20 de agosto de 2026

A Guinada

Just Be Bodies
Rose Gray


Estou realmente começando a ficar hypado para o segundo álbum da Rose Gray. Depois da ótima Club To Your Arms, a cantora lança outro acerto em Just Be Bodies.

Apesar de um pouco menos inspirada, a canção ainda mostra a evolução nítida da cantora ao entregar uma canção realmente competente e com uma personalidade muito bem definida e amadurecida. A produção entrega uma synth-pop emoldurada lindamente por um véu de house/trance, criando uma batida revigorante, mesmo que trabalhando em uma cadência mais contida. Acredito que, por ter uma batida “menor”, Just Be Bodies não chega a alcançar um novo nível, mas, felizmente, o cuidado instrumental e toda a atmosfera da canção valem realmente a pena. Gosto da composição, que continua a apostar no emocional misturado com sensualidade e toques filosóficos de uma forma natural e nada pretensiosa. Rose entrega uma boa performance, que poderia ter mais variação aqui e ali para dar um pouco mais de dinâmica à canção.

De qualquer maneira, Rose Gray pode realmente sair do lugar de promessa para ser uma realização.
nota: 8


Reavaliação

Didn't Mean to Turn You On
Mariah Carey & Rochelle Jordan


Possivelmente, a era Glitter da Mariah Carey seja uma das mais controversas da cultura pop de todos os tempos. O álbum que serviu de trilha sonora para o filme de mesmo nome foi uma das peças que quase destruíram a carreira e a vida da cantora no começo dos anos 2000. Todavia, nos últimos anos, o álbum vem sendo reavaliado por parte do público como sendo injustiçado. E é tanto que a cantora vai lançar um trabalho comemorativo dos vinte e cinco anos. Como primeiro single, foi lançado o remix de Didn't Mean to Turn You On.

A escolha é curiosa, pois a canção nem foi single do álbum. Entretanto, o resultado é realmente inspirado devido à presença magnética da Rochelle Jordan e do produtor KLSH, que juntos entregaram o sensacional Through The Wall no ano passado. O resultado é um verdadeiro fato raro, pois termina sendo melhor que a original. De uma sólida, mas conservadora, regravação da canção original da cantora Cherrelle, a canção sai do funk/disco original para uma envolvente, deliciosa, moderna e madura synth-pop misturada com eletrônico e traços de funk, que transforma a canção em uma nova e excitante versão.


E isso é algo realmente admirável, pois a produção consegue dar para a canção a vibe da Rochelle sem esquecer da personalidade da Mariah, respeitando também a versão original de Didn't Mean to Turn You On. Na verdade, eu gostaria muito de ver a Mariah fazendo um trabalho completo com o produtor, pois isso seria, com certeza, algo que iria ser um comeback lendário. Vocalmente, as duas cantoras se misturam perfeitamente, e a Rochelle adiciona uma carga de personalidade bem grande para essa versão sem tentar roubar a música para si ou se deixar intimidar pela parceira lendária.

Espero que nessa comemoração possa ter versões tão interessantes e que ajude a mais pessoas a redescobrir um álbum longe de perfeito, mas que tem algumas pérolas sonoras.
nota: 8

19 de agosto de 2026

A Que Foi Deixada Para Trás

Pop Sound
Kim Petras

Inicialmente destinada a aparecer no álbum Detour, Pop Sound foi lançada antes no EP Pretour pela Kim Petras de maneira não oficial e longe das plataformas como, por exemplo, o Spotify e afins. Agora, a canção ganha um lançamento oficial para que todos possam ouvir o que é a melhor canção da artista até o momento.

A maior qualidade da canção é que a mesma consegue unir perfeitamente todas as melhores qualidades da sonoridade recente da artista de maneira certeira e refinada. A produção constrói uma marcante, grandiosa e cativante mistura que combina muito bem electropop, hyperpop e electro house, conseguindo criar uma batida que, em nenhum momento, perde o foco ou parte para a cacofonia sonora, em que todas as peças estão lindamente ligadas umas às outras de maneira fluida. O resultado é algo que carrega o DNA da artista e, ao mesmo tempo, coloca a mesma em outro patamar. E parte disso vem da sua composição.

