8 de outubro de 2026

Salvando a Lavoura (Ou Quase Isso)

Different Religion (feat. Model/Actriz)
Miley Cyrus

Apesar de estar definitivamente na sua era flop, Miley ainda tem momentos de salvação da lavoura, ao menos em questão de qualidade. E o melhor desses momentos é em Different Religion.

Melhor canção em Bass Persuades, a canção é uma original, inquietante, interessante e áspera mistura de eletropop, industrial, dance e rock, em uma batida que fica lindamente no limite entre o comercial e o experimental. E isso deixa bem claro que a cantora tem as ferramentas necessárias para continuar a trilhar um caminho artístico realmente excitante, mas que parece ainda não ter encontrado um ponto de equilíbrio, como é o resultado da canção.

Dona de um instrumental inspirado, a grande qualidade de Different Religion está na ótima performance da Miley, assim como na presença cativante do vocalista da banda Model/Actriz, criando um sensacional contrabalanço entre a presença dos envolvidos, que dá mais profundidade para a canção. E a composição é instigante o suficiente para criar ainda mais personalidade para a canção, mesmo que corra o risco de soar como uma pretensiosidade vazia.

De qualquer maneira, a canção é o tipo de trabalho que vai ser valorizado ainda mais no futuro, quando as pessoas perceberem a pérola que ela é na realidade.
nota: 8

Mother Bree

BAGS OF YEN
Bree Runway

Ainda esperando a sua merecida chance de brilhar e ser reconhecida, a britânica Bree Runway continua a fazer o que é necessário ao entregar qualidade no single BAGS OF YEN.

Uma rápida, rasteira e eficiente pop rap/hip hop/Vogue que tem uma produção que até poderia ir mais longe, mas é inteligente o suficiente para não ficar enchendo linguiça quando poderia facilmente se tornar arrastada. Com uma batida divertida, a canção é, na verdade, um perfeito veículo para que Bree desfile a sua presença imponente, versátil e marcante em uma performance realmente poderosa, que sabe se “ajeitar” para qualquer caminho que a produção vai direcionando a canção sem perder, porém, a sua imensa personalidade.

Quem sabe o raio que caiu na carreira da Raye não venha a cair na carreira da Bree Runway?
nota: 8

O Mesmo Bruno

Dance With Me
Bruno Mars


Mesmo preso à sua própria cartilha sonora, Bruno Mars ainda consegue entregar boas canções como Dance With Me.

Single do álbum The Romantic, a canção é uma competente, comercial e chiclete balada pop soul/R&B que é o veículo perfeito para o “crooner” Bruno desfilar seus sedosos vocais e o seu carisma irrepreensível e gigantesco. Sonoramente, a canção tem toques de uma sonoridade vintage sem, porém, soar datada devido à produção elegante do artista ao lado de D'Mile. É um trabalho previsível e sem nada de novo? Completamente. Entretanto, funciona devido à maestria com que é conduzida e à sua grande qualidade técnica.

Espero que a próxima era do Bruninho possa ser algo que renove a sua sonoridade, pois o que estamos vendo ainda está bom, só que está com o prazo de validade se expirando.
nota: 7,5

7 de outubro de 2026

Primeira Impressão

Daughter from Hell
Gracie Abrams



A Garota Que Queria Ser

Look at My Life
Gracie Abrams


Incrivelmente, a Gracie Abrams tem algumas poucas canções boas saídas de Daughter from Hell. Todavia, Look at My Life termina mais como sendo um ponto totalmente fora da curva do que algo que tenha potencial de ser o futuro da artista.

A grande qualidade da canção, de verdade, é que a sua batida sai do lugar “comportado” e linear para ir sendo explorada e ficando cada vez mais grandiosa até o seu final de clímax controladamente grandioso. É algo que dá alguma personalidade, pois funciona como testado em canções de outras cantoras que, porém, fizeram de maneira mais interessante. Entretanto, não tem como não negar que o folk pop/alt-pop ganha vida para a composição clichê, mas segura, e para a performance linear e bonitinha da Gracie.

O que isso ajuda, no final das contas, é mostrar o quanto a produção prende a artista na cartilha Taylor de fazer música, pois qualquer coisa que dê uma escapadinha já é algo que melhora consideravelmente.
nota: 7,5

O Grande Futuro da Holly

Too Cute To Be Lonely
Holly Humberstone

Acredito que uma das minhas melhores descobertas pessoais em 2026 foi a Holly Humberstone. E, novamente, a cantora comprova a minha visão com o lançamento de Too Cute To Be Lonely.

Single da versão deluxe de Cruel World (Cruel World...So It Ends), a canção é, mais uma vez, uma pérola pop ao ser uma madura, graciosa e cativante synthpop/dance-pop, com forte influência dos anos oitenta e, também, de um pop contemporâneo. Todavia, a produção de Rob Milton e JT Daly consegue dar uma personalidade bem definida para a canção, criando uma barreira que impede comparações que poderiam facilmente passar por “acusações” de ser uma cópia ou de não ter personalidade. E boa parte dessa qualidade também vem da irônica, inteligente e luminosa composição, que vai mostrando a construção de uma persona tão distinta e especial para a Holly.

Acredito que o futuro de Holly Humberstone será algo para se acompanhar de perto devido ao imenso potencial que a artista demonstra claramente.
nota: 8,5

6 de outubro de 2026

Uma Balada de Respeito

I Won't Cry
Remi Wolf


A arte de fazer uma boa balada romântica meio que está perdida atualmente, infelizmente. Todavia, de tempos em tempos, surge uma canção que ocupa esse lugar com mérito. Esse é o caso de I Won't Cry, da Remi Wolf.

Single do seu próximo álbum (Mud), a canção é uma devastadora, melancólica, épica, poderosa e soft rock/pop rock que consegue manter a essência sonora da cantora e, ao mesmo tempo, nos contemplar com uma abordagem mais tradicional de uma canção balada. E isso é sensacional, pois estamos diante de um trabalho realmente acachapante em todos os sentidos, partindo do espetacular instrumental até a sua emocional, crua e cortante composição.

