5 de fevereiro de 2021

Ritmo Padrão

Baila Conmigo
Selena Gomez & Rauw Alejandro


A boa noticia em relação ao novo single em espanhol da Selena Gomez intitulado Baila Conmigo é que o resultado é melhor que o anterior, a insonsa De Una Vez. A má notícia é que a qualidade ainda é apenas mediana.

A melhor qualidade de Baila Conmigo é que a canção funciona como uma canção com começo, meio e fim e, não, uma canção sonoramente inacabada. Além disso, a canção tem uma produção sólida que não descamba para a bomba em forma de música. Tirando isso, o single é um padrão, mediano e sem muita graça reggaeton lento que até pode soar comercial, mas não sai de lugares feitos e clichês básicos. A canção poderia ser melhorada com a química entre Selena e o cantor porto-riquenho Rauw Alejandro, mas isso não acontece devido os dois soarem como água e óleo. Existem rumores que a canção teria a participação do Maluma e, sinceramente, acredito que isso seria o certo, pois o cantor parece ter química com qualquer parceria feminina. De qualquer forma, Baila Conmigo é uma canção tão inofensiva que não chega a ser um erro. Muito menos é um acerto.
nota: 6

Delicadeza Complexa

Lose Your Head
London Grammar


Nem sempre avaliar uma canção com criticas negativas significa não gostar da mesma, pois existem várias camadas de percepção que a gente constrói sobre um trabalho. Esse é o exemplo de Lose Your Head, single do London Grammar.

Longe de qualquer pretensão comercial, Lose Your Head caminha em uma trilha que mistura synthpop com indie pop/rock e flerta com o art pop em doses leves. O problema da canção é que é necessário ouvir mais de uma vez para conseguir apreciar de fato toda a qualidade da produção. Isso é algo que cria uma barreira alta entre a canção e o público, deixando uma atmosfera fria na sua recepção. Quem superar essa barreira estará encontrando uma canção delicadamente complexa com uma delicada complexidade que consegue soar angelical e, ao mesmo tempo, densa e sensual. A bela e etérea performance da vocalista Hannah Reid dá o toque de classe essencial para que a canção funcione quando todas as suas partes estão juntas. Não é genial, mas é um sopro leve de frescor e originalidade.
nota: 7,5

2 de fevereiro de 2021

Primeira Impressão - Outros Lançamentos

What Do I Call You
TAEYEON

Rinha de Novinhas

Skin
Sabrina Carpenter

Diss track é, segundo a Wikipédia, “uma canção criada com o único propósito de expor e insultar uma pessoa ou um grupo de cantores”. Normalmente, essa tática é utilizada por rappers contra seus desafetos, apesar de existirem exemplos em outros gêneros como, por exemplo, o pop e rock. Entretanto, o começo de 2021 está presenciado uma grande quebra nessa expectativa com o que já estou chamando de a “Rinha das Novinhas”. Depois do imenso e surpreendente sucesso de Drivers License da Olivia Rodrigo eis que surge a “resposta” em Skin da Sabrina Carpenter.

Explicando para quem não está entendendo nada: na composição da canção de Olivia sobre o fim de um relacionamento é citado que o boy estaria com um tal loira. E essa loira é a Sabrina Carpenter que teria um affair com o ator Joshua Bassett. Em Skin, Sabrina não deixa nada em aberto sobre a intenção da canção ser uma resposta direta ao mandar logo no primeiro verso: “Maybe blonde was the only rhyme”. Mais direto impossível. Em questão de qualidade com a canção que iniciou essa “rinha”, Skin sai perdendo alguns pontos. O lado bom que a canção tem as suas qualidades.

Skin é uma contida, redondinha e bem feita pop mid-tempo com toques de synth-pop. Sem muita força emocional que pudesse elevar a produção, a canção tem na atmosfera adulta a sua melhor qualidade, pois consegue dar personalidade sem soar como sendo apenas a resposta de uma menina mimada e, sim, a versão dos fatos de uma pessoa aparentemente madura. Boa parte dessa qualidade parece vim da influência da sonoridade da Taylor Swift. Liricamente, Sabrina veio para acertar na jugular, pois, longe das metáforas de Drivers License, Skin é direta, ácida e, às vezes, faz o famoso morde e assopra, mas é bem escrita e tem um apelo pop exato. O grande ponto alto da canção é boa performance de Sabrina que mostra força emocional sem soar exagerada. E você pensa que acabou? Ainda falta a canção resposta do causador de tudo isso. E assim começa a construir a história do pop em 2020.
nota: 7

O Culpado Mediano

Lie Lie Lie
Joshua Bassett

A “briga” entre Olivia Rodrigo e Sabrina Carter tem um catalisador: o ator Joshua Bassett. E, obviamente, o também cantor iria aproveitar o momento para lançar a sua resposta em forma de música em Lie Lie Lie.

