Beyoncé
Em novembro de 2008, a Beyoncé lança seu aguardado terceiro álbum, intitulado I Am... Sasha Fierce, que viria a ser um dos pontos de virada mais importantes da sua carreira. O álbum é o responsável por transformar a já estrela da música em algo ainda maior ao ganhar a alcunha de estrela pop para o grande público devido, principalmente, ao imenso sucesso “fura-bolha” de algumas canções. Todavia, quase dezoito anos depois do seu lançamento, é preciso também apontar que o álbum é também o mais fraco da sua discografia devido ao fato de que faltou adicionar uma carga de personalidade artística que tinha sido tão decisiva para os dois álbuns anteriores.
Primeiramente, acredito que é preciso explicar o motivo de ser aqui que a Beyoncé se torna, de fato, perante parte do público, uma estrela pop de verdade. E isso vem pela razão de que, infelizmente, poucos artistas negros conseguem receber essa percepção de serem “estrelas pop”, mesmo sendo maiores e mais importantes que artistas contemporâneos brancos. E isso não é exclusividade de ter acontecido com a Beyoncé, pois é algo que acontece sistematicamente desde bem cedo na história da música até os dias de hoje. Escolha qualquer artista negro dentro do escopo do pop e pense: esse artista é realmente visto como uma estrela pop? Não digo apenas ser uma estrela e, sim, ter a mesma percepção dentro da história do pop que artistas brancos de maneira geral. A resposta vai ser, na maior parte das vezes, um grande não. Então, no contexto da carreira da Beyoncé, I Am... Sasha Fierce foi o trabalho que fez essa ponte de maneira definitiva para que ela pudesse ser considerada plenamente como uma estrela pop. E qual é o elemento principal para essa mudança? Simples: o pop.
Apesar de manter certa base sonora no R&B, soul, hip hop e outros gêneros, a grande adição para a sonoridade da cantora é o pop e diversos subgêneros do mesmo. Todavia, não foi apenas adicionar, pois a cantora já tinha flertado com o pop antes, mas, sim, fazer o pop ser o ponto focal e central do álbum, em que os outros gêneros orbitam incrementando a construção. A grande sacada e trunfo do álbum, porém, é fazer um conceitual dividido em dois momentos para representar a persona da cantora: de um lado, a Beyoncé mais vulnerável e humana na parte de “I Am” e, do outro lado, o seu poderoso e invocativo lado “Sasha Fierce”, baseado no alter ego da cantora para a sua persona artística. Dessa maneira, a produção pode explorar não apenas essas duas faces da cantora como, principalmente, as diversas vertentes do pop de maneira estruturada para não correr o risco de criar uma farofada sem sentido que não conseguisse impor exatamente o intuito do álbum nos quesitos estético, sonoro e temático. Felizmente, essa decisão deixa bem clara toda a intenção conceitual e é o que faz o álbum funcionar de verdade, especialmente por deixar de maneira mastigada e deglutível para o público em geral a ideia por trás. O problema, porém, é que a execução fica bem a desejar, mesmo passando longe de ser um desastre.
Além de co-produzir todas as faixas, Beyoncé convocou uma equipe de peso com experiência comprovada ou em ascensão na época para o álbum, incluindo nomes como Toby Gad, Ryan Tedder, Stargate, Knowles, Tricky Stewart, The-Dream, entre outros. Apesar de conseguir construir o álbum de maneira a expressar perfeitamente a intenção, a produção não tem a capacidade de manter o mesmo nível em todas as faixas, criando bolsões de momentos que ficam entre os fillers mais esquecíveis de toda a carreira da cantora. Boas canções tecnicamente, mas que são completamente esquecíveis, especialmente comparadas com os melhores momentos do trabalho devido a não acrescentarem nada realmente substancial para o que I Am... Sasha Fierce pretende ser. E o maior número de canções que se encaixam nisso está presente na parte “I Am”, que é onde vemos o lado pessoal e íntimo da Beyoncé. O problema é que a produção parece acreditar que, para mostrar esse lado, bastaria apostar em baladinhas contidas e minimalistas, sendo que, na verdade, a cantora é capaz de mostrar todo esse lado sendo grandiosa e poderosa.
