27 de agosto de 2026

A Evolução da Shygirl

Alyse
Shygirl

Não é novidade para ninguém que a Shygirl vem construindo uma carreira sólida dentro do eletrônico alternativo nos últimos anos. Todavia, a artista pode estar pronta para dar o próximo passo, como mostra a excepcional Alyse.

Possivelmente primeiro single do seu segundo álbum, a canção adiciona novos elementos à sonoridade da artista ao mergulhar de cabeça no art pop que, aliado a uma mistura de deconstructed club e eletrônico progressivo, termina criando uma canção gloriosa e, definitivamente, entra no hall das melhores da carreira da Shygirl. Climática, épica, contemplativa, madura, excitante, poderosa e atmosférica: esses são alguns dos adjetivos que podemos citar para Alyse e, sinceramente, ainda podemos encontrar outros para elogiar a impecável e inteligente produção da própria cantora ao lado de Karma Kid, que criam uma verdadeira pérola sonora.

A canção, porém, não seria tão eficiente sem que os outros elementos funcionassem à mesma altura. Felizmente, a canção conta com uma excepcional composição sobre desejo, que consegue ser poética, com uma estética muito bem construída e um apelo de urgência que reflete na temática. É um trabalho até “simples”, mas de uma força emocional contundente e pragmática. Talvez gostaria de ter ouvido mais da presença da Shygirl, mas a maneira como ela entoa a canção, começando em uma voz off, declamando a canção para seguir o resto com uma performance bem sólida, é outro acerto sem dúvidas, especialmente porque os efeitos vocais funcionam da melhor maneira possível.

Se essa vai ser a toada do álbum, a Shygirl está para entrar na sua era de ouro logo no segundo trabalho.
nota: 8,5

26 de agosto de 2026

New Faces Apresenta: earthsignchels

Daddy Died
earthsignchels

Estava esses dias atrás vendo alguns vídeos no Instagram quando apareceu algumas vezes o vídeo de uma rapper se apresentando no A COLORS SHOW. Não sabia quem era, mas fiquei bem interessado devido à sua maneira diferente e crua de entoar a canção. Descobri que a rapper é a novata earthsignchels e a canção é Daddy Died. A minha surpresa foi notar o quanto de pessoas “odiando” a canção, sendo que eu achei uma das melhores de uma novata do ano.

Consigo ver de onde veio o ódio pela canção por certas pessoas devido ao flow da rapper, mas, sinceramente, acho que boa parte vem exclusivamente de misoginia pura. O que a artista faz aqui é entregar uma performance nada convencional, áspera, emocional, desconcertante e sem medo de ser estranha devido à força emocional utilizada, pois isso é algo que faz total sentido ao contexto da canção. E é algo realmente corajoso e de uma qualidade rara ver uma artista em começo de carreira parecer tão unicamente destemida. Mesmas qualidades podem ser direcionadas à genial composição de Daddy Died.

Como já é sugerido, a letra é sobre a morte do pai de earthsignchels e como isso a afeta emocionalmente. Dona de uma lírica direta e, ao mesmo tempo, poética, a rapper entrega uma crônica sobre como a morte afeta as pessoas, de uma maneira que qualquer um que passou por isso pode se identificar e se sentir, ao mesmo tempo, entendido. Pela maneira tão pungente e urgente que a rapper entoa a canção, é fácil associar a canção com um dos estágios do luto: a raiva. Poucas artistas do rap/hip hop atualmente conseguem falar de assuntos tão complexos de uma forma tão interessante, mostrando que earthsignchels tem um futuro auspicioso pela frente. O ponto fraco de Daddy Died é a sua batida, que segue um caminho de hip hop experimental, com boas adições, principalmente o piano de base, mas que poderia ter mais dinamismo sonoro para estar à altura dos outros elementos.

Apesar disso, a canção é um trabalho realmente impressionante caso quem escute não tenha nenhum preconceito de verdade.
nota: 8,5

A Volta da Bruxona

Witch Doctor
Erykah Badu & The Alchemist


Depois de um hiato de vinte e seis anos sem lançar um novo álbum, a Erykah Badu vai finalmente lançar um novo trabalho em parceria com o produtor/DJ/rapper The Alchemist, intitulado Before the World Blows. E, como primeiro single, foi lançada a ótima Witch Doctor.

Uma produção sedosa, adulta, elegante e classuda de, claramente, neo-soul da melhor qualidade, o single faz a gente relembrar a força artística da cantora. Entretanto, a canção ganha vida sonora nos detalhes, como, por exemplo, a adição de elementos de afrobeats e tribal, que elevam o trabalho para algo realmente excitante e diferente, criando a impressão de que a união dos dois artistas vai bem mais fundo e com uma atmosfera realmente excitante.

Liricamente, Witch Doctor é relativamente simples, mas muito eficiente, ao ser uma crônica sobre o poder feminino ser taxado como algo “ruim” ao dar a alcunha de bruxa. Entretanto, a composição se apropria disso para converter em algo positivo. O ponto alto da letra é ela nomear várias bruxas famosas, de maneira a criar ainda mais identificação. E, finalmente, a performance descolada, distinta e cheia de personalidade da Erykah dá vida à canção, fazendo-a realmente ser algo que apenas a própria poderia entoar.

Ainda é meio cedo, mas pode estar se formando o melhor comeback do ano. Mesmo se não for, a presença da Erykah Badu já é algo para comemorar.
nota: 8,5

25 de agosto de 2026

Faixa Por Faixa - Grandes Álbuns (Publicado Originalmente em 5 de maio de 2012)

CD: Jolene
Artista: Dolly Parton
Gênero: Country
Vendagem: Sem dados concretos
Singles/Peak na Billboard: Jolene (60º; primeira música dela a entrar na parada principal americana) e I Will Always Love You
Ano: 1973


Considerado um dos maiores álbuns de todos os tempos, Jolene foi responsável pela ascensão definitiva de Dolly Parton ao sucesso. Lançado em 1974, teve como primeiro single a canção que dava nome ao álbum. Com Jolene (a música), Dolly escreveu uma parte importante do country devido ao sucesso da canção, que é considerada uma de suas obras de arte. Outra música lançada na época foi I Will Always Love You, mas que só alcançou o status de clássico quase duas décadas depois, quando foi regravada por Whitney Houston.

