2 de agosto de 2026

Primeira Impressão

you seem pretty sad for a girl so in love
Olivia Rodrigo




Não há como negar que, em cinco anos do seu debut com o promissor Sour para o lançamento do seu terceiro álbum, a Olivia Rodrigo fez uma carreira que vem desafiando expectativas devido à qualidade em sempre crescente evolução e, principalmente, a um amadurecimento realmente genuíno que a coloca à frente de várias das suas contemporâneas. Devido a isso, a artista chega em you seem pretty sad for a girl so in love e entrega não apenas um ótimo álbum, mas, também, o seu primeiro e verdadeiro ápice artístico.

O que faz o álbum um momento tão especial para a carreira da cantora é o fato de que a sua parceria com o produtor Dan Nigro chega no seu momento mais maduro, refinado e criativo até o momento. Todas as qualidades que já estavam presentes anteriormente continuam, mas são lapidadas ainda mais para refletir com precisão a evolução da artista, sem perder o frescor criativo e a essência original. E tudo começa com a sonoridade do álbum. Desde o começo, a artista seguiu um caminho puxado claramente para o pop rock, transitando por diferentes subgêneros como alt-pop, indie pop/rock, pop punk, dream pop, new wave, entre outros. Novamente, o novo álbum vai nessa direção, mas aqui é possível ouvir nitidamente não apenas evolução, como também uma inspiração muito bem delimitada: os anos noventa.

you seem pretty sad for a girl so in love é como se fosse um álbum de pop rock feito por uma estrela em ascensão lá pelos meados dos anos 90, tendo inspiração em nomes como Tori Amos, Alanis Morissette, Sheryl Crow, a banda Hole, entre outras, partindo do ponto de vista de uma jovem de 23 anos no ano de 2026. Estranho? Sim, mas funciona perfeitamente devido, primeiramente, à produção inspirada, coesa e assertiva de Nigro, que consegue dar ao álbum um equilíbrio entre referências antigas e novas de maneira primorosa, sabendo sempre dar para Olivia a sua própria personalidade, que vai sendo esculpida de maneira realmente impressionante. Além disso, a maneira como as canções vão sendo desenvolvidas é um trabalho de uma precisão sonora impressionante, pois a fluidez sonora com que cada faixa vai sendo desenhada é exemplar para a construção da narrativa do álbum.

Ouvir o álbum é como ouvir um trabalho da metade dos anos noventa em questão de sonoridade, mas que em nenhum momento se torna nostálgico pelo simples fato de ser para quem conhece essa referência e, ao mesmo tempo, para parte do público da Olivia deve exalar um frescor criativo impressionante. Consegue ser atual, pois claramente busca refletir certas tendências usadas por cantoras modernas, mas também tem essa aura atemporal de influências de gerações anteriores. Tudo isso é acompanhado por um trabalho instrumental preciso, robusto e belíssimo, que vai ajudando a costurar toda a sonoridade perfeitamente, até mesmo nas faixas menos complexas em termos de arranjo. Não que anteriormente os álbuns não tivessem trabalhos competentes em questão de instrumentalização, mas em you seem pretty sad for a girl so in love é que se mostra mais intrigante e refinado em questão técnica e artística. E, possivelmente, o melhor trabalho nesse quesito é a sensacional stupid song.

Possivelmente, a canção é a mais complexa sonoramente do álbum ao começar com uma balada pop/indie pop contida que se transforma logo após o fim do primeiro refrão em uma power pop rock/pop punk grandiosa e bem mais puxada para o lado rock da sonoridade da cantora. Essa mudança sonora poderia dar errado, mas, devido ao incrível instrumental e à condução perfeita da produção, stupid song termina sendo um trabalho de uma sinergia e coesão impressionantes. Além disso, a canção é inspirada na estrutura de happier than ever, da Billie Eilish, mas funciona tão bem em construir sua própria personalidade que é preciso uma certa ginástica mental (como fiz) para comparar as duas. Além disso, a composição da canção dá ainda mais personalidade ao trabalho. E esse é outro ponto alto de you seem pretty sad for a girl so in love.

