2 de agosto de 2026

Primeira Impressão

Music, Fashion, Film
Charli xcx





Sabe a expressão de que “de boas intenções, o inferno está cheio”? Então, boas ideias também lotam o reino de Belzebu, pois é exatamente lá onde está a ideia por trás de Music, Fashion, Film, da Charli xcx.

O sucessor do imenso sucesso de Brat, o álbum tem por trás uma realmente ótima ideia: como seria o rock pela visão da Charli xcx? E, sinceramente, isso é algo tão interessante que eu realmente não estava esperando um álbum tão mediano e, principalmente, desinteressante. Poderia até esperar uma bomba gigantesca, pois, ao menos, eu acredito que teriam algumas coisas que fossem ao menos interessantes, mesmo que pelo assombro das escolhas. Aqui, porém, tudo é feito de uma maneira quase pasteurizada e insonsa que fica quase impossível entender como a artista e a produção, dividida entre dois frequentes colaboradores (A. G. Cook e Finn Keane), chegaram a esse resultado. Todavia, pensando bem, consegui entender um ponto importante: ninguém em Music, Fashion, Film sabe misturar água com óleo.

Quando um artista decide se aventurar em novos gêneros, é preciso que ele e a sua equipe de produção consigam não apenas entender o “objeto” sonoro da exploração, como também a personalidade artística de maneira muito bem detalhada. Todavia, o mais importante é ter o conhecimento primordial e preciso de como misturar, equilibrar e fundir todos os elementos para criar algo que possa ser realmente a visão desse artista sobre o gênero escolhido. No álbum, a personalidade da Charli é sentida de forma que não dá para duvidar de que há esse entendimento, mas a compreensão exatamente do que é rock fica meio a desejar e, principalmente, não existe a menor ideia de como misturar tudo de uma maneira que fosse minimamente satisfatória. O resultado termina totalmente perdido, desfocado, arrastado, chato e com aquela sensação de que nada parece realmente dar certo. E olha que existem alguns momentos em que certas faíscas brilham aqui e ali, mas que nunca terminam gerando bem um rastro de chama, mesmo que pequena.

Sonoramente, Music, Fashion, Film é um trabalho de indie rock/indietronica com pinceladas de punk, hyperpop, pop e alternativo que parece não ter força real para explodir, mas também não faz uma pastiche dos gêneros. A produção consegue capitanear a direção do álbum em um caminho sem saber qual é a direção real que quer tomar e muito menos onde quer realmente chegar. Na verdade, o álbum nunca chega a nenhum lugar exato, ficando bem antes do meio do caminho. E um dos motivos para isso é que a “vibe” escolhida não combina em nada com a visão rápida e rasteira que é a marca da Charli.

Com onze faixas e apenas meia hora, apenas duas canções passam dos dois minutos, sendo que a maioria fica em média em dois minutos e meio ou menos. Isso pode até funcionar para quando a artista vai totalmente no hyperpop e adjacentes, pois esse estilo meio que pede por essa brevidade. Aqui, porém, o caminho escolhido clama por mais tempo para que possa ser melhor trabalhado e seja capaz de sustentar toda a sua imponência e substância sonora. Da maneira como é produzido, tudo fica parecendo vazio e meio que inacabado, parecendo demos em estágios iniciais mais do que canções realmente prontas. E o ápice disso é a péssima Rock Music, que se torna a pior canção da carreira da artista.

Entretanto, quando a gente nota que nem mesmo quando as canções têm tempo para se desenvolver também não dão exatamente certo, percebe que esses são momentos com uma construção mais apurada e interessante. E esse momento é no final, com a presença da legalzinha No One Lasts Forever. Só que a canção realmente poderia ser ainda muito melhor, principalmente porque existe certo vazio criativo, meio que deixando na mão a ótima ideia de acrescentar o diretor David Cronenberg falando sobre arte. Outro ponto que não dá certo é a presença da própria Charli xcx.

Ao colocar a sua personalidade em todas as canções, a cantora parece estar vestindo uma roupa dez números maior que ela mesma, deixando aquela impressão de não ser capaz de preencher o seu redor e que termina, de maneira cômica, misturando-se com o insonso e, principalmente, o decepcionante. Mesmo que ela não entregue nada exatamente ruim, é claro que está longe do seu lugar de conforto.

E isso fica mais claro até mesmo quando ela entrega uma performance realmente boa, como em SS26, que decidiu “tirar todos os efeitos vocais, deixando sua voz o mais natural possível em um trabalho diferente, que salva um pouco a canção”. Entretanto, “a produção parece totalmente presa a uma ideia do que seria a adição do rock à sonoridade da cantora, mas deixa a desejar ao não adicionar um fator de excitação verdadeira à produção”.

Outros momentos que dão algum lampejo de vida criativa são a redondinha Camera, a sinceridade lírica de I'm Afraid e, por fim, a áspera Persona.

Music, Fashion, Film é um projeto que podemos chamar de, ao menos, corajoso, pois seria até fácil para a Charli xcx fazer mais do mesmo depois de Brat. Só que o resultado mostra que nem sempre a coragem sozinha dá conta de tamanha ambição.

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