1 de março de 2026

Primeira Impressão

The Romantic
Bruno Mars




Existe um restaurante perto da minha casa ao qual eu sempre vou ou do qual peço delivery. É um restaurante simples que vende comida do dia a dia no famoso “marmitex”. Todavia, é uma comida muito bem feita, gostosa e acolhedora, mesmo quando não está no seu melhor dia. E é exatamente assim que me sinto ao ouvir The Romantic, o aguardado quarto álbum da carreira de Bruno Mars.

Depois de dez anos sem lançar nada solo, pois 24K Magic é de 2016, Bruno já se consolidou como um dos maiores astros da atualidade, especialmente devido ao sucesso comercial e de crítica de projetos como a parceria com Anderson .Paak no duo Silk Sonic, no álbum An Evening with Silk Sonic, a sua turnê mundial e, claro, o colossal sucesso da canção Die With A Smile ao lado da Gaga. Com esses fatores, o artista deixa claro que não vai apostar alto, mas, sim, no seguro, ao entregar um projeto com a sua cara do começo ao fim, mostrando exatamente o que sabe fazer de melhor: um eficiente e cativante trabalho de R&B/soul. Nada mais, nada menos, pois The Romantic segue uma cartilha muito bem construída e firmemente enraizada.

E isso é o maior erro do álbum. A gente já sabe exatamente o que vai encontrar, mesmo que tenha algumas surpresas aqui e ali. The Romantic é previsível, e isso tira certa força da sonoridade, já que a gente sabe bem como todo o álbum vai se desenrolar em quase todos os detalhes, deixando uma sensação de déjà vu. E isso não é por falta de talento da produção, pois o álbum é produzido por Mars ao lado de D’Mile, que basicamente foram responsáveis por boa parte da construção do álbum do Silk Sonic, que foi basicamente um trabalho excepcional. O que pega aqui claramente é o fato de o lugar seguro de Bruno não estar refinado ao extremo, e isso deixa The Romantic preso às suas próprias escolhas criativas. Todavia, essa cartilha criada também é uma das suas qualidades.

Completamente dono da sua sonoridade, Bruno facilmente entrega um arroz com feijão na medida certa, que não precisa de muito para satisfazer. Um acompanhamento bem feito e uma coquinha gelada no máximo. É confortável e acolhedor, mas também é tudo muito bem feito, assim como a mão de um cozinheiro experiente dá o tempero certo para o trivial. E esse tempero aqui, porém, tem alguns sabores levemente novos. Não alteram o resultado final, mas adicionam novas camadas de sabor aqui e ali.

Primeiro, ao contrário do trabalho anterior, o divertidíssimo 24K Magic, que pendia mais para o lado dançante, The Romantic pende, como o próprio nome sugere, para o lado mais romântico e sensual da sonoridade de Bruno. Isso faz perder certa excitação, mas não é um elemento que atrapalhe demasiadamente, já que a faceta de cantor romântico combina perfeitamente com o cantor desde o começo da sua carreira. Em segundo lugar, a produção adiciona toques bem acentuados de latin music na mistura já conhecida de R&B, soul, funk e pop. Conveniente devido ao imenso sucesso do gênero, especialmente devido a Bad Bunny, mas não é algo que, ao meu ver, seja forçado devido à maneira bem amarrada como é feita essa introdução. E o melhor momento dessa influência é na construção da deliciosamente piegas e tocante Risk It All, que, além da influência da sonoridade latina, também é injetada com uma precisa textura de bolero, que funciona melhor do que o esperado. É preciso apontar que, mais do que o normal, a canção só realmente funciona devido à presença do seu “dono”, que entrega uma performance espetacular.

Bruno Mars é um cantor de carisma ímpar e que escapa das linhas das suas canções devido ao apuro vocal e a uma consciência performática inspirada. Ao assumir essa postura de crooner inspirado em nomes dos anos setenta, mas adicionando uma camada generosa de sensualidade e com real alcance e técnica vocal, o cantor capta toda a essência de um verdadeiro astro pop forjado à sua maneira, que consegue ter essa vibe atemporal e, ao mesmo tempo, ser feito para o público atual na mesma medida. Mesmo mantendo basicamente o mesmo nível durante todo o álbum, Bruno tem um dos destaques ao passar todo o drama da sentimental Why You Wanna Fight? na sua faceta mais “crooner” dos anos setenta ao longo do álbum.

Outros momentos que precisam ser citados são o single I Just Might, ao ser “uma divertidíssima, sexy, dançante e contagiante pop soul, com elementos de disco, funk e boogie, que o Bruno domina com os olhos fechados”, e Dance With Me, que fecha o álbum de maneira muito amarrada.

The Romantic é um álbum cujo resultado torna totalmente compreensível a divisão de recepção. Todavia, não há como negar que Bruno Mars encontrou a sua receita perfeita para o sucesso.


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