Em I Won't Cry, Remi entrega uma composição que é, basicamente, sobre implorar para ser amada quando quem se ama decide seguir em frente sem olhar para o que foi deixado para trás. Um trabalho que poderia partir para um sentimentalismo piegas, mas que, felizmente, é salvo por uma letra honesta, verdadeira e que tem uma inteligência de construção exemplar ao ser simples e, ao mesmo tempo, explorar sentimentos complexos. E o ponto alto está no ótimo refrão: “Pull me from the shelf and dust me off/Shower me with selfish love/Play me like you want me back around again”. A canção é ainda contemplada por uma performance realmente inspirada e magistral de Remi, que imprime toda a força emocional sem pesar vocalmente ou deixar a desejar.

Uma canção de respeito que faz jus ao talento da artista e ao título de balada, com louvor.
nota: 8,5

Too Cool For Oscar

On Video
Phoebe Bridgers


Em uma corrida para o Oscar de Melhor Canção que pode fazer história, eis que surge uma azarona: Phoebe Bridgers. A canção que pode fazê-la chegar para disputar uma estatueta é a interessante On Video.

Tema do filme Primetime, em que a cantora faz o debut como atriz, a canção tem toda a atmosfera que pode até conseguir chegar a ter uma indicação, mas é tão descolada que nunca terá chance de vencer. E, sinceramente, isso é uma pena, pois o trabalho é um pungente, distinto e inspirado indie rock/post-punk que consegue captar toda a atmosfera do filme e, ao mesmo tempo, ter plenamente todas as qualidades da persona da artista.

Sombria e cortante, On Video não é sonoramente algo genial, especialmente comparando com outros trabalhos de Phoebe, mas é tão distinta e perfeita para ser o tema de um filme tão peculiar como é Primetime. Além disso, a excepcional composição é um trabalho de uma inteligência grandíssima ao se conectar com o filme de maneira nada clichê e totalmente original, o que faz a sua mensagem ainda mais poderosa. E essa também é a percepção sobre a grandiosa performance da Phoebe, que entrega uma emoção sóbria e desconcertante.

Acredito que, caso consiga, a indicação vai ser a vitória, mas quem sabe não exista um milagre aí no caminho?
nota: 8

5 de outubro de 2026

Na Torcida

World's Greatest!
Lil Nas X


Mesmo antes de ter quaisquer problemas pessoais, a gente sabe muito bem o motivo do “fracasso” da carreira do Lil Nas X que, claramente, tem a ver com a forma como artistas negros e queers são tratados quando não seguem certas normas. Todavia, fico feliz de verdade de vê-lo de volta com World's Greatest!.

Não acho que esse será o comeback comercial para o rapper, mas, sinceramente, é uma prova cabal do talento do artista, sem nenhuma dúvida. Uma cativante e inspirada faixa de pop rap, com introduções bem pensadas de pop rock e alt-pop, a canção é um trabalho maduro e refinado que, felizmente, não perde o toque pop do rapper que o fez estourar. Entretanto, o trabalho é mais profundo ao ser um hino sobre recomeçar e se lembrar de quem é e nunca perder o seu caminho, mesmo que seja um feito de dores e perdas.

Funcionando também como uma homenagem à sua mãe, que veio a falecer em agosto passado, World's Greatest! é uma canção que não deveria, mas emociona porque é possível ouvir a dor e a força de vontade de continuar do Lil Nas X em uma composição forte, madura e com um senso pop bem definido. Tenho que admitir que não gosto tanto do refrão, que poderia facilmente ser mais lapidado. Entretanto, o resto da letra é um trabalho muito acima da média. Além disso, o rapper entrega uma excepcional performance, mostrando por que é um dos melhores artistas a casar pop e rap que já surgiu.

Espero que, mesmo que não seja um sucesso, a canção possa iniciar um novo caminho de bons frutos para o Lil Nas X, já que ele merece de verdade.
nota: 8

O Refrão Perdido

Blink Twice
Rose Gray


Estou realmente gostando do que a Rose Gray vem entregando na sua nova era. Infelizmente, o novo single, Blink Twice, erra em algo muito importante: o refrão.

Sonoramente, a canção é uma graciosa, despretensiosa e gostosa dance-pop, com elementos de progressive house e trance, que funciona muito bem pela atmosfera solar e convidativa. Sabe aquelas canções que a gente ouve uma vez e, mesmo não sabendo o nome ou de quem é, ficam na nossa cabeça por muito tempo devido à sua originalidade e frescor, mesmo não sendo geniais? Então, essa é a sensação principal após ouvir a canção. Todavia, isso poderia ser elevado para outro patamar com um refrão mais interessante.

Apesar de muito boa, a composição sobre aproveitar a vida mesmo que o mundo esteja caindo aos pedaços ao redor deixa a desejar quando o refrão chega e não consegue amarrar as suas pontas em algo que deveria fazer a canção explodir. Ao invés disso, Blink Twice entrega um contido momento que não tem a força que os elementos à sua volta possuem, mesmo não sendo um momento ruim de verdade. É apenas meio decepcionante e anticlimático.

Felizmente, Rose entrega uma performance sólida e divertida que dá conta de fazer o single ainda realmente valer a pena de se escutar.
nota: 7,5

2 de outubro de 2026

Primeira Impressão

THRASHER
Brandon Flowers



As 100 Melhores Músicas Que Você Não Deve Conhecer

Estava há algum tempo atrás no Twitter quando me deparei com uma postagem que falava que o clipe vinculado era da música que marcou a transição dos anos oitenta para os noventa. E, depois de algum tempo, refleti que era uma boa analogia, pois a canção em questão tem elementos que a fazem ser realmente esse elo de ligação. Por isso, decidi falar, em As 100 Melhores Músicas Que Você Não Deve Conhecer, sobre....


30 de setembro de 2026

Primeira Impressão

Lost Weekend
Phoebe Bridgers


Trance Perfume

Natural High
Perfume Genius

Depois de um álbum bom, mas abaixo do potencial, Perfume Genius está de volta para lançar o seu oitavo álbum, intitulado The Lesson. E, pela prévia que temos no single Natural High, parece que o cantor está de volta ao seu lugar de praxe: a genialidade.