Faixas


1. Jolene: Já foi dito, mas não custa retificar: a canção é um dos maiores clássicos de todos os tempos da música americana. Em uma época em que estava em voga o feminismo, Dolly lançou a história de uma simples dona de casa que, ao ver a linda amante do marido prestes a roubá-lo, vai implorar para que ela a deixe em paz, pois ela “pode ter qualquer homem, mas só ele a fará feliz”. A dramaticidade imposta por Dolly em uma canção brilhante está acima da capacidade da maioria das cantoras.
nota: 10

2. When Someone Wants To Leave: Em uma composição inspiradíssima, em que Dolly faz uma pequena, mas genial, carta aberta sobre o fim de um relacionamento. “But I know you want to leave / As bad as I want you to stay”, declama Dolly, tentando saber o que está acontecendo. Colocado assim, parece uma continuação da história de Jolene.
nota: 9,5

3. River Of Happiness: Deixando o tom mais “alegrinho”, ela faz uma canção sobre o amor e o que ele pode trazer. O espírito acolhedor de Dolly se encaixa perfeitamente no tom da canção.
nota: 8,5

4. Early Morning Breeze: Regravação de uma música sua que tinha saído em outro álbum. A produção instrumental é de arrepiar. Com inspiração no rock e a adição de um baixo que faz lembrar Hendrix, a canção é um dos pontos altos do álbum. Ainda mais juntando a estranheza de uma composição leve e para cima com um arranjo um pouco dark e mais “sério”.
nota: 10

5. Highlight Of My Life: Voltando ao “normal”, ela entrega uma “prima” country de You Are the Sunshine of My Life, de Stevie Wonder. Alegre e divertida do começo ao fim.
nota: 8,5

6. I Will Always Love You: É muito interessante ver como foi gravada originalmente uma canção que ficaria famosa de outra maneira. Muito mais contida que a versão de Whitney, a interpretação de Dolly mostra mais tristeza na colocação das notas e na divisão da melodia, que já começa com o arranjo e, antes do final, é mais declamada no ritmo. Essas diferenças são gritantes, mas não comprometem nenhuma das duas versões de serem geniais.
nota: 10

7. Randy: Uma canção de apenas um minuto e cinquenta e dois segundos é melhor que muita canção de hoje em dia com o triplo de duração, produção e composição. Uma simples e tocante declaração de amor pode ser mais poderosa que uma complexa e demorada narração sobre o amor.
nota: 9

8. Living On Memories Of You: Uma música pode vencer o tempo quando, ao ouvi-la, você pode colocá-la em uma nova roupagem e ela continuar tão boa. Ouvindo a canção e prestando atenção à interpretação magnífica de Dolly, fiquei imaginando uma cantora de soul/R&B fazendo uma versão poderosa para a triste letra. Assim, canções se fazem eternas.
nota: 9,5

9. Lonely Comin' Down: Única música do álbum que tem duração de mais de três minutos, revive a parceria dela com o cantor que a lançou, Porter Wagoner. Escrita por ele, a canção é uma balada avassaladora sobre a solidão e o que ela traz. Dolly está inspirada para mostrar a tristeza necessária.
nota: 10

10. It Must Be You: Terminando com uma canção romântica sobre encontrar o amor da vida.
nota: 8,5

Obrigado por todo, Dolly!

 

Well, I can't tell you where I'm goin', I'm not sure of where I've been
But I know I must keep travelin' 'til my road comes to an end
I'm out here on my journey, tryin' to make the most of it
I'm a puzzle, I must figure out where all my pieces fit

Um Turbilhão

Can't Get Over Losing You (feat. Portraits of Tracy)
The Avalanches

Quase nunca uma canção que tem muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo consegue dar certo sem precisar exatamente fundir todos os elementos. E isso acontece com a interessante Can't Get Over Losing You, da banda The Avalanches.

O single do próximo álbum da banda (No Bad Memories) tem, ao mesmo tempo, sample de canção de cantor da Motown desconhecido, lançada em 2022 depois da sua morte (I Can’t Get Used to Losing You, de Wilson William), voz distorcida, batida com várias influências e uma duração de menos de três minutos. E, sinceramente, o resultado é bem melhor do que o esperado, devido à criatividade com que tudo isso é agrupado em uma canção original, divertida, madura e realmente única.

Uma mistura de chillwave com nu-disco, eletropop e electro house, Can't Get Over Losing You funciona principalmente pela habilidade da produção em saber polir o que poderia deixar resíduos não bem estruturados, deixando certeiramente as aparas necessárias para criar esse turbilhão bem-vindo de estranheza que dá um toque refinado para o resultado final. É interessante notar que algo fora do lugar poderia fazer a canção desandar. Entoada pela artista Portraits of Tracy, a maneira como os vocais são conduzidos, mesmo sob efeitos, faz sentido dentro da canção devido a toda a sua atmosfera.

E, apesar de ser “pequena”, ao ter menos de três minutos, a produção consegue preencher qualquer sensação de brevidade em uma canção que realmente ocupa toda a sua duração, sem a gente precisar de mais. Outro feito louvável para uma canção que é um trabalho de elogios.
nota: 8,5


Oh! Glória! Nelly!

Maneater (RITUAL VERSION)
Nelly Furtado


Poucas vezes fui pego de maneira tão surpreendente como ao ouvir Maneater (RITUAL VERSION), da Nelly Furtado. Single para o lançamento da versão comemorativa de vinte anos de Loose, a canção não é um remix ou uma versão diferente da canção original e, sim, uma nova e completa canção que simplesmente eleva o material para um patamar completamente novo e incrivelmente genial.

A nova versão foi literalmente reconstruída da base sonora, ao ir de uma divertidíssima eletropop/R&B para uma épica, soturna e colossal mistura de dark ambient com neoclassical, art pop/rock e baroque pop. Atmosférica e sufocante, a construção do genial instrumental cria toda uma impensada e magistral atmosfera sombria que dá novo significado para a composição, que não foi alterada. Se antes a canção era sobre a força sexy de uma mulher sem medo da sua sexualidade, para ter uma energia quase mística e de uma força feminina que transcende o humano, quase como uma deusa ou bruxa de poderes incontáveis. É uma mudança tão espetacular que a gente fica realmente impressionado e quase sem palavras depois de escutar.

