11 de setembro de 2026

Primeira Impressão

Dancing On The Wall
MUNA



Uma Segunda Chance Para: I Gotta Feeling

I Gotta Feeling
The Black Eyed Peas

Possivelmente, o gigantesco sucesso de I Gotta Feeling foi um dos últimos arrasa-quarteirões antes da ascensão definitiva do Spotify, lançado em 2008, um ano antes do lançamento da canção do The Black Eyed Peas. Devido a isso, a faixa entrou em um “bolsão” dentro da cultura pop reservado para poucas músicas. Todavia, depois de dezessete anos do lançamento, qual é o sentimento sobre sua qualidade? Valeu o hype ou é uma bomba datada?

Na minha visão, o resultado é meio 50/50, especialmente quando a gente olha em retrospectiva. Quando o grupo decidiu deixar meio de lado o hip hop para se aventurar no eletrônico/EDM/electropop, foi uma decisão arriscada, mas que valeu a pena devido ao sucesso do álbum The E.N.D.. Criativamente, o álbum recebeu uma enxurrada de críticas que variaram do mediano ao negativo, especialmente no quesito sonoridade. E acredito que esse seja o grande motivo para I Gotta Feeling ainda ser uma música divisiva, mesmo tendo qualidades bem interessantes.

A razão principal é que a produção de David Guetta e Frédéric Riesterer já era meio datada e clichê quando foi lançada, criando a sensação de que a faixa era uma cópia passada por um triturador de “popficação” para ficar ainda mais radiofônica e massificada. E isso dá à música um aspecto de farofa tão farofada que fica meio complicado encontrar uma identidade distinta. Entretanto, esse problema também gera sua melhor qualidade: o gigantesco fator “chiclete”.

Ouvir a canção pela primeira vez é algo que, sinceramente, deve ser um portal para qualquer pessoa “viciar” nela, para o bem ou para o mal. A batida é sonoramente nada complexa, mas foi cuidadosamente montada para ser grandiosa, grudenta e ter uma melodia de facílima assimilação desde a primeira vez. Quando toca a primeira nota, a gente já sabe qual música vai começar. E isso é algo que podemos chamar de atemporal, de certa maneira, o que meio que contradiz o cheiro de naftalina que a faixa também exala. Felizmente, existe um termo para isso: prazer culposo. E essa é a melhor definição para a música.

Liricamente, I Gotta Feeling apresenta a mesma dualidade ao ser uma obra sobre “curtir a vida” da maneira mais clichê e sem profundidade possível, mas também construída de uma forma que conseguimos decorar a letra na hora em que escutamos e nunca mais esquecer. O que realmente se sobressai é a presença de todos os integrantes do Black Eyed Peas, que entregam boas performances. Mas, sinceramente, é só quando Fergie aparece que tudo dá liga de verdade. E essa observação é ainda mais curiosa, pois faz a gente voltar a pensar por que a carreira solo dela não teve mais durabilidade, ainda mais quando associamos isso ao sucesso de The Dutchess.

I Gotta Feeling é uma máquina do tempo datada e nostálgica, que é até mais interessante do que a gente lembra. Só não pode pensar muito além da superfície para ainda se divertir com a canção.
nota: 7

Irmandade & Celebração

Joy. (featuring Absolutely and Amma)
RAYE


Não há como negar que um dos nomes de 2026 é Raye, devido aos frutos da aclamação e do sucesso de THIS MUSIC MAY CONTAIN HOPE. E acredito que nada mais justo do que lançar Joy como single, pois a canção é, basicamente, uma celebração.

A faixa é realmente uma celebração musical em vários sentidos. Primeiro, conta com a participação de suas duas irmãs, também cantoras, Absolutely e Amma, o que dá à produção todo um aspecto de irmandade, carinho e afeição que é a intenção base do trabalho. Além disso, as duas artistas não estão aqui apenas pela ligação fraternal, mas também por serem talentosas e promissoras, ajudando a elevar o resultado.

Todavia, o brilho principal vem claramente da performance solar, cativante e madura de Raye, que invoca todos os sentimentos que a produção quer transmitir nessa verdadeira celebração à vida e sobre entender que é preciso ser sempre otimista, mesmo sabendo que ela é feita de momentos de tempestade. Apesar de meio clichê, a composição de Joy é lindamente bem escrita e passa verdade em sua mensagem. A produção, por sua vez, cria uma sonoridade que capta todos esses sentimentos ao construir um inspirador, animado, contagiante e envolvente pop soul, dance-pop e gospel, que conquista desde os primeiros segundos.

Nada mais justo do que Raye poder celebrar tudo o que vem alcançando, pois a cantora merece — e muito mais, sem dúvidas.
nota: 8,5

2 Por 1 - Tinashe

Pillow Fight
I'd Rather Be Alone
Tinashe


Ainda no hype de Melatonin, a Tinashe lança duas novas canções para a promoção de Popstar: Pillow Fight e I'd Rather Be Alone. Mesmo não estando na mesma altura do single anterior, as duas faixas dão ainda mais alcance sonoro para a nova era da cantora.

Em Pillow Fight, a cantora volta a entregar um R&B/pop soul com toques de trap que não chega a ser algo revolucionário, mas é bem acabado e possui uma melodia relativamente simples, porém adoravelmente cativante. É um trabalho claramente menor, que consegue se sobressair devido à maneira como a cantora o defende, dominando a faixa como se não exigisse quase nenhum esforço.

Em I'd Rather Be Alone, a qualidade melhora devido à dramaticidade da canção, que se apresenta como uma interessante balada electropop/synth-rock/R&B. E isso é outra amostra clara da imensa versatilidade da Tinashe, que consegue navegar por gêneros tão distintos de maneira fluida e sempre muito bem preparada. Aqui, a cantora entrega uma performance contida, mas emocional, que combina perfeitamente com o trabalho. A canção poderia, porém, ser ainda mais profunda sonoramente, o que a faria se tornar mais pungente e épica.