A canção tem, na sua dualidade sonora, o seu maior ponto de qualidade, ao ser metade uma densa indie rock/art pop/ambient pop para, na sua metade final, dar uma quebra total de expectativa e se tornar uma inspirada e grandiosa trance/eletrônica, com um final de tirar o fôlego. E o mais incrível é que a transição não é exatamente sutil, criando uma mudança meio abrupta que, incrivelmente, funciona perfeitamente devido à construção impecável e genial do instrumental em toda a sua duração. E essa é, com certeza, uma das marcas do Perfume Genius, que entrega também os outros pontos de qualidade da canção.

A performance vocal do artista é impressionante, pois consegue equilibrar uma força melancólica e sombria na primeira parte para se transmutar ao carregar com elegância e versatilidade a parte mais “agitada” da canção. Tudo isso deixando em evidência o seu timbre magnético e totalmente distinto, ajudando Natural High a ganhar ainda mais força emocional. A composição está na mesma tangente de antigos poemas em inglês: densa, misteriosa, dramática e com imagens complexas construídas. Não é um trabalho para todos, mas quem se deixar embargar vai realmente se admirar pela magnitude exposta.

Seja bem-vindo de volta, Perfume Genius, ao seu lugar devido.
nota: 8,5

29 de setembro de 2026

2 Por 1 - Yseult

ONE MORE TIME
SUPERSTAR
Yseult

Completamente fora do radar de muitos, Yseult vem entregando o que considero uma das melhores sequências de singles de 2026. Depois de Now or Never e, especialmente, Freak, a cantora entrega duas novas e excepcionais canções: One More Time e Superstar.

As duas canções seguem literalmente o mesmo caminho ao serem recriações/homenagens/celebrações a sonoridades pop/R&B dos anos oitenta, sem soar em nenhum momento como datadas, cópias ou pastiches. E também a estrutura dos lançamentos é igual: uma canção dançante e uma no estilo balada. Com isso, o resultado é praticamente igual: as duas canções são ótimas, mas a de pegada dance se destaca mais. Estou falando, nesse caso, da genial Superstar.

A canção é simplesmente um diamante lapidado, ao ser uma excitante, contagiante, elegante e magistral reverência a um R&B dançante com toque de funk, pop rock e new jack swing que remete aos trabalhos da Janet Jackson, especialmente na era Rhythm Nation. Todavia, a produção não fica limitada a um artista só, ao expandir influências para nomes como Grace Jones, Michael Jackson e Chaka Khan, sendo citada nominalmente no refrão da canção. E, em nenhum momento, a canção soa como algo que não seja completamente original devido à inteligência da produção e à performance avassaladora da Yseult, mas o grande toque de gênio da canção é a sua composição.

O single é sobre se tornar uma estrela do pop, mas sabiamente prestar devidamente as homenagens e dar as flores para quem pavimentou o caminho. É uma letra que flerta com o piegas, mas sai desse lugar lindamente devido à criatividade e à forma limpa, direta e esperta de como a mesma foi construída. Além disso, as introduções temáticas feitas são o ponto de destaque, pois dão novas camadas para a canção. A primeira é o “interlúdio” de um discurso que mira a cultura Ballroom ao introduzir a cantora como a nova “mother”, como em um verdadeiro “ball”. E o segundo, e o toque de gênio, é o sample do “discurso” de uma das pioneiras do Ballroom, Crystal LaBeija, no clássico documentário The Queen, do final dos anos sessenta. É algo que acrescenta novas texturas e uma significação para a canção que não teria o mesmo impacto sem essa decisão.

Apesar de menos impactante, One More Time é um trabalho que continua a revelar a qualidade da construção sonora da atual fase da artista. Uma balada R&B/soul/pop soul que claramente se inspira em nomes como a já citada Chaka Khan, com também notórias semelhanças com Anita Baker e Patti LaBelle. Acredito que o que não faz a canção ser melhor é o fato de não se aprofundar liricamente e também terminar de uma forma um pouco abrupta, que deixa um gosto leve de inacabado. E, mesmo assim, a canção ainda é um trabalho com forma bem definida e que cumpre bem a sua intenção inicial.

Caso ainda não tenha escutado nenhuma das canções lançadas pela Yseult, sugiro que corra atrás do tempo perdido, pois estamos diante do que já é um trabalho com ares de ser um cult classic.
notas
ONE MORE TIME: 8
SUPERSTAR: 9

Girl Group a Moda Antiga

Ghost
Sugababes

Tenho que reconhecer que, apesar de já ter ouvido falar sobre as Sugababes, nunca tinha ouvido nenhuma música do girl group que fez sucesso britânico nos anos 2000. Possivelmente, o motivo é que o grupo nunca estourou mundialmente, ficando mais restrito à Inglaterra e à Europa. Todavia, acredito que podemos dizer que seja um dos girl groups mais duradouros, pois as mesmas chegam ao nono álbum da carreira e com lenha para queimar, como mostra o ótimo single Ghost.

Primeiro single do novo álbum, que foi intitulado apenas com o nome do grupo, a canção é uma inspirada, leve, divertida e cativante dance-pop/pop rock que funciona bem, pois mistura nostalgia genuína com frescor natural. No começo, achei que a canção tinha um problema de mixagem e de tempo da batida com os vocais, mas depois entendi que era uma “proposta” da canção, que resulta em uma canção artisticamente bem mais profunda que esse primeiro vislumbre. E isso dá personalidade para a canção que, sinceramente, outros girl groups modernos poderiam aprender.

Liricamente, Ghost é um trabalho realmente acima da média, ao ter uma composição muito bem escrita, que leva seu tempo para criar o apelo pop em versos longos que fogem de clichês bobos e batidos. Além disso, a maneira como é escrita essa crônica sobre perceber que se safou de uma furada no amor é realmente inspirada e inteligente. Além disso, a dinâmica vocal entre as três integrantes das Sugababes funciona muito bem e dá ainda mais carisma para a canção.

