5 de outubro de 2019

Águas Passadas

Memories
Maroon 5

Ao ser a única banda que consegue se manter relevante comercialmente na atualidade, o Maroon 5 pode não ser uma unanimidade geral, mas tem os seus fieis fãs e, principalmente, um tino para fazer canções vendáveis como poucos. E a mais nova empreitada é a mediana Memories, uma volta ao passado da banda.

Memories lembra o romantismo sentimental e cativante que a banda mostrou lá na época do This Love, mas, infelizmente, não apresenta o mesmo frescor. O grande problema da canção é a sua linear e anticlimática produção que entrega uma pop rock com toques de R&B chocho e com pouca energia. Isso é algo que a banda nunca tinha entregado antes, pois as suas canções, principalmente os singles, sempre apresentam algo de excitante na sua concepção. E isso também reflete na apática performance de Adam Levine que acompanha a linha reta sonora da canção. Apesar de ser uma performance vocal tecnicamente boa, a falta de força atrapalha demais o resultado final. O que salva a canção do total desastre é a sua eficiente e, algumas vezes, inspirada composição que realmente lembra os bons momentos do Maroon 5. E mesmo com todos esses defeitos é bem provável que a canção irá ter um bom desempenho comercial. Para a banda, o velho ditado águas passadas não movem moinhos não parece ser verdade.
nota: 6

1 de outubro de 2019

News Faces Apresenta: Lewis Capaldi

Someone You Loved
Lewis Capaldi

Como uma tradição, todos os anos o mercado mundial, especialmente o dos Estados Unidos, vê surgir o sucesso de um artista britânico que conquista bons resultados de vendas e posições nas paradas. Alguns desses artistas "acabam" ficando e a maioria acaba sendo apenas o famoso "one hit wonders". O mais novo a fazer parte dessa lista, mesmo sendo escocês, é o cantor Lewis Capaldi com o seu sleeper hit Someone You Loved.

Lançada no final do ano passado, Someone You Loved é o tipo de canção que poderia ser esquecida se não tivesse a seu favor a presença inspirada de Lewis Capaldi. Sonoramente, a canção é apenas uma balada pop com base de piano que não tem nada de novo para apresentar ao público, mas que ganha vida devida a voz grave e distinta de Lewis que entrega uma performance avassaladora. Cheia de uma tristeza quase tocável que combina perfeitamente com a composição tocante sobre a solidão e a necessidade que temos que encontrar alguém para podermos nos apoiarmos. Tocante na medida certa e sem nenhum exagero vocal, Lewis ajuda Someone You Loved a ser transformar em um dos trabalhos mais tocantes dos últimos tempos. Agora saber se o mesmo irá sobreviver comercialmente aos próximos passos da carreira é algo bem difícil de saber, mas, felizmente, se essa for a única vez que Lewis foi de uma forma marcante.
nota: 8

Uma Leve Brisa

Carry Me Away
John Mayer

Depois de ouvir a nova canção do John Mayer, Carry Me Away, a única coisa que passa pela minha cabeça e achar uma boa sombra de uma árvore, montar uma espreguiçadeira, tomar uma bebida bem gelada e aproveitar o dia. E isso é algo bom para mim, mas não tão bom para o John Mayer.

Carry Me Away é uma simpática, bem feitinha e doce mistura de indie pop com pop rock que exala uma sensação de paz e good vibes que deixa quem ouve com uma sensação realmente boa. Algo difícil de dizer atualmente sobre outras músicas, mas isso também é o principal motivo da canção não ser tão boa. Sem chegar a realmente empolgar, John Mayer entrega uma canção esquecível logo após o seu término, deixando nenhum sentimento duradouro com a gente. É boa, mas passável. É fofa, mas bem dispensável. Tem uma composição simples e boa, mas sem nenhuma força real. E a performance de John é uma água com açúcar sem muito gosto, mas, também, não um verdadeiro trabalho de uma vida. Carry Me Away é uma brisa em dia quente que a gente esquece assim que começa a chuva. 
nota: 6,5

27 de setembro de 2019

Plot Twist

People
The 1975

Um artista resolver mudar a sua sonoridade pode ser algo bom, mas é preciso sabedoria para mudar sem parece algo desesperado ou artificial. Felizmente, esse não é o caso da banda The 1975 que surpreende com o lançamento de People.

