Squid
"Claramente, o trabalho é o que a banda mais experimenta com outros gêneros e sonoridade, buscando incrementar, refinar, evoluir e “brincar” com a base punk-rock/post-punk. Isso já era constante na sonoridade desde o magnifico debut Bright Green Field, mas é aqui que a banda parece menos “presa” a uma corrente de ideias já fixadas para explorar novas possibilidades até mesmo em relação a atmosfera, ritmos e estruturas. Não há a perda a essência da banda, mas Cowards mostra uma versatilidade interessante e bem vinda que fica claro quando a gente compara com outros trabalhos deles. Acredito que o problema para o álbum não alcançar um nível ainda maior de qualidade é o fato, que apesar de toda essa ousadia, o álbum soa estranhamente contido. Não há momentos de explosões criativos ou de pura genialidade, mas, sim, uma constância linear que permeia todas as faixas do álbum, criando, sim, uma coesão imensa que não deixa também ter grandes arrombos de genialidade."
Bad Bunny
"Sem mudar drasticamente a sonoridade que o fez estourar, Bad Bunny entrega no álbum a coleção de canções mais coesas, amadurecidas, refinadas e estilizadas da sua carreira, mostrando claramente evolução nítida e elogiável. Todavia, mesmo que a produção mantenha a base reggaeton, o álbum se destaque pela adição substancial e brilhante de gêneros e ritmos que estão no cerne da influencia de vida do Bad Bunny e a sua construção como um artista latino. Salsa, merengue, plena, jíbaro, dembow, entre outros são os gêneros que predominam nas texturas, nuances e sons que são injetadas durante todo o trabalho, fundindo perfeitamente com latin pop, o eletrônico, o house e, claro, o reggaeton. E é por isso que DeBÍ TiRAR MáS FOToS é celebração da música latina na sua forma mais pura possível, pois conseguir unir passado e presente e futuro de forma impressionante, belíssimo e de uma inteligência criativa impressionante. Tenho que dizer que ainda podemos notar que o álbum ainda é preso de não alcançar um patamar mais alto devido a sua duração, pois deixa alguns pequenos vácuos sonoros durante a sua mais de uma hora de duração em dezessetes faixas. E isso é algo já presente na carreira do Bad Bunny. Todavia, mostrando novamente sua força atual, o álbum é o que melhor consegue aparar essa aresta no momento em todas as faixas estão em níveis bem parecidos sem criar nenhum solavanco sonoro considerável. Apesar desse grande avanço, DeBÍ TiRAR MáS FOToS se destaque de fato devido ao que representa para a cultura latina e maneira imponente que Bad Bunny traduz sua paixão pela suas raízes."
28.THAT'S SHOWBIZ BABY!/ THAT'S SHOWBIZ BABY! THE ENCORE
Jade
"Sonoramente, o álbum pode ser definido de forma simples e direta: pop. E isso é realmente poderoso, pois nada mais justo do que afirmar que aqui temos o puro suco do pop em sua melhor qualidade. A complexidade da construção é impressionante, e o resultado é vigoroso ao longo das quatorze faixas. Indo do electropop ao synthpop, passando pelo nu-disco, EDM, e até incorporando elementos de R&B e dance-pop, THAT'S SHOWBIZ BABY! é um dos caldeirões mais efervescentes, elétricos e interessantes do ano."
"THAT'S SHOWBIZ BABY! THE ENCORE, versão deluxe do álbum de estreia da Jade, é um trabalho que, ao contrário de vários deluxes lançados todos os anos, resulta em um acréscimo genuíno ao material original, funcionando como uma peça companheira que, ao mesmo tempo, adiciona e complementa.
Com oito faixas, sendo sete inéditas e uma regravação, o deluxe consegue dialogar com o álbum original e adicionar novas nuances. É preciso apontar que, infelizmente, as novas canções não corrigem totalmente o que faltou em termos de ajustes na versão anterior, mas, sinceramente, manter o mesmo nível de qualidade em faixas que teoricamente seriam “sobras” já é algo bastante louvável."
27. Ginkgo
Panchiko
"Ginkgo, segundo álbum da banda britânica Panchiko, é um trabalho que tem um problema que atrapalha o resultado final de ser excepcional: o seu final. Não é exatamente um problema de verdade, mas, sim, um tropeço, já que a qualidade da parte final do álbum fica aquém da espetacular primeira metade.
