19 de abril de 2026

The Queen, The Mother, The Madonna

I Feel So Free
Madonna


Apesar de estar otimista e ansioso pelo lançamento de Confessions II, preciso admitir que estava cautelosamente otimista, pois, mesmo sendo a Madonna, os últimos lançamentos da cantora são, no mínimo, medianos em sua grande maioria. Então, eis que surge o lançamento de I Feel So Free para mudar a minha concepção, ao me deixar realmente excitado para o álbum, já que a canção é a melhor música da cantora em nada menos que vinte anos.

Na verdade, a canção não é apenas uma ótima canção, mas, sinceramente, já pode ser considerada digna de entrar no panteão das melhores da carreira da Rainha do pop. E isso é algo impressionante para uma artista que parecia estar no automático nos últimos trabalhos. Ao voltar a trabalhar com Stuart Prince, produtor do primeiro Confessions e responsável recentemente por trabalhos ao lado de Jessie Ware e Dua Lipa, a cantora não apenas se reconecta diretamente a uma sonoridade, mas também volta a ter química de verdade com um parceiro de criação. E isso é algo essencial para a construção de qualquer canção de uma artista tão única como a Madonna, e Stuart entende isso à perfeição. Por isso, I Feel So Free é uma verdadeira música com M maiúsculo.

Outra imensa qualidade da canção é o fato de que ela não é apenas uma continuidade da sonoridade do primeiro álbum, mas, sim, uma canção com identidade própria. Na verdade, a melhor definição é que I Feel So Free seria a prima direta de Hung Up/Sorry, mas que tem laços com outras influências. Parecidas, mas nada iguais. A canção, que não é um single oficial, traz uma fusão refinadíssima de deep house com progressive house e dance-pop, criando uma sonoridade esteticamente familiar, mas que vai se desenrolando em um trabalho energético, atmosférico, poderoso e impressionante. A produção consegue dar a gravidade e grandiosidade que uma música da Madonna precisa ter para carregar toda a sua força, lembrando de criar uma vibe que é puramente pop. E esse pop é em sua forma mais Madonna possível, com uma canção de mais de cinco minutos e com uma composição que basicamente é uma celebração da volta da artista, que logo no primeiro verso manda:

Sometimes I like to just hide in the shadows
Create a new persona
A different identity
I can be whoever I wanna be

Vocalmente, a canção é o melhor trabalho da cantora em anos, pois, além de deixar a sua voz o mais natural possível na parte cantada, os momentos em que ela declama os versos casam lindamente com a atmosfera da canção e são a base perfeita para o estouro sonoro do refrão e o ótimo clímax final.

Ainda é um pouco cedo para declarar que esse é o retorno à altura que a Madonna está planejando para si mesma. Todavia, se isso for uma prévia real do que está por vir, é certo que estaremos diante de outro marco da música.
nota: 9

O Tema Não Tema

First Light
Lana Del Rey


E a Lana Del Rey que lançou um ótimo tema para o James Bond, mas não tem nem chance de se unir a Sam Smith, Adele e Billie Eilish, já que a canção é o tema do game do espião e não do próximo filme. Mesmo assim, First Light é um interessante trabalho que funciona até melhor do que seria esperado.

Sinceramente, eu nunca tinha pensado em como seria uma música da Lana ser tema de 007 e, se pensei, não achei que daria tão certo. E o grande acerto da canção é conseguir, de alguma forma, ter elementos de grandes canções-tema da franquia, ao mesmo tempo que carrega a personalidade da cantora impregnada do começo ao fim. Sendo bem realista, First Light é como se a cantora emoldurasse a sua versão de Shirley Bassey, que tem no currículo três clássicos do gênero. E isso é algo impressionante.

Navegando entre o clichê e o épico, a canção tem um instrumental que consegue expressar a grandiosidade cafona dos temas tradicionais do 007 com uma maestria impressionante, mergulhando fundo na referência nada sutil. Ao contrário de Skyfall, da Adele, por exemplo, a canção não busca exatamente ser algo ligado diretamente à artista ou ter um verniz moderno, mas, sim, ser um pastiche lindamente criado. Todavia, a canção brilha quando percebemos a personalidade da Lana, quando ela começa a entoar com os maneirismos de sempre, mas vai se transmutando em uma persona que se encaixa com o explosivo clímax final. Só que, até aqui, ainda é possível ouvirmos a velha Lana colocando sua personalidade. O ponto fraco da canção é a boa, mas restrita, composição, que talvez tenha sido feita de maneira mais tradicional que o resto da canção, sem adicionar o toque da cantora de forma realmente nítida.

De qualquer forma, First Light seria o Oscar da Lana Del Rey, mas fico feliz de apenas existir.
nota: 8,5

Roqueira

idea 1
Kelela


A capacidade de compreender a sua própria sonoridade de uma maneira realmente plena é algo reservado para poucos. E esses poucos têm a capacidade de transmutar sua música sem perder a essência, como é o caso de “Idea 1”, da sempre sensacional Kelela.

Adicionando uma carga imensa e impressionante de rock alternativo e shoegaze à base de R&B alternativo, que é um dos nortes da sua carreira, a cantora é capaz de entregar uma canção poderosa, envolvente e densa. Com um instrumental intrigante e de uma maturidade visível, “Idea 1” é uma canção que vai se derramando em ondas nos nossos sentidos, desde os seus primeiros acordes contidos, até ir se encorpando e ganhando uma forma intrigante e majestosa, para finalmente terminar de maneira reflexiva.

E a presença imponente de Kelela é outro grande acerto, pois a cantora, dona de uma voz doce e aveludada, vai se adequando ao que a canção transmite, indo do sentimental até a grandiosidade com uma maestria louvável. É preciso dizer que, apesar de possuir uma boa e inspirada composição, a canção perde certa força por não ter aquele momento de genialidade pura. Mesmo com esse detalhe, Kelela não deixa de mostrar a infinitude de seu talento.
nota: 8,5

Uma Pras Gays!