Às vezes, o ditado está certo: “panela velha é que faz comida boa”.
nota: 8

28 de setembro de 2026

O Passado e o Presente

Danceteria Afterhours
Madonna & Charli xcx


É meio que lógico que a Madonna escolheu a Charli XCX para ser a parceria no remix de Danceteria. Além da “polêmica” da “pista de dança estar morta”, as duas meio que representam o passado e o presente da música pop/dançante e, sinceramente, o resultado do remix é até interessante.

Estar à altura da original seria bem complicado, mas Danceteria Afterhours é um trabalho bem acima da média ao manter as características básicas da canção original em um remix redondo, divertido e que combina com a convidada. Na verdade, a grande qualidade da canção é que a presença da Charli faz sentido completamente, especialmente quando os versos da mesma se referem ao começo da carreira dela, assim como os da Madonna.

Todavia, o remix poderia explorar mais as diferenças sonoras entre as duas artistas para criar uma canção com mais camadas e texturas, mas a decisão aqui foi seguir de maneira mais “conservadora”, o que não deixa o remix explorar melhor as possibilidades. É preciso apontar que, apesar da boa presença da Charli, a canção é totalmente comandada pela presença da Madonna, que dá sentido de verdade para a sua existência, pois, ao contrário do que muitos possam pensar, Madonna é o passado, o presente e o futuro da música pop. E isso é algo que não tem como negar.
nota: 7,5

New Faces Apresenta: Say Now

Met My Match
Say Now


Apesar de estarem na ativa desde 2022, a girl band Say Now ainda não lançou o seu debut e ainda não furou a bolha do mainstream nem de perto. Todavia, acredito que podemos estar diante de uma possível promessa devido ao resultado do single Met My Match.

A canção não é genial, mas, sinceramente, é o tipo de trabalho que seria mil vezes melhor de viralizar do que qualquer canção atual do KATSEYE. Dançante e com uma personalidade bem distinta, a canção mistura muito bem R&B com eletropop, com um verniz inspirado no pop dos anos 2000 que capta bem a aura de uma das produtoras da canção: PinkPantheress.

Talvez o problema de Met My Match seja faltar um clímax final mais elaborado e/ou nuances e quebras de expectativas no seu sólido instrumental. Gosto muito da química e da harmonização das três integrantes, que também dão vislumbres de personalidades distintas que espero serem melhor aproveitadas no futuro. A composição é outro ponto que poderia ser melhor, mas, sinceramente, é tão divertida e refrescante que o resultado fica bem acima da média.

Agora é esperar e torcer para que Say Now possa se desenvolver e ganhar um novo público ao serem descobertas por mais pessoas.
nota: 7,5

25 de setembro de 2026

A Favorita

La Nieve
Guitarricadelafuente


Muitos estão achando que o Oscar de Melhor Canção já tem o nome da Taylor Swift, mas a história não é bem essa. Atualmente, a grande favorita é a canção La Nieve, do artista Guitarricadelafuente.

A canção é tema do filme espanhol La Bola Negra, que vem ganhando muita atenção não apenas pela música, mas também com possibilidades reais de vencer várias categorias, incluindo a de Melhor Filme. Também como ator do filme, o cantor entrega uma canção que realmente tem chances reais de vitória, pois é um trabalho que emana características clássicas de um tema tradicional, ao mesmo tempo que encontra uma personalidade completamente própria.

Longe de ser uma Skyfall, La Nieve é uma emocional, tocante, sentimental e forte balada art pop/chamber pop, com uma instrumental à base de piano, mas que vai lindamente sendo introduzida por novos instrumentos, e isso dá uma nova força para a canção. Além disso, a performance de Álvaro Lafuente Calvo, nome de batismo do cantor, é tão contida e, ao mesmo tempo, tem uma força melancólica que faz a gente se sentir completamente envolvido pela canção, quase como se estivéssemos ouvindo uma performance ao vivo e devastadora. A composição é simples, mas de uma poesia delicada e pura que faz a gente entender um pouco da pungência que o filme quer passar: um épico intimista na vida de três homens gays em diferentes momentos da história da Espanha.

E, queridos fãs da Taylor, é melhor deixar a barba de molho, pois acredito que já temos a canção que vai vencer o Oscar.
nota: 8


Nada em Cima de Nada

Patient Zero
Taylor Swift

Para celebrar uma das dezenas de novas versões de The Life of a Showgirl, intitulado agora com o subtítulo de The Encore, a Taylor Swift lançou o single Patient Zero. E, novamente, a cantora nos deu nada.

A canção até começa interessante e dando a impressão de que vai chegar a algum lugar, mas, no momento em que a batida real começa, tudo é levado para o lugar de sempre. O resultado é uma sonolenta, formulaica e pouco criativa alt-pop/indie pop que recria basicamente os mesmos traços de todas as canções do álbum. Ou seja, é a mesma canção novamente com uma embalagem levemente diferente.

O pior de Patient Zero é a performance automática, sem vida e sem graça da Taylor, que deixa a canção ainda mais sem vida e desinteressante. Longe de ter uma grande voz, a cantora já mostrou que pode entregar performances mais interessantes do que, ao que parece, aqui ter gravado às sete horas da manhã, depois de chegar da balada. A composição é um ponto que poderia salvar a canção, pois apresenta uma boa escrita. Todavia, novamente, ouvir a artista reclamar de algum de seus ex-namorados pela milésima vez é puxado e irritante.

Tenho certeza de que a canção vai ser um sucesso, sem dúvida, mas é por conta do status da Taylor no mainstream e não por qualidades próprias.
nota: 5,5

23 de setembro de 2026

Primeira Impressão

Ambiguous Desire
Arlo Parks




Uma Segunda Chance Para: Spotlight

Spotlight
Jessie Ware


Apesar de ser figura carimbada aqui no blog ao longo dos anos e receber as merecidas aclamações, a história da Jessie Ware no blog tem um momento que precisa ser reparado: a resenha de Spotlight. Na época do lançamento, dei um ótimo 8 para a canção, mas isso foi injusto demais, já que a faixa merece muito mais devido a ser, sem nenhuma dúvida, uma das melhores dos dezoito anos do blog.