Nessa parte do álbum, a sonoridade é uma mistura de baladas pop e R&B, com influências menos diretas de folk e indie pop, que realmente mostra para o que veio quando segue um caminho mais dramático e/ou épico. E o grande momento é, sem nenhuma dúvida, uma das canções que ajudaram a cantora a realmente fazer a transição para artista pop: o mega hit Halo. Uma power ballad pop/R&B que se tornou a tradicional grande canção romântica da carreira da Beyoncé, a faixa tem uma batida com uma construção instrumental imponente e vigorosa que faz a gente já ficar cativado e atraído logo nos primeiros acordes sem perder, porém, o romantismo e a aura íntima da canção. E é preciso dar as flores para quem merece, pois a canção é um trabalho tão bom devido à presença da produção/composição de Ryan Tedder, que aqui atingiu o seu ápice criativo. O impacto da canção ajuda a entender a mudança de chave na trajetória da cantora devido ao imenso sucesso comercial ao redor do mundo, especialmente no Brasil, e à vitória da canção no Grammy de Best Female Pop Vocal Performance. Todavia, a canção não foi a introdução da cantora nessa nova fase, mas, sim, o primeiro single na também importante If I Were a Boy.
Apesar de não ser tão boa quanto Halo, a canção é de uma importância ímpar nessa fase da carreira da artista, pois foi o primeiro single e o primeiro vislumbre da sua nova fase. Ao introduzir parte do conceito do álbum — isso porque os primeiros singles foram lançados acompanhados de outra canção vinda da outra parte do álbum —, If I Were a Boy foi responsável por começar a mudar a visão da cantora já devido à sua produção, que cria uma balada pop/R&B com toques de soft rock, à sua composição empoderada e, principalmente, aos vocais da Beyoncé. Apesar de sempre ter sido conhecida como uma força vocal, a cantora consegue quebrar certos preconceitos ao entregar uma performance poderosíssima, emocional e direta, que mostra claramente todo o seu potencial vocal em uma canção que pôde chegar com mais facilidade a todas as rádios da época. Essa visão diferente da capacidade vocal da Beyoncé é, na verdade, o que sustenta a parte “I Am” do trabalho, pois a cantora é capaz de não só mostrar o seu poder vocal como, também, a sua versatilidade e a beleza do seu timbre em canções mais contidas, que deixam espaço para a cantora sustentar toda a força da canção. Como já mencionado, I Am... Sasha Fierce é um álbum duplo em que a segunda parte, intitulada Sasha Fierce, é onde o trabalho realmente brilha mais devido aos acertos da produção.
A segunda parte do álbum é o lado em que a Beyoncé mergulha no lado mais comercial do pop, pois a construção sonora aqui adiciona camadas de dance-pop, electropop, synth-pop, europop e alguns outros subgêneros pop. O resultado não é genial, mas é certeiro para o que a artista queria passar nessa sua faceta pop. Divertido, icônico, dançante, radiofônico, viciante e marcante, as cinco canções que compõem a segunda parte do álbum são a coleção ideal para Beyoncé explorar variantes do pop de forma a respeitar a sua personalidade de maneira sincera sem, porém, comprometer a capacidade de metamorfose e, principalmente, o potencial comercial que ela já tinha mostrado. Todavia, o verniz pop dado à artista e o novo potencial comercial foram decisivos para a elevação definitiva da sua carreira. E existe uma faixa que pode ser apontada como a grande catalisadora de tudo isso.
Lançado como primeiro single ao lado de If I Were a Boy, o arrasa-quarteirão Single Ladies (Put a Ring On It) se tornou um gigantesco sucesso mundial, alcançando o primeiro lugar na Billboard, vencendo o Grammy de Song of the Year e, em 2026, sendo incluída na preservação da Biblioteca do Congresso Americano devido ao seu impacto histórico e cultural. Quem não viveu o ano de 2008 ou não se lembra bem pode até achar exagero, mas a canção foi um daqueles sucessos que meio que transcenderam vários públicos diferentes, estando presente em todas as mídias possíveis e, principalmente, no consciente coletivo. Mesmo antes do termo “viral” existir da forma que existe atualmente, é fácil notar que a canção se tornou um viral devido, principalmente, ao seu simples e genial clipe e, claro, à sua coreografia, que virou algo que, na época, foi tentado reproduzir por quase todo mundo pelo menos uma vez. Com essa tempestade perfeita, Single Ladies (Put a Ring On It) se tornou uma das canções mais ligadas à Beyoncé e aquela que iria finalmente dar o termo “artista pop” para ela, mesmo que a canção não seja tão pop assim.