Dessa maneira, Tinashe continua a comprovar que é um talento realmente único em uma carreira inspiradora.
notas
Pillow Fight: 7,5
I'd Rather Be Alone: 8


10 de setembro de 2026

Primeira Impressão

THERAPY AT THE CLUB
FLO




A Vingança é o Sucesso

crank 2
Slayyyter

Apesar de ainda não ter estourado dentro da bolha mainstream, a Slayyyter vem construindo uma carreira bastante auspiciosa, meio que quase ocupando o espaço da Charli XCX antes do estouro de Brat. E isso vai se mostrando com o hype criado para o lançamento de crank 2.

Single de WOR$T MAN IN AMERICA, a canção é claramente uma irmã/continuação de Crank, lançada no ano passado. Sobre a canção, disse que era “uma sofisticada, borbulhante, barulhenta e potente faixa de industrial pop/electrocash/eletro hip hop que adiciona uma nova camada à construção sonora atual da cantora, mas sem perder o rumo artístico que a mesma vem seguindo”. E, basicamente, essa mesma anotação vale para a nova canção, mas, felizmente, existem outras características que dão personalidade a crank 2.

A primeira, e melhor, é que dá para notar que a canção usa a faixa anterior como base sonora, mas também constrói uma clara personalidade ao realmente apresentar algo novo tanto instrumental quanto melodicamente. Aqui, a atmosfera é mais raivosa e ácida, especialmente devido à composição, que novamente volta a falar sobre o relacionamento da Slayyyter, que terminou nada amigavelmente. Além disso, a produção corrige o erro do clímax final ao dar à canção um encerramento explosivo e poderoso, assim como a performance da cantora, que consegue mostrar uma grande versatilidade sem sair do seu domínio performático. Meu “problema” com crank 2 é que a produção poderia ir bem mais a fundo na construção da batida, fazendo a canção realmente ficar acima da “original”.

Indiscutivelmente, crank 2 continua a cimentar a carreira da Slayyyter como uma força artística que deve ser acompanhada de perto.
nota: 8

9 de setembro de 2026

New Faces Apresenta: Audrey Hobert

Silver Jubilee
Audrey Hobert


Não me incomodo tanto quando um “nepo baby” tem talento de verdade, pois, ao menos, isso compensa a facilidade do artista em alcançar lugares que possivelmente não teria condição de alcançar sem suas conexões. Um exemplo é a cantora Audrey Hobert.

Filha do roteirista Tim Hobert e irmã do músico Malcolm Todd, a cantora ganhou destaque pelo trabalho como compositora para Gracie Abrams e pelo hit moderado de Sue Me no ano passado, mesmo ano em que lançou seu primeiro álbum, Who's the Clown?. Como último single do trabalho, foi lançada a interessante Silver Jubilee.

A grande qualidade é a sua inspirada composição, que mostra claramente a qualidade da sua persona como compositora ao escrever uma letra inteligente, ácida, descolada e divertida sobre perceber o seu envelhecimento e amadurecimento, mesmo sendo uma pessoa que apenas completou vinte e dois anos. A mesma consegue passar uma mensagem com uma personalidade muito bem definida e diferente, sem precisar soar pretensiosa. A produção é um pouco segura demais, mas entrega um eletropop/pop rock eficiente, com uma batida cativante que gruda nos ouvidos no momento em que chega ao seu ótimo refrão.

Se for para ser nepo baby, que seja com talento, como parece ser o caso de Audrey Hobert.
nota: 8

8 de setembro de 2026

Mudanças Amadurecidas

Marianne
Fontaines D.C.


Sempre é interessante tentar entender a evolução sonora de um artista quando ele decide dar uma guinada em uma direção inesperada. Em Marianne, a banda Fontaines D.C. faz exatamente isso.

Primeiro single do novo álbum da banda, Dopamine Chamber, a canção adiciona, de maneira bem nítida, um synth-pop influenciado, aparentemente, pelo Depeche Mode. É uma referência que não é inesperada, mas que dá à faixa um resultado surpreendente e sensacional ao ser lindamente misturada com post-punk, darkwave e dream pop, criando uma melodia hipnótica que emoldura perfeitamente a sensação de uma canção vinda diretamente dos anos oitenta, sem terminar sendo uma cópia barata.

Existe um trabalho muito inspirado, maduro e poderoso na construção de Marianne, especialmente em seu clímax final, que arremata a canção de maneira decisivamente especial. A performance sombria e marcante do vocalista Grian Chatten dá uma ênfase emocional e angustiante à inspirada composição sobre problemas mentais e os efeitos que eles causam nas pessoas.

Entrando no final do ano, o Fontaines D.C. se torna um dos nomes que mais me despertam hype. Veremos.
nota: 8,5

A Maldição do Linear

CLICK
JISOO


Única integrante do Blackpink a não lançar, até agora, um álbum solo, Jisoo continua tentando se consolidar de maneira a “alcançar” suas companheiras de grupo. E a mais nova tentativa é com o single CLICK.

A canção é até boazinha, mas perde uma grande oportunidade de ser ótima devido a uma produção que nunca a faz deslanchar. Isso fica ainda mais evidente quando percebemos que a batida synth-pop/dance-pop tinha tudo para se tornar um grande trabalho, pois possui uma melodia interessante e bem pensada, mas nunca chega a lugar nenhum, resultando em uma faixa linear e sem verdadeira pegada. Vocalmente, Jisoo entrega uma boa performance, que, porém, carece de maior dinamismo para realmente saltar aos olhos. A composição segue pelo mesmo caminho, mas com um resultado ainda menos marcante que o restante da canção.

CLICK poderia ser um musicão se conseguisse fugir desse estado de linearidade que a impede de sair do apenas “ok”.
nota: 6,5

7 de setembro de 2026

Primeira Impressão

PRIMA
ADÉLA



Projeto: Icônica (Ainda Em Progresso)

Nicole Kidman
ADÉLA


Mesmo não sendo tão bom quanto era esperado, o debut da Adéla tem algumas pérolas, como é o caso de Nicole Kidman.

Uma deliciosa mistura de R&B, alt-pop e trap pop que poderia ser mais aprofundada sonoramente, explorando novas camadas e texturas. Todavia, a produção acerta na mosca com uma batida cadenciada e envolvente, enquanto Adéla entrega uma performance competente. O grande destaque da canção, porém, é sua divertida composição sobre se sentir “poderosa” e se comparar diretamente com Nicole Kidman, especialmente no refrão, em que filmes da atriz são citados de maneira inteligente e incorporados à narrativa.