RUNWAY
Lady Gaga & Doechii


Nada mais “cunty” do que ter como um dos temas de O Diabo Veste Prada 2 a parceria da Lady Gaga com a Doechii na deliciosa Runway.

Longe de ser o tema cinematográfico da década, a canção cumpre tão bem seu papel que não deixa muito espaço para não acharmos que é perfeita para o que se propõe a fazer. Uma divertidíssima e superficial diva house fundida com hip hop, ballroom e rap, Runway é o tipo de canção que a gente meio que vicia logo de cara, por ter todos os elementos na proporção certa.

Batida carismática e muito bem construída, a presença “larger than life” da Gaga que, sinceramente, parece mais uma featuring, já que a Doechii tem maior presença na canção e, felizmente, entrega uma ótima performance; a composição rara, mas sensacionalmente clichê e deliciosamente icônica, que consegue, ao mesmo tempo, fazer claras alusões e referências a Bruno Mars (coprodutor e co-compositor da canção), a RuPaul, a Eddie Murphy (!!!) e, claro, ao filme.

E, mesmo perdendo a chance de ser genial,  Runway cumpre com louvor sua proposta: uma música para as gays!
nota: 8

Oportunidade Perdida

SHE DID IT AGAIN
Tyla & Zara Larsson


É meio triste ouvir uma canção que não alcança seu total potencial, pois é uma oportunidade perdida bem grande. E é esse o quadro que fica em SHE DID IT AGAIN, da Tyla com a Zara Larsson.

E o grande erro da canção é a sua produção, que entrega uma confortável batida afrobeats/R&B/pop que não está à altura do potencial das duas artistas. Na verdade, a canção, que poderia ser um dos melhores duetos femininos dos últimos tempos, acaba se tornando quase genérica demais para algo que deveria ser uma explosão sonora. A sensação aumenta quando a gente percebe que a composição é um trabalho muito bem pensado, com várias e ótimas citações pop como, por exemplo, Britney Spears e Sade.

E isso se deve, possivelmente, à presença da assinatura do talentoso MNEK na letra. Sinceramente, a canção funcionaria melhor se o artista também fosse o responsável pela produção, pois tenho certeza de que seu toque seria o que falta para SHE DID IT AGAIN. Mesmo sem uma química muito refinada, Tyla e Zara entregam boas performances, que dão certa personalidade à canção. Uma pena que não seja suficiente para salvá-la do lugar-comum.
nota: 6,5

Um Pouco Similar Demais

drop dead
Olivia Rodrigo


Considero, de verdade, a Olivia Rodrigo como uma das melhores artistas da sua recente geração. Dito isso, o lançamento de drop dead, primeiro single do seu próximo álbum, veio com um tropeço bem nítido: a similaridade com Taylor Swift.

Novamente produzido por Dan Nigro, a canção tem algumas semelhanças bem proeminentes com as canções da Taylor, especialmente na sua primeira parte. E estou falando da parte sonora e vocal. Isso tira certa qualidade da canção, pois a Olivia sempre conseguiu imprimir algo que é realmente seu em seus trabalhos. Felizmente, drop dead é uma canção que, se é parecida com alguma outra, é uma canção realmente boa, pois o resultado final é realmente bem acima da média.

Como disse, a canção engrena de verdade a partir da sua metade, em que a produção adiciona novas texturas e aumenta a cadência da canção, criando um divertido, despretensioso e bem apurado synth-pop/pop rock que ajuda a aprofundar a sonoridade de Olivia. Devido ao que já foi citado, o aprofundamento é mais superficial, mas é uma amostra de que a jovem está em processo de amadurecimento estético de fato. A composição é o ponto alto do trabalho, pois é o que melhor dá personalidade à canção, já que deixa claro ser o trabalho de uma jovem de apenas 23 anos que começa a encontrar novos caminhos para se expressar. E, mesmo não sendo a sua performance mais interessante, a Olivia segura muito bem a canção do começo ao fim.

É um começo bom para a nova era da Olivia, mas que guarda alguma sensação de que pode ser a sua menos impactante artisticamente.
nota: 7,5

Lavagem de Dinheiro

PINKY UP
KATSEYE


Sinceramente, eu estou começando a achar que tudo envolvendo o Katseye é lavagem de dinheiro à luz do dia, pois só isso explica o lançamento de uma canção ruim atrás da outra. Dessa vez, a bomba é PINKY UP.

O grande problema da canção é que a mesma tem uma batida que é completamente diferente da canção que as integrantes do girl group estão cantando. A produção escolhe seguir um caminho que mistura tecno/trance/dance-pop com uma batida irritante, exagerada e completamente rasa, enquanto existe uma melodia, especialmente vocal, que puxa mais para o bubblegum/dance-pop, criando algo disjuntado, medíocre e desconcertantemente sem sentido.

O pior é que PINKY UP funcionaria muito melhor se seguisse a vibe em que as integrantes estão, pois as jovens realmente entregam tudo em suas performances. Todavia, nada consegue salvar essa verdadeira bomba, já que é totalmente insalubre.
nota: 3

Nostálgica

Younger You
Miley Cyrus


Comemorando vinte anos da série Hannah Montana, a Miley Cyrus lançou um especial para celebrar a marca do que a fez se tornar a estrela que é atualmente. E, como tema, divulgou a sentimental Younger You.

Apesar de eu não cair pela nostalgia do evento, pois nunca assisti à série, é preciso dizer que a canção ajuda a criar uma ótima atmosfera para entendermos o olhar para o passado da Miley. Uma balada country pop/indie folk, a canção é o tipo de música que funciona devido à sua sincera e tocante produção, que não tem a pretensão de ser mais do que realmente é.

E, nesse caso, é ser uma ponte entre a artista atual e aquela que ela era quando estava na série anos atrás. Isso é alcançado sem maiores problemas, especialmente devido à sua composição realmente emocionante, em que a versão mais nova conversa com a Miley do agora. É clichê e simples, mas muito bem escrita, já que parte de um lugar realmente verdadeiro. Tudo se fecha com uma performance inspirada e contida da cantora, que dá os arremates finais à canção. Uma música que exala uma nostalgia tão real que fica impossível não gostar.
nota: 7,5

5 de abril de 2026

Primeira Impressão

Sexistential
Robyn



Primeira Impressão

My Ego Told Me To
Leigh-Anne


Primeira Impressão

luck… or something
Hilary Duff


Cadê a Justiça?

