Danny L Harle
Sempre é muito interessante quando ouvimos um projeto que nasce inteiramente da visão de quem costuma planejar trabalhos para outras pessoas — ou seja, álbuns em que o artista principal é um produtor. Isso porque podemos analisar com mais clareza qual é a visão desse produtor, sem a interferência ou a interseção com a perspectiva de outros artistas, especialmente cantores. Em Cerulean, o produtor Danny L Harle propõe exatamente esse exercício de entendimento em um álbum que acaba sendo, ao mesmo tempo, razoavelmente interessante e moderadamente decepcionante.
Conhecido por trabalhos de produção e coprodução para nomes como Charli XCX, Rina Sawayama, yeule, Shygirl, Dua Lipa e, especialmente, Caroline Polachek, o produtor entrega, em seu segundo álbum, um trabalho que, apesar de muito bem produzido e com bons momentos, carece de uma definição mais clara tanto conceitual quanto sonora. E esse é um “pecado” que chama atenção justamente pela experiência de Danny, criando a impressão de que ele só é tão bom quanto o artista para quem está produzindo.
O grande problema é que o álbum parece não saber se quer ser uma farofa pop, um pop alternativo ou um meio-termo entre esses dois caminhos. Na verdade, a questão não é exatamente ficar no meio, mas nunca estabelecer a “cola” que una todos os elementos — mesmo que a proposta fosse seguir uma lógica de jukebox, em que cada faixa representasse um universo diferente. Faltou uma linha de pensamento que funcionasse como espinha dorsal do projeto. Felizmente, quando analisado de forma isolada, o álbum apresenta acertos individuais consideráveis.
Cerulean mistura euro-trance, bubblegum pop, EDM, dance-pop e eletropop de maneira tecnicamente bem estruturada. Danny consegue criar faixas que exploram esses gêneros com competência e entregam instrumentais realmente sólidos. Um dos ápices do álbum surge quando ele retoma uma de suas principais parcerias ao entregar para Caroline Polachek a condução da elegante e densa “Azimuth”. Trata-se de uma euro-trance estilizada e eficaz, que ganha um impulso especial graças à presença única dos vocais da cantora, que adiciona uma carga expressiva de personalidade e carisma à faixa.
Outro momento acima da média é “Crystallise My Tears”, cujo instrumental combina clichês do eurodance com toques de progressive house. No entanto, o grande destaque está nas performances dos convidados e na química construída a partir de suas diferenças: de um lado, a presença mais “robótica” e melódica de Oklou; do outro, a performance poderosa e carismática de MNEK, que surge como uma quebra de expectativa extremamente bem-vinda. A faixa, inclusive, poderia ter se beneficiado de uma participação ainda maior do britânico.
Outros momentos dignos de nota incluem a parceria competente com Dua Lipa na atmosférica “Two Hearts”, a outra colaboração com Caroline Polachek em “On & On” e, por fim, a piegas — mas divertida — “Raft In The Sea”, com Julia Michaels.
Apesar dos tropeços e de ficar aquém do que seu talento sugere ser possível, Danny L Harle entrega em Cerulean um trabalho que vale o tempo investido para descobrir pequenas pérolas sonoras espalhadas ao longo do percurso.


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