E é nesses momentos que a gente vê que Adéla tem potencial de verdade.
nota: 8

Um Encontro Que Não Deveria Funcionar

CONSTANTLY
Tiffany Day & slayr


Existem músicas que parecem não ter sido feitas para dar certo, mas, por algum motivo, o resultado acaba sendo drasticamente melhor do que o esperado. Esse é o caso perfeito de CONSTANTLY.

Parceria da cantora Tiffany Day com o rapper slayr, a canção tem uma sonoridade que poderia facilmente desandar ao ser uma mistura de hyperpop/eletropop com elementos de digicore, pop rap e hip hop. Felizmente, a produção competente e inteligente tem a visão necessária para fazer tudo funcionar. Devido a isso, o resultado fica bem no fio da navalha entre o brilhantismo e o desastre, o que, na verdade, faz com que CONSTANTLY ganhe ainda mais brilho justamente por terminar no primeiro lado.

Além disso, a mistura entre os dois artistas se torna ainda mais interessante devido às suas diferenças. Mesmo assim, a presença de ambos na canção faz sentido, principalmente pela ótima composição, que se constrói como uma crônica profunda sobre o relacionamento entre duas pessoas.

E assim temos uma das canções mais inesperadas do ano, que vai entrar na lista das melhores do ano sem nenhuma dúvida.
nota: 8,5

4 de setembro de 2026

Primeira Impressão

Cry Baby
Vince Staples



Grande Lisa

SaWaDiKa
LISA

SaWaDiKa é uma canção que facilmente poderia terminar bem abaixo da média, mas é salva devido à grandiosa performance da Lisa.

Sonoramente, a canção tem uma boa condução, mas é criativamente rasa. Um pop rap com introdução de elementos de jersey club e trap, a canção tem uma construção linear e que várias vezes esbarra no puro clichê. Sem ter momentos de nuances ou novas texturas, SaWaDiKa é uma canção que fica presa a uma mesma ideia sem nunca realmente explorar as suas possibilidades. Não é exatamente ruim, mas, sim, limitada sonoramente. Todavia, o que eleva a canção de maneira considerável é a presença fenomenal da Lisa, transitando entre a sua persona cantora e a persona rapper de uma forma impactante, que mostra um total domínio, força e um talento refinado da artista.

E salvar uma canção é um talento realmente para poucos. Queria, porém, que a Lisa tivesse um material à sua imensa capacidade.
nota: 7


Uma Nova Mulher

Bass Persuades
Miley


Depois de entregar o melhor trabalho da carreira em Something Beautiful, a Miley (agora sem o Cyrus) está de volta para, possivelmente, reconquistar o território comercial perdido. E, como single do novo álbum, foi lançada a canção que dá nome ao trabalho: Bass Persuades.

Apesar de parecer meio que ter as mesmas bases sonoras do álbum anterior, o single é claramente uma versão mais radiofônica e vendável, ao ser um divertido e dançante electropop/electro house com um acabamento elegante e classudo. A produção deixa claro que essa é uma Miley pop, mas é um pop maduro e muito bem pensado. Talvez a produção não acerte ao não dar para a parte final algo mais grandioso, deixando o clímax final meio linear, sendo que poderia ser algo realmente épico. Isso não é um grande problema, pois a canção funciona de maneira bem azeitada e com o fator “chiclete” que vai grudando aos poucos.

Além da produção, o outro destaque é a composição interessante, que parece discutir o fato de a geração atual estar perdida devido ao consumo intenso das novas tecnologias, sem ter espaço para viver de verdade. Também parece apontar para certo crescimento do conservadorismo nessa geração. É uma boa letra que tem um refrão bem convincente que poderia, porém, ser um pouco mais lapidado em alguns momentos, especialmente no segundo verso. E, por fim, Bass Persuades também é a continuidade da demonstração de como a Miley evolui como cantora, ao entregar uma performance versátil e segurar perfeitamente a canção.

Espero que essa nova era da Miley possa reunir o que a mesma mostrou de melhor artisticamente com todo o seu potencial comercial. E isso seria realmente incrível.
nota: 8

3 de setembro de 2026

A Voz Que Faz A a Diferença

Bottle
Remi Wolf


É preciso de muito talento vocal para dar vida a uma canção que poderia facilmente se tornar apenas boa, mas se torna ótima devido a uma poderosa performance. Esse é o caso de Bottle, da Remi Wolf.

Single do seu segundo álbum (Mud), a cantora preenche todos os espaços da canção de maneira primorosa, sem precisar recorrer a estereótipos vocais como, por exemplo, grandes agudos. Com um timbre elegante e melancólico, a cantora mistura contemplação e força na medida certa para carregar essa forte crônica sobre depressão e estar emocionalmente “drenada”. Todavia, a cantora decide seguir um caminho mais sóbrio e menos sentimental, dando a Bottle uma personalidade distinta e muito bem moldada pela sua presença. Sonoramente, a canção é um competente pop rock/soft rock que é elevada devido à presença da sua intérprete, que dá à canção toda uma distinta atmosfera.

E essa é outra prova de que talento sempre é o ingrediente principal de uma boa música.
nota: 8

2 de setembro de 2026

Primeira Impressão

Oh yeah?
Steve Lacy


Antes Tarde do Que Nunca - Versão Single

Hips Don't Lie (featuring Wyclef Jean)
Shakira


Em 2006, Shakira lançou como single a canção Hips Don't Lie, do relançamento de Oral Fixation, Vol. 2. A cantora já era um fenômeno mundial. Na América Latina, a mesma já tinha se consolidado como um nome de peso fazia algum tempo, e o mercado estadunidense e mundial já havia sido introduzido à artista devido ao sucesso de Laundry Service, em 2001. Todavia, o gigantesco sucesso da canção elevou a carreira da colombiana para um outro nível de sucesso estelar, fazendo a cantora se tornar figura carimbada entre as maiores de todos os tempos.