Leak It
FLO


Se houvesse justiça de verdade, o FLO seria o maior girl group da atualidade e isso não está nem para discussão. Em Leak It, o trio comprova por A + B ao entregar uma canção realmente louvável.

Enquanto outras artistas tentam fazer algo que seja divertido, dançante e icônico, o FLO entrega, em uma bandeja, exatamente o tipo de música que deveria virar um grande viral. Uma mistura azeitada e carismática de dance-pop, R&B, crank e electropop que deixa claro que é preciso mais do que uma estética chamativa para fazer esse tipo de canção funcionar, pois Leak It tem uma produção madura, criativa, divertida e que entende bem todos os elementos dessa mistura para que ela funcione perfeitamente. Todavia, o grande trunfo da canção está na sua ótima composição.

Conseguindo ser engraçada, enérgica, empoderada, sexy e bem-humorada, a composição consegue funcionar em vários níveis ao falar sobre se sentir tão “gostosa” que vai postar suas fotos, sem parecer forçada, cringe ou clichê. E isso é algo realmente louvável, especialmente quando entrega uma estética refinadíssima com um refrão realmente viciante e contagiante. E, por fim, a presença vocal das três integrantes, que ganham o mesmo destaque aqui, é algo que arremata a canção com chave de ouro.

E o sucesso deveria ser o destino do FLO se realmente fosse um mundo justo.
nota: 8


Vai Que é Tua, BeBe!

Hysteria
Bebe Rexha


Acredito que a Bebe Rexha tenha em mãos o que pode ser um verdadeiro comeback como nos bons tempos. E, novamente, a cantora parece provar isso com o lançamento de Hysteria.

Segundo single oficial de Dirty Blonde, a canção é uma excitante e histérica mistura de pop rock com electro house que funciona perfeitamente ao ficar bem na beiradinha da farofa, encontrando o criativo e, também, o clichê. É um lugar difícil de construir uma canção como essa, mas a produção acerta bem ao fazer da experiência algo rápido e rasteiro, não deixando espaço para furos ou tropeços, já que poderia facilmente descambar para uma bomba atômica sonora.

O grande problema de Hysteria, porém, é a sua composição, adequada, mas completamente piegas e sem muita criatividade. Dentro do contexto da canção, a letra funciona devido à sua pegada direta e sem maiores enfeites. Todavia, o trabalho poderia ter um refinamento estético maior, com uma composição menos previsível e um pouco mais profunda. Dito isso, a canção se beneficia da presença marcante da performance da Bebe, que, mesmo não saindo muito de um lugar de conforto, consegue dar a personalidade ideal para a canção.

E assim a Bebe vai saindo do asilo da Khia de maneira com potencial de verdade.
nota: 8

Country Lojas de Departamento

Choosin' Texas
Ella Langley


Sabe aquele tipo de canção que tem cara de tocar ao fundo em lojas de departamento? Então, pela primeira vez, ouço uma canção country que se encaixa perfeitamente nesse nicho, como é o caso de Choosin' Texas, da Ella Langley.

Conquistando o primeiro lugar na Billboard, a canção é uma simpática, inofensiva e meio que esquecível mistura de country/soft rock, que tem uma produção boa, mas nada que possa ser remotamente ligado a algo excitante. Quase automática no quesito criatividade, a produção se salva de verdade devido ao bom instrumental e à força da sua composição. Muito bem escrita, emocional e refinada, a letra de Choosin' Texas tem aquele tipo de carisma lírico que faz a canção funcionar ao narrar, com inteligência, que a narradora percebe que foi trocada por outra, usando uma metáfora sobre trocar de estados nos Estados Unidos. A canção finaliza com a doce e competente performance de Ella, que cumpre seu papel como uma boa vocalista country, sem, porém, adicionar nada de novo à mistura.

É exatamente como uma música de departamento: agradável, mas que a gente já esquece assim que sai da loja.
nota: 7

29 de março de 2026

A Mais Fraca

Automatic
Jessie Ware


Se todas as canções mais “fracas” de um artista fossem como Automatic, da Jessie Ware, o mundo com certeza seria um lugar bem melhor.

Terceiro single de Superbloom, a canção é a menos inspirada até agora e, mesmo assim, é um trabalho realmente interessante e gracioso. Acredito que o fato de ter menos de três minutos seja um dos fatores que fazem a canção parecer menor do que o esperado, pois parece que fica faltando tempo para trabalhar melhor a deliciosa produção pop soul com boogie e toques de funk, que dá outra faceta à nova era da cantora. Ter esticado mais o aprofundamento dessa sonoridade daria ainda mais força à canção, já que poderíamos ouvir mais do excepcional instrumental.

Todavia, Automatic é um trabalho que emana a essência da cantora devido a essa produção, que capta perfeitamente toda uma aura vintage sem soar datada, pretensiosa ou baseada em uma nostalgia barata. É fino, elegante e sincero, com um toque delicioso que mistura sensualidade com romance — algo que apenas alguém como Jessie é capaz de entregar. Outro ponto alto é a rápida, mas deliciosa, participação do ator Colman Domingo, com um voiceover que abre a canção e adiciona ainda mais personalidade. E isso tudo porque Automatic nem está no mesmo nível que as canções anteriores. Imagine se estivesse.
nota: 8

Uma Para os Gay Emocionados

The Best
Conan Gray


É ainda um pouco desconcertante para uma pessoa como eu, que tenho alguns anos a mais nas costas que as novas gerações de pessoas queers, que possam, apesar de todos os desafios que ainda enfrentamos, ter artistas queers que fazem da sua arte escapes para os seus sentimentos e que encontrem pessoas que os entendem perfeitamente. Em The Best, o Conan Gray entrega um desses momentos que não teríamos a chance de ouvir alguns anos atrás com tanta facilidade no mainstream.