Com uma vibe saída de algum álbum da Lingua Ignota/Reverend Kristin Michael Hayter, Maneater (RITUAL VERSION) ainda tem outro destaque impressionante na performance vocal da Nelly. Obviamente, a cantora muda a sua maneira de entoar a canção, mas, sinceramente, eu não esperaria que ela segurasse tão bem uma canção com essa vibe. E não é apenas bem e, sim, brilhantemente, conseguindo manter intactas sua personalidade e características e, ao mesmo tempo, carregando toda a gravidade e força da canção de forma irretocável. Tenho que admitir que, com mais de sete minutos, a canção se beneficiaria de uma versão mais enxuta. Todavia, não posso negar que a produção da cantora ao lado de Adam Tendler consegue manter a qualidade e a atenção até o último segundo.

Se no começo do ano alguém tivesse falado para mim que a possível melhor canção do ano fosse uma versão de uma canção da Nelly Furtado de 2006, não teria acreditado e ainda teria gargalhado dessa pessoa. Só que essa é a situação em que me encontro atualmente, e não tenho do que reclamar.
nota: 9,5

24 de agosto de 2026

Primeira Impressão

new avatar
Kelela


Química Fundida

the bridge
Kelela & PinkPantheress

É meio complicado transmitir com precisão as personalidades artísticas de dois artistas em uma colaboração ao mesmo tempo em que se consegue fundi-las em apenas uma só. Entretanto, isso é o que acontece na excepcional the bridge.

A união da Kelela com a PinkPantheress poderia gerar algum atrito, pois, apesar de estarem dentro do mesmo reino sonoro, as duas apresentam diferenças bem nítidas. Felizmente, o resultado aqui é uma madura, fluida e cadenciada mistura das duas sonoridades, de forma a se tornar uma fusão praticamente perfeita, em que dá para sentir a força de cada uma impregnada na canção, sem uma se sobressair à outra. Devido a isso, the bridge se torna uma melódica e sensual 2-step, com pitadas generosas de R&B alternativo e pinceladas de UK bass e future garage, criando uma das batidas mais elegantes do ano.

Agrega-se a isso as performances inspiradas de ambas, exalando suas distintas personalidades, e uma química bem construída, e eis que temos uma das colaborações mais afinadas de 2026.
nota: 8,5

Primeira Impressão

EQUILIBRIVM II
Anitta



Primeira Impressão

Do That Again
Malcolm Todd



21 de agosto de 2026

Uma Segunda Chance Para: Show das Poderosas

Show das Poderosas
Anitta

Com uma carreira cheia de altos, baixos e alguns baixíssimos, Anitta chega a seu momento ao finalmente se encontrar artisticamente. Por isso, resolvi voltar no tempo e dar uma segunda chance para a canção que deu início a tudo: Show das Poderosas.

Era quase impossível, em 2013, não ter ouvido em algum momento e, possivelmente, por diversas vezes, a canção que se tornou o hit daquele ano. Apesar de não ter sido a primeira da carreira, Show das Poderosas foi o que colocou Anitta no mapa do mainstream brasileiro e, passados treze anos, é preciso apontar que tudo faz muito sentido, pois, mesmo não sendo um trabalho genial, a canção tem suas qualidades que a destacam na multidão. A maior delas é a produção, que consegue misturar bem o funk com o pop, adicionando toques de dance-pop e dubstep. Na verdade, quando esse último gênero é introduzido durante o segundo verso, é que a canção realmente atinge seu ápice, devido à total e inesperada quebra de expectativa.

O problema maior da produção é o seu clímax final, especialmente nos momentos finais, em que a canção perde a força em uma conclusão totalmente anticlimática, que meio que dá uma esfriada na canção. Show das Poderosas é dona de uma composição rasa, mas viciante, que consegue dialogar com a atmosfera pop e funk, criando uma letra que meio que se torna atemporal. Não é nada genial, mas é perfeita para o tipo de proposta da canção. Anitta, ainda no começo de carreira, entrega uma presença sólida, mas morna e, principalmente, sem muita versatilidade, deixando as mudanças da própria música fazerem parte do trabalho. Todavia, não há como não afirmar que existe um carisma da mesma que meio que faz a gente ser cativado pela sua presença.

Em Show das Poderosas, Anitta deu o seu primeiro grande passo para se tornar a maior popstar brasileira da nossa geração, para o bem ou para o mal.
nota: 7,5

20 de agosto de 2026

A Guinada

Just Be Bodies
Rose Gray


Estou realmente começando a ficar hypado para o segundo álbum da Rose Gray. Depois da ótima Club To Your Arms, a cantora lança outro acerto em Just Be Bodies.

Apesar de um pouco menos inspirada, a canção ainda mostra a evolução nítida da cantora ao entregar uma canção realmente competente e com uma personalidade muito bem definida e amadurecida. A produção entrega uma synth-pop emoldurada lindamente por um véu de house/trance, criando uma batida revigorante, mesmo que trabalhando em uma cadência mais contida. Acredito que, por ter uma batida “menor”, Just Be Bodies não chega a alcançar um novo nível, mas, felizmente, o cuidado instrumental e toda a atmosfera da canção valem realmente a pena. Gosto da composição, que continua a apostar no emocional misturado com sensualidade e toques filosóficos de uma forma natural e nada pretensiosa. Rose entrega uma boa performance, que poderia ter mais variação aqui e ali para dar um pouco mais de dinâmica à canção.

De qualquer maneira, Rose Gray pode realmente sair do lugar de promessa para ser uma realização.
nota: 8


Reavaliação

Didn't Mean to Turn You On
Mariah Carey & Rochelle Jordan


Possivelmente, a era Glitter da Mariah Carey seja uma das mais controversas da cultura pop de todos os tempos. O álbum que serviu de trilha sonora para o filme de mesmo nome foi uma das peças que quase destruíram a carreira e a vida da cantora no começo dos anos 2000. Todavia, nos últimos anos, o álbum vem sendo reavaliado por parte do público como sendo injustiçado. E é tanto que a cantora vai lançar um trabalho comemorativo dos vinte e cinco anos. Como primeiro single, foi lançado o remix de Didn't Mean to Turn You On.

A escolha é curiosa, pois a canção nem foi single do álbum. Entretanto, o resultado é realmente inspirado devido à presença magnética da Rochelle Jordan e do produtor KLSH, que juntos entregaram o sensacional Through The Wall no ano passado. O resultado é um verdadeiro fato raro, pois termina sendo melhor que a original. De uma sólida, mas conservadora, regravação da canção original da cantora Cherrelle, a canção sai do funk/disco original para uma envolvente, deliciosa, moderna e madura synth-pop misturada com eletrônico e traços de funk, que transforma a canção em uma nova e excitante versão.