Originalmente, a canção era para marcar a reunião do The Fugees na época, que acabou não saindo do papel. Então, a canção foi “dada” para Shakira, pois a mesma estava cotada para ser parte do remix. E, sinceramente, não acho que, nas mãos de outra pessoa, a canção teria tanto sucesso, pois a canção é embebedada na personalidade da artista, assim como toda a sua estrutura criativa. Claro, a produção e a participação de Wyclef Jean, haitiano de nascimento, também contribuem bastante, mas é claro que existe um tempero extra que apenas a Shakira no ápice da sua criatividade poderia oferecer.

E, com a união de talentos, é criada uma excitante, única, vibrante, original, viciante e atemporal latin pop/dance-pop, que incorpora preciosamente elementos de cumbia e, principalmente, reggaeton, sendo uma das primeiras canções de sucesso mundial que explorou o gênero latino antes da sua popularização. Todavia, Hips Don't Lie não se limita a apenas um caminho, pois a produção cria um instrumental que consegue agregar todas as influências e usá-las da maneira mais inteligente possível, com camadas que dão uma força descomunal, já que a canção é uma das mais reconhecíveis dos anos 2000. Existem, porém, alguns detalhes negativos na canção que é preciso abordar.

Até entendo que seja devido à presença maior do Wyclef Jean, mas a canção parece mais ser um featuring do Wyclef Jean com Shakira do que o contrário, devido à presença do rapper, que é bem grande durante toda a duração. Apesar disso, é preciso apontar que o rapper entrega uma ótima performance, que encontra química com a presença marcante da cantora, que consegue colocar toda a sua personalidade de maneira plena. Tenho que apontar que tenho certo problema com a mixagem da voz da cantora em alguns momentos, mas sua força é tão grande que dá uma apagada nesses “tropeços”. Outra grande qualidade da canção é a sua composição cheia de clichês, mas extremamente eficiente, que gruda na nossa mente e sabe genialmente misturar inglês e espanhol.

Hips Don't Lie é o tipo de canção que poderia muito bem ter sido lançada devido à sua origem, mas é a peça fundamental na carreira de uma das maiores artistas latinas da história.
nota: 8,5

1 de setembro de 2026

Uma Canção Para O Coração Apaixonado

stupid song
Olivia Rodrigo


Uma das melhores canções de you seem pretty sad for a girl so in love e, também, da carreira da Olivia Rodrigo, stupid song é um trabalho tão interessante que até mesmo ultrapassa qualquer possibilidade de comparação com a canção que, claramente, é a sua influência.

A estrutura e a construção da canção são claramente referências ao que é feito em happier than ever, da Billie Eilish. E isso não se torna um problema, pois, como disse na minha resenha do álbum, a canção “funciona tão bem em construir sua própria personalidade que é preciso uma certa ginástica mental (como fiz) para comparar as duas”. A produção de Dan Nigro assegura, de maneira bem pensada, que a base pop rock/indie pop possa ter personalidade suficiente para ganhar vida própria em um trabalho instrumental realmente robusto e bonito. Todavia, o que dá vida e é parte fundamental da personalidade é a performance sensacional da Olivia e a composição primorosa, que fazem de stupid song uma das canções românticas mais originais e criativas em muito tempo, conseguindo transmitir perfeitamente a sensação de estar perdidamente apaixonado de maneira inteligente e potente.

E assim a Olivia Rodrigo vai cravando seu nome entre os melhores expoentes do pop contemporâneo.
nota: 8,5

House Família

Motivation
Carly Rae Jepsen


Quarto single lançado de Day and Night, Motivation é a canção mais “fraca” dessa era da Carly Rae Jepsen até o momento. Felizmente, a canção ainda é um trabalho inspirado e curioso.

Uma eurodance com toques de diva/deep house, a canção poderia facilmente ter uma composição de temática clichê e uma batida igualmente previsível, mas Carly entrega uma crônica bonita e afetuosa sobre o poder da família na vida das pessoas. Nas palavras da própria cantora, a composição é sobre qualquer tipo de família que a gente forma ao longo da vida. Esse toque sentimental, partindo de um tema tão específico, contrasta de maneira interessante com a construção da canção à sua volta, causando um ruído que deixa a canção se destacar de maneira única. E isso é algo realmente inspirador.

Todavia, Motivation poderia mergulhar mais na sua inspiração sonora, pois a produção parece meio receosa de se deixar levar e entregar algo mais dinâmico e explosivo. Criativa e inteligente, a canção falta, porém, aquele momento explosivo para arrematar tudo de maneira bem amarrada. Até entendo que, dependendo da maneira que fizesse, isso poderia diminuir o impacto emocional da canção, mas a produção teria total capacidade de encontrar uma saída para isso sem comprometer as outras qualidades da canção.

De qualquer forma, a canção é outro inspirado tijolo nessa era tão inusitada da Carly Rae Jepsen.
nota: 8

31 de agosto de 2026

Primeira Impressão

RX
Rico Nasty



O Melhor Exemplo de Quero Mais

BODY TYPE
Pabllo Vittar & Urias


Body Type, segundo single de LOST IN LUST, da Pabllo Vittar, é o tipo perfeito de canção que deixa a gente com a sensação de “quero mais”.

Com a participação da sempre bem-vinda Urias, a canção é uma sólida dance-pop/eletropop, com elementos mais acentuados de eletrônico, que não chega a engrenar, mas também não é uma bomba de verdade. Na verdade, a canção tem uma construção de batida bem legal que faz a gente dar uma vibrada legítima, mesmo pairando mais pelo lado do clichê. O problema de Body Type é que a canção não parece se aproveitar bem do que tem de bom, fazendo uma canção rápida e rasteira da maneira menos ideal possível. O single poderia se alongar mais e trabalhar melhor a batida para conseguir extrair todo o suco que ficou preso e que daria à canção ainda mais sabor.

É um gosto de quero mais, sim, mas um gosto levemente amargo que poderia ser bem mais doce.
nota: 7

New Faces Apresenta: Bella Poarch

Stay Gone
Bella Poarch


Com a ascensão dos famosos influencers, é cada vez mais comum ver esses nomes aparecerem dentro da mídia tradicional e, claro, do mainstream, ao tentarem a sorte em outras áreas. E não tenho problema nenhum quando a pessoa em questão mostra talento, como é o caso da Bella Poarch.