Single da versão deluxe de Wishbone, a canção é uma power balada pop rock/indie pop que casa perfeitamente com a atmosfera do álbum, mostrando a capacidade de Conan de uma maneira tão clara como o dia. E isso não é novidade, pois o artista vem amadurecendo a olhos vistos e entrega aqui uma das suas canções mais refinadas até o momento. Um dos motivos para isso é a sua ótima composição, que se deixa ser sentimental, emocional e dolorida ao contar sobre o final de um relacionamento que não deu exatamente certo do ponto de vista de uma pessoa queer.

A letra, porém, poderia ser facilmente cantada por um artista de outra sexualidade e/ou gênero, que teria a mesma carga de sentimentos, mas ganha novo significado aqui por poder finalmente ter um ponto de vista que não seria possível anos atrás. E isso é tão importante quanto a mesma falar claramente sobre um romance queer, pois dá vazão a sentimentos que, no final das contas, são iguais para todos. Outro grande momento é a performance de Conan, que carrega a canção de maneira segura e com uma interpretação tocante. E isso é algo que faz de The Best uma canção até mais importante do que a gente espera.
nota: 8

Enfim, Um Comeback?

Don't Make Me Love U
Lizzo


Depois de ensaiar um comeback que não deu certo artisticamente ou comercialmente, a Lizzo prepara um novo retorno com o lançamento de Don't Make Me Love U. E tenho que admitir que é bem mais promissor do que eu esperava.

Não acho que a fase de “flop” da cantora irá passar tão cedo, mas o single é realmente um trabalho ótimo, especialmente devido às decisões acertadas da produção. A maior delas é o uso inteligente e criativo de duas interpolações de canções lendárias: The Best, da Tina Turner, e Livin' on a Prayer, do Bon Jovi. As melodias dessas duas músicas ajudam a construir Don't Make Me Love U, dando claramente à faixa — que mistura dance-pop, synth-pop e pop soul — cara, coração e alma dos anos oitenta. E é uma influência que não parece forçada ou baseada em uma nostalgia barata, devido, principalmente, à inteligência da produção em não deixar a canção ser engolida pelos samples, mas, sim, em utilizá-los apenas como base para uma construção independente.

Isso fica claro quando a gente escuta pela primeira vez sem saber dessa escolha criativa, pois dá a sensação de ser apenas uma canção inspirada na estética oitentista, e não fortemente dependente dela. E, quando percebemos, tudo passa a fazer total sentido, criando uma dinâmica bem interessante. Outro grande ponto positivo é a performance sensacional da Lizzo, que entende perfeitamente o estilo da canção e entrega uma carga emocional poderosa, além de um desempenho vocal admirável.

O ponto fraco de Don't Make Me Love U é a composição formulaica sobre dar um ultimato em um relacionamento “ioiô”, mas isso não atrapalha o resultado final a ponto de tornar a canção menor do que realmente é.

Pode não ser a salvação da carreira da Lizzo, mas a faixa é uma amostra de que ela ainda tem muito a mostrar.
nota: 8

ArloPantheress

Get Go
Arlo Parks


A “PinkPanthererização” de Arlo Parks deveria, na teoria, não funcionar — mas, na prática, está saindo bem melhor do que o esperado. E isso fica claro em Get Go.

Single de seu próximo álbum, Ambiguous Desire, a canção remete fortemente à estética de PinkPantheress, especialmente pela construção estilizada que mistura alt-pop com gêneros como drum and bass e UK garage, tudo emoldurado por um verniz contido e bastante radiofônico. Ainda assim, a produção consegue “limpar” os elementos que fariam a faixa soar como uma simples cópia, criando algo com a personalidade de Arlo — principalmente ao adicionar mais dramaticidade e toques que remetem à sonoridade do início de sua carreira.

No entanto, o que realmente faz Get Go funcionar é a lírica única da artista. Há uma criatividade genuína que combina simplicidade cativante com uma emoção direta e tocante. Na canção, Arlo narra as dores de curar um coração partido ao reencontrar uma ex e tentar manter algum tipo de amizade. Com uma honestidade delicada, mas pungente, ela consegue expressar sentimentos complexos sem recorrer a grandes floreios líricos. E esse é justamente um dos seus diferenciais: transformar sutileza em impacto, fazendo de Get Go um trabalho que carrega sua identidade, mesmo dialogando com outras sonoridades.
nota: 7,5

22 de março de 2026

Antes Tarde do Que Nunca

B'Day
Beyoncé



Uma Segunda Chance Para: Beautiful Liar

Beautiful Liar
Beyoncé & Shakira


Para marcar o lançamento da versão Deluxe de B’Day, a Beyoncé resolveu lançar como single a canção Beautiful Liar, que marcou a sua primeira grande parceria feminina com a presença da Shakira. Na época, a canção não bateu tão forte em mim, mas, surpreendentemente, envelheceu melhor do que o esperado.

Não dá para negar que o encontro de duas forças é o grande atrativo da canção e que isso é feito da melhor maneira possível, ao dividir quase que por igual a participação de cada uma. Isso dá uma dinâmica incrível à faixa, que se apropria bem do carisma de ambas, sem que nenhuma perca espaço, criando uma boa química entre as duas. Existe, claro, certa fricção devido a personalidades tão marcantes, mas Beautiful Liar se beneficia disso ao gerar uma identidade realmente interessante. O problema aqui é a mixagem da voz da Shakira em algumas partes que, aliada ao seu sotaque, deixa meio difícil entender o que ela canta quando não se conhece a composição. Não é um problema imenso, mas é algo que afeta o resultado final.

Beautiful Liar é sustentada pela produção, que entrega uma eficiente mistura de latin pop, dance-pop e toques de música árabe, sendo ao mesmo tempo altamente comercial e também um tanto clichê. Apesar disso, o trabalho é refinado devido ao cuidado estético aplicado à canção, que consegue criar um instrumental seguro criativamente e com os toques necessários para ser icônico. E assim a composição caminha, mas aqui existe um toque que considero de genialidade ao ser basicamente o mesmo de The Boy Is Mine, da Brandy e Monica, vindo do ponto de vista de duas mulheres maduras que conseguem acertar as contas depois de descobrirem que estavam “saindo” com o mesmo homem.