Como já bem explicado, o álbum não termina da maneira como começa devido ao fato de a sua parte final perder a força que marca o seu início. Tenho que apontar que essa força perdida não é exatamente perda de qualidade, pois o trabalho apresenta uma coesão muito forte devido ao cuidado que a própria banda dá à construção da sonoridade, do instrumental e da atmosfera de maneira geral. O que acontece é que Ginkgo começa de maneira tão elevada que é fácil perceber a perda de força, indo do excepcional para o “apenas” bom nos seus momentos finais. Isso já é suficiente para fazer a gente sentir um solavanco que, infelizmente, acaba gerando certo ruído no contexto geral do álbum. Entretanto, como já apontado, é apenas uma queda do pico para a camada abaixo, deixando espaço de sobra para a gente se deleitar com um trabalho mágico."
The Weeknd
"Para qualquer um que conhece até superficialmente a sonoridade do cantor sabe que estamos falando de uma mistura de synth-pop e R&B que dialogam entre si em certos momentos e em outros estão completamente separados, mas sempre são embebidos de uma força criativa imparável e incomparável refinada ao longo dos anos pelo artista e seus colaboradores ao longo dos anos. E apesar de introduzir novos elementos (o funk brasileiro é o principal e maior deles), o álbum segue essa linha de maneira clara, direta e perfeitamente executada, criando um ambiente de conforto para quem escuta sem nunca, porém, parar de fazer a gente ficar excitado em cada nova canção. Nem sempre as faixas estão no mesmo nível, especialmente devido ao fato que aponto antes, mas Hurry Up Tomorrow se torna maçante devido a sua sonoridade. E é impressionante a maneira “rígida” que toda a produção conduz os desdobramentos do álbum que vai sendo revelado todas as suas surpresas com fluidez, bom ritmo e uma cuidado imenso instrumental. Na verdade, analisado com mais cuidado acredito que essa seja o grande segredo do The Weeknd: o sempre incrível, rico e grandioso trabalho de arranjo que o acompanha sempre, pois devido a essa complexidade e inteligência é que a surge a base perfeita para que o mesmo possa explorar e apurar sua sonoridade. Nada aqui é feito de maneira que qualidade seja apenas um trunfo da estética, mas sempre seja dependente de um instrumental com substancia verdadeira."
YUNGBLUD
"O quarto álbum da carreira do britânico não é apenas uma evolução sonora, mas também um amadurecimento no entendimento de quem é Yungblud como artista e pessoa. É interessante observar essa transformação que ocorre de um álbum para o outro em apenas três anos. Isso evidencia que esse artista sempre esteve lá, pronto para ser descoberto e explorado, mas ainda preso a amarras que agora começam a ser cortadas. Embora ainda existam arestas a serem aparadas, o salto qualitativo e estético é significativo, perceptível e impressionante. Uma das principais razões para isso é o entendimento mais afinado e preciso de sua sonoridade.
Ao trabalhar exclusivamente com Matt Schwartz — produtor que já havia colaborado em faixas de trabalhos anteriores —, Yungblud não apenas encontra coesão, mas também um parceiro que compreende perfeitamente todo o seu potencial e sabe como explorá-lo de forma a elevar o material. A maior e melhor decisão foi adicionar ao pop rock, punk e pós-punk já apresentados anteriormente uma carga intensa e bem trabalhada de britpop, rock alternativo, rock operático e indie rock. Essas adições conferem substância e profundidade à sonoridade do cantor, criando uma base sólida para uma identidade musical surpreendente, intrigante e concreta."
Amaarae
"Terceiro álbum da carreira da cantora, sucessor do promissor Fountain Baby (2023), o trabalho não chega exatamente a ser o melhor do ano, mas, sem dúvida, é um dos mais excitantes por ser uma destemida e desbravadora coleção de canções que revelam uma visão única da Amaarae sobre o Pop/R&B. E, queridos leitores, o que a produção faz aqui é, sinceramente, uma aula de como experimentar as possibilidades sonoras de uma artista, utilizando sua base e criando todo um bioma em que se cultivam frutos suculentos, ousados, deliciosos e irresistíveis. É importantíssimo apontar que os gêneros e estilos adicionados para adubar esse solo são decisivos para o resultado final. E o maior trunfo de BLACK STAR é a influência do funk carioca.
É algo polêmico de afirmar, mas acredito que este seja, de longe, o melhor trabalho de uma artista internacional ao usar o gênero brasileiro. Não é apenas em uma canção com produção assinada por um brasileiro que o funk se faz presente; ele permeia o disco inteiro, em doses maiores e menores. Isso também acontece com outros gêneros, como EDM, deep house, dancehall, afrobeat, electroclash, tropical house, entre outros. Todavia, o nosso funk é o que mais empolga, pois, como já disse, é sua fusão contemporânea mais bem-executada até o momento. BLACK STAR, no entanto, não se resume a isso: é uma verdadeira e deliciosa orgia sonora que se desdobra em surpresas a cada curva, mas sempre com fluidez impecável e coesão estética extraordinária, sem soar repetitivo e com um diálogo constante entre as faixas. E é preciso dar os louros a quem merece: o produtor Kyu Steed."
