Beyoncé
Depois do imenso sucesso e impacto de Dangerously in Love, a Beyoncé precisava comprovar definitivamente todo o seu potencial artístico. Seu segundo álbum solo deveria ser o ponto de ruptura definitivo entre ser taxada como uma promessa e alcançar o estrelato absoluto. E eis que surge B'Day, que cumpre esse papel, mas não pelos caminhos óbvios que se poderia esperar.
Lançado em 2006, o álbum é, hoje, na discografia da Beyoncé, um ponto ao qual nem todas as pessoas dão exatamente o devido valor, especialmente por estar espremido entre dois fenômenos: o debut e o terceiro álbum, I Am... Sasha Fierce. Todavia, sem a sua existência da maneira como foi concebido, realizado e recebido, não teríamos a atual Beyoncé. Com o imenso sucesso que obteve nos três anos anteriores ao lançamento, a cantora explodiu como um dos maiores nomes daquele momento da música mainstream, sendo reconhecida pelo mundo inteiro.
Aproveitando a exposição e capitalizando o momento, Beyoncé decidiu se aventurar em outros mundos, mais especificamente na atuação. Depois de ter feito sua estreia em um filme musical para TV em 2001, chamado Carmen: A Hip Hopera, adaptando a ópera Carmen, Bey estreou no cinema com Austin Powers in Goldmember em 2002 e, no ano seguinte, como protagonista de The Fighting Temptations. Em 2006, a cantora aparece como coadjuvante em The Pink Panther, mas seria outro filme que iria influenciar pesadamente a criação de B’Day: Dreamgirls.
Adaptação do musical da Broadway de mesmo nome de 1981, o filme acompanha a carreira e a vida de três integrantes de uma girl group durante a sua ascensão, término e reencontro, colocando em foco as relações entre elas e as pessoas que as rodearam ao longo das décadas de sessenta e setenta. Apesar de não ser oficial, o musical foi escrito com base na história das The Supremes, grupo liderado por Diana Ross, sendo que Beyoncé ficou com o papel equivalente (Deena Jones). O filme foi um sucesso de público e crítica, mas o grande destaque foi Jennifer Hudson, que venceu o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante. Para Bey, o período de preparação e gravação do filme foi a inspiração para a produção de B’Day. E uma das grandes influências aparece justamente na sonoridade do álbum.
Ao contrário de Dangerously in Love, que variou entre experimentos e lugares comuns, B’Day é basicamente uma jukebox inspirada nos anos setenta que transita por vários gêneros e estilos da época (anos sessenta e, principalmente, dos anos setenta e começo dos oitenta), criando uma personalidade completamente e indiscutivelmente única para o álbum. Esse caldeirão sonoro vai buscar inspiração para a construção de sua base no R&B e no funk, pincelando doses de gêneros como pop, hip hop e rap. E acredito que uma das razões para Beyoncé ter conseguido escolher esse caminho foi a maneira como trabalhou. Primeiro, a artista se desvinculou do seu pai, que até aquele momento era o seu empresário e tinha moldado sua carreira solo e com o Destiny’s Child; e, segundo, a forma como escolheu e lidou com os parceiros de criação.
Além de escolher um leque bem amplo e diferenciado de nomes — Darkchild, Swizz Beatz, The Neptunes, entre outros —, a cantora decidiu gravar as faixas ao mesmo tempo, indo de estúdio em estúdio para verificar os trabalhos e, claro, adicionar a sua visão. Isso meio que criou uma competitividade entre eles, mas também dá para notar que a sonoridade como um todo ganhou uma linha de sustentação única que dá a coesão necessária para que todas as escolhas criativas possam se sustentar. E é preciso muita sustentação, pois B’Day não é nada sutil em suas escolhas. Na verdade, o álbum é exagerado, grandioso, épico, explosivo, descontrolado, desconcertante e completamente imprevisível. Todavia, é exatamente isso que o faz funcionar. Sem essa imensidade criativa aplicada a 200 km por hora, o álbum facilmente terminaria como algo pálido e insonso. E esse não é o caso de B’Day.
Na versão original, o álbum tem 13 faixas, mas uma é apenas um voice intro e a outra é uma versão estendida. Com, então, 11 faixas, B’Day não tem muito tempo para deixar lacunas, tropeçar ou criar bolsões sonoros. E nem se fosse vontade da produção, pois o álbum se comporta como uma metralhadora desregulada que vai atirando sem parar e, basicamente, acertando todos os alvos — a maioria deles na mosca. Tudo começa logo de cara com a canção que abre o álbum e também foi escolhida como primeiro single: Déjà Vu.
