Robyn
O oitavo álbum da carreira da Robyn é uma verdadeira aula de como fazer pop: rápido, conciso, direto e excitante. E olha que Sexistential não é exatamente o melhor trabalho da cantora, mas é a nova prova cabal da grandiosidade de Robyn como uma das maiores artistas pop de todos os tempos.
A grande sacada do álbum é ter uma produção que entende muito bem quem é Robyn, pois, além da própria artista, quem também assina todas as canções é o produtor Klas Åhlund. Parceiros desde 2005, a união dos dois resultou em grandes momentos do pop, especialmente na era Body Talk. É dessa época que o álbum busca inspiração, pois Sexistential passa claramente a mesma vibe sonora que o magnum opus da artista. E é um pouco difícil explicar com palavras o que seria essa vibe, pois, teoricamente, os dois álbuns são uma fusão de synthpop, electropop e o simples pop, sendo adicionadas doses de outros gêneros/subgêneros para criar uma sonoridade que, ao final, é claramente uma visão única, distinta, pessoal, exclusiva e atemporal de Robyn. É nesse resultado que as coisas ficam mais complicadas, pois é preciso ter escutado alguma canção da artista para entender perfeitamente o que quero dizer.
Robyn tem uma visão tão especial de ver o pop que transita entre o massificado, o artístico, o vintage e o moderno, criando algo que apenas alguém com a sua capacidade poderia tirar dessas influências. É revigorante e excitante, ao mesmo tempo que se torna um lugar de conforto ao qual a gente volta por saber bem o que vai ter em troca. E uma das principais qualidades que a artista coloca é a despretensão, pois, ao final das contas, Robyn não quer mais nada além de fazer o seu bom e velho pop. Até entendo que alguns possam se sentir entediados ou até mesmo decepcionados com o resultado de Sexistential, que pode ser visto como seguro demais ou sem imaginação. Todavia, quem realmente entende o conceito ou mesmo quem tenha na mente exatamente o que é a sonoridade de Robyn vai se deliciar, pois o trabalho é uma refeição completa que satisfaz plenamente.
Tenho que admitir que existe, sim, uma impressão fugaz devido à sua duração, ao ter nove faixas e menos de trinta minutos. E isso é compreensível, pois, continuando na comparação alimentícia, o álbum é uma refeição leve em um dia de calor no verão. Não é para fazer a gente ficar estufado, mas, sim, para não pesar no estômago e ainda assim se sentir saciado. E é exatamente essa a sensação de ouvir Sexistential. Um dos melhores exemplos que encontramos no álbum está na ótima Talk To Me:
“O single não é extremamente comercial, mas é facilmente feito para tocar em alta rotação nas playlists pop devido ao seu apelo de fácil assimilação, com sua batida limpa e direta. A canção tem suas experimentações, mas passa longe de ser um trabalho experimental a ponto de afastar aqueles mais sedentos pelo puro pop. Facilmente, a canção é prima direta de faixas como Call Your Girlfriend e Indestructible.”
Outro ponto importante que faz Sexistential ser um trabalho distinto e que se sobressai na multidão é o fato de ser um álbum pop com a visão única de uma mulher de 46 anos de idade, com mais de 35 anos de carreira. E isso é importante para entender que estamos diante de um trabalho que tem o impacto de uma mulher com uma visão amadurecida, refinada e apurada, que já tem uma bagagem importante e extensa para discutir e refletir, mesmo que seja em um projeto essencialmente pop. E isso é o que a própria artista revela, pois o álbum é uma reflexão da vida atual da cantora: sendo mãe solo, recém divorciada e tendo que navegar nos desafios do dia a dia.
Não espero canções que reflitam profundamente, mas, sim, letras sinceras, muito bem escritas e, claro, com um apelo pop refinadíssimo. Logo na abertura do álbum, já é mostrado bem o que está por vir na elegante e dramática Really Real, em que Robyn fala sobre os sentimentos complicados e assustadores que vêm quando a gente fecha um ciclo na vida, possivelmente referentes ao seu divórcio, que aconteceu em 2020. Logo em seguida, porém, o álbum apresenta a deliciosa Dopamine, “um synth-pop maduro, envolvente e encorpado, com toques de post-disco e house”, que reflete sobre voltar a experimentar as coisas como se fosse a primeira vez, especialmente o ato de se apaixonar.
Outros momentos importantes do álbum ficam por conta de Blow My Mind, que é, na verdade, “uma espécie de remake/nova versão de uma canção da cantora que foi faixa do seu álbum Don't Stop the Music, de 2002”, o que gera “uma grudenta, despretensiosa e deliciosa mistura de electrofunk com alt-pop, synth-pop e toques de pop japonês”, além da cativante e inspirada Sucker For Love e, fechando o álbum, da sentimental e atemporal Into The Sun.
Com Sexistential, Robyn continua a construir o seu mundo maravilhoso do pop, que só precisa ser entendido um pouquinho além das aparências para realmente encantar.


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