24 de maio de 2026

Primeira Impressão

The Mountain
Gorillaz




Quando fui escutar o nono álbum da banda Gorillaz, The Mountain, tinha certa ideia do que esperar da sonoridade da banda. Entretanto, ao final da minha audição, fiquei realmente surpreendido quando percebi que encontrei parte do que esperava, mas o resto foi totalmente preenchido por uma sensação de completa surpresa.

A grande descoberta no álbum é a decisão de explorar uma faceta espiritual da banda ao buscar inspiração em uma sonoridade de base indiana que transmite essa sensação bem clara de contemplação que transpassa os sentidos de religião, pois é claramente uma busca por uma exploração e inspiração que passam dos limites estabelecidos pelo homem. E o resultado é bem melhor que o esperado no instante em que a gente percebe que a sonoridade da banda é fundida com essa vertente de uma maneira respeitosa, madura, refinada, excitante e inspirada, criando um resultado que fascina pela grandiosidade alcançada, em algo que facilmente poderia ter sido um grande desastre vazio, sem sentido e sem brilho.

Acredito que o grande responsável por isso seja a autenticidade com que a produção constrói todo The Mountain, pois foram feitas gravações na Índia, assim como foi usado um número considerável de talentos de artistas indianos para atuarem na parte técnica, instrumental e ao microfone com participações especiais. Une-se a isso a sempre competente condução sonora da banda e o resultado é realmente uma coleção impressionante de uma mistura de alt pop, worldbeat, psicodelia, hip hop, indie pop, synth-pop, latin pop e, claro, música indiana. É um caldeirão diverso, borbulhante e caldoso que vai sendo exposto concha por concha em um álbum que faz valer sua duração de mais de uma hora dividida em quinze faixas. E um dos fatores que fazem a gente ficar vidrado aqui é que existe uma surpresa em cada “virada”, sendo a maior e melhor delas a sensacional The Manifesto.

Quando a gente chega à faixa, a oitava do álbum, já entendemos perfeitamente todo o clima e vibe do álbum, mas levamos “um soco” com a quebra de expectativa criada pela produção. Com mais de sete minutos, a canção não é apenas uma aula de como explorar a sua duração de maneira genial, como também de como explorar todas as influências possíveis para criar um monumento em forma de canção. The Manifesto é uma latin pop, hip hop, synth-pop, trip hop, jazz rap e rap que tem como moldura uma sonoridade indiana que parece ser o pop deles com toques de Bollywood, conseguindo unir tudo isso de uma maneira em que nada soa deslocado, sem propósito e, principalmente, sem criatividade verdadeira. As peças vão se encaixando de maneira praticamente perfeita, sendo explicadas durante a evolução da canção de maneira honesta, inteligente e orgânica. Isso tudo poderia não ter a mesma força sem a presença espetacular do rapper argentino Trueno e do americano Proof, que teve o seu verso retirado de alguma sessão não lançada com a banda por volta de 2001, já que o artista faleceu em 2006. E é nessa impressionante maneira de unir talentos tão diferentes que vem outra grande qualidade da produção em The Mountain.

Como dito anteriormente, a lista de nomes convidados para participações instrumentais e/ou vocais é bem grande, indo de nomes conhecidos até os totalmente desconhecidos pelo grande público. Apesar das grandes diferenças, o resultado funciona belissimamente porque a banda sabe como usar cada um deles da melhor maneira, mesmo não explorando tudo que alguns convidados poderiam ter para oferecer. Um grande momento em que todos os envolvidos brilham é na balada épica e melancólica art pop/synth-pop/hip hop The Empty Dream Machine, em que ouvimos a guitarra do lendário Johnny Marr (ex-The Smiths) ao lado da lindíssima cítara da artista britânica de origem indiana Anoushka Shankar, que tem no meio da canção o verso poderoso do rapper Black Thought.

Outros momentos que se destacam ficam por conta da energética The Moon Cave, que conta com vocais gravados antes da morte do lendário Bobby Womack, da climática parceria synth-pop com a banda Sparks em The Happy Dictator, da melancólica e emocional Orange County e, por fim, da cativante e estilizada Damascus.

Ouvir The Mountain é uma das melhores surpresas que não são exatamente uma surpresa, dado o histórico do Gorillaz. E essa é uma qualidade raríssima de se encontrar atualmente.


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