25 de setembro de 2026

A Favorita

La Nieve
Guitarricadelafuente


Muitos estão achando que o Oscar de Melhor Canção já tem o nome da Taylor Swift, mas a história não é bem essa. Atualmente, a grande favorita é a canção La Nieve, do artista Guitarricadelafuente.

A canção é tema do filme espanhol La Bola Negra, que vem ganhando muita atenção não apenas pela música, mas também com possibilidades reais de vencer várias categorias, incluindo a de Melhor Filme. Também como ator do filme, o cantor entrega uma canção que realmente tem chances reais de vitória, pois é um trabalho que emana características clássicas de um tema tradicional, ao mesmo tempo que encontra uma personalidade completamente própria.

Longe de ser uma Skyfall, La Nieve é uma emocional, tocante, sentimental e forte balada art pop/chamber pop, com uma instrumental à base de piano, mas que vai lindamente sendo introduzida por novos instrumentos, e isso dá uma nova força para a canção. Além disso, a performance de Álvaro Lafuente Calvo, nome de batismo do cantor, é tão contida e, ao mesmo tempo, tem uma força melancólica que faz a gente se sentir completamente envolvido pela canção, quase como se estivéssemos ouvindo uma performance ao vivo e devastadora. A composição é simples, mas de uma poesia delicada e pura que faz a gente entender um pouco da pungência que o filme quer passar: um épico intimista na vida de três homens gays em diferentes momentos da história da Espanha.

E, queridos fãs da Taylor, é melhor deixar a barba de molho, pois acredito que já temos a canção que vai vencer o Oscar.
nota: 8


Nada em Cima de Nada

Patient Zero
Taylor Swift

Para celebrar uma das dezenas de novas versões de The Life of a Showgirl, intitulado agora com o subtítulo de The Encore, a Taylor Swift lançou o single Patient Zero. E, novamente, a cantora nos deu nada.

A canção até começa interessante e dando a impressão de que vai chegar a algum lugar, mas, no momento em que a batida real começa, tudo é levado para o lugar de sempre. O resultado é uma sonolenta, formulaica e pouco criativa alt-pop/indie pop que recria basicamente os mesmos traços de todas as canções do álbum. Ou seja, é a mesma canção novamente com uma embalagem levemente diferente.

O pior de Patient Zero é a performance automática, sem vida e sem graça da Taylor, que deixa a canção ainda mais sem vida e desinteressante. Longe de ter uma grande voz, a cantora já mostrou que pode entregar performances mais interessantes do que, ao que parece, aqui ter gravado às sete horas da manhã, depois de chegar da balada. A composição é um ponto que poderia salvar a canção, pois apresenta uma boa escrita. Todavia, novamente, ouvir a artista reclamar de algum de seus ex-namorados pela milésima vez é puxado e irritante.

Tenho certeza de que a canção vai ser um sucesso, sem dúvida, mas é por conta do status da Taylor no mainstream e não por qualidades próprias.
nota: 5,5

23 de setembro de 2026

Primeira Impressão

Ambiguous Desire
Arlo Parks




Uma Segunda Chance Para: Spotlight

Spotlight
Jessie Ware


Apesar de ser figura carimbada aqui no blog ao longo dos anos e receber as merecidas aclamações, a história da Jessie Ware no blog tem um momento que precisa ser reparado: a resenha de Spotlight. Na época do lançamento, dei um ótimo 8 para a canção, mas isso foi injusto demais, já que a faixa merece muito mais devido a ser, sem nenhuma dúvida, uma das melhores dos dezoito anos do blog.

Lançada como primeiro single do já lendário What's Your Pleasure?, a canção foi a responsável por iniciar a nova fase da carreira da cantora ao seguir uma direção sonora mais pop/post-disco/eletrônica. Além disso, foi o ponto de mudança da percepção do público em relação à artista, levando-a para um novo e merecido patamar de reconhecimento do público e da crítica. Mesmo elogiando a canção, só tive noção da magnitude da produção assinada por James Ford ao longo dos anos, pois a faixa foi crescendo e crescendo de uma forma em que todo o brilhantismo só pudesse ser revelado, ao menos para mim, depois de um tempo e de uma certa distância das minhas primeiras impressões.

Épica, grandiosa e atemporal são as três principais e maiores qualidades da canção, mas elas não se limitam ao trabalho estupendo da sua construção. A inspiração é bem clara ao se apoiar em uma sonoridade disco dos anos setenta de nomes femininos como Diana Ross e Donna Summer, mas a produção adiciona doses cavalares e primorosas de soul, house, acid house, eletrônico e pop soul, criando uma batida esplendorosa, cativante, elegante e, principalmente, única. Sejamos sinceros: Spotlight é o tipo de canção que, até hoje em dia, é muito difícil de ouvir devido à sua maestria melódica e à sua personalidade sonora totalmente fora da curva. A canção tem mais de cinco minutos e meio de duração em uma produção lotada de texturas, camadas e nuances que vão sendo desenroladas ao longo de uma das mais exuberantes instrumentais do pop moderno. E tudo isso é sustentado pela genial performance da Jessie.

Até então, a cantora era conhecida pela sua voz sedosa, elegante e cativante, mas aqui tudo é elevado para outro patamar devido a como a sua voz casa magicamente com o estilo da canção, fazendo-a ganhar ainda mais força devido à sua presença acachapante. Na verdade, a performance de Jessie é a cola que une todos os elementos, pois, ao mesmo tempo, sua voz dá todo o apelo emocional que se conecta de maneira direta com a atmosfera sonora e também vai transitando belissimamente por todas as mudanças que a canção apresenta, sendo as texturas colocadas ao longo da sua duração outro ponto importantíssimo para o resultado final. Por exemplo, a canção começa de maneira contida e quase como uma balada, em que temos um instrumental mais “clássico” como base para a voz da Jessie, e é como se um portão de ouro e diamante se abrisse para o paraíso. E a magistral composição fecha a trindade de maneira brilhante ao falar sobre desejo e paixão da maneira mais sofisticada, fina, envolvente e de um senso pop perfeito.