Lançada como primeiro single do já lendário What's Your Pleasure?, a canção foi a responsável por iniciar a nova fase da carreira da cantora ao seguir uma direção sonora mais pop/post-disco/eletrônica. Além disso, foi o ponto de mudança da percepção do público em relação à artista, levando-a para um novo e merecido patamar de reconhecimento do público e da crítica. Mesmo elogiando a canção, só tive noção da magnitude da produção assinada por James Ford ao longo dos anos, pois a faixa foi crescendo e crescendo de uma forma em que todo o brilhantismo só pudesse ser revelado, ao menos para mim, depois de um tempo e de uma certa distância das minhas primeiras impressões.

Épica, grandiosa e atemporal são as três principais e maiores qualidades da canção, mas elas não se limitam ao trabalho estupendo da sua construção. A inspiração é bem clara ao se apoiar em uma sonoridade disco dos anos setenta de nomes femininos como Diana Ross e Donna Summer, mas a produção adiciona doses cavalares e primorosas de soul, house, acid house, eletrônico e pop soul, criando uma batida esplendorosa, cativante, elegante e, principalmente, única. Sejamos sinceros: Spotlight é o tipo de canção que, até hoje em dia, é muito difícil de ouvir devido à sua maestria melódica e à sua personalidade sonora totalmente fora da curva. A canção tem mais de cinco minutos e meio de duração em uma produção lotada de texturas, camadas e nuances que vão sendo desenroladas ao longo de uma das mais exuberantes instrumentais do pop moderno. E tudo isso é sustentado pela genial performance da Jessie.

Até então, a cantora era conhecida pela sua voz sedosa, elegante e cativante, mas aqui tudo é elevado para outro patamar devido a como a sua voz casa magicamente com o estilo da canção, fazendo-a ganhar ainda mais força devido à sua presença acachapante. Na verdade, a performance de Jessie é a cola que une todos os elementos, pois, ao mesmo tempo, sua voz dá todo o apelo emocional que se conecta de maneira direta com a atmosfera sonora e também vai transitando belissimamente por todas as mudanças que a canção apresenta, sendo as texturas colocadas ao longo da sua duração outro ponto importantíssimo para o resultado final. Por exemplo, a canção começa de maneira contida e quase como uma balada, em que temos um instrumental mais “clássico” como base para a voz da Jessie, e é como se um portão de ouro e diamante se abrisse para o paraíso. E a magistral composição fecha a trindade de maneira brilhante ao falar sobre desejo e paixão da maneira mais sofisticada, fina, envolvente e de um senso pop perfeito.

Spotlight é uma das canções mais importantes da década, pois foi o estopim inicial para a onda disco/eletrônica que dominou boa parte do pop nos últimos anos. Além disso, é a canção que fez Jessie Ware se tornar uma força pop merecidamente reconhecida. Então, nada mais justo que a nota seja a mais perfeita possível.
nota: 10

22 de setembro de 2026

Sample Perfection

A Good Day
Anderson .Paak & Cordae


Usar um sample é quase como uma arte, pois o resultado pode ser uma obra de arte ou um desastre. Em A Good Day, o pêndulo puxa claramente para a primeira opção.

Single do projeto em parceria do Anderson .Paak e Cordae, a canção é uma estilosa e solar pop rap/neo-soul com toques de funk, que é um trabalho rápido, rasteiro e certeiro na construção da sua batida leve, mas com um cuidado primoroso estrutural. Todavia, a grande qualidade da produção é o uso de quatro samples/interpolações de uma vez, de uma maneira inspirada: It Was a Good Day, do Ice Cube; Life is Like a Dice Game, do Nas; Lovely Day, do Bill Withers; e, por fim, It’s Like That, da Mariah Carey. Só que é desse último que a canção faz melhor a sua utilização, pois usa o Here we go now (What?), here we go now (What?), que aparece no começo da canção e no final, de maneira a construir o seu refrão e dar toda a sua personalidade, fazendo o mesmo ser incorporado de maneira primorosa.

A Good Day também é um exemplo perfeito de como dividir uma parceria entre dois artistas, de maneira a dar o espaço perfeito e na mesma medida para ambos. Além disso, a canção é elevada devido à química extraordinária entre Anderson e Cordae, que fica ainda mais impressionante, pois dois rappers normalmente apresentam uma aspereza natural de suas personalidades não se misturarem, e isso é o que faz a qualidade de muitas canções. Todavia, aqui essa química é o ponto de equilíbrio para a canção. Apesar da ótima composição, gostaria que tivesse sido melhor aprofundada, pois a canção parece explorar o sentimento de que, no fundo, ninguém está realmente bem atualmente devido ao que está acontecendo no mundo e que devemos ainda procurar a felicidade de alguma forma.

De qualquer maneira, a canção é um começo promissor para um projeto que pode ser algo sensacional ou, no mínimo, divertido.
nota: 8,5

Aperitivo

Sobremesa
Pitty


Sem lançar um álbum desde 2019, a Pitty finalmente irá fazer o seu comeback com o lançamento do seu sexto álbum, intitulado apenas PITTY. E, como primeiro single, foi lançada a faixa Sobremesa.

Sinceramente, a canção não é ruim, mas esperava mais da artista, especialmente no quesito composição. A letra aqui tem as características que a artista sempre mostrou ao longo da sua carreira, mas, infelizmente, é um trabalho mais fraco da sua discografia. Queria realmente gostar da letra, pois, tecnicamente, é um trabalho muito bem feito.

Todavia, o resultado é fraco e meio sem pé nem cabeça, o que fica difícil a gente se associar e entender de verdade o que a cantora quer falar, especialmente no sem graça refrão.

Felizmente, Sobremesa se salva bem devido à produção ótima, que entrega um vigoroso e potente rock alternativo, que tem um ótimo e robusto instrumental e faz a canção realmente se elevar de qualidade. Apesar de certo estranhamento em relação à produção dos vocais da cantora, a presença de Pitty é sempre muito impactante, porque a mesma preenche a canção com a sua força incomparável e atemporal, mesmo quando não tem em volta um material à altura.