E isso é algo realmente admirável, pois a produção consegue dar para a canção a vibe da Rochelle sem esquecer da personalidade da Mariah, respeitando também a versão original de Didn't Mean to Turn You On. Na verdade, eu gostaria muito de ver a Mariah fazendo um trabalho completo com o produtor, pois isso seria, com certeza, algo que iria ser um comeback lendário. Vocalmente, as duas cantoras se misturam perfeitamente, e a Rochelle adiciona uma carga de personalidade bem grande para essa versão sem tentar roubar a música para si ou se deixar intimidar pela parceira lendária.

Espero que nessa comemoração possa ter versões tão interessantes e que ajude a mais pessoas a redescobrir um álbum longe de perfeito, mas que tem algumas pérolas sonoras.
nota: 8

19 de agosto de 2026

A Que Foi Deixada Para Trás

Pop Sound
Kim Petras

Inicialmente destinada a aparecer no álbum Detour, Pop Sound foi lançada antes no EP Pretour pela Kim Petras de maneira não oficial e longe das plataformas como, por exemplo, o Spotify e afins. Agora, a canção ganha um lançamento oficial para que todos possam ouvir o que é a melhor canção da artista até o momento.

A maior qualidade da canção é que a mesma consegue unir perfeitamente todas as melhores qualidades da sonoridade recente da artista de maneira certeira e refinada. A produção constrói uma marcante, grandiosa e cativante mistura que combina muito bem electropop, hyperpop e electro house, conseguindo criar uma batida que, em nenhum momento, perde o foco ou parte para a cacofonia sonora, em que todas as peças estão lindamente ligadas umas às outras de maneira fluida. O resultado é algo que carrega o DNA da artista e, ao mesmo tempo, coloca a mesma em outro patamar. E parte disso vem da sua composição.

Pop Sound é sobre música, ou melhor, sobre o lugar da música no mundo atual, especialmente da música da Kim. É uma temática bem interessante que precisa ser muito bem trabalhada para não cair em um mar de pretensiosidade. Felizmente, o resultado aqui mescla bem reflexões filosóficas com a estrutura de uma canção pop, criando um trabalho com maturidade artística e estética. Gosto especialmente dos versos em que a Kim questiona as gravadoras ao entoar “What's your position? Your holy mission?/ Shoot at the stars, head first collision”. Por fim, a cantora entrega uma ótima performance que começa a mil por hora e termina da mesma maneira.

Dessa maneira tão inspirada, a Kim Petras vai reconstruindo a sua carreira como poucas artistas têm a chance de alcançar.
nota: 8,5

Muitas Ideias

ROCKSTAR
Pabllo Vittar & Villano Antillano


Sabe quando existem muitos ingredientes em um só prato que poderiam facilmente ser retirados e o resultado seria melhor? Então, ROCKSTAR, da Pabllo Vittar, tem exatamente esse problema.

Primeiro single do álbum Lost In Lust, a canção poderia ser um grande acerto se pudesse polir de verdade todos os ingredientes que a compõem, pois, ao final, fica a sensação de que várias ideias boas não conseguiram ganhar vida de verdade. A produção mistura funk, eletrônico, industrial, latin pop, EDM, pop rock e hyperpop, mas não consegue unir todas as pontas de maneira a criar algo realmente coeso.

Em cerca de dois minutos e meio, a canção parece, no mínimo, três unidas em uma só, que não se fundem para criar uma música que faça a gente ficar empolgado de verdade. Preciso dizer, porém, que gosto desse caminho para a Pabllo, pois dá versatilidade para a sua discografia. Além disso, as ideias separadas são boas, especialmente o começo funk/eletrônico e seu finalzinho mais puxado para o EDM. Faltou foi a ligação entre esses dois pontos. Outro problema é que a brasileira parece mais uma convidada da rapper porto-riquenha Villano Antillano que, felizmente, entrega uma boa performance.

Espero que esse começo seja apenas a ponta do iceberg e que o álbum possa realmente se aprofundar nessas ideias.
nota: 6,5

18 de agosto de 2026

3 Por 1 - Yseult

Now or Never
Freak
Freak (feat. JT)
Yseult

Mais conhecida devido à participação em Alibi e por ter se apresentado na abertura dos últimos Jogos Olímpicos, a cantora Yseult é o tipo de artista que fica circulando aos arredores do mainstream, mas ainda não teve o seu momento. E isso é uma pena, pois a cantora entregou, este ano, duas das melhores canções do ano.

Possivelmente, Now or Never e Freak devem ser canções que fazem parte do próximo álbum da cantora e, sinceramente, que isso seja indicativo dos rumos do trabalho, pois ambas são canções simplesmente sensacionais. Na verdade, Freak é mais do que sensacional e, sim, genial. Quando ouvi pela primeira vez, não esperava que a cantora fosse entregar algo tão espetacular como essa mistura incrível de new jack swing, contemporary R&B e dance-pop, que recria de maneira perfeita uma estética dos anos oitenta, especialmente a sonoridade da Janet Jackson, com toques de Salt-N-Pepa e En Vogue.

Respeitosa, excitante, elegante, divertida, nostálgica, dançante, moderna e irresistível, Freak é um trabalho tão especial no momento que consegue ser tantas coisas ao mesmo tempo e, mesmo assim, nunca soar como uma colcha de retalhos com peças demais. Tudo se encaixa de maneira tão ideal que não há como não se deixar levar pela batida frenética. E um dos motivos para a canção realmente dar liga é a presença refinadíssima, sensual e poderosa dos vocais de Yseult, que domina a canção em uma performance apoteótica e deslumbrante. Na versão remix, a presença da rapper JT dá mais afirmação às influências do rap de Salt-N-Pepa, criando ainda mais essa atmosfera sem fazer a canção perder valor artístico. Na verdade, a presença da rapper poderia ser mais explorada, pois está limitada apenas a um ótimo verso no começo da canção.

Em Now or Never, a produção dá uma leve errada no tempo de duração da canção e na sua estrutura mais contida, que poderia facilmente sustentar mais tempo para explorar o seu excepcional instrumental. Todavia, o resultado é ainda sensacional devido, novamente, à qualidade de emoldurar uma sonoridade oitentista tão bem. Dessa vez, o objeto escolhido é o synth-pop, que tem toques deliciosos de R&B. Com um instrumental impecável, que poderia ter um final mais apoteótico, a canção também deixa bem clara a versatilidade e o potencial vocal da cantora, que parece tirar inspiração de Whitney Houston nas suas canções dançantes/mid-tempo da década.