Spotlight é uma das canções mais importantes da década, pois foi o estopim inicial para a onda disco/eletrônica que dominou boa parte do pop nos últimos anos. Além disso, é a canção que fez Jessie Ware se tornar uma força pop merecidamente reconhecida. Então, nada mais justo que a nota seja a mais perfeita possível.
nota: 10

22 de setembro de 2026

Sample Perfection

A Good Day
Anderson .Paak & Cordae


Usar um sample é quase como uma arte, pois o resultado pode ser uma obra de arte ou um desastre. Em A Good Day, o pêndulo puxa claramente para a primeira opção.

Single do projeto em parceria do Anderson .Paak e Cordae, a canção é uma estilosa e solar pop rap/neo-soul com toques de funk, que é um trabalho rápido, rasteiro e certeiro na construção da sua batida leve, mas com um cuidado primoroso estrutural. Todavia, a grande qualidade da produção é o uso de quatro samples/interpolações de uma vez, de uma maneira inspirada: It Was a Good Day, do Ice Cube; Life is Like a Dice Game, do Nas; Lovely Day, do Bill Withers; e, por fim, It’s Like That, da Mariah Carey. Só que é desse último que a canção faz melhor a sua utilização, pois usa o Here we go now (What?), here we go now (What?), que aparece no começo da canção e no final, de maneira a construir o seu refrão e dar toda a sua personalidade, fazendo o mesmo ser incorporado de maneira primorosa.

A Good Day também é um exemplo perfeito de como dividir uma parceria entre dois artistas, de maneira a dar o espaço perfeito e na mesma medida para ambos. Além disso, a canção é elevada devido à química extraordinária entre Anderson e Cordae, que fica ainda mais impressionante, pois dois rappers normalmente apresentam uma aspereza natural de suas personalidades não se misturarem, e isso é o que faz a qualidade de muitas canções. Todavia, aqui essa química é o ponto de equilíbrio para a canção. Apesar da ótima composição, gostaria que tivesse sido melhor aprofundada, pois a canção parece explorar o sentimento de que, no fundo, ninguém está realmente bem atualmente devido ao que está acontecendo no mundo e que devemos ainda procurar a felicidade de alguma forma.

De qualquer maneira, a canção é um começo promissor para um projeto que pode ser algo sensacional ou, no mínimo, divertido.
nota: 8,5

Aperitivo

Sobremesa
Pitty


Sem lançar um álbum desde 2019, a Pitty finalmente irá fazer o seu comeback com o lançamento do seu sexto álbum, intitulado apenas PITTY. E, como primeiro single, foi lançada a faixa Sobremesa.

Sinceramente, a canção não é ruim, mas esperava mais da artista, especialmente no quesito composição. A letra aqui tem as características que a artista sempre mostrou ao longo da sua carreira, mas, infelizmente, é um trabalho mais fraco da sua discografia. Queria realmente gostar da letra, pois, tecnicamente, é um trabalho muito bem feito.

Todavia, o resultado é fraco e meio sem pé nem cabeça, o que fica difícil a gente se associar e entender de verdade o que a cantora quer falar, especialmente no sem graça refrão.

Felizmente, Sobremesa se salva bem devido à produção ótima, que entrega um vigoroso e potente rock alternativo, que tem um ótimo e robusto instrumental e faz a canção realmente se elevar de qualidade. Apesar de certo estranhamento em relação à produção dos vocais da cantora, a presença de Pitty é sempre muito impactante, porque a mesma preenche a canção com a sua força incomparável e atemporal, mesmo quando não tem em volta um material à altura.

Como apontei, a canção não é ruim, mas é mais um aperitivo gostosinho do que uma sobremesa inesquecível.
nota: 7

21 de setembro de 2026

Erotica Vibes

Lucky[Hymn]
Shygirl

Com o segundo single de SWALLOW!, a instigante Lucky[Hymn], a gente consegue entender qual é a vibe da nova era da Shygirl: Erotica.

Não sei de verdade se o álbum é realmente inspirado no álbum da Madonna, mas, sinceramente, ao unir a nova canção com o que a mesma entregou em Alyse, foi na hora que a minha mente foi levada a fazer essa conexão. E aqui a sensação é ainda maior devido à construção sonora, que mistura art pop/deconstructed club com toques de indie folk/rock, criando uma batida envolvente, sensual e madura, que parece claramente ter características básicas de canções como Rain e Deeper and Deeper. Não é, porém, uma referência copiada ou na cara, mas é quase como se a essência criativa fosse a linha que liga com o trabalho da rainha do pop.

A comparação também vai além da sonoridade, pois Lucky[Hymn] também tem semelhanças líricas ao ter uma composição robusta que reflete sobre sentimentos profundos, mas de uma forma acessível e bem talhada estruturalmente falando. Gostaria, porém, que a letra fosse “maior” para poder explorar ainda mais essa crônica sobre se entregar sem medo à paixão de maneira definitiva. Fechando o “pacote”, Shygirl entrega uma ótima performance que mostra uma versatilidade bem grande, especialmente se comparada à canção anterior.

E assim, aos quase quarenta e cinco minutos do segundo tempo de 2026, a Shygirl vai criando um hype para o que pode ser um dos álbuns do ano.
nota: 8,5