Arlo Parks
SóSingles
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23 de setembro de 2026
Uma Segunda Chance Para: Spotlight
Spotlight
Jessie Ware
Jessie Ware
Apesar de ser figura carimbada aqui no blog ao longo dos anos e receber as merecidas aclamações, a história da Jessie Ware no blog tem um momento que precisa ser reparado: a resenha de Spotlight. Na época do lançamento, dei um ótimo 8 para a canção, mas isso foi injusto demais, já que a faixa merece muito mais devido a ser, sem nenhuma dúvida, uma das melhores dos dezoito anos do blog.
Lançada como primeiro single do já lendário What's Your Pleasure?, a canção foi a responsável por iniciar a nova fase da carreira da cantora ao seguir uma direção sonora mais pop/post-disco/eletrônica. Além disso, foi o ponto de mudança da percepção do público em relação à artista, levando-a para um novo e merecido patamar de reconhecimento do público e da crítica. Mesmo elogiando a canção, só tive noção da magnitude da produção assinada por James Ford ao longo dos anos, pois a faixa foi crescendo e crescendo de uma forma em que todo o brilhantismo só pudesse ser revelado, ao menos para mim, depois de um tempo e de uma certa distância das minhas primeiras impressões.
Épica, grandiosa e atemporal são as três principais e maiores qualidades da canção, mas elas não se limitam ao trabalho estupendo da sua construção. A inspiração é bem clara ao se apoiar em uma sonoridade disco dos anos setenta de nomes femininos como Diana Ross e Donna Summer, mas a produção adiciona doses cavalares e primorosas de soul, house, acid house, eletrônico e pop soul, criando uma batida esplendorosa, cativante, elegante e, principalmente, única. Sejamos sinceros: Spotlight é o tipo de canção que, até hoje em dia, é muito difícil de ouvir devido à sua maestria melódica e à sua personalidade sonora totalmente fora da curva. A canção tem mais de cinco minutos e meio de duração em uma produção lotada de texturas, camadas e nuances que vão sendo desenroladas ao longo de uma das mais exuberantes instrumentais do pop moderno. E tudo isso é sustentado pela genial performance da Jessie.
Até então, a cantora era conhecida pela sua voz sedosa, elegante e cativante, mas aqui tudo é elevado para outro patamar devido a como a sua voz casa magicamente com o estilo da canção, fazendo-a ganhar ainda mais força devido à sua presença acachapante. Na verdade, a performance de Jessie é a cola que une todos os elementos, pois, ao mesmo tempo, sua voz dá todo o apelo emocional que se conecta de maneira direta com a atmosfera sonora e também vai transitando belissimamente por todas as mudanças que a canção apresenta, sendo as texturas colocadas ao longo da sua duração outro ponto importantíssimo para o resultado final. Por exemplo, a canção começa de maneira contida e quase como uma balada, em que temos um instrumental mais “clássico” como base para a voz da Jessie, e é como se um portão de ouro e diamante se abrisse para o paraíso. E a magistral composição fecha a trindade de maneira brilhante ao falar sobre desejo e paixão da maneira mais sofisticada, fina, envolvente e de um senso pop perfeito.
Spotlight é uma das canções mais importantes da década, pois foi o estopim inicial para a onda disco/eletrônica que dominou boa parte do pop nos últimos anos. Além disso, é a canção que fez Jessie Ware se tornar uma força pop merecidamente reconhecida. Então, nada mais justo que a nota seja a mais perfeita possível.
nota: 10
22 de setembro de 2026
Sample Perfection
A Good Day
Anderson .Paak & Cordae
Anderson .Paak & Cordae
Usar um sample é quase como uma arte, pois o resultado pode ser uma obra de arte ou um desastre. Em A Good Day, o pêndulo puxa claramente para a primeira opção.
Single do projeto em parceria do Anderson .Paak e Cordae, a canção é uma estilosa e solar pop rap/neo-soul com toques de funk, que é um trabalho rápido, rasteiro e certeiro na construção da sua batida leve, mas com um cuidado primoroso estrutural. Todavia, a grande qualidade da produção é o uso de quatro samples/interpolações de uma vez, de uma maneira inspirada: It Was a Good Day, do Ice Cube; Life is Like a Dice Game, do Nas; Lovely Day, do Bill Withers; e, por fim, It’s Like That, da Mariah Carey. Só que é desse último que a canção faz melhor a sua utilização, pois usa o Here we go now (What?), here we go now (What?), que aparece no começo da canção e no final, de maneira a construir o seu refrão e dar toda a sua personalidade, fazendo o mesmo ser incorporado de maneira primorosa.