Quarta pessoa mais seguida no TikTok, a cantora dá os mesmos passos da Addison Rae (a quinta mais seguida) ao se aventurar no mundo da música. Apesar de um começo não ter sido bem recebido pela crítica e pelo público em geral, a artista parece estar dando a volta por cima, encontrando a sua voz e preparando o lançamento do seu primeiro álbum, intitulado Picnic at the Cemetery. Um dos singles lançados é a canção Stay Gone e, sinceramente, eu realmente fiquei surpreso devido à grande qualidade da canção.

Apesar de não conhecer previamente Bella, eu não esperava algo tão interessante como escutei no single, sendo que a canção é, de longe, a melhor de uma artista novata. Stay Gone é uma madura, inteligente e, claro, inesperada alt-pop com elementos interessantes de trip hop e R&B, que criam uma canção estranhamente cativante, melancólica e sempre muito bem direcionada, mesmo quando quebra expectativas. E essa última característica é que dá toda a força criativa da canção, pois são quebras bem gritantes e perceptíveis que são introduzidas de maneira tão fluida e bem amarrada que não criam nenhum ruído negativo, mas, sim, viram elementos de destaque.

Por exemplo, mais de um minuto final da canção acontece uma mudança rítmica que estende a parte do trip hop da canção, de maneira a aprofundar e apurar uma atmosfera que remete diretamente ao começo. E isso é algo raro de se ver atualmente, pois a canção passa dos quatro minutos sem ter medo de partir para esse lado. Quando ouvi pela primeira vez, pensei na hora que a canção é o que a Melanie Martinez pensa estar fazendo e dei uma risada gostosa. Vocalmente, Bella tem uma voz delicada que funciona bem ao entregar uma performance melancólica, que se destaca entre os versos com a sua voz alterada. O ponto fraco de Stay Gone é a sua boa composição que, porém, claramente poderia ter sido mais lapidada em alguns pontos, especialmente nos versos.

Com esse promissor começo de carreira, Bella Poarch é a prova de que talento pode existir em qualquer lugar, até mesmo em meio a influencers.
nota: 8,5

28 de agosto de 2026

As 100 Melhores Músicas Que Você Não Deve Conhecer

Quando a gente fala de tema de filme da Whitney Houston, é sempre que a gente pensa claramente em I Will Always Love You, pois é uma das maiores canções de todos os tempos. A versão da composição de Dolly Parton é fincada a ferro e fogo no coração da história da música e na cultura pop por dezenas de motivos. Todavia, a cantora não atuou apenas em O Guarda-Costas e também não só lançou uma canção para a trilha de um filme. E é por isso que irei falar sobre...



27 de agosto de 2026

A Evolução da Shygirl

Alyse
Shygirl

Não é novidade para ninguém que a Shygirl vem construindo uma carreira sólida dentro do eletrônico alternativo nos últimos anos. Todavia, a artista pode estar pronta para dar o próximo passo, como mostra a excepcional Alyse.

Possivelmente primeiro single do seu segundo álbum, a canção adiciona novos elementos à sonoridade da artista ao mergulhar de cabeça no art pop que, aliado a uma mistura de deconstructed club e eletrônico progressivo, termina criando uma canção gloriosa e, definitivamente, entra no hall das melhores da carreira da Shygirl. Climática, épica, contemplativa, madura, excitante, poderosa e atmosférica: esses são alguns dos adjetivos que podemos citar para Alyse e, sinceramente, ainda podemos encontrar outros para elogiar a impecável e inteligente produção da própria cantora ao lado de Karma Kid, que criam uma verdadeira pérola sonora.

A canção, porém, não seria tão eficiente sem que os outros elementos funcionassem à mesma altura. Felizmente, a canção conta com uma excepcional composição sobre desejo, que consegue ser poética, com uma estética muito bem construída e um apelo de urgência que reflete na temática. É um trabalho até “simples”, mas de uma força emocional contundente e pragmática. Talvez gostaria de ter ouvido mais da presença da Shygirl, mas a maneira como ela entoa a canção, começando em uma voz off, declamando a canção para seguir o resto com uma performance bem sólida, é outro acerto sem dúvidas, especialmente porque os efeitos vocais funcionam da melhor maneira possível.

Se essa vai ser a toada do álbum, a Shygirl está para entrar na sua era de ouro logo no segundo trabalho.
nota: 8,5

26 de agosto de 2026

New Faces Apresenta: earthsignchels

Daddy Died
earthsignchels

Estava esses dias atrás vendo alguns vídeos no Instagram quando apareceu algumas vezes o vídeo de uma rapper se apresentando no A COLORS SHOW. Não sabia quem era, mas fiquei bem interessado devido à sua maneira diferente e crua de entoar a canção. Descobri que a rapper é a novata earthsignchels e a canção é Daddy Died. A minha surpresa foi notar o quanto de pessoas “odiando” a canção, sendo que eu achei uma das melhores de uma novata do ano.

Consigo ver de onde veio o ódio pela canção por certas pessoas devido ao flow da rapper, mas, sinceramente, acho que boa parte vem exclusivamente de misoginia pura. O que a artista faz aqui é entregar uma performance nada convencional, áspera, emocional, desconcertante e sem medo de ser estranha devido à força emocional utilizada, pois isso é algo que faz total sentido ao contexto da canção. E é algo realmente corajoso e de uma qualidade rara ver uma artista em começo de carreira parecer tão unicamente destemida. Mesmas qualidades podem ser direcionadas à genial composição de Daddy Died.

Como já é sugerido, a letra é sobre a morte do pai de earthsignchels e como isso a afeta emocionalmente. Dona de uma lírica direta e, ao mesmo tempo, poética, a rapper entrega uma crônica sobre como a morte afeta as pessoas, de uma maneira que qualquer um que passou por isso pode se identificar e se sentir, ao mesmo tempo, entendido. Pela maneira tão pungente e urgente que a rapper entoa a canção, é fácil associar a canção com um dos estágios do luto: a raiva. Poucas artistas do rap/hip hop atualmente conseguem falar de assuntos tão complexos de uma forma tão interessante, mostrando que earthsignchels tem um futuro auspicioso pela frente. O ponto fraco de Daddy Died é a sua batida, que segue um caminho de hip hop experimental, com boas adições, principalmente o piano de base, mas que poderia ter mais dinamismo sonoro para estar à altura dos outros elementos.