Como apontei, a canção não é ruim, mas é mais um aperitivo gostosinho do que uma sobremesa inesquecível.
nota: 7

21 de setembro de 2026

Erotica Vibes

Lucky[Hymn]
Shygirl

Com o segundo single de SWALLOW!, a instigante Lucky[Hymn], a gente consegue entender qual é a vibe da nova era da Shygirl: Erotica.

Não sei de verdade se o álbum é realmente inspirado no álbum da Madonna, mas, sinceramente, ao unir a nova canção com o que a mesma entregou em Alyse, foi na hora que a minha mente foi levada a fazer essa conexão. E aqui a sensação é ainda maior devido à construção sonora, que mistura art pop/deconstructed club com toques de indie folk/rock, criando uma batida envolvente, sensual e madura, que parece claramente ter características básicas de canções como Rain e Deeper and Deeper. Não é, porém, uma referência copiada ou na cara, mas é quase como se a essência criativa fosse a linha que liga com o trabalho da rainha do pop.

A comparação também vai além da sonoridade, pois Lucky[Hymn] também tem semelhanças líricas ao ter uma composição robusta que reflete sobre sentimentos profundos, mas de uma forma acessível e bem talhada estruturalmente falando. Gostaria, porém, que a letra fosse “maior” para poder explorar ainda mais essa crônica sobre se entregar sem medo à paixão de maneira definitiva. Fechando o “pacote”, Shygirl entrega uma ótima performance que mostra uma versatilidade bem grande, especialmente se comparada à canção anterior.

E assim, aos quase quarenta e cinco minutos do segundo tempo de 2026, a Shygirl vai criando um hype para o que pode ser um dos álbuns do ano.
nota: 8,5

Pop Sentimental

Make Believe
Rachel Chinouriri


Apesar de uma mudança considerável, a nova fase sonora da Rachel Chinouriri está bem auspiciosa. Agora é a vez da interessante Make Believe.

Segundo single de I think I spoke too soon, a canção é uma sedosa, intrigante, madura e graciosa alt-pop/synthpop com toques de dark pop em uma instrumental eficientemente simples. A produção não quer revolucionar, mas, sim, criar um pop que possa incrementar a sonoridade da cantora de maneira natural, que seja claramente uma evolução do que a mesma vinha fazendo, ao mesmo tempo que seja uma mudança realmente distinta.

E, sinceramente, isso dá certo para Make Believe porque a personalidade da artista é mantida ao se alinhar com a sóbria e melancólica composição sobre tentar fazer sua paixão realmente se interessar, mesmo que seja meio que pela insistência de um coração desesperado. Além disso, a performance de Rachel cria certa fricção bem-vinda que dá personalidade para a canção devido à forma sentimental, cool e grave que a mesma entoa a canção, aproveitando o máximo do seu grave e melódico timbre.

É uma mudança que pode ainda desabar no contexto do álbum, mas, por enquanto, está sendo muito feliz para a Rachel Chinouriri.
nota: 8

18 de setembro de 2026

Rosadinho

new trick
ROSÉ


De todos os lançamentos solo recentes das integrantes do Blackpink, “new trick”, da ROSÉ, é disparado o melhor. E ainda poderia ter um resultado ainda melhor.

A canção é um cativante e efervescente pop rock/power pop que a gente não ouve atualmente sendo feito. Quase algo que poderia ter sido feito por alguma estrela juvenil do Disney Channel lá pelos anos 2010, mas com uma camada pop punk que dá certa ousadia para a canção e que emoldura também o período de glória da Avril Lavigne. Todavia, a canção é refrescante devido à sua construção atemporal, leve e chiclete. Além disso, ROSÉ entrega uma performance graciosa que acerta a dinâmica da canção ao mostrar uma ótima versatilidade. O problema de “new trick” é a sua boa, mas esquecível, composição, que realmente só tem um momento inspirado no seu direto refrão, que se torna a mola propulsora perfeita para a canção.

Agora só falta a Jennie para fechar esse ciclo e a gente saber quem vence essa “batalha”. Por enquanto, a ROSÉ é a vencedora clara.
nota: 7,5

Ou Vai ou Racha

Party
Troye Sivan


Com o lançamento de Party, segundo single de She's the Best, Troye Sivan deixa bem claro o rumo da sua nova era. É divisivo? Com certeza, mas, sinceramente, eu estou do lado positivo dessa recepção.

Com uma produção completamente pendendo para o house, especialmente puxando para o acid house, a canção é eletrizante, dançante, grudenta e muito bem construída, com um toque experimental que conversa com a sonoridade do cantor, mas dá alguns passos para sair do pop mais delimitado que ele vem apresentando. Existe uma clara inspiração dos anos noventa e começo dos anos dois mil na elaboração da batida, sem deixar a canção datada. Todavia, a grande qualidade e o que dá o toque perfeito de gênio à batida é o excepcional uso do sample de “Music”, da Madonna, que é a cola perfeita para unir toda a canção. O problema de “Party” é a sua composição.

Tirando a letra vinda da canção da rainha do pop, o single é composto apenas por um verso que vai ser repetido como se fosse um grande refrão. Na verdade, isso não seria um grande problema se o verso fosse realmente bom, pois o que temos aqui é até divertido e “campy”, só que também é raso e menos interessante do que deveria ser. E isso custa à canção alguns pontos importantes, pois sua embalagem é consideravelmente superior ao seu conteúdo. Quanto ao Troye, eu gosto da performance dele mais “spoken word” devido à sua entrega exemplar e carismática, mesmo que eu tenha a certeza de que não deva agradar a todos e que seu melhor momento é quando entoa os versos de “Music”.

Espero que esse seja o tipo de trabalho que a divulgação possa ajudar a dar um hype maior para o álbum, mas, mesmo assim, são corajosas as decisões do Troye Sivan.
nota: 8

11 de setembro de 2026

Primeira Impressão

Dancing On The Wall
MUNA



Uma Segunda Chance Para: I Gotta Feeling

I Gotta Feeling
The Black Eyed Peas

Possivelmente, o gigantesco sucesso de I Gotta Feeling foi um dos últimos arrasa-quarteirões antes da ascensão definitiva do Spotify, lançado em 2008, um ano antes do lançamento da canção do The Black Eyed Peas. Devido a isso, a faixa entrou em um “bolsão” dentro da cultura pop reservado para poucas músicas. Todavia, depois de dezessete anos do lançamento, qual é o sentimento sobre sua qualidade? Valeu o hype ou é uma bomba datada?

