James Blake
Existem alguns conceitos que não fazem o menor sentido quando a gente lê no papel, mas que funcionam perfeitamente na prática. Em Trying Times, James Blake parte da improvável ideia de usar uma base de música pop tradicional para moldá-la através da sua sonoridade eletrônica/alternativa. Isso não funcionaria se não tivesse o talento nas mãos do artista, que faz um álbum realmente louvável.
Jazz, big band, blues, rock tradicional e influências do grande livro do cancioneiro americano fazem parte da base do álbum, que vão sendo misturadas com influências de nomes como Oasis, Jeff Buckley e Morrissey e, claro, a base eletrônica do artista. E o resultado é algo que realmente faz jus ao talento do artista devido à complexidade sonora, à impressionante construção instrumental e à sempre consciente presença do entendimento de qual é o destino decidido para o álbum. Nem sempre é possível dizer que a produção, dividida entre Blake, a namorada e atriz Jameela Jamil e mais três nomes, acerta plenamente no conjunto da obra, especialmente na segunda metade do trabalho, que perde certa força que a primeira metade estabelece tão bem. Todavia, a produção é de longe uma das mais concisas da carreira do cantor desde o seu começo, criando um trabalho que realmente consegue fazer a sua sonoridade brilhar no meio de um conceito tão peculiar. E quando o álbum acerta na mosca, são nos dados momentos como a espetacular I Had a Dream She Took My Hand.
“A canção tem toda a atmosfera de um trabalho do artista, mas é moldada de uma forma que quebra expectativas. E a principal razão é a utilização do sample de It Was Only A Dream, da banda Thee Sinseers, que dá à canção uma base big band/jazz vintage que permeia toda a sua construção, mesclando-se e fundindo-se com a estrutura art pop/R&B alternativo da sonoridade de James. Com uma produção refinadíssima, I Had A Dream She Took My Hand se torna um trabalho elegante, tocante e inspiradíssimo, que vai se desenrolando em uma das canções mais magnéticas e emocionais da carreira de James Blake”.
Outro grande ponto importante para o sucesso do álbum é que o cantor apresenta de maneira perfeita outro dos seus grandes atributos: a sua magistral presença vocal.
Apesar de ainda trabalhar bastante com efeitos vocais para distorcer, incrementar e mudar a sua voz, Blake deixa mais natural o seu devastador timbre, ajudando a criar uma maior naturalidade que combina muito bem com o conceito do álbum. Ouvir o artista colocar emoções nas suas performances é sempre algo devastador, pois, além do timbre, o mesmo apresenta uma versatilidade ímpar que consegue dar variedade para canções diferentes nos pequenos detalhes das suas performances. E um dos momentos mais devastadores vocalmente é na canção que dá nome ao álbum: a balada soul/eletrônica Trying Times. A performance melancólica, contida e trágica de James reflete perfeitamente e de maneira dolorosa a composição sobre o medo de se sentir só e a angústia de tentar se manter mentalmente bem. A maneira como o cantor entoa a canção parece quase como um lamento de alguém que estivesse se segurando para não desabar em choro. Lindo, tocante e devastador.
Outros momentos que precisam ser citados são o single Death of Love, por ser “um típico trabalho do britânico ao unir, com inteligência e graciosidade, uma mistura de eletrônico, UK bass, R&B, downtempo e trap, criando uma sonoridade madura, vigorosa e bastante familiar que, porém, não é uma mesmice sonora devido à inteligência criativa da produção, que adiciona texturas excitantes para dar vida à canção”, e também o impressionante fechamento do álbum na acachapante Just A Little Higher, com uma composição de mensagem política e urgente.
Trying Times é um álbum que não tem o direito de ser tão interessante, mas que James Blake faz funcionar de maneira inspiradíssima e, por vezes, desconcertante.


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