Desde o começo da carreira, sempre apontei o potencial da capacidade de compositora da Olivia, mesmo que ainda tivesse problemas. Por exemplo, em Sour, apontei a temática que andava em círculos, mas escrevi que o que ajudava “as composições é o fato de todas serem muito bem escritas, inteligentes e, principalmente, brutalmente honestas”. Em Guts, a cantora já mostrava uma evolução bem nítida, em que as letras mostravam “criatividade, inteligência, acidez e apuramento técnico impressionante”. E isso tudo deságua de maneira impressionante no novo álbum no momento em que sentimos o grande amadurecimento técnico, temático e lírico que a cantora apresenta, aprofundando ainda mais as suas qualidades, aparando arestas soltas e apresentando novas camadas de significação devido ao fato de you seem pretty sad for a girl so in love ser o seu primeiro álbum como “adulta”.

Os dois trabalhos anteriores podem ser vistos claramente como parte de uma narrativa que entra no espectro do coming of age, sendo mais nítido no segundo álbum. Aqui, porém, a temática geral do álbum mostra uma jovem entrando de fato na fase adulta, explorando sentimentos mais complexos, expressando emoções realmente como uma adulta tentando entender o mundo à sua volta. Claro, ainda estamos falando de uma artista que nasceu em 2003, então não espere reflexões profundas e filosóficas sobre a vida, mas, sim, as crônicas de uma jovem adulta que vai explorando as delícias e as agruras da vida adulta de maneira sempre sincera e inteligente, misturando muito bem melancolia, acidez, tristeza, ironia e bastante personalidade distinta. A qualidade lírica é tão alta que até mesmo se torna o destaque na canção menos inspirada do álbum, drop dead, pois é “o que melhor dá personalidade à canção, já que deixa claro ser o trabalho de uma jovem de apenas 23 anos que começa a encontrar novos caminhos para se expressar”.

Um dos melhores trabalhos do álbum e da carreira da Olivia, a canção the curefaz uma tocante crônica sobre tentar encontrar o amor-próprio pela validação de quem se ama, mas começar a compreender que apenas ela mesma consegue se “curar”. Sinceramente, é um trabalho que claramente encontra reflexos na vivência da cantora, mas também é bem fácil de encontrar conexões com vários tipos de pessoas, já que é algo que pode acontecer com qualquer um”. Em less, a produção entrega uma simples e tocante balada pop à base de piano, mas que é uma devastadora e belíssima crônica sobre as desesperadas últimas tentativas de salvar um amor do seu inevitável fim: “If loving me means letting go and wishing me the best/ Then I guess/ I wish, I wish, I wish you loved me less”. E Olivia defende a canção com uma performance contida que dá para sentir toda a dor na sua voz, deixando seu cristalino timbre carregar a canção perfeitamente.

Completamente dona de si, Olivia mostra em you seem pretty sad for a girl so in love a sua presença vocal mais versátil, carismática, poderosa e madura da carreira, indo se adaptando lindamente a todas as mudanças da produção. A delicadeza da presença da cantora em what’s wrong with me é o contraponto inusitado e ideal para a gravidade atemporal da presença do lendário Robert Smith em uma deliciosa indie pop/rock que poderia até ser uma regravação/remake de uma canção do The Cure. É tão estranho e, ao mesmo tempo, ouvir o dueto e ver Robert entoando uma letra do ponto de vista de uma jovem que tudo funciona bem melhor do que o esperado devido a literalmente esse atrito. E, com a mesma maestria, Olivia coloca uma dose de sentimentalismo irônico para entoar a também ótima maggots for brains.

Com you seem pretty sad for a girl so in love, Olivia grava definitivamente o seu nome no topo da cadeia das artistas pop da sua geração, abrindo caminho para um futuro que parece ainda mais brilhante do que poderia ser esperado da cantora de drivers license.


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