Com o passar dos anos, Beautiful Liar melhora ao permanecer na memória como uma surpresa inesperada. E também serve como lembrete de que duetos como esse estão cada vez mais raros.
nota: 8

Primeira Impressão

Nothing's About to Happen to Me
Mitski



Primeira Impressão

Cerulean
Danny L Harle



A Genial Raye

Click Clack Symphony. (featuring Hans Zimmer)
RAYE


Ficar aqui relembrando o quanto talentosa é a Raye é meio que chover no molhado, mas, queridos leitores, é algo que precisa ser feito devido ao merecimento da própria. E isso é resultado de uma canção tão espetacular como Click Clack Symphony.

Depois de dois singles impressionantes, a cantora lança o que já considero como uma das melhores canções do ano e, também, da carreira da britânica. E isso é algo impressionante para alguém que já tem uma lista de canções no mesmo calibre. Entretanto, a cantora novamente acha maneiras de nos surpreender de maneiras completamente inesperadas. E isso se repete em Click Clack Symphony, pois estamos diante de uma das mais complexas, profundas e impressionantes canções dos últimos tempos. Tentar determinar qual é exatamente o gênero da canção é uma tarefa complicadíssima, já que é entregue um dos crossovers mais impressionantes que já há ao unir pop, R&B, progressivo, soul, spoken word, rap, música clássica/orquestral e vários outros subgêneros para criar uma obra épica e inesquecível.


Uma obra que expande os limites da sonoridade da cantora, mas que conversa plenamente com a construção da discografia recente da artista. Completamente imprevisível e sempre com surpresas impecáveis, o single encontra um lugar perfeito e único entre o artístico e o comercial, apresentando momentos de pura engenhosidade criativa, ao mesmo tempo que entrega momentos que facilmente seriam ideais para virarem virais. E isso mostra o quanto a produção entende todos esses elementos de uma maneira única e genial. Quando a gente ouve o resultado final da canção, consegue entender perfeitamente o que passa na mente da Raye, que tem como parceiros de produção Mike Sabath, responsável por Escapism, e o maestro/compositor/condutor/produtor Hans Zimmer, considerado um dos maiores nomes de trilhas sonoras do cinema e que tem no currículo trabalhos como O Rei Leão e Duna, ambos vencedores do Oscar, e só para citar dois exemplos. É dessa completa quebra de expectativas e dessa mentalidade distinta que é possível ter uma canção como Click Clack Symphony.

E é também devido à presença sobre-humana da performance descomunal da Raye. A cantora entrega, na mesma canção, versatilidade, alcance e força emocional que alguns artistas não têm a capacidade de entregar durante toda uma carreira. Isso é algo que a coloca em outro parâmetro, pois, quando a gente a vê ao vivo, entende que a versão de estúdio não esconde ou maquia nada que a mesma não seja capaz de fazer. Gigantesca, emocional, cativante e carismática, Raye carrega a canção de uma maneira que capta não apenas toda a grandiosidade da sua criação, mas, sim, está à altura de tamanho trabalho hercúleo. Liricamente, a canção é outro trabalho impressionante, pois mistura com exatidão profundidade temática e emocional com uma estética pop e de fácil digestão. A canção é uma história de quando a Raye estava na pior e foi ajudada a sair desse estado emocional com a ajuda das suas amigas, refletindo temas como solidão e empoderamento na contemporaneidade, com toques esperançosos e de autoajuda. Tudo isso é feito transitando entre o emocional, o divertido, o clichê e o profundo de uma forma que realmente faz a gente ficar hipnotizado pela maestria. Em especial, o refrão é o grande momento da canção, em que a cantora consegue misturar tudo de maneira perfeita:

Send the call out, send the call out
Calling all my baddest women, it's about to go down
Click-click-click clack symphony, I need that
Click-click-click clack symphony, I love the sound of it

Click Clack Symphony não prova, comprova ou reafirma o talento da Raye, pois isso é algo que a mesma já garantiu há algum tempo. A canção apenas é outro tijolo na construção de uma das melhores artistas do nosso tempo.
nota: 9

2 Por 1 - Holly Humberstone

To Love Somebody
Cruel World
Holly Humberstone


De tempos em tempos, acontece de eu me deparar com uma artista que, teoricamente, já deveria ter encontrado bem antes. Todavia, existem alguns momentos em que fica claro que o momento não poderia ser melhor, como, por exemplo, aconteceu com a Chappell Roan. Parece que o mesmo está acontecendo com a Holly Humberstone.

Preparando-se para lançar o seu segundo álbum, a cantora britânica parece ter todos os elementos para se tornar a próxima sensação do pop. E isso fica claríssimo com o lançamento de dois singles: To Love Somebody e Cruel World. Ambas as canções apresentam a mesma qualidade e, queridos leitores, são altíssimas. E, além disso, as duas canções apresentam aquele “je ne sais quoi” que não dá para entender, mas, sim, apenas sentir nos ossos. A grande qualidade da jovem é ter uma personalidade que parece remeter a outros nomes, como a própria Chappell, com alusões claras a Olivia Rodrigo e um toque de Sabrina Carpenter, além de uma sinceridade no estilo de Olivia Dean, mas que termina sendo uma artista que claramente tem uma personalidade bem definida e já cimentada. Isso é um dos fatores que dá base à minha esperança no futuro de Holly, mas, principalmente, ao resultado das duas canções.

Em Cruel World, a produção de Rob Milton é tão adoravelmente refinada que a gente se sente atraído logo nos primeiros segundos da canção e vai sendo envolvido ainda mais durante a sua iluminada execução. Claramente, a canção tem inspiração dos anos oitenta, mas busca não ser nostálgica para conseguir ser moderna de uma maneira natural e respeitosa. Todavia, a grande qualidade da canção é seu trabalho instrumental cativante e gracioso, em que dá para perceber a inclusão de influências de indie pop, alt pop e pop rock na construção da deliciosa batida synth-pop.