Consigo entender que, quando foi lançada, a canção recebeu uma recepção mista, especialmente devido à comparação com Crazy in Love, já que ambas funcionam como abre-alas do álbum e têm a participação de Jay-Z. Além disso, a canção é inferior em termos de qualidade, mas, com o passar dos anos, Déjà Vu envelheceu como um vinho da melhor qualidade, transformando-se na melhor canção do álbum e em um trabalho que merece ser redescoberto.
Apesar de qualquer comparação estética, o single é esteticamente bem diferente de Crazy in Love, mesmo tendo inspirações na sonoridade dos anos setenta. Em Déjà Vu, o mergulho na inspiração que mistura funk e R&B é bem mais profundo, pois aqui temos uma remodelação partindo de uma fonte mais clara e definida, ao contrário da outra canção, que é uma criação que tem inspirações, mas possui uma estrutura mais modernosa devido à adição de pop na sua base. Aqui é a visão da cantora sobre os gêneros com um verniz moderno, especialmente devido à adição do rap. Todavia, o single é ainda mais incrível devido à impressionante instrumentalização feita para a canção, que dá um corpo suculento, único e impressionante. Dá para sentir a sensualidade pingando da batida, assim como a gota de suor caindo no corpo em um dia quente. A canção é grudenta e dançante, mas de uma maneira que a gente já havia ouvido antes ou que estava sendo feita na época. E acredito que, por isso também, a canção não tenha tido o mesmo resultado comercial que era esperado até então para o seu maior sucesso. Todavia, isso não foi um problema, pois Beyoncé iria voltar ao topo das paradas com força total.
Terceiro single do álbum, Irreplaceable ficou dez semanas em primeiro lugar na Billboard e se tornou um dos maiores sucessos da década de 2000. Todavia, é a canção que menos tem a ver sonoramente com o resto do álbum, pois sua construção é de um R&B/pop com toques de country pop mais presentes naquele momento na música do que nos anos setenta. Só que o que faz a canção se associar com o conceito do álbum é a sua composição. Escrita por Ne-Yo para Chrisette Michele, mas originalmente pensada para uma perspectiva masculina, a canção quase não entrou no álbum devido a não se encaixar na vibe, mas o produtor Swizz Beatz aconselhou a cantora de que seria um erro deixá-la de fora. A cantora aceitou a sugestão e pediu que fossem alteradas algumas coisas nos instrumentais e nos vocais. E, obviamente, a escolha foi acertada devido ao imenso sucesso da canção. Inesquecível e pegajosa, o single tem uma conexão com a ideia do álbum justamente por sua composição.
Apesar de não se inspirar diretamente no filme e na personagem, a canção se associa à mensagem de empoderamento e independência que faz parte do arco de Deena em Dreamgirls, especialmente na sua relação com o personagem Curtis Taylor Jr., interpretado por Jamie Foxx. Além disso, o fator “pop” da canção é imenso, sendo especialmente relevante no seu atemporal refrão. Soma-se a isso a produção impecável que deu a Irreplaceable um verniz comercial excepcional ao conduzir com perfeição a batida simples, mas completamente grudenta, que logo nos primeiros acordes faz a gente já saber qual música vai tocar.
Se Irreplaceable é alusivamente ligada ao álbum, Listen é totalmente mergulhada no que Beyoncé construiu para o seu segundo trabalho. Colocada quase como um bônus no álbum, a canção foi uma das músicas escritas especialmente para a versão cinematográfica de Dreamgirls, sendo indicada ao Oscar (e que, na minha opinião, deveria ter ganhado). Uma power ballad soul/R&B que a cantora nunca tinha feito até então, Listen marca o momento de transição da personagem de Beyoncé, que se livra das amarras para se tornar livre artisticamente e pessoalmente. E é exatamente isso que também se reflete na trajetória da cantora, pois é aqui no álbum que ela ganha sua liberdade artística total.