Normalmente conhecidos pela sonoridade electropop/indie pop/rock, a banda britânica tem em People a sua canção mais diferente da carreira ao lançar uma dance punk/punk rock. Surpreende ao extremo, a canção poderia ser uma tentativa desesperada de mudar a sonoridade da banda, errando miseravelmente em todos os requisitos. Isso, felizmente, passa longe de ser a realidade, pois People é eletrizante, bem construída e orgânica faixa que resulta em um trabalho realmente orgânico para o The 1975. Lembrando a urgência dos trabalhos do Green Day em seu ápice, People é uma cortante, ácida e inteligente reflexão sobre a geração millennial que ajuda a dar uma ideia sobre como deve ser o álbum Notes on a Conditional Form. Ainda é cedo, todavia, para afirmar se o álbum em si irá seguir a mesma pegada de People ou irá flertar com outros gêneros ou a canção foi apenas uma curva fora da reta, mas a mesma cria uma ótima expectativa para a gente descobrir. Aguardemos.
nota: 8

25 de setembro de 2019

Late For The Party

Torn
Ava Max

Com o lançamento de Torn, a Ava Max tem a sua melhor canção da sua curta carreira. A má notícia que a canção está alguns anos atrasada.

Torn é um divertido, dançante e empolgante dance pop que tem uma influência pesada de músicas do ABB. Na verdade, a canção parece ter usado um sample de Gimme! Gimme! Gimme! (A Man After Midnight) do grupo que, sem ter os créditos devidos, pode gerar um belo de processo. De qualquer forma, a canção se sustenta perfeitamente com uma produção refinada e que sabe entregar uma batida leve, clean e comercial na medida certa. Além disso, Ava entrega uma performance segura e a canção apresenta um refrão muito bem estruturado. O problema é que a canção parece um trabalho que deveria ter sido lançado lá pelo final da década passada quando a GaGa começou a sua carreira com o de The Fame. Soando um pouco datada, Torn já nasceu para não ser sucesso comercial. Uma pena.
nota 7,5

23 de setembro de 2019

Entre o Pop e Arte

holy terrain (feat. Future)
FKA twigs

A linha entre o pop(ular) e a arte pode ser tão fina quanto ao de uma linha de costura e, ás vezes, nem existe essa separação. Entretanto, aqueles artistas que transitam precisam de extra cuidado e talento para não cair em lugares fáceis que esse caminho pode apresentar como, por exemplo, a tentação de ser apresentar algo soberbo intelectualmente ou que simplesmente seja apenas comercial. E uma das artistas que consegue entregar o perfeito equilibro entre a arte e o pop é a FKA twigs que, depois de entregar a genial cellophane, voltar a maravilhar com o lançamento da sensacional holy terrain.

A melhor definição sonora para holy terrain é que a FKA twigs foi capaz de criar uma das primeira trap indie pop art. De cada um dos gêneros fundidos, a canção se beneficia das melhores qualidades de cada uma: a batida marcante e bem marcada do trap, a sensação de quebrar as barreiras do convencional que o indie é impregnado, o delineamento estrutural do pop e o refinamento intelectual e estético que a elevação a categoria de art pode trazer. Tecnicamente, holy terrain é um espetáculo, mas é a sensação que canção exala que ajuda a transforma-la em um trabalho memorável. Sensual, delicada, romântica, dançante, sombria e com uma áurea de mistério que apenas adiciona nuances para o resultado final, holy terrain é um tipo de trabalho que parece feito para se descoberto anos depois de seu lançamento e virar algo o mais próximo do cult, pois não acho que boa parte do público atual esteja realmente preparado para a sua magnitude. Com uma composição inspiradíssima que consegue misturar imagens fortes com a expressão de sentimentos tão humanos e mundanos, FKA twigs entrega uma contida e avassaladora performance que a ajuda a colocar como uma das melhores artistas da atualidade. O único problema da canção é a interessante participação de Future que, apesar de boa, soa um pouco deslocada no contexto geral. De qualquer forma, holy terrain é um exemplo primoroso sobre como caminhar as difíceis, por muitas vezes, quase impossível estradas que dividem a arte e o pop.
nota: 8,5