8,5

Uma Pras Gays!

RUNWAY
Lady Gaga & Doechii


Nada mais “cunty” do que ter como um dos temas de O Diabo Veste Prada 2 a parceria da Lady Gaga com a Doechii na deliciosa Runway.

Longe de ser o tema cinematográfico da década, a canção cumpre tão bem seu papel que não deixa muito espaço para não acharmos que é perfeita para o que se propõe a fazer. Uma divertidíssima e superficial diva house fundida com hip hop, ballroom e rap, Runway é o tipo de canção que a gente meio que vicia logo de cara, por ter todos os elementos na proporção certa.

Batida carismática e muito bem construída, a presença “larger than life” da Gaga que, sinceramente, parece mais uma featuring, já que a Doechii tem maior presença na canção e, felizmente, entrega uma ótima performance; a composição rara, mas sensacionalmente clichê e deliciosamente icônica, que consegue, ao mesmo tempo, fazer claras alusões e referências a Bruno Mars (coprodutor e co-compositor da canção), a RuPaul, a Eddie Murphy (!!!) e, claro, ao filme.

E, mesmo perdendo a chance de ser genial,  Runway cumpre com louvor sua proposta: uma música para as gays!
nota: 8

Oportunidade Perdida

SHE DID IT AGAIN
Tyla & Zara Larsson


É meio triste ouvir uma canção que não alcança seu total potencial, pois é uma oportunidade perdida bem grande. E é esse o quadro que fica em SHE DID IT AGAIN, da Tyla com a Zara Larsson.

E o grande erro da canção é a sua produção, que entrega uma confortável batida afrobeats/R&B/pop que não está à altura do potencial das duas artistas. Na verdade, a canção, que poderia ser um dos melhores duetos femininos dos últimos tempos, acaba se tornando quase genérica demais para algo que deveria ser uma explosão sonora. A sensação aumenta quando a gente percebe que a composição é um trabalho muito bem pensado, com várias e ótimas citações pop como, por exemplo, Britney Spears e Sade.

E isso se deve, possivelmente, à presença da assinatura do talentoso MNEK na letra. Sinceramente, a canção funcionaria melhor se o artista também fosse o responsável pela produção, pois tenho certeza de que seu toque seria o que falta para SHE DID IT AGAIN. Mesmo sem uma química muito refinada, Tyla e Zara entregam boas performances, que dão certa personalidade à canção. Uma pena que não seja suficiente para salvá-la do lugar-comum.
nota: 6,5

Um Pouco Similar Demais

drop dead
Olivia Rodrigo


Considero, de verdade, a Olivia Rodrigo como uma das melhores artistas da sua recente geração. Dito isso, o lançamento de drop dead, primeiro single do seu próximo álbum, veio com um tropeço bem nítido: a similaridade com Taylor Swift.

Novamente produzido por Dan Nigro, a canção tem algumas semelhanças bem proeminentes com as canções da Taylor, especialmente na sua primeira parte. E estou falando da parte sonora e vocal. Isso tira certa qualidade da canção, pois a Olivia sempre conseguiu imprimir algo que é realmente seu em seus trabalhos. Felizmente, drop dead é uma canção que, se é parecida com alguma outra, é uma canção realmente boa, pois o resultado final é realmente bem acima da média.

Como disse, a canção engrena de verdade a partir da sua metade, em que a produção adiciona novas texturas e aumenta a cadência da canção, criando um divertido, despretensioso e bem apurado synth-pop/pop rock que ajuda a aprofundar a sonoridade de Olivia. Devido ao que já foi citado, o aprofundamento é mais superficial, mas é uma amostra de que a jovem está em processo de amadurecimento estético de fato. A composição é o ponto alto do trabalho, pois é o que melhor dá personalidade à canção, já que deixa claro ser o trabalho de uma jovem de apenas 23 anos que começa a encontrar novos caminhos para se expressar. E, mesmo não sendo a sua performance mais interessante, a Olivia segura muito bem a canção do começo ao fim.

É um começo bom para a nova era da Olivia, mas que guarda alguma sensação de que pode ser a sua menos impactante artisticamente.
nota: 7,5

Lavagem de Dinheiro

PINKY UP
KATSEYE


Sinceramente, eu estou começando a achar que tudo envolvendo o Katseye é lavagem de dinheiro à luz do dia, pois só isso explica o lançamento de uma canção ruim atrás da outra. Dessa vez, a bomba é PINKY UP.

O grande problema da canção é que a mesma tem uma batida que é completamente diferente da canção que as integrantes do girl group estão cantando. A produção escolhe seguir um caminho que mistura tecno/trance/dance-pop com uma batida irritante, exagerada e completamente rasa, enquanto existe uma melodia, especialmente vocal, que puxa mais para o bubblegum/dance-pop, criando algo disjuntado, medíocre e desconcertantemente sem sentido.

O pior é que PINKY UP funcionaria muito melhor se seguisse a vibe em que as integrantes estão, pois as jovens realmente entregam tudo em suas performances. Todavia, nada consegue salvar essa verdadeira bomba, já que é totalmente insalubre.
nota: 3

Nostálgica

Younger You
Miley Cyrus


Comemorando vinte anos da série Hannah Montana, a Miley Cyrus lançou um especial para celebrar a marca do que a fez se tornar a estrela que é atualmente. E, como tema, divulgou a sentimental Younger You.

Apesar de eu não cair pela nostalgia do evento, pois nunca assisti à série, é preciso dizer que a canção ajuda a criar uma ótima atmosfera para entendermos o olhar para o passado da Miley. Uma balada country pop/indie folk, a canção é o tipo de música que funciona devido à sua sincera e tocante produção, que não tem a pretensão de ser mais do que realmente é.

E, nesse caso, é ser uma ponte entre a artista atual e aquela que ela era quando estava na série anos atrás. Isso é alcançado sem maiores problemas, especialmente devido à sua composição realmente emocionante, em que a versão mais nova conversa com a Miley do agora. É clichê e simples, mas muito bem escrita, já que parte de um lugar realmente verdadeiro. Tudo se fecha com uma performance inspirada e contida da cantora, que dá os arremates finais à canção. Uma música que exala uma nostalgia tão real que fica impossível não gostar.
nota: 7,5