5 de agosto de 2026

Mãe & Filha

Talk To Me, Zara
Robyn & Zara Larsson


Existe um “meme” de que a Zara Larsson seria a filha/herdeira artística da Beyoncé. E, mesmo adorando a cantora, isso não seria algo menos preciso e verdadeiro. Todavia, eu posso ver a Zara como a “próxima” Robyn, e isso fica bem claro em Talk To Me, Zara.

Remix do single de Sexistential, a canção é o raro remix atual que realmente dá certo. E isso é devido à produção adicionar realmente mudanças que dão para a base original uma nova faceta sem perder a sua essência. Um equilíbrio bem administrado que, sinceramente, é quase um unicórnio perante tantos remixes que nem mereciam ver a luz do dia.

Quando resenhei o single, afirmei que Talk To Me é “uma refinadíssima e deliciosa synth-pop com toques de house e dance-pop que carrega perfeitamente a marca da personalidade da Robyn”. Conservando essa base, Talk To Me, Zara adiciona uma dose concentrada da sonoridade da Zara, dando bastante espaço para que a cantora também se apodere da canção. É um equilíbrio raro nesse tipo de canção, pois ambas as artistas têm espaço suficiente para brilharem e, também, criarem uma química real e deliciosa. Além disso, os versos da Zara são novos, criando ainda mais a sensação de uma parceria real e não apenas um caça-níquel para dar algum up comercial.

Com o resultado de Talk To Me, Zara, a visão é clara de que a Zara pode se inspirar ainda mais na carreira da Robyn, pois existe realmente uma ligação entre as duas.
nota: 8

4 de agosto de 2026

Fofo Até Demais

Less than a Lover
JENNIE


Dona de um dos melhores debuts solo das integrantes do Blackpink, a Jennie tem potencial para entregar canções melhores que a baladinha inofensiva Less than a Lover.

A canção é o tipo de música que é bonitinha, mas não faz peso algum e é completamente esquecível. Uma mistura simpática de bedroom pop com synth-pop e o que parecem ser toques de bossa nova, a produção cria uma canção que dá, ao menos, espaço para a cantora realmente deixar transparecer o seu talento vocal. Contida, delicada e com um timbre aconchegante, Jennie não tem muita dificuldade para carregar a canção, adicionando um pouco da sua personalidade genuína.

Less than a Lover é uma canção passável que poderia ter dado espaço para algo mais interessante na carreira da Jennie.
nota: 6,5

O Começo da Dominação

Ain't In LA
ADÉLA


Será que a Adéla realmente está a um passo da glória? E isso parece estar acontecendo com a repercussão extremamente positiva do desempenho de Ain't In LA.

Single do seu primeiro álbum, PRIMA, a canção não poderia ser melhor para começar a marcar a carreira da artista no mainstream, pois é um trabalho recheado de uma personalidade bem distinta. Uma “esquisita”, grudenta, sexy, marcante e envolvente mistura de alt-pop, trap e synth-pop, Ain't In LA tem uma produção que sabe lindamente equilibrar elementos que poderiam facilmente se tornar irritantes, como, por exemplo, a voz modificada entoando o verso de introdução, que se torna quase um interlude ao longo da canção. Isso cria uma canção madura, mas com um frescor autêntico que faz a gente querer entender quem é Adéla.

Gosto muito da presença da artista na canção, pois ela entrega uma performance segura e com personalidade bem delimitada, deixando claro que é uma artista com capacidade de segurar uma canção tão peculiar de maneira a extrair o seu melhor. A composição, porém, poderia ser mais refinada aqui e ali, mesmo sendo um bom trabalho que demonstra também uma capacidade de dialogar sobre assuntos íntimos ao mesmo tempo em que tenta ser esteticamente pop.

Adéla vai ascendendo de uma maneira que acredito que possamos estar diante da próxima estrela pop. Veremos.
nota: 8


Bad Girl

Sauna
Jessie Ware

Mesmo sem alcançar o mesmo impacto que os dois álbuns anteriores, a Jessie Ware entregou em Superbloom um dos melhores trabalhos do ano. E ainda nos presenteia com o lançamento de singles como a sensacional Sauna.