Espero que Yseult possa ter o reconhecimento que merece, pois, só com essas duas canções, a mesma já deixou no chinelo álbuns de grandes nomes do pop atual.
notas
Now or Never: 8,5
Freak: 9
Freak (feat. JT): 8,5

17 de agosto de 2026

PinkRobinson

WannaCry
Ninajirachi & Porter Robinson


Nem sempre uma comparação é para mostrar os lados negativos de um objeto de estudo. Por exemplo, a canção WannaCry, parceria dos DJs Porter Robinson e Ninajirachi, soa como se fosse uma versão turbinada de uma canção da PinkPantheress.

A canção é uma excepcional electropop com electro house que mostra a sinergia dos dois envolvidos, especialmente devido a podermos notar as influências de cada um sendo bem exploradas e fundidas. Com um instrumental realmente impressionante, a canção ganha traços que facilmente poderiam ser de outros artistas que, nesse caso, é o da PinkPantheress. A batida até pode ser mais grandiosa que a que a cantora entrega normalmente, mas, sinceramente, WannaCry tem a mesma vibe atmosférica que a mixtape Fancy That, terminando como se fosse algo que a mesma pode alcançar no futuro.

Todavia, isso não tira em nada o brilho da produção dos DJs, já que é claro que a canção tem uma personalidade bem distinta devido à presença de ambos. E um desses motivos é que ambos cantam na canção. Claro, envolvidos em uma dose de efeitos vocais, Robinson (frequente aqui no blog) e Ninajirachi conseguem criar um vínculo entre os dois e com quem escuta de maneira natural, o que os diferencia de canções produzidas por atuais expoentes do eletrônico. Além disso, a intrigante composição é outro ponto de destaque, pois parte da visão de vírus de computador para falar sobre uma relação tóxica, e isso faz a gente entender que o real entendimento artístico dos dois é algo bem acima da média.

Quem sabe uma parceria de um dos dois com a PinkPantheress não resultaria em algo realmente genial? Sonhar não paga imposto.
nota: 8,5

Kelly Still Got It!

I'd Be Lyin'
Kelly Clarkson


Não tem como duvidar que, além de ser a maior vencedora de todos os tempos de um reality musical, a Kelly Clarkson é um dos maiores nomes do pop surgidos nos anos 2000. E, mesmo após tantos anos, a cantora ainda está em “forma” ao entregar uma canção tão boa como é o caso de I’d Be Lyin’.

Lembrando muito a sonoridade da cantora feita por volta de 2010, a canção é uma eficiente, empolgante e contagiante pop rock com toques de synth-pop e country pop. Não passa nem longe de ser algo novo, mas a produção entrega mais do que uma canção sólida, já que temos um cuidado extremo com a instrumentalização, que vai crescendo aos poucos até o seu final realmente grandioso. Entretanto, o grande destaque da canção é, como sempre, a presença magistral e magnética da Kelly. Com a sua qualidade vocal tão precisa, que domina qualquer canção com perfeição, e uma versatilidade pouco vista, a cantora adiciona boa parte da emoção e dá personalidade a I’d Be Lyin’.

Se fosse nos tempos de vacas gordas comercialmente da Kelly, o single seria facilmente topo das paradas. De qualquer forma, o resultado ainda deixa claro que a Kelly continua sendo uma grande artista.
nota: 8

14 de agosto de 2026

O Paraíso da Tinashe

Melatonin
Tinashe

Na história desse blog, sempre tive o maior apreço pelo talento da Tinashe, mesmo que a mesma não entregasse algo exatamente à sua altura. E é por isso que não há surpresa em concluir que Melatonin, novo single do seu próximo álbum, Popstar, é o melhor da sua carreira. Na verdade, a canção é a melhor do ano, sem concorrência nenhuma.

Apesar de esperar algo no mínimo acima da média, a qualidade entregue na canção é algo realmente inacreditável devido a todas as complexas camadas que são adicionadas, que em nenhum momento transformam a canção em algo de difícil assimilação. A produção é uma verdadeira aula de como conseguir incluir várias influências em apenas uma canção, que a faz parecer cerca de três ou quatro canções diferentes, mas consegue dar uma liga tão visceral e poderosa que, ao seu final, tudo parece fundido à perfeição.

Uma mistura inspiradíssima de hyperpop e dance-pop que vai sendo incrementada de EDM, ao mesmo tempo em que é uma refinadíssima construção techno, que é apurada com subgêneros como, por exemplo, Detroit techno e acid techno. E ainda tem toques de R&B e electroclash apenas para serem as cerejas em cima do bolo. Dessa maneira, Melatonin poderia facilmente se tornar algo completamente desjuntado e sem foco.

Felizmente, a produção segura o touro na “unha” criativa e entrega uma canção impressionante, fluida e coesa, apesar de algumas mudanças rítmicas importantes. E tudo isso é acompanhado pela performance extraordinária da Tinashe, especialmente quando a sua voz é alterada para entoar o genial refrão. A composição é icônica devido à sua apuração estética e, principalmente, à temática, que é basicamente um recado para todos que estão “dormindo” para a existência da Tinashe.

E assim a Tinashe encontra o seu merecido paraíso musical com uma canção que já nasce lendária.
nota: 9,5

A Nova Onda do Reizinho

She's the Best
Troye Sivan


O crescente na carreira do Troye Sivan fez com que o cantor se tornasse um dos artistas mais competentes do pop contemporâneo. Chegando ao quarto álbum, o cantor enfrenta uma nova fase da sua carreira em que é preciso mostrar evolução contínua e um amadurecimento crescente. Em She's the Best, primeiro single do álbum do mesmo nome, acredito que isso é alcançado de certa maneira.

A canção não é, definitivamente, a melhor da sua carreira, mas deixa bem claro que o mesmo está pronto para arriscar sonoramente. O single é interessante, ousado e tem aquela qualidade de crescer na gente aos poucos devido à produção que mistura indie/alt-pop, synth-pop, chillwave e trap pop em uma atmosfera construída de maneira a deixar certas arestas cirurgicamente ásperas para dar toda a textura que a canção precisa para funcionar. Bem longe dos trabalhos de maior deglutição do cantor, She's the Best funciona quando a gente percebe que existe possivelmente uma influência das produções do Pet Shop Boys misturada com o pop/eletrônico experimental dos anos noventa.

