21 de agosto de 2026

Uma Segunda Chance Para: Show das Poderosas

Show das Poderosas
Anitta

Com uma carreira cheia de altos, baixos e alguns baixíssimos, Anitta chega a seu momento ao finalmente se encontrar artisticamente. Por isso, resolvi voltar no tempo e dar uma segunda chance para a canção que deu início a tudo: Show das Poderosas.

Era quase impossível, em 2013, não ter ouvido em algum momento e, possivelmente, por diversas vezes, a canção que se tornou o hit daquele ano. Apesar de não ter sido a primeira da carreira, Show das Poderosas foi o que colocou Anitta no mapa do mainstream brasileiro e, passados treze anos, é preciso apontar que tudo faz muito sentido, pois, mesmo não sendo um trabalho genial, a canção tem suas qualidades que a destacam na multidão. A maior delas é a produção, que consegue misturar bem o funk com o pop, adicionando toques de dance-pop e dubstep. Na verdade, quando esse último gênero é introduzido durante o segundo verso, é que a canção realmente atinge seu ápice, devido à total e inesperada quebra de expectativa.

O problema maior da produção é o seu clímax final, especialmente nos momentos finais, em que a canção perde a força em uma conclusão totalmente anticlimática, que meio que dá uma esfriada na canção. Show das Poderosas é dona de uma composição rasa, mas viciante, que consegue dialogar com a atmosfera pop e funk, criando uma letra que meio que se torna atemporal. Não é nada genial, mas é perfeita para o tipo de proposta da canção. Anitta, ainda no começo de carreira, entrega uma presença sólida, mas morna e, principalmente, sem muita versatilidade, deixando as mudanças da própria música fazerem parte do trabalho. Todavia, não há como não afirmar que existe um carisma da mesma que meio que faz a gente ser cativado pela sua presença.

Em Show das Poderosas, Anitta deu o seu primeiro grande passo para se tornar a maior popstar brasileira da nossa geração, para o bem ou para o mal.
nota: 7,5

20 de agosto de 2026

A Guinada

Just Be Bodies
Rose Gray


Estou realmente começando a ficar hypado para o segundo álbum da Rose Gray. Depois da ótima Club To Your Arms, a cantora lança outro acerto em Just Be Bodies.

Apesar de um pouco menos inspirada, a canção ainda mostra a evolução nítida da cantora ao entregar uma canção realmente competente e com uma personalidade muito bem definida e amadurecida. A produção entrega uma synth-pop emoldurada lindamente por um véu de house/trance, criando uma batida revigorante, mesmo que trabalhando em uma cadência mais contida. Acredito que, por ter uma batida “menor”, Just Be Bodies não chega a alcançar um novo nível, mas, felizmente, o cuidado instrumental e toda a atmosfera da canção valem realmente a pena. Gosto da composição, que continua a apostar no emocional misturado com sensualidade e toques filosóficos de uma forma natural e nada pretensiosa. Rose entrega uma boa performance, que poderia ter mais variação aqui e ali para dar um pouco mais de dinâmica à canção.

De qualquer maneira, Rose Gray pode realmente sair do lugar de promessa para ser uma realização.
nota: 8


Reavaliação

Didn't Mean to Turn You On
Mariah Carey & Rochelle Jordan


Possivelmente, a era Glitter da Mariah Carey seja uma das mais controversas da cultura pop de todos os tempos. O álbum que serviu de trilha sonora para o filme de mesmo nome foi uma das peças que quase destruíram a carreira e a vida da cantora no começo dos anos 2000. Todavia, nos últimos anos, o álbum vem sendo reavaliado por parte do público como sendo injustiçado. E é tanto que a cantora vai lançar um trabalho comemorativo dos vinte e cinco anos. Como primeiro single, foi lançado o remix de Didn't Mean to Turn You On.

A escolha é curiosa, pois a canção nem foi single do álbum. Entretanto, o resultado é realmente inspirado devido à presença magnética da Rochelle Jordan e do produtor KLSH, que juntos entregaram o sensacional Through The Wall no ano passado. O resultado é um verdadeiro fato raro, pois termina sendo melhor que a original. De uma sólida, mas conservadora, regravação da canção original da cantora Cherrelle, a canção sai do funk/disco original para uma envolvente, deliciosa, moderna e madura synth-pop misturada com eletrônico e traços de funk, que transforma a canção em uma nova e excitante versão.


E isso é algo realmente admirável, pois a produção consegue dar para a canção a vibe da Rochelle sem esquecer da personalidade da Mariah, respeitando também a versão original de Didn't Mean to Turn You On. Na verdade, eu gostaria muito de ver a Mariah fazendo um trabalho completo com o produtor, pois isso seria, com certeza, algo que iria ser um comeback lendário. Vocalmente, as duas cantoras se misturam perfeitamente, e a Rochelle adiciona uma carga de personalidade bem grande para essa versão sem tentar roubar a música para si ou se deixar intimidar pela parceira lendária.

