Jessie Ware
O terceiro ato da trilogia “disco/dance/diva” da Jessie Ware, que começou com o já clássico What's Your Pleasure? e teve seu segundo capítulo com o genial That! Feels Good!, chega em Superbloom, que é, talvez, o mais divisor dos três álbuns com a crítica e o público. Todavia, a minha percepção é bem clara: o álbum é outro imenso acerto da artista, em que faz uma mistura sincera e elegante dos dois álbuns anteriores.
Os dois primeiros álbuns eram, na minha visão, divididos em duas personas: o primeiro sendo a Donna Summer e o segundo sendo a Diana Ross. Apesar de haver várias similaridades, as duas cantoras têm diferenças sonoras consideráveis dentro do pop/R&B/disco/dance, que era a essência de cada álbum. Em Superbloom, porém, a produção faz a fusão entre as duas vertentes, criando um álbum híbrido entre tudo o que a gente já escutou da cantora. E é aqui que, possivelmente, as pessoas vão encontrar problemas com o trabalho, pois, na prática, não há nada para ser descoberto como nos outros álbuns. Tenho que dizer que consigo entender esse ponto de vista, já que a Jessie nos “mimou” demais com dois álbuns que eram como acordar na manhã de Natal e encontrar presentes incontáveis debaixo da maior árvore natalina possível, sendo que cada caixa era algo diferente. Todavia, não acho que haja nenhum problema em ganhar versões diferentes do que a gente já ganhou quando esses presentes são tão bons quanto os outros. E é assim que é Superbloom: um presente repetido, mas ainda sensacional.
Novamente, o público é convidado a entrar nessa jornada, em que a Jessie e a produção nos levam a mergulhar no que há de mais refinado e cativante na exploração da disco/post-disco, com elementos vistosos de synth-pop, pop soul e dance-pop, com toques, pitadas e pinceladas de jazz, electropop, R&B, boogie, entre outros gêneros. E, mais uma vez, toda essa construção é feita de uma maneira tão despudoradamente elegante, madura e sofisticada na visão artística que a gente se sente transportado para um mundo à suíte de um hotel cinco estrelas na noite de Ano-Novo, vendo os fogos de artifício e tomando a melhor champanhe disponível, com o álbum como trilha sonora de fundo. Ao mesmo tempo, porém, a sonoridade de Superbloom nos abraça de maneira carinhosa e afetuosa, em braços seguros e aconchegantes, pois sabemos que estamos na presença confiável de uma artista que vai entregar apenas o crème de la crème em todos os momentos.
É exatamente isso que as treze faixas do álbum nos entregam e, mesmo quando não apresentam exatamente o melhor, ainda são trabalhos de uma qualidade altíssima e com personalidades diferentes, que captam toda a persona artística da artista. Apesar de vários momentos impecáveis, o grande ápice do álbum fica por conta da sensacional I Could Get Used To This:
“Sem pender para uma nostalgia barata, mantendo um claro verniz contemporâneo sem perder o charme de um bom ‘revival’, I Could Get Used to This impressiona ao unir pontas tão distintas em uma canção extremamente gratificante e de qualidade técnica notável. Desde sua abertura envolvente e graciosa, que estabelece um clima convidativo e sonhador, até o seu desenrolar preciso, no qual novas camadas sutis, porém pungentes, vão sendo adicionadas, a faixa cresce em força dançante e energia até culminar em um clímax vibrante e suculento”.
Preciso dizer que, infelizmente, existe um ponto que não deixa o trabalho ser ainda melhor, que é o fato de que algumas canções parecem não ter seus clímaxes bem explorados como deveriam. É um problema pequeno, pois todas as canções possuem uma produção indiscutivelmente ótima e, várias vezes, sensacional. O que acontece são ajustes finos que poderiam elevar mais o resultado final. Um bom exemplo disso é a deliciosa e sensual Sauna, que exala a sensação perfeita de “uma para os gays”. A batida electropop misturada com post-disco e eurodance cria uma das mais inspiradas de todo o álbum, que faz a gente querer dançar como se não houvesse amanhã. E, quando chega a parte final, a gente pensa que a coisa vai engrenar e se transformar em algo quase transcendental, mas, infelizmente, devido à duração da canção, o clímax é cortado antes de realmente explodir. E isso deixa certo gosto de quero mais. Todavia, esse problema não é algo que atrapalhe realmente o resultado final, porque o que é construído já é algo especial e magistral, embalado pela voz atemporal, aveludada e imaculada da Jessie Ware.
Em Don’t You Know Who I Am?, a cantora encarna a sua diva dramática, entoando uma balada mid-tempo de influência da italo disco com pop soul, de uma cafonice milimetricamente construída para soar dessa maneira, passando longe de ser um pastiche ou piada. Logo em seguida, a cantora quebra expectativas ao entoar a delicada, melódica e contida balada soul à base de piano 16 Summers, que parece deslocada do resto do álbum, mas funciona quando a gente percebe a influência de canções dos estilos em álbuns da Diana Ross. Duas facetas da Jessie que demonstram o motivo de a cantora ser uma das melhores intérpretes da atualidade. E, antes de tudo, a cantora encarna o seu lado mais romântico e “mulher chique” na poderosa faixa que dá nome ao álbum, na graciosa, grandiosa e cativante Superbloom. Por fim, o álbum ainda tem outro ápice na presença magistral de Ride, que “segue por uma pegada mais eletrônica, que parece beber da fonte de uma sonoridade retirada dos anos oitenta, devido à sua estrutura estilizada e à sua atmosfera mais eurodance. Isso não retira em nada a elegância intrínseca ligada à sempre magistral sonoridade da Ware”.
E assim a Jessie Ware entrega a sua trindade disco ao fazer, de novo, em Superbloom, um trabalho sublime, atemporal e de uma personalidade que é apenas possível devido ao seu magistral talento.


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