A Good Day também é um exemplo perfeito de como dividir uma parceria entre dois artistas, de maneira a dar o espaço perfeito e na mesma medida para ambos. Além disso, a canção é elevada devido à química extraordinária entre Anderson e Cordae, que fica ainda mais impressionante, pois dois rappers normalmente apresentam uma aspereza natural de suas personalidades não se misturarem, e isso é o que faz a qualidade de muitas canções. Todavia, aqui essa química é o ponto de equilíbrio para a canção. Apesar da ótima composição, gostaria que tivesse sido melhor aprofundada, pois a canção parece explorar o sentimento de que, no fundo, ninguém está realmente bem atualmente devido ao que está acontecendo no mundo e que devemos ainda procurar a felicidade de alguma forma.
De qualquer maneira, a canção é um começo promissor para um projeto que pode ser algo sensacional ou, no mínimo, divertido.
nota: 8,5
Aperitivo
Sobremesa
Pitty
Pitty
Sem lançar um álbum desde 2019, a Pitty finalmente irá fazer o seu comeback com o lançamento do seu sexto álbum, intitulado apenas PITTY. E, como primeiro single, foi lançada a faixa Sobremesa.
Sinceramente, a canção não é ruim, mas esperava mais da artista, especialmente no quesito composição. A letra aqui tem as características que a artista sempre mostrou ao longo da sua carreira, mas, infelizmente, é um trabalho mais fraco da sua discografia. Queria realmente gostar da letra, pois, tecnicamente, é um trabalho muito bem feito.
Todavia, o resultado é fraco e meio sem pé nem cabeça, o que fica difícil a gente se associar e entender de verdade o que a cantora quer falar, especialmente no sem graça refrão.
Felizmente, Sobremesa se salva bem devido à produção ótima, que entrega um vigoroso e potente rock alternativo, que tem um ótimo e robusto instrumental e faz a canção realmente se elevar de qualidade. Apesar de certo estranhamento em relação à produção dos vocais da cantora, a presença de Pitty é sempre muito impactante, porque a mesma preenche a canção com a sua força incomparável e atemporal, mesmo quando não tem em volta um material à altura.
Como apontei, a canção não é ruim, mas é mais um aperitivo gostosinho do que uma sobremesa inesquecível.
nota: 7
21 de setembro de 2026
Erotica Vibes
Lucky[Hymn]
Shygirl
Shygirl
Com o segundo single de SWALLOW!, a instigante Lucky[Hymn], a gente consegue entender qual é a vibe da nova era da Shygirl: Erotica.
Não sei de verdade se o álbum é realmente inspirado no álbum da Madonna, mas, sinceramente, ao unir a nova canção com o que a mesma entregou em Alyse, foi na hora que a minha mente foi levada a fazer essa conexão. E aqui a sensação é ainda maior devido à construção sonora, que mistura art pop/deconstructed club com toques de indie folk/rock, criando uma batida envolvente, sensual e madura, que parece claramente ter características básicas de canções como Rain e Deeper and Deeper. Não é, porém, uma referência copiada ou na cara, mas é quase como se a essência criativa fosse a linha que liga com o trabalho da rainha do pop.
A comparação também vai além da sonoridade, pois Lucky[Hymn] também tem semelhanças líricas ao ter uma composição robusta que reflete sobre sentimentos profundos, mas de uma forma acessível e bem talhada estruturalmente falando. Gostaria, porém, que a letra fosse “maior” para poder explorar ainda mais essa crônica sobre se entregar sem medo à paixão de maneira definitiva. Fechando o “pacote”, Shygirl entrega uma ótima performance que mostra uma versatilidade bem grande, especialmente se comparada à canção anterior.