Na minha visão, o resultado é meio 50/50, especialmente quando a gente olha em retrospectiva. Quando o grupo decidiu deixar meio de lado o hip hop para se aventurar no eletrônico/EDM/electropop, foi uma decisão arriscada, mas que valeu a pena devido ao sucesso do álbum The E.N.D.. Criativamente, o álbum recebeu uma enxurrada de críticas que variaram do mediano ao negativo, especialmente no quesito sonoridade. E acredito que esse seja o grande motivo para I Gotta Feeling ainda ser uma música divisiva, mesmo tendo qualidades bem interessantes.

A razão principal é que a produção de David Guetta e Frédéric Riesterer já era meio datada e clichê quando foi lançada, criando a sensação de que a faixa era uma cópia passada por um triturador de “popficação” para ficar ainda mais radiofônica e massificada. E isso dá à música um aspecto de farofa tão farofada que fica meio complicado encontrar uma identidade distinta. Entretanto, esse problema também gera sua melhor qualidade: o gigantesco fator “chiclete”.

Ouvir a canção pela primeira vez é algo que, sinceramente, deve ser um portal para qualquer pessoa “viciar” nela, para o bem ou para o mal. A batida é sonoramente nada complexa, mas foi cuidadosamente montada para ser grandiosa, grudenta e ter uma melodia de facílima assimilação desde a primeira vez. Quando toca a primeira nota, a gente já sabe qual música vai começar. E isso é algo que podemos chamar de atemporal, de certa maneira, o que meio que contradiz o cheiro de naftalina que a faixa também exala. Felizmente, existe um termo para isso: prazer culposo. E essa é a melhor definição para a música.

Liricamente, I Gotta Feeling apresenta a mesma dualidade ao ser uma obra sobre “curtir a vida” da maneira mais clichê e sem profundidade possível, mas também construída de uma forma que conseguimos decorar a letra na hora em que escutamos e nunca mais esquecer. O que realmente se sobressai é a presença de todos os integrantes do Black Eyed Peas, que entregam boas performances. Mas, sinceramente, é só quando Fergie aparece que tudo dá liga de verdade. E essa observação é ainda mais curiosa, pois faz a gente voltar a pensar por que a carreira solo dela não teve mais durabilidade, ainda mais quando associamos isso ao sucesso de The Dutchess.

I Gotta Feeling é uma máquina do tempo datada e nostálgica, que é até mais interessante do que a gente lembra. Só não pode pensar muito além da superfície para ainda se divertir com a canção.
nota: 7

Irmandade & Celebração

Joy. (featuring Absolutely and Amma)
RAYE


Não há como negar que um dos nomes de 2026 é Raye, devido aos frutos da aclamação e do sucesso de THIS MUSIC MAY CONTAIN HOPE. E acredito que nada mais justo do que lançar Joy como single, pois a canção é, basicamente, uma celebração.

A faixa é realmente uma celebração musical em vários sentidos. Primeiro, conta com a participação de suas duas irmãs, também cantoras, Absolutely e Amma, o que dá à produção todo um aspecto de irmandade, carinho e afeição que é a intenção base do trabalho. Além disso, as duas artistas não estão aqui apenas pela ligação fraternal, mas também por serem talentosas e promissoras, ajudando a elevar o resultado.

Todavia, o brilho principal vem claramente da performance solar, cativante e madura de Raye, que invoca todos os sentimentos que a produção quer transmitir nessa verdadeira celebração à vida e sobre entender que é preciso ser sempre otimista, mesmo sabendo que ela é feita de momentos de tempestade. Apesar de meio clichê, a composição de Joy é lindamente bem escrita e passa verdade em sua mensagem. A produção, por sua vez, cria uma sonoridade que capta todos esses sentimentos ao construir um inspirador, animado, contagiante e envolvente pop soul, dance-pop e gospel, que conquista desde os primeiros segundos.

Nada mais justo do que Raye poder celebrar tudo o que vem alcançando, pois a cantora merece — e muito mais, sem dúvidas.
nota: 8,5

2 Por 1 - Tinashe

Pillow Fight
I'd Rather Be Alone
Tinashe


Ainda no hype de Melatonin, a Tinashe lança duas novas canções para a promoção de Popstar: Pillow Fight e I'd Rather Be Alone. Mesmo não estando na mesma altura do single anterior, as duas faixas dão ainda mais alcance sonoro para a nova era da cantora.

Em Pillow Fight, a cantora volta a entregar um R&B/pop soul com toques de trap que não chega a ser algo revolucionário, mas é bem acabado e possui uma melodia relativamente simples, porém adoravelmente cativante. É um trabalho claramente menor, que consegue se sobressair devido à maneira como a cantora o defende, dominando a faixa como se não exigisse quase nenhum esforço.

Em I'd Rather Be Alone, a qualidade melhora devido à dramaticidade da canção, que se apresenta como uma interessante balada electropop/synth-rock/R&B. E isso é outra amostra clara da imensa versatilidade da Tinashe, que consegue navegar por gêneros tão distintos de maneira fluida e sempre muito bem preparada. Aqui, a cantora entrega uma performance contida, mas emocional, que combina perfeitamente com o trabalho. A canção poderia, porém, ser ainda mais profunda sonoramente, o que a faria se tornar mais pungente e épica.

Dessa maneira, Tinashe continua a comprovar que é um talento realmente único em uma carreira inspiradora.
notas
Pillow Fight: 7,5
I'd Rather Be Alone: 8


10 de setembro de 2026

Primeira Impressão

THERAPY AT THE CLUB
FLO




A Vingança é o Sucesso

crank 2
Slayyyter

Apesar de ainda não ter estourado dentro da bolha mainstream, a Slayyyter vem construindo uma carreira bastante auspiciosa, meio que quase ocupando o espaço da Charli XCX antes do estouro de Brat. E isso vai se mostrando com o hype criado para o lançamento de crank 2.