Pop Sound é sobre música, ou melhor, sobre o lugar da música no mundo atual, especialmente da música da Kim. É uma temática bem interessante que precisa ser muito bem trabalhada para não cair em um mar de pretensiosidade. Felizmente, o resultado aqui mescla bem reflexões filosóficas com a estrutura de uma canção pop, criando um trabalho com maturidade artística e estética. Gosto especialmente dos versos em que a Kim questiona as gravadoras ao entoar “What's your position? Your holy mission?/ Shoot at the stars, head first collision”. Por fim, a cantora entrega uma ótima performance que começa a mil por hora e termina da mesma maneira.

Dessa maneira tão inspirada, a Kim Petras vai reconstruindo a sua carreira como poucas artistas têm a chance de alcançar.
nota: 8,5

Muitas Ideias

ROCKSTAR
Pabllo Vittar & Villano Antillano


Sabe quando existem muitos ingredientes em um só prato que poderiam facilmente ser retirados e o resultado seria melhor? Então, ROCKSTAR, da Pabllo Vittar, tem exatamente esse problema.

Primeiro single do álbum Lost In Lust, a canção poderia ser um grande acerto se pudesse polir de verdade todos os ingredientes que a compõem, pois, ao final, fica a sensação de que várias ideias boas não conseguiram ganhar vida de verdade. A produção mistura funk, eletrônico, industrial, latin pop, EDM, pop rock e hyperpop, mas não consegue unir todas as pontas de maneira a criar algo realmente coeso.

Em cerca de dois minutos e meio, a canção parece, no mínimo, três unidas em uma só, que não se fundem para criar uma música que faça a gente ficar empolgado de verdade. Preciso dizer, porém, que gosto desse caminho para a Pabllo, pois dá versatilidade para a sua discografia. Além disso, as ideias separadas são boas, especialmente o começo funk/eletrônico e seu finalzinho mais puxado para o EDM. Faltou foi a ligação entre esses dois pontos. Outro problema é que a brasileira parece mais uma convidada da rapper porto-riquenha Villano Antillano que, felizmente, entrega uma boa performance.

Espero que esse começo seja apenas a ponta do iceberg e que o álbum possa realmente se aprofundar nessas ideias.
nota: 6,5

18 de agosto de 2026

3 Por 1 - Yseult

Now or Never
Freak
Freak (feat. JT)
Yseult

Mais conhecida devido à participação em Alibi e por ter se apresentado na abertura dos últimos Jogos Olímpicos, a cantora Yseult é o tipo de artista que fica circulando aos arredores do mainstream, mas ainda não teve o seu momento. E isso é uma pena, pois a cantora entregou, este ano, duas das melhores canções do ano.

Possivelmente, Now or Never e Freak devem ser canções que fazem parte do próximo álbum da cantora e, sinceramente, que isso seja indicativo dos rumos do trabalho, pois ambas são canções simplesmente sensacionais. Na verdade, Freak é mais do que sensacional e, sim, genial. Quando ouvi pela primeira vez, não esperava que a cantora fosse entregar algo tão espetacular como essa mistura incrível de new jack swing, contemporary R&B e dance-pop, que recria de maneira perfeita uma estética dos anos oitenta, especialmente a sonoridade da Janet Jackson, com toques de Salt-N-Pepa e En Vogue.

Respeitosa, excitante, elegante, divertida, nostálgica, dançante, moderna e irresistível, Freak é um trabalho tão especial no momento que consegue ser tantas coisas ao mesmo tempo e, mesmo assim, nunca soar como uma colcha de retalhos com peças demais. Tudo se encaixa de maneira tão ideal que não há como não se deixar levar pela batida frenética. E um dos motivos para a canção realmente dar liga é a presença refinadíssima, sensual e poderosa dos vocais de Yseult, que domina a canção em uma performance apoteótica e deslumbrante. Na versão remix, a presença da rapper JT dá mais afirmação às influências do rap de Salt-N-Pepa, criando ainda mais essa atmosfera sem fazer a canção perder valor artístico. Na verdade, a presença da rapper poderia ser mais explorada, pois está limitada apenas a um ótimo verso no começo da canção.