Apesar disso, a canção é um trabalho realmente impressionante caso quem escute não tenha nenhum preconceito de verdade.
nota: 8,5

A Volta da Bruxona

Witch Doctor
Erykah Badu & The Alchemist


Depois de um hiato de vinte e seis anos sem lançar um novo álbum, a Erykah Badu vai finalmente lançar um novo trabalho em parceria com o produtor/DJ/rapper The Alchemist, intitulado Before the World Blows. E, como primeiro single, foi lançada a ótima Witch Doctor.

Uma produção sedosa, adulta, elegante e classuda de, claramente, neo-soul da melhor qualidade, o single faz a gente relembrar a força artística da cantora. Entretanto, a canção ganha vida sonora nos detalhes, como, por exemplo, a adição de elementos de afrobeats e tribal, que elevam o trabalho para algo realmente excitante e diferente, criando a impressão de que a união dos dois artistas vai bem mais fundo e com uma atmosfera realmente excitante.

Liricamente, Witch Doctor é relativamente simples, mas muito eficiente, ao ser uma crônica sobre o poder feminino ser taxado como algo “ruim” ao dar a alcunha de bruxa. Entretanto, a composição se apropria disso para converter em algo positivo. O ponto alto da letra é ela nomear várias bruxas famosas, de maneira a criar ainda mais identificação. E, finalmente, a performance descolada, distinta e cheia de personalidade da Erykah dá vida à canção, fazendo-a realmente ser algo que apenas a própria poderia entoar.

Ainda é meio cedo, mas pode estar se formando o melhor comeback do ano. Mesmo se não for, a presença da Erykah Badu já é algo para comemorar.
nota: 8,5

25 de agosto de 2026

Faixa Por Faixa - Grandes Álbuns (Publicado Originalmente em 5 de maio de 2012)

CD: Jolene
Artista: Dolly Parton
Gênero: Country
Vendagem: Sem dados concretos
Singles/Peak na Billboard: Jolene (60º; primeira música dela a entrar na parada principal americana) e I Will Always Love You
Ano: 1973


Considerado um dos maiores álbuns de todos os tempos, Jolene foi responsável pela ascensão definitiva de Dolly Parton ao sucesso. Lançado em 1974, teve como primeiro single a canção que dava nome ao álbum. Com Jolene (a música), Dolly escreveu uma parte importante do country devido ao sucesso da canção, que é considerada uma de suas obras de arte. Outra música lançada na época foi I Will Always Love You, mas que só alcançou o status de clássico quase duas décadas depois, quando foi regravada por Whitney Houston.

Faixas


1. Jolene: Já foi dito, mas não custa retificar: a canção é um dos maiores clássicos de todos os tempos da música americana. Em uma época em que estava em voga o feminismo, Dolly lançou a história de uma simples dona de casa que, ao ver a linda amante do marido prestes a roubá-lo, vai implorar para que ela a deixe em paz, pois ela “pode ter qualquer homem, mas só ele a fará feliz”. A dramaticidade imposta por Dolly em uma canção brilhante está acima da capacidade da maioria das cantoras.
nota: 10

2. When Someone Wants To Leave: Em uma composição inspiradíssima, em que Dolly faz uma pequena, mas genial, carta aberta sobre o fim de um relacionamento. “But I know you want to leave / As bad as I want you to stay”, declama Dolly, tentando saber o que está acontecendo. Colocado assim, parece uma continuação da história de Jolene.
nota: 9,5

3. River Of Happiness: Deixando o tom mais “alegrinho”, ela faz uma canção sobre o amor e o que ele pode trazer. O espírito acolhedor de Dolly se encaixa perfeitamente no tom da canção.
nota: 8,5

4. Early Morning Breeze: Regravação de uma música sua que tinha saído em outro álbum. A produção instrumental é de arrepiar. Com inspiração no rock e a adição de um baixo que faz lembrar Hendrix, a canção é um dos pontos altos do álbum. Ainda mais juntando a estranheza de uma composição leve e para cima com um arranjo um pouco dark e mais “sério”.
nota: 10

5. Highlight Of My Life: Voltando ao “normal”, ela entrega uma “prima” country de You Are the Sunshine of My Life, de Stevie Wonder. Alegre e divertida do começo ao fim.
nota: 8,5

6. I Will Always Love You: É muito interessante ver como foi gravada originalmente uma canção que ficaria famosa de outra maneira. Muito mais contida que a versão de Whitney, a interpretação de Dolly mostra mais tristeza na colocação das notas e na divisão da melodia, que já começa com o arranjo e, antes do final, é mais declamada no ritmo. Essas diferenças são gritantes, mas não comprometem nenhuma das duas versões de serem geniais.
nota: 10

7. Randy: Uma canção de apenas um minuto e cinquenta e dois segundos é melhor que muita canção de hoje em dia com o triplo de duração, produção e composição. Uma simples e tocante declaração de amor pode ser mais poderosa que uma complexa e demorada narração sobre o amor.
nota: 9

8. Living On Memories Of You: Uma música pode vencer o tempo quando, ao ouvi-la, você pode colocá-la em uma nova roupagem e ela continuar tão boa. Ouvindo a canção e prestando atenção à interpretação magnífica de Dolly, fiquei imaginando uma cantora de soul/R&B fazendo uma versão poderosa para a triste letra. Assim, canções se fazem eternas.
nota: 9,5

9. Lonely Comin' Down: Única música do álbum que tem duração de mais de três minutos, revive a parceria dela com o cantor que a lançou, Porter Wagoner. Escrita por ele, a canção é uma balada avassaladora sobre a solidão e o que ela traz. Dolly está inspirada para mostrar a tristeza necessária.
nota: 10

10. It Must Be You: Terminando com uma canção romântica sobre encontrar o amor da vida.
nota: 8,5

Obrigado por todo, Dolly!