E assim, aos quase quarenta e cinco minutos do segundo tempo de 2026, a Shygirl vai criando um hype para o que pode ser um dos álbuns do ano.
nota: 8,5
Pop Sentimental
Make Believe
Rachel Chinouriri
Rachel Chinouriri
Apesar de uma mudança considerável, a nova fase sonora da Rachel Chinouriri está bem auspiciosa. Agora é a vez da interessante Make Believe.
Segundo single de I think I spoke too soon, a canção é uma sedosa, intrigante, madura e graciosa alt-pop/synthpop com toques de dark pop em uma instrumental eficientemente simples. A produção não quer revolucionar, mas, sim, criar um pop que possa incrementar a sonoridade da cantora de maneira natural, que seja claramente uma evolução do que a mesma vinha fazendo, ao mesmo tempo que seja uma mudança realmente distinta.
E, sinceramente, isso dá certo para Make Believe porque a personalidade da artista é mantida ao se alinhar com a sóbria e melancólica composição sobre tentar fazer sua paixão realmente se interessar, mesmo que seja meio que pela insistência de um coração desesperado. Além disso, a performance de Rachel cria certa fricção bem-vinda que dá personalidade para a canção devido à forma sentimental, cool e grave que a mesma entoa a canção, aproveitando o máximo do seu grave e melódico timbre.
É uma mudança que pode ainda desabar no contexto do álbum, mas, por enquanto, está sendo muito feliz para a Rachel Chinouriri.
nota: 8
18 de setembro de 2026
Rosadinho
new trick
ROSÉ
ROSÉ
De todos os lançamentos solo recentes das integrantes do Blackpink, “new trick”, da ROSÉ, é disparado o melhor. E ainda poderia ter um resultado ainda melhor.
A canção é um cativante e efervescente pop rock/power pop que a gente não ouve atualmente sendo feito. Quase algo que poderia ter sido feito por alguma estrela juvenil do Disney Channel lá pelos anos 2010, mas com uma camada pop punk que dá certa ousadia para a canção e que emoldura também o período de glória da Avril Lavigne. Todavia, a canção é refrescante devido à sua construção atemporal, leve e chiclete. Além disso, ROSÉ entrega uma performance graciosa que acerta a dinâmica da canção ao mostrar uma ótima versatilidade. O problema de “new trick” é a sua boa, mas esquecível, composição, que realmente só tem um momento inspirado no seu direto refrão, que se torna a mola propulsora perfeita para a canção.
Agora só falta a Jennie para fechar esse ciclo e a gente saber quem vence essa “batalha”. Por enquanto, a ROSÉ é a vencedora clara.
nota: 7,5
Ou Vai ou Racha
Party
Troye Sivan
Troye Sivan
Com o lançamento de Party, segundo single de She's the Best, Troye Sivan deixa bem claro o rumo da sua nova era. É divisivo? Com certeza, mas, sinceramente, eu estou do lado positivo dessa recepção.
Com uma produção completamente pendendo para o house, especialmente puxando para o acid house, a canção é eletrizante, dançante, grudenta e muito bem construída, com um toque experimental que conversa com a sonoridade do cantor, mas dá alguns passos para sair do pop mais delimitado que ele vem apresentando. Existe uma clara inspiração dos anos noventa e começo dos anos dois mil na elaboração da batida, sem deixar a canção datada. Todavia, a grande qualidade e o que dá o toque perfeito de gênio à batida é o excepcional uso do sample de “Music”, da Madonna, que é a cola perfeita para unir toda a canção. O problema de “Party” é a sua composição.
Tirando a letra vinda da canção da rainha do pop, o single é composto apenas por um verso que vai ser repetido como se fosse um grande refrão. Na verdade, isso não seria um grande problema se o verso fosse realmente bom, pois o que temos aqui é até divertido e “campy”, só que também é raso e menos interessante do que deveria ser. E isso custa à canção alguns pontos importantes, pois sua embalagem é consideravelmente superior ao seu conteúdo. Quanto ao Troye, eu gosto da performance dele mais “spoken word” devido à sua entrega exemplar e carismática, mesmo que eu tenha a certeza de que não deva agradar a todos e que seu melhor momento é quando entoa os versos de “Music”.
Espero que esse seja o tipo de trabalho que a divulgação possa ajudar a dar um hype maior para o álbum, mas, mesmo assim, são corajosas as decisões do Troye Sivan.
nota: 8
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