O terceiro álbum da carreira de Kim Petras é o tipo de trabalho que soa como um rito de passagem, em que a artista não apenas ganha maior liberdade artística, como também começa a alcançar o seu verdadeiro potencial. E é por isso que Detour termina sendo um dos trabalhos mais interessantes do pop em 2026, mesmo longe de ser perfeito.
Mais livre para lançar seus trabalhos depois de sair da sua antiga gravadora, a cantora faz do álbum essa carta de liberdade desde o primeiro momento, pois dá para sentir que a sonoridade do disco vem de um lugar realmente com menos amarras criativas e uma clara sensação de experimentação. Não é, de longe, algo que vá quebrar expectativas pelo tamanho desses experimentos, mas é claro que a produção de vários nomes do pop eletrônico, incluindo uma faixa que tem a assinatura da já lendária e saudosa SOPHIE, passa a sensação de ser um trabalho que explora com mais profundidade os limites da sonoridade de Kim. E esse é o grande ponto alto do álbum, já que transmite a clara visão de que estamos diante de uma artista buscando evoluir, refinar e amadurecer sua visão artística de maneira honesta e cativante, mostrando-se totalmente no controle de quem é e construindo uma personalidade única. Só por isso, Detour já merecia elogios, mas o álbum cumpre essa promessa ao concretamente alcançar esse desejo.
De maneira sucinta, o álbum é uma coleção apurada de hyperpop, gênero que fez a cantora estourar no cenário musical, misturado, acrescido e fundido com outros estilos, como electropop, EDM, house, electroclash, R&B e outros, criando uma experiência explosiva, grudenta, elétrica, divertida e, na maior parte do tempo, extremamente coesa. E isso é resultado dessa produção livre e totalmente consciente sobre a estética e a personalidade de Kim, criando um álbum que nos dá a certeza de que é uma explícita e orgulhosa exaltação da personalidade da artista nos mínimos detalhes. É preciso apontar, porém, que o álbum poderia ser ainda mais coerente sonoramente sem a presença de três faixas (Basketball, Bitch Ball Out e Korea) na segunda parte do álbum, que não são ruins, mas possuem uma vibe sonora diferente do restante do disco, o que ajuda a criar um "tropeço" bem sentido e atrapalha um pouco o resultado final. Todavia, os ápices do álbum ajudam a apagar parte dessa sensação.
"Need for Speed é, na verdade, quase a canção pop perfeita, mesmo não sendo genial. Rápida, mas não tão rápida a ponto de soar como um trabalho inacabado. Divertida e dançante, mas que nunca parte para o clichê simplesmente por querer soar "pop". E isso é algo bem raro atualmente, especialmente quando a gente percebe que a letra é tão bem pensada que consegue ser previsível, refinada e deliciosamente fútil."
Apesar de seguir a mesma fórmula em várias faixas, Kim também se mostra surpreendentemente pessoal em alguns momentos. A maioria envolve relacionamentos amorosos, mas o melhor momento lírico é, sinceramente, a desconcertante e emocional Brutalist, em que a cantora fala sobre a descoberta da sua transexualidade e sobre como sua família lidou com isso, comparando essa experiência a um prédio em estilo brutalista. E logo na primeira estrofe já temos claramente a força da composição:
My dad's an architect, he used to show me it
When he would drive me to the psychiatry
Again and again, didn't come back a man
I guess I ruined it
Além dos momentos já citados, o álbum ainda conta com a deliciosa DTLA, a batida despretensiosa de I Like Ur Look, a balada electropop de Jeep e, por fim, Freak It, ao ser "uma fusão excitante, elétrica, eletrizante e explosiva de electropop, EDM, hyperpop e electro house".
Ao criar um álbum que reflete totalmente a sua personalidade e o atual estágio da sua carreira, Kim Petras entrega, em Detour, não apenas o seu melhor momento, mas também o recomeço da sua carreira à altura do seu potencial.


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