22 de março de 2026

A Genial Raye

Click Clack Symphony. (featuring Hans Zimmer)
RAYE


Ficar aqui relembrando o quanto talentosa é a Raye é meio que chover no molhado, mas, queridos leitores, é algo que precisa ser feito devido ao merecimento da própria. E isso é resultado de uma canção tão espetacular como Click Clack Symphony.

Depois de dois singles impressionantes, a cantora lança o que já considero como uma das melhores canções do ano e, também, da carreira da britânica. E isso é algo impressionante para alguém que já tem uma lista de canções no mesmo calibre. Entretanto, a cantora novamente acha maneiras de nos surpreender de maneiras completamente inesperadas. E isso se repete em Click Clack Symphony, pois estamos diante de uma das mais complexas, profundas e impressionantes canções dos últimos tempos. Tentar determinar qual é exatamente o gênero da canção é uma tarefa complicadíssima, já que é entregue um dos crossovers mais impressionantes que já há ao unir pop, R&B, progressivo, soul, spoken word, rap, música clássica/orquestral e vários outros subgêneros para criar uma obra épica e inesquecível.


Uma obra que expande os limites da sonoridade da cantora, mas que conversa plenamente com a construção da discografia recente da artista. Completamente imprevisível e sempre com surpresas impecáveis, o single encontra um lugar perfeito e único entre o artístico e o comercial, apresentando momentos de pura engenhosidade criativa, ao mesmo tempo que entrega momentos que facilmente seriam ideais para virarem virais. E isso mostra o quanto a produção entende todos esses elementos de uma maneira única e genial. Quando a gente ouve o resultado final da canção, consegue entender perfeitamente o que passa na mente da Raye, que tem como parceiros de produção Mike Sabath, responsável por Escapism, e o maestro/compositor/condutor/produtor Hans Zimmer, considerado um dos maiores nomes de trilhas sonoras do cinema e que tem no currículo trabalhos como O Rei Leão e Duna, ambos vencedores do Oscar, e só para citar dois exemplos. É dessa completa quebra de expectativas e dessa mentalidade distinta que é possível ter uma canção como Click Clack Symphony.

E é também devido à presença sobre-humana da performance descomunal da Raye. A cantora entrega, na mesma canção, versatilidade, alcance e força emocional que alguns artistas não têm a capacidade de entregar durante toda uma carreira. Isso é algo que a coloca em outro parâmetro, pois, quando a gente a vê ao vivo, entende que a versão de estúdio não esconde ou maquia nada que a mesma não seja capaz de fazer. Gigantesca, emocional, cativante e carismática, Raye carrega a canção de uma maneira que capta não apenas toda a grandiosidade da sua criação, mas, sim, está à altura de tamanho trabalho hercúleo. Liricamente, a canção é outro trabalho impressionante, pois mistura com exatidão profundidade temática e emocional com uma estética pop e de fácil digestão. A canção é uma história de quando a Raye estava na pior e foi ajudada a sair desse estado emocional com a ajuda das suas amigas, refletindo temas como solidão e empoderamento na contemporaneidade, com toques esperançosos e de autoajuda. Tudo isso é feito transitando entre o emocional, o divertido, o clichê e o profundo de uma forma que realmente faz a gente ficar hipnotizado pela maestria. Em especial, o refrão é o grande momento da canção, em que a cantora consegue misturar tudo de maneira perfeita:

Send the call out, send the call out
Calling all my baddest women, it's about to go down
Click-click-click clack symphony, I need that
Click-click-click clack symphony, I love the sound of it

Click Clack Symphony não prova, comprova ou reafirma o talento da Raye, pois isso é algo que a mesma já garantiu há algum tempo. A canção apenas é outro tijolo na construção de uma das melhores artistas do nosso tempo.
nota: 9

2 Por 1 - Holly Humberstone

To Love Somebody
Cruel World
Holly Humberstone


De tempos em tempos, acontece de eu me deparar com uma artista que, teoricamente, já deveria ter encontrado bem antes. Todavia, existem alguns momentos em que fica claro que o momento não poderia ser melhor, como, por exemplo, aconteceu com a Chappell Roan. Parece que o mesmo está acontecendo com a Holly Humberstone.