 

Well, I can't tell you where I'm goin', I'm not sure of where I've been
But I know I must keep travelin' 'til my road comes to an end
I'm out here on my journey, tryin' to make the most of it
I'm a puzzle, I must figure out where all my pieces fit

Um Turbilhão

Can't Get Over Losing You (feat. Portraits of Tracy)
The Avalanches

Quase nunca uma canção que tem muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo consegue dar certo sem precisar exatamente fundir todos os elementos. E isso acontece com a interessante Can't Get Over Losing You, da banda The Avalanches.

O single do próximo álbum da banda (No Bad Memories) tem, ao mesmo tempo, sample de canção de cantor da Motown desconhecido, lançada em 2022 depois da sua morte (I Can’t Get Used to Losing You, de Wilson William), voz distorcida, batida com várias influências e uma duração de menos de três minutos. E, sinceramente, o resultado é bem melhor do que o esperado, devido à criatividade com que tudo isso é agrupado em uma canção original, divertida, madura e realmente única.

Uma mistura de chillwave com nu-disco, eletropop e electro house, Can't Get Over Losing You funciona principalmente pela habilidade da produção em saber polir o que poderia deixar resíduos não bem estruturados, deixando certeiramente as aparas necessárias para criar esse turbilhão bem-vindo de estranheza que dá um toque refinado para o resultado final. É interessante notar que algo fora do lugar poderia fazer a canção desandar. Entoada pela artista Portraits of Tracy, a maneira como os vocais são conduzidos, mesmo sob efeitos, faz sentido dentro da canção devido a toda a sua atmosfera.

E, apesar de ser “pequena”, ao ter menos de três minutos, a produção consegue preencher qualquer sensação de brevidade em uma canção que realmente ocupa toda a sua duração, sem a gente precisar de mais. Outro feito louvável para uma canção que é um trabalho de elogios.
nota: 8,5


Oh! Glória! Nelly!

Maneater (RITUAL VERSION)
Nelly Furtado


Poucas vezes fui pego de maneira tão surpreendente como ao ouvir Maneater (RITUAL VERSION), da Nelly Furtado. Single para o lançamento da versão comemorativa de vinte anos de Loose, a canção não é um remix ou uma versão diferente da canção original e, sim, uma nova e completa canção que simplesmente eleva o material para um patamar completamente novo e incrivelmente genial.

A nova versão foi literalmente reconstruída da base sonora, ao ir de uma divertidíssima eletropop/R&B para uma épica, soturna e colossal mistura de dark ambient com neoclassical, art pop/rock e baroque pop. Atmosférica e sufocante, a construção do genial instrumental cria toda uma impensada e magistral atmosfera sombria que dá novo significado para a composição, que não foi alterada. Se antes a canção era sobre a força sexy de uma mulher sem medo da sua sexualidade, para ter uma energia quase mística e de uma força feminina que transcende o humano, quase como uma deusa ou bruxa de poderes incontáveis. É uma mudança tão espetacular que a gente fica realmente impressionado e quase sem palavras depois de escutar.

Com uma vibe saída de algum álbum da Lingua Ignota/Reverend Kristin Michael Hayter, Maneater (RITUAL VERSION) ainda tem outro destaque impressionante na performance vocal da Nelly. Obviamente, a cantora muda a sua maneira de entoar a canção, mas, sinceramente, eu não esperaria que ela segurasse tão bem uma canção com essa vibe. E não é apenas bem e, sim, brilhantemente, conseguindo manter intactas sua personalidade e características e, ao mesmo tempo, carregando toda a gravidade e força da canção de forma irretocável. Tenho que admitir que, com mais de sete minutos, a canção se beneficiaria de uma versão mais enxuta. Todavia, não posso negar que a produção da cantora ao lado de Adam Tendler consegue manter a qualidade e a atenção até o último segundo.

Se no começo do ano alguém tivesse falado para mim que a possível melhor canção do ano fosse uma versão de uma canção da Nelly Furtado de 2006, não teria acreditado e ainda teria gargalhado dessa pessoa. Só que essa é a situação em que me encontro atualmente, e não tenho do que reclamar.
nota: 9,5

24 de agosto de 2026

Primeira Impressão

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Kelela


Química Fundida

the bridge
Kelela & PinkPantheress

É meio complicado transmitir com precisão as personalidades artísticas de dois artistas em uma colaboração ao mesmo tempo em que se consegue fundi-las em apenas uma só. Entretanto, isso é o que acontece na excepcional the bridge.

A união da Kelela com a PinkPantheress poderia gerar algum atrito, pois, apesar de estarem dentro do mesmo reino sonoro, as duas apresentam diferenças bem nítidas. Felizmente, o resultado aqui é uma madura, fluida e cadenciada mistura das duas sonoridades, de forma a se tornar uma fusão praticamente perfeita, em que dá para sentir a força de cada uma impregnada na canção, sem uma se sobressair à outra. Devido a isso, the bridge se torna uma melódica e sensual 2-step, com pitadas generosas de R&B alternativo e pinceladas de UK bass e future garage, criando uma das batidas mais elegantes do ano.

Agrega-se a isso as performances inspiradas de ambas, exalando suas distintas personalidades, e uma química bem construída, e eis que temos uma das colaborações mais afinadas de 2026.
nota: 8,5

Primeira Impressão

EQUILIBRIVM II
Anitta



Primeira Impressão

Do That Again
Malcolm Todd



21 de agosto de 2026

Uma Segunda Chance Para: Show das Poderosas

Show das Poderosas
Anitta

Com uma carreira cheia de altos, baixos e alguns baixíssimos, Anitta chega a seu momento ao finalmente se encontrar artisticamente. Por isso, resolvi voltar no tempo e dar uma segunda chance para a canção que deu início a tudo: Show das Poderosas.

Era quase impossível, em 2013, não ter ouvido em algum momento e, possivelmente, por diversas vezes, a canção que se tornou o hit daquele ano. Apesar de não ter sido a primeira da carreira, Show das Poderosas foi o que colocou Anitta no mapa do mainstream brasileiro e, passados treze anos, é preciso apontar que tudo faz muito sentido, pois, mesmo não sendo um trabalho genial, a canção tem suas qualidades que a destacam na multidão. A maior delas é a produção, que consegue misturar bem o funk com o pop, adicionando toques de dance-pop e dubstep. Na verdade, quando esse último gênero é introduzido durante o segundo verso, é que a canção realmente atinge seu ápice, devido à total e inesperada quebra de expectativa.

