Kelela
No mesmo ano em que a Charli XCX tentou mostrar uma nova faceta da sua sonoridade e deu um tiro no pé, a Kelela faz exatamente isso ao entregar o espetacular new avatar. Todavia, a grande diferença é o total entendimento entre saber introduzir novas influências ao mesmo tempo que preserva a sua sonoridade original.
Terceiro álbum da carreira da cantora, o trabalho é o tipo de obra que faz a gente entender como uma artista consegue continuar evoluindo, mesmo que já tenha iniciado a sua carreira de uma maneira tão fundamentada em uma sonoridade própria. Facilmente identificada como uma expoente do R&B alternativo, Kelela vem introduzindo elementos diversos à sua base ao flertar pesadamente com gêneros como pop, eletrônico, hip hop e seus subgêneros desde o primeiro álbum. E isso não é novidade, pois a mesma alcançou o seu primeiro ápice logo no trabalho anterior, o genial Raven, ao ser uma “mistura genial de R&B alternativo com ambient pop, sendo incrementado, texturizado, encorpado, lapidado e elevado por toques de eletrônico, dance, UK bass, hip hop, trip hop, breakbeat e art R&B”. E a cantora poderia continuar nesse mesmo caminho sem tirar ou colocar, pois é certeza que entregaria outro excepcional álbum. Todavia, a cantora resolve adicionar novas camadas ao claramente conversar com gêneros e subgêneros do rock.
Isso poderia até criar alguma fricção sonora, mas, genialmente, a produção apara qualquer aresta áspera, conseguindo fundir de maneira perfeita todas as influências em uma única e esplêndida sonoridade que transforma new avatar em um dos melhores álbuns de 2026. É realmente incrível como a produção consegue costurar tudo, pois a gente consegue ver nitidamente as influências sendo trabalhadas e, simultaneamente, também percebe a soberba costura sendo feita para que tudo seja transformado em apenas um grande e contínuo tecido sonoro. Acredito que boa parte dessa fluidez perfeita vem do fato de o álbum ter a produção da própria Kelela, dividindo o trabalho com o produtor Oscar Scheller e, em uma canção, ao lado de A. K. Paul. Então, o álbum é claramente a visão vinda diretamente da artista, e isso deixa tudo ainda mais impressionante, pois é claro que estamos diante de um talento fora do normal até mesmo para os parâmetros que podemos usar normalmente.
Logo no começo de new avatar já temos uma noção perfeita da qualidade de produção do álbum com a presença da sensacional idea 1, ao ter “uma carga imensa e impressionante de rock alternativo e shoegaze à base de R&B alternativo”, resultando em “uma canção poderosa, envolvente e densa” “que vai se derramando em ondas nos nossos sentidos, desde os seus primeiros acordes contidos, até ir se encorpando e ganhando uma forma intrigante e majestosa, para finalmente terminar de maneira reflexiva”. E, queridos leitores, isso é apenas o começo do álbum, que vai se desenrolando em um trabalho que nunca perde o foco e, principalmente, nunca decai de qualidade, mesmo nos seus momentos menos inspirados. O ápice acontece na magnífica crystalize.
Magistralmente produzida, a faixa é uma soberba, classuda e irresistível fusão de R&B alternativo com rock alternativo, criando uma complexa e inspirada instrumentalização que precisa de um domínio completo de todos os elementos e uma visão apurada sobre todos os componentes envolvidos. E isso é algo que a produção tem de sobra ao fazer um trabalho impecável de criação. Para quem ainda não escutou, crystalize é como se fosse a fusão de elementos da sonoridade da Janet Jackson nos anos noventa com a sonoridade do Paramore, mas sem nunca parecer visivelmente nenhuma dessas referências, já que a canção é inquestionavelmente uma canção da Kelela. Algo simplesmente incrível, que ainda ganha mais força com a sua belíssima composição, que relata as dores de viver um relacionamento tóxico em que o outro continua fazendo jogos mentais. Esse é outro ponto importante do álbum: a lírica refinada e madura da artista.
Acredito que, de maneira geral, new avatar seja sobre recomeços e tomadas de controle na vida. É sobre poder apontar as dores e sobre o que e quem as causa e, finalmente, conseguir se libertar de situações. É sobre se sentir com raiva e não ter medo de apontar dedos. É sobre também se sentir livre para aproveitar sua força em todos os sentidos. Tudo isso é transmitido em composições limpas de pretensões rasas, sendo construídas de maneira bem direta, elegante, emocional, inteligente e com uma carga de inteligência estética sensacional. Um dos melhores momentos nesse quesito é na espetacular point blank, em uma “impressionante composição, que acerta com um soco no estômago ao ser uma crônica desconcertante sobre se sentir emocionalmente deixada de lado por quem se ama e, finalmente, começar a cobrar uma mudança. É um trabalho lírico emocional sem ser piegas, inteligente sem ser pretensioso e de um apuro estético cativante e magistral que combina com a canção”.
O álbum ainda conta com outros momentos de pura inspiração, como em outta time, com a presença de A. K. Paul também nos vocais, em uma graciosa e atemporal neo-soul com toques de UK bass que claramente busca inspiração na sonoridade dos anos ’90; a batida envolvente e cadenciada com toques de indie rock e grunge de goin down; e, por fim, a parceria com a PinkPantheress em the bridge, que mistura muito bem as personalidades das envolvidas.
Em new avatar, a Kelela continua a fincar seu nome como uma das mais talentosas e excitantes artistas contemporâneas ao continuar a sua impressionante evolução artística.

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