hemlocke springs
Com a ascensão do TikTok e sua influência na indústria da música, é preciso aprender a separar o joio do trigo. E, quando estamos diante de uma artista realmente talentosa que se valeu da plataforma, é realmente gratificante — como é o caso da cantora hemlocke springs, que lançou seu auspicioso debut, the apple tree under the sea.
Artista independente, Isimeme Naomi Udu — nome verdadeiro da cantora — usou o TikTok para ajudar a iniciar sua carreira, ganhando notoriedade com o single viral Girlfriend. Apesar de ainda não ter assinado com uma gravadora, a artista demonstra, em seu álbum de estreia, um frescor genuíno ao entregar um trabalho excitante e cheio de personalidade, mesmo que longe de ser perfeito. Sua maior qualidade e grande destaque é a sonoridade surpreendente que ela percorre: uma mistura de synth-pop/electropop baseada e inspirada na estética dos anos oitenta, mas que busca personalidade genuína ao se fundir com um pop/pop rock alternativo, criando uma amálgama completamente única, fortalecida pela produção acertada e assertiva de Burns — produtor de boa parte de Chromatica, de Lady Gaga, entre outros artistas.
Com a coprodução da própria artista, the apple tree under the sea consegue emoldurar muito bem essa sonoridade ao não tentar encontrar saídas fáceis para “maquiar” o som com adições de texturas de assimilação mais tranquila para o ouvinte. A cantora parece ser do tipo que, logo de cara, já entende bem sua personalidade artística e aposta totalmente nesse caminho. E isso é essencial para um álbum com pouco mais de meia hora de duração, já que há tempo suficiente para ela apresentar sua identidade de forma exemplar. É preciso dizer, porém, que o álbum também termina evidenciando o que ainda falta para hemlocke springs: maturidade.
Isso não é exatamente um grande problema, pois, se a questão de uma artista novata é a falta de experiência, fica claro que ela precisa apenas de tempo e trabalho para corrigir esse tropeço. No álbum, porém, essa “inexperiência” faz com que o trabalho fique abaixo do que suas ideias poderiam alcançar, já que falta, em alguns momentos, um melhor desenvolvimento na execução e na construção das faixas. Quando a produção acerta plenamente, o álbum entrega momentos como a ótima sense (is), uma soturna e deliciosa synth-pop/pop rock com construção sonora aveludada e encorpada, em que a cantora encontra seu primeiro grande ápice na carreira. Mesmo que o restante do álbum não esteja no mesmo nível, é possível perceber claramente o potencial de hemlocke springs.
Compondo todo o álbum ao lado de Burns, a artista deixa evidente que possui uma lírica clara, distinta e provocativa, capaz de transitar entre o dramático, o poético, o desconcertante, o intelectual e o pop sem medo de correr riscos. Misturando referências bíblicas, a cantora impõe uma personalidade interessante ao construir suas crônicas, a ponto de nos fazer pensar no que poderá alcançar com o passar dos anos — embora nem sempre fique totalmente claro o que ela deseja expressar em algumas faixas. Ainda assim, é evidente que ela possui um ponto de vista único, praticamente sem concorrência no cenário atual. Um dos melhores momentos líricos está na inspirada electropop com toques de EDM/house, moses, que utiliza citações diretas da Bíblia para criar uma composição pungente sobre se entregar demais e não receber o mesmo em troca.
Além disso, a canção também evidencia que hemlocke é dona de uma voz multifacetada, dinâmica e de timbre delicioso, que nunca parece se acomodar, sempre buscando novas formas de explorar sua capacidade vocal. Outros momentos de destaque incluem o épico e dramático abre-alas the red apple, a hilária e ácida head, shoulders, knees and ankles, a excêntrica w-w-w-w-w e, por fim, a surpreendente construção instrumental de be the girl!.
Com the apple tree under the sea, hemlocke springs inicia uma carreira que promete ser algo que valerá muito a pena acompanhar.


Nenhum comentário:
Postar um comentário