Funciona? Sim, mas é preciso realmente embarcar na proposta da canção, pois posso ver claramente parte do público não conseguindo ultrapassar a estranheza inicial. Outro motivo é a presença de Sivan, que decide seguir o caminho “spoken word” para entoar, deixando os momentos “cantados” para o refrão. Essa decisão, porém, é que dá a liga na canção para que a decisão sonora realmente funcione. Além disso, na parte final de She's the Best, vão sendo adicionados novos elementos vocais que dão mais sustentação e criam novas texturas bem-vindas. A composição é um trabalho bem feito que tem um apelo “cool” misturado com toques de temática queer e algumas passagens divertidas/cringes, mas que funciona devido à maneira como tudo à sua volta também funciona à base de estranheza.

She's the Best é um começo de uma nova era para o Troye Sivan, que pode ser o seu ápice ou um ponto fora da curva. Aguardemos.
nota: 8

13 de agosto de 2026

Sempre Prince

With This Tear
Prince


Um álbum póstumo de um artista sempre me deixa com as duas pernas atrás. Entretanto, de tempos em tempos surge uma exceção cuja existência realmente faz sentido ao não ser apenas um caça-níquel barato. E acredito que esse possa ser o caso de Timeless, do Prince, pois o primeiro single já demonstra isso claramente na incrível With This Tear.

Escrita para a cantora no começo dos anos noventa, para a cantora Jevetta Steele, mas que acabou sendo regravada pela Céline Dion para o álbum de 1992, a gravação original do Prince vem à tona para mostrar o tamanho da sua genialidade. Uma power balada R&B/soul, a canção é um trabalho que tem uma complexidade sonora impressionante sem precisar ter um instrumental complexo, mas, sim, de uma força estrutural em que dá para perceber o cuidado com cada detalhe e, basicamente, a perfeição.

Melancólico e intimista e, ao mesmo tempo, emocional e grandioso, With This Tear também é a demonstração da força do letrista Prince em uma composição avassaladora sobre o vazio que sentimos quando alguém deixa as nossas vidas, mesmo que tenham sido feitas juras de “para sempre”. É tematicamente clichê, mas a honestidade e a força que se encontram nos versos são o tipo de coisa que, infelizmente, não se faz mais atualmente. A canção é emoldurada com chave de ouro pela performance gigantesca e atemporal do Prince, que basicamente entrega uma “tour de force” que poucos têm a capacidade de entregar, sendo ainda menor o grupo que “ofusca” uma performance da Céline.

Atemporal e realmente genial, a canção é o tipo de trabalho que faz a gente entender a grandeza do talento de um mestre como o Prince e que, também, faz a gente ter hype para um álbum desse tipo.
nota: 9

Talarica Reversa

Michael.
Rebecca Black


Como reagir a uma música que foi inspirada no namorado da Lady Gaga? Então, não sei você, mas eu estou realmente fascinado pela existência de Michael, da Rebecca Black.

E, sinceramente, nem é devido à sua inspiração, pois é mais uma brincadeira do que algo realmente concreto, mas pelo excepcional resultado da canção, que é uma das melhores da carreira da Black. Uma espetacular dance-pop refinada com progressive house, que torna a batida da canção um trabalho maduro, cativante, elegante e de cair o queixo devido à sua construção instrumental apuradíssima. É o tipo de trabalho que deixa bem clara a evolução a olhos vistos da artista, deixando qualquer desconfiança para trás.

Liricamente, a canção pode ser inspirada por um Michael, mas funciona muito bem como uma história mais ampla sobre o desejo da Rebecca pela namorada do dito cujo:

His name is Michael
And he's got all the things you need
His love is bible
But what if Michael could be me, be me?


Pode ser a Gaga, mas a canção deixa mais evidente que é algo mais genérico. De qualquer forma, o trabalho aqui é muito bem desenvolvido de maneira a criar uma composição sensual, melancólica e de um apuro pop bem construído. E, por fim, Rebecca entrega uma performance vocal edificante, em que mostra sensualidade e um toque de humor enquanto seu timbre vai emoldurando graciosamente toda a canção.

Esse Michael, quem quer que seja, é um sortudo por ter uma canção tão boa como essa em sua “homenagem” torta.
nota: 8,5

12 de agosto de 2026

Uma Segunda Chance Para: Roar

Roar
Katy Perry

Após quatorze anos de seu lançamento, Roar se tornou uma canção que deu para Katy Perry a continuidade da dominação na época das paradas, batendo de frente com Applause, da Gaga, e a vencendo comercialmente. Todavia, arriscadamente, a canção é facilmente notável como aquela que meio que deu a confirmação da limitação da sonoridade da Katy.

Lançada como primeiro single de Prism, sucessor do gigantesco sucesso de Teenage Dream, a canção é um trabalho perfeitamente aceitável que conta com alguns pontos bem positivos, mas não sai em nenhum momento do lugar-comum de um pop que hoje parece meio mofado, especialmente devido ao envolvimento daquele produtor caído em desgraça. O arranjo é grandioso e imponente para sustentar a base pop/pop rock pouco criativa, que sabe aonde quer chegar e não faz muito além do básico. Todavia, a canção tem um problema maior: a sua composição.

Clichê, meio infantil e beirando o pueril, a composição aqui é de um nível de autoajuda que atualmente poderia ser ouvida como tema de algum filme da Patrulha Canina. Todavia, preciso reconhecer que o resultado final funciona como um atestado de que, esteticamente, é um trabalho bem acertado. Até hoje lembro perfeitamente de cada verso da canção, sendo diferente, por exemplo, da canção da Gaga. Além disso, o refrão é realmente um momento que dá vida à canção devido à sua força de grudar nos nossos ouvidos com uma facilidade incrível e definitiva. O ponto alto da canção é a presença da Katy, que entrega aqui a sua melhor performance vocal dessa era e, provavelmente, de toda a sua carreira.

Mesmo sendo um marco do pop, Roar não é exatamente uma das canções mais memoráveis do pop. E, sinceramente, isso é até algo bom, já que a Katy tem canções melhores na discografia.
nota: 7

Uma Segunda Chance Para: Applause

Applause
Lady Gaga

Quatorze anos depois do seu lançamento como primeiro single do Artpop, a canção Applause ainda guarda uma pergunta: um trabalho à frente do seu tempo ou um tropeço pelo ego?