Preparando-se para lançar o seu segundo álbum, a cantora britânica parece ter todos os elementos para se tornar a próxima sensação do pop. E isso fica claríssimo com o lançamento de dois singles: To Love Somebody e Cruel World. Ambas as canções apresentam a mesma qualidade e, queridos leitores, são altíssimas. E, além disso, as duas canções apresentam aquele “je ne sais quoi” que não dá para entender, mas, sim, apenas sentir nos ossos. A grande qualidade da jovem é ter uma personalidade que parece remeter a outros nomes, como a própria Chappell, com alusões claras a Olivia Rodrigo e um toque de Sabrina Carpenter, além de uma sinceridade no estilo de Olivia Dean, mas que termina sendo uma artista que claramente tem uma personalidade bem definida e já cimentada. Isso é um dos fatores que dá base à minha esperança no futuro de Holly, mas, principalmente, ao resultado das duas canções.

Em Cruel World, a produção de Rob Milton é tão adoravelmente refinada que a gente se sente atraído logo nos primeiros segundos da canção e vai sendo envolvido ainda mais durante a sua iluminada execução. Claramente, a canção tem inspiração dos anos oitenta, mas busca não ser nostálgica para conseguir ser moderna de uma maneira natural e respeitosa. Todavia, a grande qualidade da canção é seu trabalho instrumental cativante e gracioso, em que dá para perceber a inclusão de influências de indie pop, alt pop e pop rock na construção da deliciosa batida synth-pop.

Outro ponto importante na canção é o vislumbre da lírica de Holly: uma temática batida e simples (uma paixão mal resolvida), envolta em uma estética bastante distinta, ao ter acidez, melancolia, delicadeza e um senso de divertimento precioso:

And now the lights are gettin' low
Mirrorballs and pheromones
I can be a social hand grenade
Tick-tick-tick-tick boom

Com a mesma qualidade, mas mais sentimental e dramática, está To Love Somebody. Com uma carga mais alt-pop/pop rock na base synth-pop, a canção é uma balada mid-tempo sobre o lado bom do fim de um amor, em que a cantora preserva as qualidades líricas já citadas, adicionando, porém, uma carga emocional realmente comovente, que tem seu ponto alto no simples, mas completamente eficiente refrão. E aqui também é possível ver com clareza o belo e cristalino timbre de Holly, que carrega as duas canções de maneira distinta, mas muito bem segura do que pode entregar.

Com esses resultados, podem anotar que Holly Humberstone é nome do futuro. Só resta um hit para chegar lá.
notas
To Love Somebody: 8,5
Cruel World: 8,5

15 de março de 2026

Primeira Impressão

To Whom This May Concern
Jill Scott



A Verdadeira Beleza

Pressha
Jill Scott


Uma das melhores canções de To Whom This May Concern, da Jill Scott, Pressha é uma aula completa de como fazer uma música que a gente ouve e já percebe que é uma obra de valor irrefutável.

Tudo começa com a sua impressionante e forte composição, que relata e reflete sobre a pressão sobre a aparência física da mulher e, especialmente, como essa pressão reflete nos relacionamentos amorosos. Jill narra como foi estar em um relacionamento em que, apesar do interesse do companheiro, ele não a assumia devido à cantora não estar nos padrões.

Devastadora, poderosa, crua e honesta, Pressha é um trabalho de uma força emocional imensa, pois, além de ter uma letra com esse poder, a presença de Jill arremata tudo devido à maneira tão desconcertante que ela carrega a canção, transitando entre o melancólico e contido até o devastador e explosivo. E tudo isso demonstrando claramente o seu atemporal timbre e um alcance vocal impressionante.

Sonoramente, a canção é uma refinadíssima, profunda e adulta neo-soul/R&B com injeções de jazz que é como vinho bom que, quanto mais tempo vai se passando, vai ficando ainda melhor devido à sua instrumentalização classuda e a um trabalho de produção magistral. E essa é a beleza de ouvir uma artista.
nota: 8,5

Primeira Impressão

the apple tree under the sea
hemlocke springs



Um Aceno Ao Seu Passado

Blow My Mind
Robyn

Ao longo da sua frutífera carreira, a Robyn já provou várias vezes que é uma das artistas mais excitantes, não importando qual é o seu momento atual. E, novamente, a cantora comprova isso ao lançar a ótima Blow My Mind.

Não é apenas a qualidade da canção, mas, sim, a sua ideia por trás. O single é, na verdade, uma espécie de remake/nova versão de uma canção da cantora que foi faixa do seu álbum Don't Stop the Music, de 2002. A ideia é bem interessante e poderia, porém, dar errado se não tivesse a produção refinada de Klas Åhlund, que consegue trabalhar a canção original de uma maneira tão peculiar, refrescante e iluminada sem perder a essência da canção original, que já é ótima.