Em Now or Never, a produção dá uma leve errada no tempo de duração da canção e na sua estrutura mais contida, que poderia facilmente sustentar mais tempo para explorar o seu excepcional instrumental. Todavia, o resultado é ainda sensacional devido, novamente, à qualidade de emoldurar uma sonoridade oitentista tão bem. Dessa vez, o objeto escolhido é o synth-pop, que tem toques deliciosos de R&B. Com um instrumental impecável, que poderia ter um final mais apoteótico, a canção também deixa bem clara a versatilidade e o potencial vocal da cantora, que parece tirar inspiração de Whitney Houston nas suas canções dançantes/mid-tempo da década.

Espero que Yseult possa ter o reconhecimento que merece, pois, só com essas duas canções, a mesma já deixou no chinelo álbuns de grandes nomes do pop atual.
notas
Now or Never: 8,5
Freak: 9
Freak (feat. JT): 8,5

17 de agosto de 2026

PinkRobinson

WannaCry
Ninajirachi & Porter Robinson


Nem sempre uma comparação é para mostrar os lados negativos de um objeto de estudo. Por exemplo, a canção WannaCry, parceria dos DJs Porter Robinson e Ninajirachi, soa como se fosse uma versão turbinada de uma canção da PinkPantheress.

A canção é uma excepcional electropop com electro house que mostra a sinergia dos dois envolvidos, especialmente devido a podermos notar as influências de cada um sendo bem exploradas e fundidas. Com um instrumental realmente impressionante, a canção ganha traços que facilmente poderiam ser de outros artistas que, nesse caso, é o da PinkPantheress. A batida até pode ser mais grandiosa que a que a cantora entrega normalmente, mas, sinceramente, WannaCry tem a mesma vibe atmosférica que a mixtape Fancy That, terminando como se fosse algo que a mesma pode alcançar no futuro.

Todavia, isso não tira em nada o brilho da produção dos DJs, já que é claro que a canção tem uma personalidade bem distinta devido à presença de ambos. E um desses motivos é que ambos cantam na canção. Claro, envolvidos em uma dose de efeitos vocais, Robinson (frequente aqui no blog) e Ninajirachi conseguem criar um vínculo entre os dois e com quem escuta de maneira natural, o que os diferencia de canções produzidas por atuais expoentes do eletrônico. Além disso, a intrigante composição é outro ponto de destaque, pois parte da visão de vírus de computador para falar sobre uma relação tóxica, e isso faz a gente entender que o real entendimento artístico dos dois é algo bem acima da média.

Quem sabe uma parceria de um dos dois com a PinkPantheress não resultaria em algo realmente genial? Sonhar não paga imposto.
nota: 8,5

Kelly Still Got It!

I'd Be Lyin'
Kelly Clarkson


Não tem como duvidar que, além de ser a maior vencedora de todos os tempos de um reality musical, a Kelly Clarkson é um dos maiores nomes do pop surgidos nos anos 2000. E, mesmo após tantos anos, a cantora ainda está em “forma” ao entregar uma canção tão boa como é o caso de I’d Be Lyin’.

Lembrando muito a sonoridade da cantora feita por volta de 2010, a canção é uma eficiente, empolgante e contagiante pop rock com toques de synth-pop e country pop. Não passa nem longe de ser algo novo, mas a produção entrega mais do que uma canção sólida, já que temos um cuidado extremo com a instrumentalização, que vai crescendo aos poucos até o seu final realmente grandioso. Entretanto, o grande destaque da canção é, como sempre, a presença magistral e magnética da Kelly. Com a sua qualidade vocal tão precisa, que domina qualquer canção com perfeição, e uma versatilidade pouco vista, a cantora adiciona boa parte da emoção e dá personalidade a I’d Be Lyin’.

Se fosse nos tempos de vacas gordas comercialmente da Kelly, o single seria facilmente topo das paradas. De qualquer forma, o resultado ainda deixa claro que a Kelly continua sendo uma grande artista.
nota: 8