Longe de mostrar alguma qualidade como nas canções das outras envolvidas, Bassett entrega uma mediana, pouco carismática e datada mistura de pop rock com dance-pop que remete a uma mistura de Justin Timberlake em começo de carreira com toques de Jonas Brothers. Ouvir Lie Lie Lie é como experimentar um prato feito requentado que alguém esqueceu na geladeira: até pode saciar por algum tempo, mas não é um algo que vai saciar a gente de maneira plena. Acredito que o pior erro da canção é a presença apática do jovem que não consegue colocar um pingo de personalidade na sua interpretação. Além disso, a composição parece que simplesmente foi composta para ser uma resposta direta para Olivia e, não, uma união entre a parte artística e o desabafo sobre a sua visão do aconteceu. Sinceramente, não sei porque duas mulheres talentosas perderem tempo com alguém tão ok.
nota: 5,5

1 de fevereiro de 2021

Especial

Devido a passagem repentina e trágica desse jovem e genial talento republico a minha resenha do seu primeiro e inesquecível primeiro álbum. 


OIL OF EVERY PEARL'S UN-INSIDES
Sophie




"O caos é uma ordem por decifrar."
José Saramago

Ouvir o primeiro álbum da produtora/DJ/cantora Sophie é uma experiência completamente caótica e sem nenhuma comparação com qualquer outro álbum que já tenha passado aqui no blog. Todavia, esse caos não é apenas um aglomerado de coisas juntas, misturadas e sem sentido, mas, sim, um aglomerado de coisas juntas, misturas e com um sentido que se explica apenas dentro da sua desordem. Ouvir OIL OF EVERY PEARL'S UN-INSIDES é encontrar o sentido em meio do caos. 

Nascida na Escócia, mas residindo em Los Angeles, Sophie começou a chamar atenção em 2013 ao laçar algumas músicas. Isso foi o bastante para chamar a atenção de diversas publicações sobre música, aclamando os seus trabalhos iniciais. Além disso, o trabalho dela começou a ganhar notoriedade na classe artística, trabalhando ao lado de nomes como Charli XCX,  Cashmere Cat, Vince Staples e até mesmo a Madonna. Apesar do crescente reconhecimento, Sophie nunca apareceu fisicamente perante ao grande público, fazendo a linha Sia hardcore. No final do ano passado, porém, a artista resolveu voltar a música oficialmente depois de um tempo afastada ao anunciar o lançamento do seu primeiro álbum. E esse álbum não é apenas um trabalho de um DJ/produtor de música eletrônica como qualquer outro, mas uma verdadeira obra de arte em forma de música.

Um aviso importante para qualquer um que após ler essa resenha se interessar em ouvir OIL OF EVERY PEARL'S UN-INSIDES: prepare-se para entrar em um mundo difuso, complicado e atordoante. E fique mais avisado: todas essas sensações não serão recebidas pelo seu córtex cerebral da mesma forma que você espera. Entrar nesse mundo é como ser sugado para uma dimensão paralela em que as "regras" musicais/sonoras parecem funcionar de formas completamente novas, seguindo padrões e caminhos que devem ter saido apenas da mente de Sophie. Definir a sonoridade da artista é quase uma missão impossível, pois o álbum consegue quebrar qualquer limite entre gêneros, sub-gêneros e estilos ao ser a fusão de dezenas deles em uma construção metamórfica e dinâmica. OIL OF EVERY PEARL'S UN-INSIDES vai se transformando em fragmentos de sons em cada canção para ser reconstruído a bel-prazer de Sophie e a sua mente a frente do tempo. Tentando encontrar alguns parâmetros, o álbum seria um genial e incomparável avant-pop com pitadas pesadas de eletrônico, industrial, art pop, indie pop, experimental pop e até o pop mais tradicional. Sem ter medo de ir mais longe que poderia ser esperado, Sophie entrega um álbum que exala uma incontável e impressionante quantidade de sensações e sentimentos. 

OIL OF EVERY PEARL'S UN-INSIDES é um álbum melancólico. Apesar de todas as batidas que foram agregadas, Sophie parece contemplar o horizonte de um planeta em destruição sentada a beira de um precipício e lembrando dos tempos de felicidade. OIL OF EVERY PEARL'S UN-INSIDES é um álbum sensual. Apesar de batidas fortes e marcantes, a sonoridade parece evocar um sinuoso espirito dançante de uma ninfa aquática fazendo a sua aparição em um lago sombrio e fascinante. OIL OF EVERY PEARL'S UN-INSIDES é um álbum divertido. Apesar de soar sisudo em vários momentos, a atmosfera geral do trabalho tem um senso de humor distorcido de um comediante alternativo e nada sério. OIL OF EVERY PEARL'S UN-INSIDES é um álbum denso e leve ao mesmo tempo como se fosse feito de uns cem quilos de penas de ganso agrupadas. OIL OF EVERY PEARL'S UN-INSIDES é um álbum pragmático. As composições sucintas em palavras, mas cheias de intenções do álbum mostram uma compositora que sabe sobre o que quer falar e reflete sobre as suas dores de forma até mais direta que a gente poderia imaginar em um álbum tão grandioso sonoramente. OIL OF EVERY PEARL'S UN-INSIDES é um álbum abstrato. As suas composições parecem quer esconder alguns significados profundos atrás de divertidas construções liricas que devem ser melhor analisadas e refletidas. OIL OF EVERY PEARL'S UN-INSIDES é um álbum difícil de ouvir, mas que para aqueles que se deixam entrar nesse mundo será muito difícil de sair intacto dessa experiência.