Outro ponto importante na canção é o vislumbre da lírica de Holly: uma temática batida e simples (uma paixão mal resolvida), envolta em uma estética bastante distinta, ao ter acidez, melancolia, delicadeza e um senso de divertimento precioso:

And now the lights are gettin' low
Mirrorballs and pheromones
I can be a social hand grenade
Tick-tick-tick-tick boom

Com a mesma qualidade, mas mais sentimental e dramática, está To Love Somebody. Com uma carga mais alt-pop/pop rock na base synth-pop, a canção é uma balada mid-tempo sobre o lado bom do fim de um amor, em que a cantora preserva as qualidades líricas já citadas, adicionando, porém, uma carga emocional realmente comovente, que tem seu ponto alto no simples, mas completamente eficiente refrão. E aqui também é possível ver com clareza o belo e cristalino timbre de Holly, que carrega as duas canções de maneira distinta, mas muito bem segura do que pode entregar.

Com esses resultados, podem anotar que Holly Humberstone é nome do futuro. Só resta um hit para chegar lá.
notas
To Love Somebody: 8,5
Cruel World: 8,5

15 de março de 2026

Primeira Impressão

To Whom This May Concern
Jill Scott



A Verdadeira Beleza

Pressha
Jill Scott


Uma das melhores canções de To Whom This May Concern, da Jill Scott, Pressha é uma aula completa de como fazer uma música que a gente ouve e já percebe que é uma obra de valor irrefutável.

Tudo começa com a sua impressionante e forte composição, que relata e reflete sobre a pressão sobre a aparência física da mulher e, especialmente, como essa pressão reflete nos relacionamentos amorosos. Jill narra como foi estar em um relacionamento em que, apesar do interesse do companheiro, ele não a assumia devido à cantora não estar nos padrões.

Devastadora, poderosa, crua e honesta, Pressha é um trabalho de uma força emocional imensa, pois, além de ter uma letra com esse poder, a presença de Jill arremata tudo devido à maneira tão desconcertante que ela carrega a canção, transitando entre o melancólico e contido até o devastador e explosivo. E tudo isso demonstrando claramente o seu atemporal timbre e um alcance vocal impressionante.

Sonoramente, a canção é uma refinadíssima, profunda e adulta neo-soul/R&B com injeções de jazz que é como vinho bom que, quanto mais tempo vai se passando, vai ficando ainda melhor devido à sua instrumentalização classuda e a um trabalho de produção magistral. E essa é a beleza de ouvir uma artista.
nota: 8,5

Primeira Impressão

the apple tree under the sea
hemlocke springs



Um Aceno Ao Seu Passado

Blow My Mind
Robyn

Ao longo da sua frutífera carreira, a Robyn já provou várias vezes que é uma das artistas mais excitantes, não importando qual é o seu momento atual. E, novamente, a cantora comprova isso ao lançar a ótima Blow My Mind.

Não é apenas a qualidade da canção, mas, sim, a sua ideia por trás. O single é, na verdade, uma espécie de remake/nova versão de uma canção da cantora que foi faixa do seu álbum Don't Stop the Music, de 2002. A ideia é bem interessante e poderia, porém, dar errado se não tivesse a produção refinada de Klas Åhlund, que consegue trabalhar a canção original de uma maneira tão peculiar, refrescante e iluminada sem perder a essência da canção original, que já é ótima.

Produzida originalmente por Guy Sigsworth, Blow My Mind é uma refinada mistura de electroclash com eletrônico e indie rock/pop que remete bem à estética do mesmo, especialmente quando a gente compara com outros trabalhos com a sua assinatura como, por exemplo, What It Feels Like for a Girl, da Madonna, e vários da Björk. Na nova versão, a canção mantém certa base, mas se transforma nas mãos de Klas Åhlund em uma canção menos intrigada para uma grudenta, despretensiosa e deliciosa mistura de electrofunk com alt-pop, synth-pop e toques de pop japonês. É uma mudança sentida, mesmo que não seja inimaginável, que constrói toda uma nova personalidade para a canção, tornando-se uma raridade: ser um remix que é, ao mesmo tempo, uma reconstrução e, também, uma nova canção.

Gostaria, porém, que a canção fosse maior para que a produção pudesse mostrar mais das suas ideias. Todavia, a presença sempre iluminada da Robyn em uma performance sensacional e uma composição muito segura e carismática compensam isso. Enfim, Blow My Mind é basicamente um unicórnio que mostra o quão raro é o talento da Robyn.
nota: 8

Kacey das Antigas

Dry Spell
Kacey Musgraves


Desde que ganhou o Grammy de Álbum do Ano por Golden Hour, a Kacey Musgraves entregou bons trabalhos que não estavam exatamente na mesma altura que o seu percursor. Não sei se com Middle of Nowhere isso vai acontecer, mas, pelo primeiro single, a ótima Dry Spell, existem boas possibilidades.

A grande qualidade da canção é vista quando a gente repara que a “velha” Kacey está de volta, mais precisamente a de Pageant Material. E isso acontece devido à composição ácida, divertida, ousada e autodepreciativa ao narrar sobre a “seca” sexual da mesma. Nunca um assunto como esse poderia resultar em algo tão bem escrito e maduro se não tivesse alguém com o tino lírico da cantora, pois a maneira como a canção é escrita dá para perceber toda a sua personalidade exposta e explorada. E isso é algo revigorante, já que é usado para explorar sentimentos como solidão e autocuidado.

Dry Spell também é um trabalho sonoro muito acima da média ao entregar um country-pop/pop rock mais do que eficiente, já que tem uma produção que acerta perfeitamente todos os pontos, criando uma canção que não foge das raízes e não está nada perto dos clichês do gênero atualmente. Poderia explorar mais o seu inspirado instrumental, mas, sinceramente, o trabalho aqui é tão bem amarrado que não há nenhuma ponta solta. E, com uma performance bem característica sua, que entrega exatamente o que a canção precisa e ainda adiciona personalidade, Kacey Musgraves está de volta aos velhos e bons trilhos.
nota: 8


A Volta (Quase) Inesperada

Club Song
The Pussycat Dolls

Em 2019/2020, o The Pussycat Dolls fez um ensaio de comeback quando foram impedidas pela pandemia de Covid. Seis anos depois, a girl group está de volta para finalmente ir para o comeback, mas apenas como um trio, já que duas integrantes não foram convidadas (Carmit Bachar e Jessica Sutta). E como primeiro single foi lançada a legalzinha Club Song.