青葉市子 [Ichiko Aoba]
"Décimo álbum de sua carreira, o trabalho é um reflexo perfeito da sonoridade da cantora, principalmente devido ao fato de a produção nunca abrir concessões para tornar sua música mais “comercial”. Todas as faixas, mesmo as com título em inglês, são cantadas em japonês, transmitindo uma forte e impenetrável sensação de estarmos ouvindo um álbum com a marca indiscutível de Aoba. É preciso dizer que, devido ao idioma, sempre fica algo perdido na tradução, de maneira mais marcante do que se fosse em inglês ou espanhol, mas isso não afeta drasticamente a percepção final do trabalho — ainda mais com as ferramentas que temos atualmente para tradução.
Liricamente, Luminescent Creatures continua a mostrar a força de Aoba como compositora, entregando letras simples esteticamente, mas com uma força emocional imensa e poderosa. Aqui, a cantora segue utilizando elementos da natureza para criar reflexões lindas, tocantes, contemplativas e graciosas sobre a vida. Em um dos momentos mais lindos do álbum, ela reflete: “Inside each of us there is/ A place for our stars to sleep”, elevando de maneira decisiva a já tocante Luciférine. Nada disso seria possível, porém, sem a presença mágica de Ichiko Aoba e sua transcendental voz."
22. Portrait of My Heart
SPELLLING
SPELLLING
"Ao terminar a resenha de The Turning Wheel (2021), afirmei que “o trabalho magistral de Spellling mostra que sempre haverá espaço para artistas com esse senso tão específico para criar a sua arte, mesmo que estejam em extinção”. Essa afirmação pode ser perfeitamente aplicada ao impressionante Portrait of My Heart, em que a artista novamente expande seus limites artísticos em um trabalho marcante e transgressor.
Tudo começa com a mudança estilística que a cantora faz em relação ao álbum anterior, ao transitar do art pop/pop soul/progressivo para o art rock/prog rock/pop rock — o que poderia ter resultado em algo abrupto demais, causando uma quebra de expectativa desarticulada e excessivamente estranha. Felizmente, a produção, conduzida pela própria cantora, estabelece um fio de coesão sonora que passa longe desse risco. A forma como Portrait of My Heart é construído mostra que ele é, claramente, uma obra-irmã de The Turning Wheel em essência e espírito. No entanto, a coesão aqui é ainda mais refinada, o que resulta em um álbum um tantinho superior, especialmente por atenuar a sensação de conter mais fillers do que o recomendado."
21. Forever Howlong
Black Country, New Road
"Tenho que apontar que o resultado ao final foi, para mim, algo como “não estou entendendo exatamente o que está acontecendo, mas estou adorando cada minuto” dessa jornada solar, contemplativa, estranha, cativante, densa, elegante e surpreendente. Forever Howlong é o tipo de álbum que não é fácil de digerir e nem deve ser a intenção da banda que seja. O que a gente deve, na verdade, entender é que devemos “apenas” embarcar e simplesmente ser felizes com o que está diante, sabendo que essa viagem não serve para esquecer falhas da produção, mas, sim, para não ficar tentando entender demasiadamente o que está sendo construído pela banda e deixar-se levar totalmente pela excelência sonora que o Black Country, New Road entrega. E boa parte dessa percepção parece ter vindo de uma singela, mas importante, mudança sonora da banda.
E essa mudança é o giro de foco do rock para o pop. Isso, porém, não quer dizer que o álbum seja minimamente pop. Não na concepção tradicional, mas, sim, na visão mais experimental. Forever Howlong é, na verdade, um trabalho com uma base bem mais focada no art pop/baroque pop do que no art rock/indie rock do álbum anterior. Todavia, o álbum também tem suas estruturas no rock de maneira bem decisiva e importante. O que quero dizer é que, para construir a sonoridade ouvida aqui, a banda busca nas possibilidades do pop novas saídas, novos caminhos e novas visões para incrementar a sua já estabelecida sonoridade. Assim sendo, o álbum vai ganhando mais escopo sonoro com essa possibilidade, criando uma coleção impressionante, grandiosa, falha, magnética, surpreendente, vertiginosa e desconcertante, que mistura com apuro os elementos já citados com outros elementos como, por exemplo, folk, progressivo, chamber pop, indie pop, entre outros."











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