Produzida pela cantora ao lado de Tricky Stewart e The-Dream, o single ganha sua sonoridade distinta devido à adição de elementos de bounce, R&B e dancehall, mas que são “emoldurados” pela presença de dance-pop e electropop para dar os toques finais na batida. Com o tempo, preciso admitir que a canção cresceu em mim, pois no começo eu sentia falta de um instrumental mais robusto. Todavia, ao entender melhor a construção da canção, é mais fácil compreender a intenção e como o arranjo trabalha a favor do fator “viciante” da faixa. A batida simples, mas extremamente marcada, o ritmo frenético e, por fim, as mudanças melódicas são o que dão toda a mágica da canção, já que ajudam a gente a ser totalmente envolvido logo nos primeiros acordes. Só que, porém, o que arremata a canção é sua genial composição, que é uma aula de como escrever uma letra verdadeiramente pop.
Tematicamente, Single Ladies (Put a Ring On It) é sobre a indecisão do “namorado” em fazer o pedido de casamento, mostrando medo de compromisso, enquanto, cansada da espera, a “namorada” decide curtir a sua vida celebrando em uma boate, formando um casamento perfeito com o tema de If I Were a Boy. Apesar de meio raso esse tema, a maneira como a canção é escrita é de uma magistralidade ímpar ao ser fácil de compreender, nunca simplista, divertida, cheia de frases de efeito e empoderadas, e com um refrão genial de tão deliciosamente viciante que precisou de apenas duas frases e uma sequência de “oh, oh, oh”. Apesar de ser um dos momentos mais importantes do álbum, a canção não é o grande ápice em questão de qualidade, já que esse posto vai para a perfeição pop Sweet Dreams.
Nada antes ou depois até o momento na carreira da Beyoncé vai chegar ao nível de pop que a faixa atinge em um dos momentos mais inspirados dessa era. Uma sombria, densa, envolvente, sexy, eletrizante, cativante e deliciosa electropop com toques de UK bass, dark pop, electroclash e R&B, o single — que teve desempenho comercial melhor do que eu lembrava, especialmente mundialmente — é o tipo de canção que deveria ter sido melhor valorizada devido à sua impressionante produção, que dá a grandiosidade perfeita para elevar a batida sem perder, porém, o romantismo de uma composição atemporal e madura sobre o poder que a paixão pode causar. E, novamente, a performance gigantesca e magistral da Beyoncé é o ponto de apoio da canção, que não teria o mesmo resultado sem essa presença. E isso também vale para o resultado de Diva.
Lançada ao lado de Halo, a canção é um trabalho divisivo devido à sua produção estilizada, que mistura pop rap, southern hip hop, crunk e R&B, e que ficou conhecida como a resposta a A Milli, do Lil Wayne, na época. Entretanto, a minha visão é que Diva é um dos trabalhos mais “cunty” da carreira da Beyoncé, pois é basicamente a celebração de si própria, deixando bem claro que a cantora estava na busca dessa exaltação da sua força como popstar. E isso é o que dá uma das qualidades para o lado “Sasha Fierce”: a maneira como a canção se joga sem medo nesse conceito, mesmo não acertando todos os pontos. E isso fica claro na versão deluxe do álbum, pois, de todas as canções dessa versão, apenas três são trabalhos realmente marcantes: a bonita balada pop/R&B Smash Into You, a mega safadinha Ego e, por fim, a melhor delas, Why Don't You Love Me, que merece uma resenha só sua.
Um ponto fora da curva na carreira da Beyoncé, I Am... Sasha Fierce é um momento de extrema importância na trajetória da artista, já que começou a fazê-la finalmente ser considerada o que ela já era desde o começo: uma das maiores popstars de todos os tempos. Ao ultrapassar esse obstáculo, a cantora decide voltar aos trilhos criativos com um álbum que, com o passar dos anos, é claramente o marco inicial para a consagração definitiva da Beyoncé como uma das maiores ARTISTAS de todos os tempos.


Nenhum comentário:
Postar um comentário