Produzida originalmente por Guy Sigsworth, Blow My Mind é uma refinada mistura de electroclash com eletrônico e indie rock/pop que remete bem à estética do mesmo, especialmente quando a gente compara com outros trabalhos com a sua assinatura como, por exemplo, What It Feels Like for a Girl, da Madonna, e vários da Björk. Na nova versão, a canção mantém certa base, mas se transforma nas mãos de Klas Åhlund em uma canção menos intrigada para uma grudenta, despretensiosa e deliciosa mistura de electrofunk com alt-pop, synth-pop e toques de pop japonês. É uma mudança sentida, mesmo que não seja inimaginável, que constrói toda uma nova personalidade para a canção, tornando-se uma raridade: ser um remix que é, ao mesmo tempo, uma reconstrução e, também, uma nova canção.

Gostaria, porém, que a canção fosse maior para que a produção pudesse mostrar mais das suas ideias. Todavia, a presença sempre iluminada da Robyn em uma performance sensacional e uma composição muito segura e carismática compensam isso. Enfim, Blow My Mind é basicamente um unicórnio que mostra o quão raro é o talento da Robyn.
nota: 8

Kacey das Antigas

Dry Spell
Kacey Musgraves


Desde que ganhou o Grammy de Álbum do Ano por Golden Hour, a Kacey Musgraves entregou bons trabalhos que não estavam exatamente na mesma altura que o seu percursor. Não sei se com Middle of Nowhere isso vai acontecer, mas, pelo primeiro single, a ótima Dry Spell, existem boas possibilidades.

A grande qualidade da canção é vista quando a gente repara que a “velha” Kacey está de volta, mais precisamente a de Pageant Material. E isso acontece devido à composição ácida, divertida, ousada e autodepreciativa ao narrar sobre a “seca” sexual da mesma. Nunca um assunto como esse poderia resultar em algo tão bem escrito e maduro se não tivesse alguém com o tino lírico da cantora, pois a maneira como a canção é escrita dá para perceber toda a sua personalidade exposta e explorada. E isso é algo revigorante, já que é usado para explorar sentimentos como solidão e autocuidado.

Dry Spell também é um trabalho sonoro muito acima da média ao entregar um country-pop/pop rock mais do que eficiente, já que tem uma produção que acerta perfeitamente todos os pontos, criando uma canção que não foge das raízes e não está nada perto dos clichês do gênero atualmente. Poderia explorar mais o seu inspirado instrumental, mas, sinceramente, o trabalho aqui é tão bem amarrado que não há nenhuma ponta solta. E, com uma performance bem característica sua, que entrega exatamente o que a canção precisa e ainda adiciona personalidade, Kacey Musgraves está de volta aos velhos e bons trilhos.
nota: 8


A Volta (Quase) Inesperada

Club Song
The Pussycat Dolls

Em 2019/2020, o The Pussycat Dolls fez um ensaio de comeback quando foram impedidas pela pandemia de Covid. Seis anos depois, a girl group está de volta para finalmente ir para o comeback, mas apenas como um trio, já que duas integrantes não foram convidadas (Carmit Bachar e Jessica Sutta). E como primeiro single foi lançada a legalzinha Club Song.

A canção é uma divertida e dançante mistura de pop e electropop com toques de hip hop, latin pop e reggae, lembrando muito uma prima distante de Beep e Buttons. Todavia, o resultado está longe das suas parentes, pois parece que a produção limita a canção em entregar uma faixa teoricamente explosiva, mas que nunca chega ao seu total potencial. E, quando parece que vai, Club Song termina de maneira meio sem graça e anticlimática.

É preciso dizer, porém, que o refrão parece funcionar melhor do que o esperado, especialmente da metade para frente. Outra boa qualidade da canção é o seu clichê e quase vergonha alheia trabalho lírico, que entrega exatamente o que a gente espera de uma canção do The Pussycat Dolls. Voltando aos vocais principais, Nicole Scherzinger sempre foi uma competentíssima cantora, que precisou ir para o teatro musical provar isso, e entrega uma performance sólida e com personalidade de sobra. E dá para ver as outras integrantes, Ashley Roberts e Kimberly Wyatt, tendo algum espaço que poderia ainda ser maior.

Um pouco fora de “timing” para um retorno, o The Pussycat Dolls ainda tem fagulha que pode chegar em algum lugar. Veremos.
nota: 6,5