22 de março de 2026

Primeira Impressão

Nothing's About to Happen to Me
Mitski




Nothing's About to Happen to Me, oitavo álbum da carreira da Mitski, é uma obra delicada, introspectiva e contemplativa que conquista pela sua sutileza. E isso é algo que poucos artistas têm a capacidade de alcançar. O problema, porém, é que a produção careceu de um fio condutor um pouco mais definido e uma carga emocional mais imponente.

Antes de explanar sobre esse erro, é preciso apontar que o álbum é um ótimo trabalho, independentemente de qualquer objeção. A produção de Patrick Hyland é certeira, madura e conhece todos os recantos das possibilidades que a cantora pode atingir, especialmente devido ao fato de ser o sexto álbum seguido que o mesmo produz sozinho o álbum da artista. E isso dá uma sensação clara de estarmos em boas e conhecidas mãos que sabem como conduzir com confiança toda a trajetória, entregando um trabalho técnico impecável e uma noção estética refinada. Entretanto, a produção comete um tropeço no momento em que meio que se perde no caminho sonoro do álbum devido, principalmente, às escolhas das influências.

Nothing's About to Happen to Me apresenta uma sempre madura miscelânea de gêneros ao explorar lugares que a artista já domina perfeitamente, como, por exemplo, indie rock, alt-pop, americana, indie country, bossa nova, chamber pop e folk pop/rock. E isso é meio que esperado, mas o problema é que tudo é feito sem esse fio condutor que faz as transições entre canções soarem fluidas e naturais, parecendo, na verdade, algo como a troca de estação de rádio tocando uma música diferente da outra que, por acidente, é da mesma artista. As faixas possuem a mesma vibe, mas têm estruturas diferentes umas das outras. Essa sensação não incomodaria tanto se fosse o total intuito da produção ao criar uma pura “jukebox”. Todavia, existe um fio condutor nas canções que dá para entender onde a produção quer chegar, que, porém, não é forte o bastante para conseguir realmente segurar plenamente essa decisão. E isso fica mais nítido quando a gente nota que a melhor canção do álbum é um trabalho meio que “jogado” no seu meio, que não parece combinar com nada ao seu redor, na linda I'll Change for You.

Uma refinadíssima bossa nova que é de cair o queixo devido à sua magistral produção. Respeitando ao máximo o gênero brasileiro, mas adicionando camadas de chamber pop, jazz pop e indie pop que incrementam a canção para levá-la a um outro lugar criativo que liga diretamente com a personalidade artística da cantora. Todavia, o toque de mestre nesse caldeirão é a pitada magistral de samba que arremata I’ll Change for You com chave de ouro”. Mesmo esse ápice do álbum, a faixa está colocada ao redor de canções de gêneros completamente diferentes que não parecem “conversar” entre si, mesmo apresentando bons resultados. O outro problema do álbum, que é acentuado devido à presença da faixa, é a emoção contida demais que meio que barra o resto do álbum.

Mitski é uma artista que já tem completamente definida a sua personalidade artística, revelando sempre uma força emocional reflexiva e contida. E isso não é nenhum problema, pois a maneira como a mesma expressa emoções complexas é de uma beleza ímpar, graciosa e elegante. Entretanto, a entrega da artista deixa claro que a mesma é capaz de ir além ao se aprofundar na dramaticidade das emoções retratadas. A melhor comparação que posso fazer é que a cantora vem entregando sempre trabalhos nos níveis de filmes independentes e reflexivos que desbravam sentimentos intrigantes, sempre mantendo uma intelectualidade refinada, mas que estaria na hora de a artista elevar sua capacidade em drama de estúdio e mais comercial para chegar a novos lugares. Não é um problema grande, ou mesmo médio, mas que dá uma atrapalhada boa para quem quer algo mais poderoso.

E um bom exemplo é a ótima Where's My Phone?. Uma faixa “reconfortante, madura, graciosa e com forte estética vintage”, mas que, liricamente, “não é de digestão fácil para quem busca algo mais direto e palatável. Não se trata de uma escrita complexa em sua forma, mas Mitski possui uma capacidade impressionante de expressar sentimentos difíceis de maneira elaborada, sem jamais soar pretensiosa”.

Outros momentos de destaque ficam pela lindíssima e tocante abertura em In a Lake e na atmosférica e densa Cats.

Nothing's About to Happen to Me poderia ser melhor, sem dúvida, mas Mitski deixa claro que nem quando “erra” a mesma perde a capacidade de entregar algo realmente elogiável.


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