E a composição reflete isso com uma construção poderosa, exaltadora e completamente viciante, que usa uma simplicidade lírica para explorar emoções profundas e de fácil assimilação para qualquer pessoa, independentemente de quem ouve:
De uma dramaticidade ímpar, com um instrumental épico e atemporal, a canção também consagra Beyoncé como cantora, pois é o tipo de música que não permite maquiagem ou truques no alcance, poder e força da voz. E isso a artista mostra de maneira sublime ao encarnar essa diva no estilo Mariah/Whitney, mas totalmente com sua própria personalidade. Dessa entrega, a canção acabou se tornando um dos grandes hinos para cantores com grandes vozes em talent shows. Um dos momentos mais marcantes foi quando Beyoncé cantou em dueto com Alexandra Burke na final de 2008 do The X Factor no Reino Unido, resultando em um dos momentos mais memoráveis de um programa desse tipo.
Todavia, a cantora não entrega grandes momentos vocais apenas quando a música é “propícia” para esse tipo de destaque, pois B’Day é a consagração definitiva da cantora-performer. Com essa característica de jukebox com inspiração bem definida, B’Day precisa de uma cantora que consiga não apenas segurar as mudanças sonoras e de estilo, mas também injetar doses cavalares de personalidade e força genuína. E é exatamente isso — e mais — que Beyoncé faz aqui ao mostrar, de maneira incontestável, toda a sua imensa versatilidade ao pular de uma canção para outra com maestria, fluidez, maturidade e naturalidade.
Um dos melhores trabalhos vocais do álbum aparece na eletrizante Suga Mama. Produzida por Rich Harrison, responsável por Crazy in Love, a canção é uma das minhas favoritas do disco ao ser uma espetacular, sensual, cativante e elétrica mistura de funk, soul e R&B que fica muito bem na linha entre homenagem, nostalgia e celebração de toda uma geração. Divertidíssima e sensualíssima, Suga Mama traz uma composição “tongue-in-cheek” sobre a inversão de papéis em relação ao sugar daddy, em que a cantora declara: “Let me be, I wants to be, gots to be / Your suga, give mama some suga, mama”.
Entretanto, a canção não funcionaria assim sem a presença de Beyoncé, que não só entende a vibe da música ao misturar sensualidade com certo humor, como também entrega uma performance vocal de tirar o fôlego quando, no clímax final, “perde” a linha e parte para uma “gritaria” que combina perfeitamente com o espírito da canção.
Outro grande momento vocal do álbum fica por conta da grande balada romântica R&B/soul Resentment. Originalmente escrita para Victoria Beckham — cuja versão vazou na internet anos depois —, a canção é interpretada com uma paixão palpável por Beyoncé, que, assim como a estrutura da música, começa contida e vai ganhando força até explodir em um devastador clímax emocional, no qual a cantora tenta entender o motivo de uma traição. Entretanto, o grande trufo da canção é que, após esse clímax dramático, ela se contém novamente quase em uma versão acústica, na qual Beyoncé mostra o lado mais vulnerável da sua voz, emoldurando perfeitamente o sentimento da música, que pode ser associado a um colapso nervoso em toda a sua extensão.
Durante a época de divulgação do álbum, também ocorreu a elevação da imagem de Beyoncé como grande performer, especialmente pela maneira como constrói suas apresentações. Boa parte disso veio da turnê The Beyoncé Experience, mas também de apresentações em eventos como o Grammy, programas de TV e da decisão de lançar clipes para todas as faixas no que foi chamado de B'Day Anthology Video Album, criando uma identidade única para o trabalho. Além disso, essa versão também serviu como uma edição deluxe que trouxe novas canções, como a parceria com Shakira em Beautiful Liar, em um aceno ao público latino.
Do álbum original, outros momentos de destaque ficam por conta da dançante R&B/bounce Get Me Bodied — sendo que a sua versão estendida ganha pontos devido ao seu memorável apêndice —, da batida frenética e da composição empoderada de Freakum Dress e, por fim, de Upgrade U, parceria com Jay-Z que acabou ficando um pouco esquecida, mas que é uma das melhores devido à sua estrutura e à batida que mistura bem o vintage funk/R&B com hip hop.
Ao final da era B’Day, o álbum vendeu cerca de 8 milhões de cópias, venceu um Grammy e cimentou definitivamente a carreira de Beyoncé. Então, o que esperar da cantora para o seu próximo trabalho, na época em que estava basicamente no topo? No próximo especial, irei revisitar aquele álbum que, em retrospectiva, entra no hall dos piores da sua carreira em termos de qualidade, mas que foi essencial para que ela pudesse ser vista como uma estrela pop.


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