Levando o seu nome, o álbum contem apenas uma faixa com os vocais de Sophie na doce e estranha It's Okay to Cry em que a artista quase sussurra os seus arrependimentos com quem se ama em uma balada indie pop incomparável. A maior parte vocal de OIL OF EVERY PEARL'S UN-INSIDES fica por conta de Celile Believe que também co-escreveu várias melodias do álbum. Transitando entre a sua voz real e as alteradas por efeitos, Celile tem o timbre perfeito e a presença necessária para carregar qualquer uma das faixas aqui, não importando qual seja a sua pegada. Esse é o caso da industrial/art pop/pop Faceshopping em que ouvimos uma verdadeira jornada vocal de vários estilos. Outro momento genial que deve ter sido inspirada em Material Girl da Madonna: Immaterial é uma pop/dance pop deliciosa que fala sobre a transição de gênero de Sophie. Outros momentos de destaque ficam por conta da batida estaca com certa influência no pop oriental de Ponyboy e a art pop estilo Kate Bush em um mundo paralelo de Infatuation. Todavia, o momento mais acachapante do álbum é a instrumental Pretending que parece uma trilha de um filme de ficção cientifica cult e que é tocada no momento em que os personagens estão contemplando o grande desconhecido. Magistral. OIL OF EVERY PEARL'S UN-INSIDES é um caos deslumbrante e longe de qualquer coisa que já tenha passado pelo álbum. Um caos que precisa ser apreciado sem ter medo de encontrar algo nada fácil de processar, pois é assim que a beleza do caos surge.

Fusível Queimado

New Love
Silk City & Ellie Goulding


Composto pelo Diplo e Mark Ronson, o projeto Silk City é o tipo que prometeu e, infelizmente, não cumpriu. O grande sucesso do single Electricity com a Dua Lipa em 2018 parece que não teve frutos a altura do que a gente poderia esperar. Dois anos depois, a dupla se une para frustrar um pouco mais com a morna New Love.

Parceria com a sumida Ellie Goulding, a canção tem tudo para ser ótima, mas resulta em uma canção apenas acima da média. Uma mistura até bem dance-pop cm post-disco, New Love parece faltar uma dose cavalar de luz para poder brilhar como deveria, terminando opaca e um pouco sem graça. A canção é como aquela festa meia boca que parece que vai engrenar, mas nunca chega a lugar nenhum. Acredito que nas mãos de outros nomes poderia até haver alga amenizada na percepção, mas com artistas tão talentosos envolvidos é algo realmente frustrante. Ellie entrega uma performance segura, mas que não tem eleva em nada a qualidade da canção. E até a mesma a composição empoderada parece se perder um pouco ao analisar New Love no geral. O lado bom é que se até quando erra, o Silk City é capaz de produzir algo assim, imagina quando eles lançarem algo realmente acertado.
nota: 6,5

Não Entendi Nada, Mas Estou Adorando

Action
CHAI

Ao expandir o meu espectro musical para artistas orientais, especialmente os saídos do Japão e a Coreia do Sul, esbarro em um problema pontual: a tradução das composições. Apesar de existir uma variedade de sites que possuem traduções desse tipo de canção nem sempre encontro disponíveis para todos os artistas. Esse é o caso da banda japonesa CHAI e o seu mais novo single Action. Apesar de perdido na tradução, o resultado da canção é ótimo.

Primeiro single do terceiro álbum da banda intitulado Wink, Action é uma surpreendente mistura de indie pop/rock com eletrônico e synthpop, criando uma batida estranha, densa, divertida e de um carisma único. Não é para o público mainstream, mas é uma pequena grande pérola para aqueles que querem sair do pop farofa ocidental ou/e oriental. Apesar de ter partes em inglês, Action tem as suas principais passagens em japonês. Sem achar tradução oficial parece que algo se perde. Felizmente, a maneira distinta e com uma personalidade esquisitamente radiante da vocalista performar a canção ajuda a gente esquecer desse problema e embarcar nessa viagem que nos transporta para a pista de dança alternativa no coração de Tóquio. E ter sensações como essa é o que vale de verdade.
nota: 8