24 de maio de 2026

Primeira Impressão

EQUILIBRIVM
Anitta




Não existia no meu bingo para 2026 que a Anitta finalmente iria assumir a sua faceta de artista verdadeira para se preocupar mais com o conteúdo do que com a estética. Entretanto, isso é exatamente o que acontece com o lançamento de EQUILIBRIVM, que já se torna um marco insubstituível na carreira da artista, pois o trabalho já é basicamente melhor que toda a sua carreira junta, e por uma diferença bem enorme.

E o motivo para isso é algo que tenho falado há algum tempo sobre a carreira da Anitta: voltar para a música brasileira para construir a sua sonoridade ao misturá-la com outros gêneros. E esse voltar não é apenas usar funk, samba ou bossa nova de maneira superficial e, sim, buscar a essência e as raízes verdadeiras para ter a capacidade de não apenas construir uma sonoridade com personalidade, mas também expandir seus horizontes artísticos. Sempre irei apontar o trabalho da Rosalía em Motomami como exemplo perfeito de exploração, exaltação e expansão da música latina, mesmo a artista nem sendo latina. Em EQUILIBRIVM, Anitta não faz algo que chega bem perto disso, mas, sendo o mais honesto possível, é algo realmente emocionante de ouvir.

A grande ideia que se mostra o ponto de guinada é a decisão de voltar o álbum para explorar os temas partindo do ponto de vista da religiosidade da Anitta, que tem raízes na matriz africana. Essa ligação poderia, porém, soar forçada facilmente, mas, felizmente, isso passa bem longe porque é dessa real conexão da artista que a brasilidade pode fluir naturalmente, criando uma base real, sincera e realmente inspirada. Ouvir EQUILIBRIVM é como perceber o olhar para si da Anitta na busca por uma personalidade que ela sempre teve, mas estava escondida por uma camada grossa, pesada e fosca da tentativa contínua da mesma de se vender como uma artista pop que se adequa aos padrões dos outros e, não, começa a se construir baseada nos padrões das suas raízes e influências. E isso é revigorante, pois a produção, de maneira geral, segue bem esse caminho ao saber explorar de maneira madura e bem equilibrada a ideia por trás do trabalho. Não digo que é um trabalho sensacional, mas é sensacional notar a qualidade realmente elogiável de basicamente tudo no álbum.

Sonoramente, a melhor definição para o trabalho é pop brasileiro, pois essa é exatamente a sensação que tenho ao ouvir o álbum, já que estamos diante de um genuíno trabalho pop com bases fortes nas sonoridades brasileiras. Sendo mais minucioso, a produção mistura pop com MPB, funk carioca, samba, axé, afrobeats, reggae e bossa nova, criando uma liga sonora imperfeita, mas excitante e muito graciosa, que faz a gente ficar vidrada do começo ao fim em um dos álbuns mais coesos do pop nacional em muito tempo. Preciso repetir que o álbum não chega a ser algo fora do normal de sensacional. Existem aparas para serem polidas na sonoridade da Anitta e é preciso um amadurecimento mais elaborado para que o álbum não seja um tiro de canhão de uma bala só. Entretanto, o que é ouvido aqui é muito auspicioso, especialmente no ótimo começo do álbum em uma trindade realmente inspirada.

Começa com a deliciosa Desgraça em uma mistura sexy e cativante de dance-pop com afrobeats, latin pop e axé, que é o abre-alas perfeito para o álbum ao ser o tipo de faixa que não apenas empolga, mas também apresenta exatamente o que está por vir. Logo depois, a parceria com a Marina Sena em Mandinga se torna, de cara, a melhor canção da carreira da Anitta, com uma das mais refinadas produções e o uso excepcional do sample de Canto de Ossanha, de Baden Powell e Vinícius de Moraes. E a canção desemboca na gostosinha e reconfortante Caminhador, com a presença da sempre graciosa Liniker, em uma canção que capta bem outro fator importante para o trabalho ser bem-sucedido: o reflexo da espiritualidade como ponto temático para o álbum.

Muito longe de querer pregar qualquer coisa, Anitta usa a sua fé para não apenas trazer essa brasilidade devido ao intercalamento com as nossas raízes sonoras, como também refletir sobre assuntos como amor, empoderamento, família, saúde mental e, claro, fé. E com essas explorações acontece outro milagre: o nítido e enorme crescimento na qualidade das composições da artista. Colocando no chinelo basicamente boa parte da sua própria discografia, as composições em EQUILIBRIVM são bem-feitas, simples, sinceras e bem finalizadas esteticamente. Longe de canções profundas ou de composições acachapantes, o álbum é bem equilibrado de verdade, com momentos realmente inspirados. Gosto, por exemplo, da vibe “paz e amor” de Deus Existe, com a presença de Ponto de Equilíbrio, pois a letra não tem vergonha de ser clichê no melhor estilo reggae dos anos 2000 e, também, é o tipo de trabalho que conquista exatamente por isso. E, por fim, o terceiro pilar que preciso elogiar é a própria Anitta e o fato de que ela entrega suas melhores performances da carreira.

Sem os efeitos vocais que eram usados e que só atrapalhavam, Anitta deixa a sua voz completamente mais natural em vários momentos, nos quais carrega muito bem as canções mais “contidas” e, quando precisa, aciona o lado “diva” em performances mais elaboradas. E isso mostra que a cantora finalmente entendeu o seu próprio limite e qual é o seu potencial, sabendo equilibrar todas as qualidades e diminuir os “defeitos”. De longe, a melhor performance da Anitta é na ótima Meia-Noite, em que ela adiciona personalidade poderosa em uma excepcional mistura de afrobeats, electropop e funk carioca. Existe, porém, um defeito que atrapalha bastante o álbum: a inclusão de três canções em sequência (Várias Quejas, So Much Love e Pinterest) em espanhol, que seguem o estilo bem mais latin pop dos outros trabalhos da Anitta e que, apesar de até legais, quebram a fluidez do álbum na sua parte final. Funcionariam bem melhor como bônus tracks depois do fim do álbum normal. A que funciona de verdade é a parceria com a Shakira em Choka Choka, pois, devido a ser uma canção híbrida de português e espanhol, funciona bem melhor do que o esperado. Felizmente, isso não é um problema que cria um grande tropeço para o álbum, mas algo que poderia ter sido evitado facilmente.

Outros bons momentos são a estilosa Nanã, com Rincon Sapiência e KING Saints, e a potente Vai Dar Caô, com a ótima presença da Ebony.

EQUILIBRIVM se torna o ponto de uma guinada muito esperada e demorada na carreira da Anitta, que a ajuda a começar uma nova fase na sua história artística. Espero que, assim como foguete, ela não dê ré e volte atrás.


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