Primeira canção lançada pela cantora depois do arrasa-quarteirão do Born This Way, a nova era da Gaga era um dos acontecimentos mais esperados de 2013 e, por isso, o lançamento da canção foi um acontecimento, especialmente devido a ter sido lançada basicamente junto com Roar, da Katy Perry. E, com isso, a expectativa era algo gigantesco e, infelizmente, não foi correspondida para muitos na época, e isso também afetou a minha percepção sobre a canção que, longe de considerar ruim, considerei apenas “boa”. Olhando em retrospectiva, é preciso dizer que minha visão mudou bastante em relação a Applause.

Respondendo à questão colocada no começo: a canção é exatamente à frente do seu tempo e, muito menos, um tropeço. Talvez, a melhor definição que possa dar é uma canção menor entre os grandes momentos da carreira da Gaga. A grande qualidade da canção é a sua limpa, vigorosa, elétrica e disparadamente dançante produção, que entrega uma eletropop/dance-pop de uma força comercial reluzente e totalmente direta.

Contagiante e divertida, Applause tem uma melodia que gruda na gente logo nos primeiros acordes e vai criando ainda mais força ao longo da sua duração, que culmina em um clímax final grandioso na medida, sendo modelado por um refrão certeiro e redondinho. Outro ponto é a performance da Gaga que, mesmo não sendo uma das suas melhores, é um trabalho que dá energia, personalidade e dinamismo para a canção.

O problema aqui é a composição, pois, apesar de entender a mensagem de amor para os fãs e, também, as cutucadas nos críticos, o resultado fica em uma linha tênue entre o pretensioso, o cringe, o divertido e o inteligente, o que deixa tudo meio embaçado e facilmente termina como o que puxa a canção para baixo, salvando o bom refrão devido à sua simplicidade perfeita.

Passados todos esses anos, Applause tem uma aura de cult classic que faz sentido para o que a canção se tornou: um trabalho que merece ser redescoberto, mesmo não sendo o ápice da Lady Gaga.
nota: 8

11 de agosto de 2026

Disco Carly

Don't Leave Me on the Dance Floor
Carly Rae Jepsen


Continuando a divulgação de Day and Night, a Carly Rae Jepsen lança outro acerto na saborosa Don't Leave Me on the Dance Floor. E a canção já meio que se torna uma das melhores da sua carreira até agora.

Mudando novamente de estilo, a cantora agora navega belissimamente pelas águas da disco em uma elegante, envolvente e deliciosa nu-disco misturada de maneira inteligente com eletrônico, synth-pop, synth funk e dance-pop. A produção cria uma batida realmente especial que entra naquele hall de trabalhos que exalam atemporalidade, mas que está totalmente mergulhado em uma modernidade respeitosa.

Tenho que admitir, porém, que, se o clímax fosse ainda mais apoteótico e grandioso, o resultado final de Don't Leave Me on the Dance Floor ainda seria melhor do que já realmente se tornou. Além da excepcional produção, a canção ainda conta com uma letra simples, eficiente e com uma emoção tangível que se adequa perfeitamente à categoria de “chorar e dançar” na pista, sendo entoada pela sempre competentíssima e versátil presença da Carly.

E assim a Carly vai criando ainda mais hype para um álbum que promete ser um dos pontos altos da segunda metade de 2026.
nota: 8,5

Deus, Ouça Minhas Orações

That's Like
cupcakKe


Peço ao Deus poderoso que tire qualquer vestígio de sucesso da Nicki Minaj e passe todo para a cupcakKe, pois a rapper merece de verdade. Ainda mais quando entrega canções como a sensacional That's Like.

Apesar de ter menos de dois minutos, o single do seu próximo álbum é basicamente uma aula de como fazer uma canção curta ser completamente marcante. A canção tem apenas um grande e contínuo verso, em que exige a mais poderosa, afrontosa, carismática e frenética possível performance, e isso a cupcakKe entrega de maneira realmente impressionante. Não há nenhum momento em que a mesma perde a cadência e/ou força, introduzindo camadas e texturas que apenas adicionam personalidade ao resultado final. E isso é algo que não falta para That's Like.

A produção consegue usar todos os segundos de uma forma que dá substância para a canção e não a deixa perder qualquer pingo de qualidade devido à sua duração. O que é entregue é uma batida marcante que mistura hardcore/industrial hip hop com toques de eletrônico e experimental, que preenche tanto a canção que parece que estamos diante de um trabalho de minutagem bem maior. Liricamente, a verborragia da escrita da rapper é algo admirável, pois a mesma dispara uma metralhadora a potência máxima, sempre com um acabamento perfeito, um flow preciso e um humor tão distinto e marcante.

Espero que o universo escute minhas preces e que a cupcakKe possa, em algum momento, ocupar um lugar no mainstream que já foi bem preenchido no passado.
nota: 8,5

10 de agosto de 2026

Chorar & Dançar

One song away from crying
Rachel Chinouriri


Eu já escrevi várias vezes sobre canções que se encaixam no título perfeito para “chorar e dançar” na pista de dança, sendo a maior delas o clássico Dancing on My Own, da Robyn. Todavia, pouquíssimas vezes esse foi o tema da canção em si, como é o caso de One Song Away from Crying, da Rachel Chinouriri.

Primeiro single do segundo álbum da britânica, a canção é sobre literalmente colocar seus sentimentos na pista de dança e tentar esconder a dor com uma camada de divertimento. E a letra funciona devido à eficiente construção estética e à tocante sensibilidade que fazem a gente se sentir conectado com os sentimentos explorados na letra, pois acredito que todo mundo já se sentiu da mesma maneira em algum momento. No primeiro verso, tem uma passagem que acerta na mosca o sentimento: “I’ve never looked better and I've never felt worse”. E, sinceramente, quem nunca se sentiu assim?

Sonoramente, a canção é levemente estranha, mas funciona melhor que o esperado ao ser uma mistura refinada e magnética de synth-pop/funk e R&B que cria uma batida que passa longe de ser explosiva, mas vai conquistando aos poucos devido à batida cadenciada, contida e grudenta. Rachel não quer fazer a gente dançar como se não houvesse amanhã, mas, sim, fazer a gente balançar o suficiente para esconder as lágrimas. Falando na cantora, sua voz combina bem com o estilo da canção, já que consegue se moldar bem à atmosfera da canção, especialmente no delicioso refrão.