Single de WOR$T MAN IN AMERICA, a canção é claramente uma irmã/continuação de Crank, lançada no ano passado. Sobre a canção, disse que era “uma sofisticada, borbulhante, barulhenta e potente faixa de industrial pop/electrocash/eletro hip hop que adiciona uma nova camada à construção sonora atual da cantora, mas sem perder o rumo artístico que a mesma vem seguindo”. E, basicamente, essa mesma anotação vale para a nova canção, mas, felizmente, existem outras características que dão personalidade a crank 2.

A primeira, e melhor, é que dá para notar que a canção usa a faixa anterior como base sonora, mas também constrói uma clara personalidade ao realmente apresentar algo novo tanto instrumental quanto melodicamente. Aqui, a atmosfera é mais raivosa e ácida, especialmente devido à composição, que novamente volta a falar sobre o relacionamento da Slayyyter, que terminou nada amigavelmente. Além disso, a produção corrige o erro do clímax final ao dar à canção um encerramento explosivo e poderoso, assim como a performance da cantora, que consegue mostrar uma grande versatilidade sem sair do seu domínio performático. Meu “problema” com crank 2 é que a produção poderia ir bem mais a fundo na construção da batida, fazendo a canção realmente ficar acima da “original”.

Indiscutivelmente, crank 2 continua a cimentar a carreira da Slayyyter como uma força artística que deve ser acompanhada de perto.
nota: 8

9 de setembro de 2026

New Faces Apresenta: Audrey Hobert

Silver Jubilee
Audrey Hobert


Não me incomodo tanto quando um “nepo baby” tem talento de verdade, pois, ao menos, isso compensa a facilidade do artista em alcançar lugares que possivelmente não teria condição de alcançar sem suas conexões. Um exemplo é a cantora Audrey Hobert.

Filha do roteirista Tim Hobert e irmã do músico Malcolm Todd, a cantora ganhou destaque pelo trabalho como compositora para Gracie Abrams e pelo hit moderado de Sue Me no ano passado, mesmo ano em que lançou seu primeiro álbum, Who's the Clown?. Como último single do trabalho, foi lançada a interessante Silver Jubilee.

A grande qualidade é a sua inspirada composição, que mostra claramente a qualidade da sua persona como compositora ao escrever uma letra inteligente, ácida, descolada e divertida sobre perceber o seu envelhecimento e amadurecimento, mesmo sendo uma pessoa que apenas completou vinte e dois anos. A mesma consegue passar uma mensagem com uma personalidade muito bem definida e diferente, sem precisar soar pretensiosa. A produção é um pouco segura demais, mas entrega um eletropop/pop rock eficiente, com uma batida cativante que gruda nos ouvidos no momento em que chega ao seu ótimo refrão.

Se for para ser nepo baby, que seja com talento, como parece ser o caso de Audrey Hobert.
nota: 8

8 de setembro de 2026

Mudanças Amadurecidas

Marianne
Fontaines D.C.


Sempre é interessante tentar entender a evolução sonora de um artista quando ele decide dar uma guinada em uma direção inesperada. Em Marianne, a banda Fontaines D.C. faz exatamente isso.

Primeiro single do novo álbum da banda, Dopamine Chamber, a canção adiciona, de maneira bem nítida, um synth-pop influenciado, aparentemente, pelo Depeche Mode. É uma referência que não é inesperada, mas que dá à faixa um resultado surpreendente e sensacional ao ser lindamente misturada com post-punk, darkwave e dream pop, criando uma melodia hipnótica que emoldura perfeitamente a sensação de uma canção vinda diretamente dos anos oitenta, sem terminar sendo uma cópia barata.

Existe um trabalho muito inspirado, maduro e poderoso na construção de Marianne, especialmente em seu clímax final, que arremata a canção de maneira decisivamente especial. A performance sombria e marcante do vocalista Grian Chatten dá uma ênfase emocional e angustiante à inspirada composição sobre problemas mentais e os efeitos que eles causam nas pessoas.

Entrando no final do ano, o Fontaines D.C. se torna um dos nomes que mais me despertam hype. Veremos.
nota: 8,5

A Maldição do Linear

CLICK
JISOO


Única integrante do Blackpink a não lançar, até agora, um álbum solo, Jisoo continua tentando se consolidar de maneira a “alcançar” suas companheiras de grupo. E a mais nova tentativa é com o single CLICK.

A canção é até boazinha, mas perde uma grande oportunidade de ser ótima devido a uma produção que nunca a faz deslanchar. Isso fica ainda mais evidente quando percebemos que a batida synth-pop/dance-pop tinha tudo para se tornar um grande trabalho, pois possui uma melodia interessante e bem pensada, mas nunca chega a lugar nenhum, resultando em uma faixa linear e sem verdadeira pegada. Vocalmente, Jisoo entrega uma boa performance, que, porém, carece de maior dinamismo para realmente saltar aos olhos. A composição segue pelo mesmo caminho, mas com um resultado ainda menos marcante que o restante da canção.

CLICK poderia ser um musicão se conseguisse fugir desse estado de linearidade que a impede de sair do apenas “ok”.
nota: 6,5

7 de setembro de 2026

Primeira Impressão

PRIMA
ADÉLA



Projeto: Icônica (Ainda Em Progresso)

Nicole Kidman
ADÉLA


Mesmo não sendo tão bom quanto era esperado, o debut da Adéla tem algumas pérolas, como é o caso de Nicole Kidman.

Uma deliciosa mistura de R&B, alt-pop e trap pop que poderia ser mais aprofundada sonoramente, explorando novas camadas e texturas. Todavia, a produção acerta na mosca com uma batida cadenciada e envolvente, enquanto Adéla entrega uma performance competente. O grande destaque da canção, porém, é sua divertida composição sobre se sentir “poderosa” e se comparar diretamente com Nicole Kidman, especialmente no refrão, em que filmes da atriz são citados de maneira inteligente e incorporados à narrativa.

E é nesses momentos que a gente vê que Adéla tem potencial de verdade.
nota: 8