Espero que nessa comemoração possa ter versões tão interessantes e que ajude a mais pessoas a redescobrir um álbum longe de perfeito, mas que tem algumas pérolas sonoras.
nota: 8

19 de agosto de 2026

A Que Foi Deixada Para Trás

Pop Sound
Kim Petras

Inicialmente destinada a aparecer no álbum Detour, Pop Sound foi lançada antes no EP Pretour pela Kim Petras de maneira não oficial e longe das plataformas como, por exemplo, o Spotify e afins. Agora, a canção ganha um lançamento oficial para que todos possam ouvir o que é a melhor canção da artista até o momento.

A maior qualidade da canção é que a mesma consegue unir perfeitamente todas as melhores qualidades da sonoridade recente da artista de maneira certeira e refinada. A produção constrói uma marcante, grandiosa e cativante mistura que combina muito bem electropop, hyperpop e electro house, conseguindo criar uma batida que, em nenhum momento, perde o foco ou parte para a cacofonia sonora, em que todas as peças estão lindamente ligadas umas às outras de maneira fluida. O resultado é algo que carrega o DNA da artista e, ao mesmo tempo, coloca a mesma em outro patamar. E parte disso vem da sua composição.

Pop Sound é sobre música, ou melhor, sobre o lugar da música no mundo atual, especialmente da música da Kim. É uma temática bem interessante que precisa ser muito bem trabalhada para não cair em um mar de pretensiosidade. Felizmente, o resultado aqui mescla bem reflexões filosóficas com a estrutura de uma canção pop, criando um trabalho com maturidade artística e estética. Gosto especialmente dos versos em que a Kim questiona as gravadoras ao entoar “What's your position? Your holy mission?/ Shoot at the stars, head first collision”. Por fim, a cantora entrega uma ótima performance que começa a mil por hora e termina da mesma maneira.

Dessa maneira tão inspirada, a Kim Petras vai reconstruindo a sua carreira como poucas artistas têm a chance de alcançar.
nota: 8,5

Muitas Ideias

ROCKSTAR
Pabllo Vittar & Villano Antillano


Sabe quando existem muitos ingredientes em um só prato que poderiam facilmente ser retirados e o resultado seria melhor? Então, ROCKSTAR, da Pabllo Vittar, tem exatamente esse problema.

Primeiro single do álbum Lost In Lust, a canção poderia ser um grande acerto se pudesse polir de verdade todos os ingredientes que a compõem, pois, ao final, fica a sensação de que várias ideias boas não conseguiram ganhar vida de verdade. A produção mistura funk, eletrônico, industrial, latin pop, EDM, pop rock e hyperpop, mas não consegue unir todas as pontas de maneira a criar algo realmente coeso.

Em cerca de dois minutos e meio, a canção parece, no mínimo, três unidas em uma só, que não se fundem para criar uma música que faça a gente ficar empolgado de verdade. Preciso dizer, porém, que gosto desse caminho para a Pabllo, pois dá versatilidade para a sua discografia. Além disso, as ideias separadas são boas, especialmente o começo funk/eletrônico e seu finalzinho mais puxado para o EDM. Faltou foi a ligação entre esses dois pontos. Outro problema é que a brasileira parece mais uma convidada da rapper porto-riquenha Villano Antillano que, felizmente, entrega uma boa performance.

Espero que esse começo seja apenas a ponta do iceberg e que o álbum possa realmente se aprofundar nessas ideias.
nota: 6,5

18 de agosto de 2026

3 Por 1 - Yseult

Now or Never
Freak
Freak (feat. JT)
Yseult

Mais conhecida devido à participação em Alibi e por ter se apresentado na abertura dos últimos Jogos Olímpicos, a cantora Yseult é o tipo de artista que fica circulando aos arredores do mainstream, mas ainda não teve o seu momento. E isso é uma pena, pois a cantora entregou, este ano, duas das melhores canções do ano.

Possivelmente, Now or Never e Freak devem ser canções que fazem parte do próximo álbum da cantora e, sinceramente, que isso seja indicativo dos rumos do trabalho, pois ambas são canções simplesmente sensacionais. Na verdade, Freak é mais do que sensacional e, sim, genial. Quando ouvi pela primeira vez, não esperava que a cantora fosse entregar algo tão espetacular como essa mistura incrível de new jack swing, contemporary R&B e dance-pop, que recria de maneira perfeita uma estética dos anos oitenta, especialmente a sonoridade da Janet Jackson, com toques de Salt-N-Pepa e En Vogue.