Um começo curioso e auspicioso para a nova era da Rachel Chinouriri. Tem a minha atenção.
nota: 8


Alguns Anos Atrasado

Animal
KATSEYE


“Perdendo” membros mais rápido do que se pode falar, KATSEYE lança uma das suas melhores canções em Animal. Todavia, a canção está alguns anos atrasada.

Uma divertida e até legal dance-pop/R&B que poderia facilmente ser alguma canção da Meghan Trainor no seu auge comercial, o single funciona até bem devido à produção despretensiosa e segura. Só que a canção soa totalmente datada e meio envelhecida devido à escolha sonora. Além disso, a sensação aumenta devido à composição, que tem a assinatura do Ed Sheeran e de colaboradores frequentes do cantor, e isso deixa uma sensação ainda maior de déjà vu, com toques de naftalina em Animal. O que ajuda de fato é a performance solar e realmente carismática das integrantes, que estão no melhor momento como um grupo, pois deixa as integrantes menos expostas às loucuras e exageros vocais de outras canções.

Animal é até boazinha, mas não ajuda a realmente salvar a lavoura do KATSEYE.
nota: 6,5

9 de agosto de 2026

Antes Tarde do Que Nunca

4
Beyoncé



Antes Tarde do Que Nunca - Versão Single

Dance for You
Beyoncé

Lançada como parte da versão deluxe de 4, Dance For You é uma das melhores canções dessa era, pois agrega todas as qualidades do álbum e adiciona mais uma camada de sensualidade. Uma pena, porém, que não seja tão lembrada dentro da discografia da cantora.

Com mais de seis minutos, a canção é um trabalho de uma riqueza sonora admirável devido à espetacular construção instrumental, que vai criando camadas para o desenrolar envolvente, magnético e de uma elegância cativante. Produzido pela cantora ao lado do The-Dream, Dance For You é uma mid-tempo R&B com toques de soul que consegue ter uma batida tradicional sem soar nada datada devido, principalmente, à inteligência com que tudo vai sendo explorado para nunca deixar a canção perder um pingo de interesse, mesmo devido à sua grande duração. É como uma montanha-russa que nunca para de descer, sempre mantendo a adrenalina no alto. O motivo para isso é a sua moldura sensual, sexual e deliciosamente safadinha da ótima composição.

A canção é uma clara declaração de amor em que a pessoa quer mostrar da maneira mais picante possível. E isso é feito de uma maneira explícita, mas totalmente refinada e que nunca chega nem perto do vulgar. É o famoso sexy sem ser vulgar. E, queridos leitores, Dance For You é o tipo de canção que “exala” sexo mesmo sem precisar da composição, pois a parte instrumental já faz o trabalho por si. Quando adiciona a letra, o resultado é ainda mais provocativo e instigante, que é contemplado por uma performance da Beyoncé simplesmente hipnotizante. A cantora parece preencher qualquer lacuna com sua voz, que nunca precisa de grandes modulações, mas, sim, apenas da presença magistral para dar toda a força emocional por trás do desejo expresso na canção.

Apesar de ser um trabalho escondido, Dance For You é uma das canções mais preciosas da carreira da Beyoncé.
nota: 9

Primeira Impressão

petal
Ariana Grande



Primeira Impressão

HALO
Tiffany Day



7 de agosto de 2026

Mães

Love Sensation
Madonna & Kylie Minogue


Eis que chegou o dia que nunca imaginei de verdade que iria acontecer: o lançamento da parceria da Madonna com a Kylie Minogue. Duas das melhores e mais importantes de toda a história da música finalmente se uniram para entregar uma canção que realmente é à altura das suas presenças no remix de Love Sensation.

E a melhor coisa é notar que esse remix faz algo quase impossível de ser feito: melhorar a canção original. Um dos momentos menos inspirados de Confessions II, a canção ganha um grande upgrade devido à excepcional produção, que realmente mantém as qualidades da canção-base e adiciona uma carga imensa de novas texturas e camadas, criando um trabalho grandioso, riquíssimo, divertidíssimo e que consegue dar para a canção todo o peso que a parceria das artistas merece.

Devido à nova visão da canção, Love Sensation funciona não apenas como um excepcional e verdadeiro remix, mas, também, quase como uma nova canção devido às alterações realizadas, sendo quase como se fosse um remake da versão original.

No remix, os elementos do “dance-pop, emoldurado por eurohouse e nu-disco” foram refinados e adicionadas doses de diva/french house e electropop, que criam ainda mais corpo para a canção. Todavia, o toque de mestre é a presença da Kylie, que realmente tem todo o espaço para também reivindicar a canção como sua, adicionando a sua imensa personalidade artística do começo ao fim. Muito bem equilibrado entre as duas, Love Sensation também demonstra a química de duas artistas que chegam a um momento das suas carreiras em que não precisam mais provar nada, que são duas forças da música pop com todo o direito adquirido ao longo dos anos. Liricamente, a canção não tem novos versos, mas a mudança na estrutura e a adição de interludes dão vigor e frescor, especialmente devido ao fato de serem utilizados para dar equilíbrio entre as duas cantoras.

E assim, queridos leitores, a história é feita por aquelas que são a história. Simplesmente lendário.
nota: 9

6 de agosto de 2026

Celebração Merecida

MELHOR NOTÍCIA
Liniker

Acho que ainda muitas pessoas não têm noção da grandiosidade e da importância de a Liniker ser atualmente uma das maiores artistas brasileiras em atividade, vencendo Grammys e lotando shows em uma turnê aclamada. E isso é algo revolucionário, pois mostra que o talento sempre vence no final. Como forma de divulgar a Bye Bye Caju Tour e, acredito, também como forma de agradecimento, a cantora lançou a ótima MELHOR NOTÍCIA.

Assim como todo o Caju, a canção é a prova cabal da qualidade da sonoridade da artista, pois é um trabalho completo, refinado e com a sua marca indiscutível. Uma classuda e envolvente mistura de MPB, soul e psicodelia que vai sendo desenrolada sem pressa em uma construção instrumental substancial, elegante e cativante. A produção não tem medo de fazer uma canção de cinco minutos, já que tem a capacidade de manter o interesse de quem ouve preso do começo ao fim. MELHOR NOTÍCIA ainda conta com a presença sempre impecável da Liniker, que entoa a canção de uma maneira que parece não ter dificuldade alguma, mas é uma performance que apenas alguém com a sua capacidade vocal e emocional é capaz de sustentar tão bem.

E assim a gente sabe que ainda existe esperança no mundo quando vê o “bem” vencendo com o sucesso da Liniker.
nota: 8