A canção é uma divertida e dançante mistura de pop e electropop com toques de hip hop, latin pop e reggae, lembrando muito uma prima distante de Beep e Buttons. Todavia, o resultado está longe das suas parentes, pois parece que a produção limita a canção em entregar uma faixa teoricamente explosiva, mas que nunca chega ao seu total potencial. E, quando parece que vai, Club Song termina de maneira meio sem graça e anticlimática.

É preciso dizer, porém, que o refrão parece funcionar melhor do que o esperado, especialmente da metade para frente. Outra boa qualidade da canção é o seu clichê e quase vergonha alheia trabalho lírico, que entrega exatamente o que a gente espera de uma canção do The Pussycat Dolls. Voltando aos vocais principais, Nicole Scherzinger sempre foi uma competentíssima cantora, que precisou ir para o teatro musical provar isso, e entrega uma performance sólida e com personalidade de sobra. E dá para ver as outras integrantes, Ashley Roberts e Kimberly Wyatt, tendo algum espaço que poderia ainda ser maior.

Um pouco fora de “timing” para um retorno, o The Pussycat Dolls ainda tem fagulha que pode chegar em algum lugar. Veremos.
nota: 6,5

8 de março de 2026

Primeira Impressão

Kiss All The Time. Disco, Occasionally.
Harry Styles


A Estética Versus Coteúdo

American Girls
Harry Styles


Segundo single de Kiss All the Time. Disco, Occasionally, American Girls é a representação ideal das qualidades e dos defeitos da sonoridade do Harry Styles.

A produção acerta ao entregar uma animada, mas relativamente contida e atmosférica mistura de alt-pop, soft rock e dance-pop, que tem um instrumental realmente cativante e maduro. Não é exatamente um trabalho brilhante, mas é fácil notar que claramente mostra evolução sonora do Harry ao mesmo tempo em que adiciona novas camadas.

Todavia, American Girls erra novamente no calcanhar de Aquiles do cantor ao ter uma bem-feita, mas vazia composição que parece querer dizer várias coisas que não chegam a ressoar de verdade e, no final, termina sendo uma casca lírica divertida e esquecível. Felizmente, a boa performance de Harry, que capta o espírito da canção, ajuda a aparar algumas pontas soltas.

Uma canção que poderia ser bem mais interessante, mas que termina pelo menos sendo acima da média.
nota: 7,5

Novas Camadas

I Had A Dream She Took My Hand
James Blake

Sempre considero algo auspicioso quando um artista consegue adicionar novas camadas à sua sonoridade sem perder nada da essência. Esse é o caso da espetacular I Had A Dream She Took My Hand, de James Blake.

Segundo single do álbum Trying Times, a canção tem toda a atmosfera de um trabalho do artista, mas é moldada de uma forma que quebra expectativas. E a principal razão é a utilização do sample de It Was Only A Dream, da banda Thee Sinseers, que dá à canção uma base big band/jazz vintage que permeia toda a sua construção, mesclando-se e fundindo-se com a estrutura art pop/R&B alternativo da sonoridade de James. Com uma produção refinadíssima, I Had A Dream She Took My Hand se torna um trabalho elegante, tocante e inspiradíssimo, que vai se desenrolando em uma das canções mais magnéticas e emocionais da carreira de James Blake.

A canção, porém, perderia força se não tivesse aliado à sua produção outros elementos que a fizessem realmente se sobressair. E tudo está intimamente ligado à performance sensacional do cantor que, ao retirar certos efeitos vocais, deixa seu belíssimo timbre brilhar de forma mais natural em uma interpretação realmente impactante, desde o seu começo mais contido e delicado até o clímax mais complexo e poderoso. Além disso, a composição é simples, mas eficiente ao relatar, de maneira sensível, o ato de se apaixonar pela primeira vez: “I had a dream she took my hand / I feel higher than storms, lighter than sand”.

Somando-se a esse resultado o de Death of Love, fica claro que James Blake tem a possibilidade de entregar um dos álbuns do ano.
nota: 8,5

A New Age Of Bebe

New Religion
Bebe Rexha & Faithless


Não esperava que a nova era da Bebe Rexha pudesse ser de verdade o seu triunfal momento de renascimento, mas com New Religion começo realmente a acreditar que isso seja verdade.

Primeiro single oficial de Dirty Blonde, a canção é um trabalho curioso ao ser um “remake” da canção Insomnia, da banda Faithless, sendo algo parecido com o que foi feito em Wild Thoughts. E a grande surpresa é que funciona muito melhor do que o imaginado. Pegando parte da construção da parte final da canção original, New Religion é uma excitante, elegante e eficiente progressive house com dance-pop e diva house que dá certo devido à produção competente e madura, que cria uma canção que funciona sabendo a gente ou não da sua origem. E, mais que isso, há o fato de a produção saber como usar os clichês do gênero de uma maneira inteligente, não duvidando da inteligência de quem escuta.

Outro ponto de destaque é a composição realmente inspirada de New Religion, ao ser um trabalho que tem profundidade temática ao falar sobre alguém se encontrar finalmente na vida. Entretanto, a estética da canção está bem de acordo com os maneirismos do gênero, com frases de efeito que ficam entre o pieguismo e o dramático, mas claramente bem pensadas para exalar de propósito esse estilo. Fechando como a cereja do bolo, está a ótima performance da Bebe, que encontra aqui um dos melhores veículos para demonstrar sua capacidade vocal.

Resumidamente: esse é o novo começo de era para a Bebe Rexha.
nota: 8

New Faces Apresenta: Tiffany Day

START OVER
Tiffany Day


Em um mundo pós-Brat, a possibilidade de ouvir um hyperpop que tenha “inspiração” na Charli XCX é bem alta. Todavia, é refrescante quando nos deparamos com casos em que isso não acontece, como na ótima START OVER, da novata Tiffany Day.