O problema maior da produção é o seu clímax final, especialmente nos momentos finais, em que a canção perde a força em uma conclusão totalmente anticlimática, que meio que dá uma esfriada na canção. Show das Poderosas é dona de uma composição rasa, mas viciante, que consegue dialogar com a atmosfera pop e funk, criando uma letra que meio que se torna atemporal. Não é nada genial, mas é perfeita para o tipo de proposta da canção. Anitta, ainda no começo de carreira, entrega uma presença sólida, mas morna e, principalmente, sem muita versatilidade, deixando as mudanças da própria música fazerem parte do trabalho. Todavia, não há como não afirmar que existe um carisma da mesma que meio que faz a gente ser cativado pela sua presença.

Em Show das Poderosas, Anitta deu o seu primeiro grande passo para se tornar a maior popstar brasileira da nossa geração, para o bem ou para o mal.
nota: 7,5

20 de agosto de 2026

A Guinada

Just Be Bodies
Rose Gray


Estou realmente começando a ficar hypado para o segundo álbum da Rose Gray. Depois da ótima Club To Your Arms, a cantora lança outro acerto em Just Be Bodies.

Apesar de um pouco menos inspirada, a canção ainda mostra a evolução nítida da cantora ao entregar uma canção realmente competente e com uma personalidade muito bem definida e amadurecida. A produção entrega uma synth-pop emoldurada lindamente por um véu de house/trance, criando uma batida revigorante, mesmo que trabalhando em uma cadência mais contida. Acredito que, por ter uma batida “menor”, Just Be Bodies não chega a alcançar um novo nível, mas, felizmente, o cuidado instrumental e toda a atmosfera da canção valem realmente a pena. Gosto da composição, que continua a apostar no emocional misturado com sensualidade e toques filosóficos de uma forma natural e nada pretensiosa. Rose entrega uma boa performance, que poderia ter mais variação aqui e ali para dar um pouco mais de dinâmica à canção.

De qualquer maneira, Rose Gray pode realmente sair do lugar de promessa para ser uma realização.
nota: 8


Reavaliação

Didn't Mean to Turn You On
Mariah Carey & Rochelle Jordan


Possivelmente, a era Glitter da Mariah Carey seja uma das mais controversas da cultura pop de todos os tempos. O álbum que serviu de trilha sonora para o filme de mesmo nome foi uma das peças que quase destruíram a carreira e a vida da cantora no começo dos anos 2000. Todavia, nos últimos anos, o álbum vem sendo reavaliado por parte do público como sendo injustiçado. E é tanto que a cantora vai lançar um trabalho comemorativo dos vinte e cinco anos. Como primeiro single, foi lançado o remix de Didn't Mean to Turn You On.

A escolha é curiosa, pois a canção nem foi single do álbum. Entretanto, o resultado é realmente inspirado devido à presença magnética da Rochelle Jordan e do produtor KLSH, que juntos entregaram o sensacional Through The Wall no ano passado. O resultado é um verdadeiro fato raro, pois termina sendo melhor que a original. De uma sólida, mas conservadora, regravação da canção original da cantora Cherrelle, a canção sai do funk/disco original para uma envolvente, deliciosa, moderna e madura synth-pop misturada com eletrônico e traços de funk, que transforma a canção em uma nova e excitante versão.


E isso é algo realmente admirável, pois a produção consegue dar para a canção a vibe da Rochelle sem esquecer da personalidade da Mariah, respeitando também a versão original de Didn't Mean to Turn You On. Na verdade, eu gostaria muito de ver a Mariah fazendo um trabalho completo com o produtor, pois isso seria, com certeza, algo que iria ser um comeback lendário. Vocalmente, as duas cantoras se misturam perfeitamente, e a Rochelle adiciona uma carga de personalidade bem grande para essa versão sem tentar roubar a música para si ou se deixar intimidar pela parceira lendária.

Espero que nessa comemoração possa ter versões tão interessantes e que ajude a mais pessoas a redescobrir um álbum longe de perfeito, mas que tem algumas pérolas sonoras.
nota: 8

19 de agosto de 2026

A Que Foi Deixada Para Trás

Pop Sound
Kim Petras

Inicialmente destinada a aparecer no álbum Detour, Pop Sound foi lançada antes no EP Pretour pela Kim Petras de maneira não oficial e longe das plataformas como, por exemplo, o Spotify e afins. Agora, a canção ganha um lançamento oficial para que todos possam ouvir o que é a melhor canção da artista até o momento.

A maior qualidade da canção é que a mesma consegue unir perfeitamente todas as melhores qualidades da sonoridade recente da artista de maneira certeira e refinada. A produção constrói uma marcante, grandiosa e cativante mistura que combina muito bem electropop, hyperpop e electro house, conseguindo criar uma batida que, em nenhum momento, perde o foco ou parte para a cacofonia sonora, em que todas as peças estão lindamente ligadas umas às outras de maneira fluida. O resultado é algo que carrega o DNA da artista e, ao mesmo tempo, coloca a mesma em outro patamar. E parte disso vem da sua composição.

Pop Sound é sobre música, ou melhor, sobre o lugar da música no mundo atual, especialmente da música da Kim. É uma temática bem interessante que precisa ser muito bem trabalhada para não cair em um mar de pretensiosidade. Felizmente, o resultado aqui mescla bem reflexões filosóficas com a estrutura de uma canção pop, criando um trabalho com maturidade artística e estética. Gosto especialmente dos versos em que a Kim questiona as gravadoras ao entoar “What's your position? Your holy mission?/ Shoot at the stars, head first collision”. Por fim, a cantora entrega uma ótima performance que começa a mil por hora e termina da mesma maneira.

Dessa maneira tão inspirada, a Kim Petras vai reconstruindo a sua carreira como poucas artistas têm a chance de alcançar.
nota: 8,5