15 de março de 2026

Primeira Impressão

To Whom This May Concern
Jill Scott




Considerada uma das mais importantes artistas de R&B/soul surgidas nos anos dois mil, Jill Scott passou mais de uma década sem lançar um novo trabalho. Esse hiato terminou este ano com o lançamento do seu sexto álbum, To Whom This May Concern. E, apesar de algumas falhas, o trabalho deixa bem claro o motivo para a cantora ser considerada uma lenda moderna.

Com quase uma hora de duração e dezenove faixas, o álbum é uma obra que explora, de forma madura, profunda e inspirada, várias temáticas ligadas à essência da cantora, partindo do ponto de vista de uma mulher negra refletindo sobre ancestralidade, negritude, empoderamento, amor, autocuidado, sexo, sororidade e fé. É realmente impactante e de uma força emocional impressionante, pois é facilmente notado que estamos diante de letras que são fruto da vivência e reflexão de Jill ao lado de seus colaboradores. E esses trabalhos falam com quem escuta em diversos níveis de consciência e, quando a gente realmente deixa as palavras serem assimiladas, ficam ainda mais potentes suas mensagens. Não são todas as faixas que vão encontrar, em todos que escutam, as mesmas conexões, mas a beleza disso é que sempre vai existir alguma canção aqui que terá algo a ser admirado pessoalmente.

Na minha visão, o grande momento lírico em To Whom This May Concern é na devastadora Pressha, em que a cantora relata sobre o peso da sociedade sobre a aparência de uma pessoa, afetando suas relações amorosas. Tema espinhoso que, particularmente, nunca tinha visto dessa maneira explanado e que ganha uma crônica mordaz, ácida, desconcertante e crua. E toda essa força dramática é “narrada” pela presença inesquecível da voz sedosa e grave da cantora.

É óbvio que uma artista como Jill Scott terá total domínio do seu instrumento para conseguir entoar toda a grandiosidade do que as composições se propõem a debater, mas é preciso apontar que as performances aqui também mostram a imensa versatilidade da cantora. Temos a cantora dramática, a cantora mais descontraída, a cantora sensual, a cantora espiritual e temos a cantora que puxa mais para o soul, para o R&B, para o rap ou para o jazz, além de outras facetas. E, por vezes, ouvimos a mistura de tudo isso em apenas uma performance. Um dos momentos mais interessantes é no ótimo single Beautiful People, que é o tipo de canção para quem gosta de verdade de música, pois é a exemplificação do talento em forma de canção, devido à presença magistral e escultural da cantora.

Sonoramente, o álbum é uma belíssima e carnuda mistura de neo-soul e R&B, adornada e enfeitada por hip hop, gospel, jazz, rap e blues, criando um trabalho classudo, atemporal, gracioso e de uma riqueza instrumental gratificante. Entretanto, devido à quantidade de faixas, a produção tem certa dificuldade de manter a mesma qualidade do começo ao fim, criando alguns momentos de instabilidade que deixam o álbum com alguns bolsões sonoros. Não são grandes tropeços ao final das contas, mas fazem perder alguns pontos.

Outras faixas que precisam ser citadas como destaques ficam por conta da poderosa e inspirada neo-soul/jazz Be Great, com a participação do trompetista Trombone Shorty, e da elegante, divertida e suingada Norf Side, em que Jill mostra o seu lado rapper com a presença de Tierra Whack.

Com To Whom This May Concern, Jill Scott volta ao seu devido lugar — e que não haja um hiato que seja tão grande como o de uma década.

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