A canção tem como grande qualidade a sua caprichada, autêntica e madura produção, que guia essa mistura de hyperpop e electropop por lugares sonoramente conhecidos, mas que nunca parecem cópias e/ou influências diretas. É uma produção que conhece suas inspirações, criando uma canção que entende muito bem as dinâmicas sonoras e adiciona texturas ao longo de toda a faixa.

Gosto especialmente do seu clímax final, pois consegue adicionar novas nuances sem perder o que foi construído ao longo da canção. Preciso apontar, porém, que tenho certo problema com a batida do sintetizador, que em alguns momentos se sobressai demais em relação ao resto do instrumental, criando certo ruído ao final de START OVER.

Vocalmente, a canção não dá muito espaço para entendermos qual é a real capacidade da Tiffany, mas, felizmente, a cantora entrega uma performance encantadora, sólida e que sabe muito bem usar efeitos vocais para ajudar a incrementar o resultado final. Também é preciso dizer que a composição tem ótimos traços, que são auspiciosos, pois mostram profundidade e, ao mesmo tempo, demonstram um bom senso estético. Não é um trabalho exatamente genial, mas START OVER é o tipo de canção que pode fazer diferença na carreira de Tiffany Day.
nota: 8

Sem Salvação

Save Me Tonight
Jennifer Lopez & David Guetta


Não que eu estivesse esperando uma canção memorável da parceria entre Jennifer Lopez e David Guetta, mas Save Me Tonight é o tipo de trabalho que podemos apontar apenas como totalmente esquecível.

Não chega a ser uma bomba, pois, tecnicamente, é uma produção decente. Todavia, a produção careceu de uma dose cavalar de criatividade, pois entrega exatamente o que se espera — e de forma ainda menos inspirada — de uma mistura de europop com electropop e EDM. Dá até para se divertir às três da manhã quando começar a tocar na balada, mas Save Me Tonight é um trabalho que não tem a menor vontade de ser mais do que realmente é: uma farofada bem morna.

Isso é agravado pela composição mediana, que poderia facilmente ter sido feita por IA, devido à falta de qualquer toque que não seja mecânico e massificado. O ponto positivo da canção é a performance segura da J.Lo que, sinceramente, merecia algo bem mais interessante do que essa farofada sem gosto.
nota: 5,5

1 de março de 2026

Primeira Impressão

The Romantic
Bruno Mars



Nada Arriscado

Risk It All
Bruno Mars

Lançado como segundo single de The Romantic, Risk It All realmente não tem nada de arriscado, mesmo trazendo algumas surpresas. Felizmente, o trabalho ainda carrega o selo de qualidade de Bruno Mars.

A grande sacada dessa balada é a adição de influências latinas, especialmente — e deliciosamente — a inclusão do bolero na mistura da segura base de R&B/soul. E isso dá todo o tempero necessário para a canção se tornar realmente um trabalho diferenciado sem, porém, perder a essência básica do artista.

Todavia, o grande destaque de Risk It All é a inspiradíssima performance de Bruno, que não apenas domina a canção primorosamente, mas também nos faz lembrar do quanto o seu timbre é lindo e aveludado quando ele o deixa se expor dessa maneira. A primeira parte da canção, em especial, em que a sua voz é colocada em evidência, é realmente deslumbrante.

Sem correr riscos, Bruno garante mais um momento verdadeiramente inspirado para a sua carreira.
nota: 7,5

A Balada de Um Coração Esperançoso

Nightingale Lane.
RAYE


Depois do sucesso mais do que merecido de WHERE IS MY HUSBAND!, Raye lança mais um single do seu próximo álbum (This Music May Contain Hope), intitulado Nightingale Lane. E o resultado prova por A + B que não há nenhuma outra artista atualmente no nível da britânica.

O oposto do single anterior, a nova música é uma balada épica que mistura com perfeição vários elementos que influenciam a sonoridade da artista, ao fundir jazz, pop e soul em um instrumental simplesmente espetacular e de cair o queixo. A construção direta, mas complexa, do arranjo demonstra não apenas todo o cuidado artístico de Raye, como também uma produção inspirada, madura e encantadora. As camadas que vão sendo desenroladas durante a execução da canção são impressionantes, especialmente devido à quantidade de texturas e nuances adicionadas, que poderiam facilmente fazer da faixa algo cheio apenas de boas intenções — e não um trabalho completamente realizado. Felizmente, Nightingale Lane passa muito longe disso e ainda entrega muito mais. Outro grande trunfo da canção é ser, liricamente, a cara-metade de WHERE IS MY HUSBAND!.

No single anterior, Raye brincava jocosamente sobre encontrar um amor para chamar de seu. Agora, o tom é mais dramático e, ao mesmo tempo, mais esperançoso, pois, ao relatar o primeiro amor da sua vida — que também foi sua maior decepção —, a cantora demonstra uma visão clara de que ainda acredita que viverá seu grande amor. E toda essa grandiosidade emocional é potencializada por uma composição excepcional, que nunca soa piegas, mas sempre explode em emoção sincera e genuína. Ainda há um senso estético apuradíssimo que expressa todos esses sentimentos de maneira igualmente refinada: “We never were quite right for each other, baby / But in the absence of passion in my life / I remember how alive love once was”. Complexo, mas direto e nada pretensioso.

E tudo isso é interpretado de maneira genial por Raye, que simplesmente entrega a melhor performance da sua carreira. Não é apenas uma performance grandiosa, mas, sim, definidora de carreira. Existe um toque da aspereza de Janis Joplin, misturado com a melancolia de Amy Winehouse, com nuances do poder vocal de Mariah Carey e inspiração nas grandes divas do jazz. Tudo isso, porém, está nas entrelinhas, pois Nightingale Lane é uma canção que escancara todo o talento de Raye em sua forma mais pura.

É assim que uma artista se torna uma lenda. Que vida, Raye!
nota: 9