Uma das melhores faixas do álbum, a canção é uma cativante, atemporal e deliciosa italo-disco/funky disco/dance-pop que parece ter saído de uma sessão de gravação de Giorgio Moroder com Donna Summer, especialmente da que resultou no clássico Bad Girls. E isso é uma comparação celestial, pois estamos falando de uma das melhores canções da era disco.

Em Sauna, o grande mérito da produção é o primor da construção do instrumental, que demonstra um total domínio do material de inspiração devido ao resultado vintage, mas ainda soando moderno e encorpado. A composição é outro ponto altíssimo da canção, pois consegue fazer as mais deliciosas metáforas safadinhas sobre o desejo sexual, mantendo, porém, a elegância da Jessie intacta e graciosa. E a cantora entrega uma performance realmente inspirada, sexy e aveludada, em quase estado de graça.

Mesmo sem a repercussão que merece, Jessie Ware ainda continua no topo da sua força criativa.
nota: 8,5

3 de agosto de 2026

A História em Forma de Música

Danceteria
Madonna


Poucas canções já nascem com o peso da história já fazendo efeito na visão que as pessoas vão ter sobre elas. E apenas uma artista como a Madonna consegue fazer isso, como é o caso da já lendária Danceteria.

Melhor canção de Confessions II e da carreira da artista, especialmente da sua fase madura, o single é um daqueles momentos em que as pessoas que talvez não entendam a importância da artista podem ter essa visão em apenas uma única música. Nomeada devido à boate que a cantora frequentava no começo da carreira e que é basicamente o local onde a mesma ganhou as suas bases artísticas e, também, de vida, Danceteria narra uma noite comum no local em que a artista vai encontrando nomes que fizeram e/ou fazem parte da sua vida e carreira.

É basicamente um quem é quem da cena criativa pop/eletrônica da época, que também é a base de parte significativa da música e das artes em geral. O grande toque de mestre é a maneira divertida, graciosa e fluida como a letra é construída, pois é como se fosse quase uma conversa em que a Madonna apenas narra, com um “interlude” do refrão, criando uma estrutura espetacular e fluida que encapsula a intenção lírica e, claro, a produção de uma vez só. E é aqui que está o melhor momento vocal da Madonna, pois a maneira como entoa os versos em uma mistura de fala e rap funciona genialmente, sendo contrabalanceada pela parte cantada em um refrão extraordinário. Sonoramente, Danceteria é uma irresistível e viciante diva house com dance-pop, nu-disco e french house que arremata tudo como um laço dourado cravejado de brilhantes.

E, queridos leitores, isso é história de verdade vinda de quem continua a fazer história.
nota: 9

A Balada da Slayyyter

brand new chanel$
Slayyyter


Parece que a Slayyyter vem ocupando o posto que antes era da Charli XCX ao ser a nova “diva do pop/indie eletrônico fora do mainstream”. Depois do sucesso de crítica de Worst Girl in America, a cantora já prepara o seu sucessor/trabalho-irmão intitulado Worst Man in America. Como primeiro single foi lançada a sensacional brand new chanel$.

Apesar de manter a mesma personalidade, a canção apresenta uma mudança perceptível na direção da sonoridade da artista ao seguir uma estrutura mais tradicional e menos experimental para a mistura de electropop/dance-pop com elementos de french house e EDM. E, sinceramente, isso é realmente muito interessante, pois o resultado é algo maduro, poderoso e inesperado que, ao mesmo tempo, casa muito bem com o que a gente espera da Slayyyter. É como se fosse a outra face de uma mesma moeda, mas que vale exatamente o mesmo, e é um valor bem alto.

Com um instrumental sensacional, o grande toque de mestre da produção é o sample da canção Beat Up Chanels, que dá a cola ideal para selar o recente passado da artista com esse atual presente. Outro grande destaque da canção é a sensacional presença da Slayyyter, que deixa de lado efeitos vocais estilizados e entrega uma performance mais natural, deixando a gente perceber de fato a extensão da sua voz e seu poder, mantendo, claro, a sua personalidade bem intacta. A canção também funciona quase como uma balada na visão da artista, pois a pungente e honesta composição de brand new chanel$ fala abertamente dos seus sentimentos quando descobriu uma traição do ex-namorado um dia antes de lançar o álbum anterior.

Mais um grande momento da carreira da Slayyyter, que parece estar apenas começando.
nota: 8,5