Respeitosa, excitante, elegante, divertida, nostálgica, dançante, moderna e irresistível, Freak é um trabalho tão especial no momento que consegue ser tantas coisas ao mesmo tempo e, mesmo assim, nunca soar como uma colcha de retalhos com peças demais. Tudo se encaixa de maneira tão ideal que não há como não se deixar levar pela batida frenética. E um dos motivos para a canção realmente dar liga é a presença refinadíssima, sensual e poderosa dos vocais de Yseult, que domina a canção em uma performance apoteótica e deslumbrante. Na versão remix, a presença da rapper JT dá mais afirmação às influências do rap de Salt-N-Pepa, criando ainda mais essa atmosfera sem fazer a canção perder valor artístico. Na verdade, a presença da rapper poderia ser mais explorada, pois está limitada apenas a um ótimo verso no começo da canção.

Em Now or Never, a produção dá uma leve errada no tempo de duração da canção e na sua estrutura mais contida, que poderia facilmente sustentar mais tempo para explorar o seu excepcional instrumental. Todavia, o resultado é ainda sensacional devido, novamente, à qualidade de emoldurar uma sonoridade oitentista tão bem. Dessa vez, o objeto escolhido é o synth-pop, que tem toques deliciosos de R&B. Com um instrumental impecável, que poderia ter um final mais apoteótico, a canção também deixa bem clara a versatilidade e o potencial vocal da cantora, que parece tirar inspiração de Whitney Houston nas suas canções dançantes/mid-tempo da década.

Espero que Yseult possa ter o reconhecimento que merece, pois, só com essas duas canções, a mesma já deixou no chinelo álbuns de grandes nomes do pop atual.
notas
Now or Never: 8,5
Freak: 9
Freak (feat. JT): 8,5

17 de agosto de 2026

PinkRobinson

WannaCry
Ninajirachi & Porter Robinson


Nem sempre uma comparação é para mostrar os lados negativos de um objeto de estudo. Por exemplo, a canção WannaCry, parceria dos DJs Porter Robinson e Ninajirachi, soa como se fosse uma versão turbinada de uma canção da PinkPantheress.

A canção é uma excepcional electropop com electro house que mostra a sinergia dos dois envolvidos, especialmente devido a podermos notar as influências de cada um sendo bem exploradas e fundidas. Com um instrumental realmente impressionante, a canção ganha traços que facilmente poderiam ser de outros artistas que, nesse caso, é o da PinkPantheress. A batida até pode ser mais grandiosa que a que a cantora entrega normalmente, mas, sinceramente, WannaCry tem a mesma vibe atmosférica que a mixtape Fancy That, terminando como se fosse algo que a mesma pode alcançar no futuro.

Todavia, isso não tira em nada o brilho da produção dos DJs, já que é claro que a canção tem uma personalidade bem distinta devido à presença de ambos. E um desses motivos é que ambos cantam na canção. Claro, envolvidos em uma dose de efeitos vocais, Robinson (frequente aqui no blog) e Ninajirachi conseguem criar um vínculo entre os dois e com quem escuta de maneira natural, o que os diferencia de canções produzidas por atuais expoentes do eletrônico. Além disso, a intrigante composição é outro ponto de destaque, pois parte da visão de vírus de computador para falar sobre uma relação tóxica, e isso faz a gente entender que o real entendimento artístico dos dois é algo bem acima da média.

Quem sabe uma parceria de um dos dois com a PinkPantheress não resultaria em algo realmente genial? Sonhar não paga imposto.
nota: 8,5

Kelly Still Got It!

I'd Be Lyin'
Kelly Clarkson


Não tem como duvidar que, além de ser a maior vencedora de todos os tempos de um reality musical, a Kelly Clarkson é um dos maiores nomes do pop surgidos nos anos 2000. E, mesmo após tantos anos, a cantora ainda está em “forma” ao entregar uma canção tão boa como é o caso de I’d Be Lyin’.

Lembrando muito a sonoridade da cantora feita por volta de 2010, a canção é uma eficiente, empolgante e contagiante pop rock com toques de synth-pop e country pop. Não passa nem longe de ser algo novo, mas a produção entrega mais do que uma canção sólida, já que temos um cuidado extremo com a instrumentalização, que vai crescendo aos poucos até o seu final realmente grandioso. Entretanto, o grande destaque da canção é, como sempre, a presença magistral e magnética da Kelly. Com a sua qualidade vocal tão precisa, que domina qualquer canção com perfeição, e uma versatilidade pouco vista, a cantora adiciona boa parte da emoção e dá personalidade a I’d Be Lyin’.

Se fosse nos tempos de vacas gordas comercialmente da Kelly, o single seria facilmente topo das paradas. De qualquer forma, o resultado ainda deixa claro que a Kelly continua sendo uma grande artista.
nota: 8

14 de agosto de 2026

O Paraíso da Tinashe

Melatonin
Tinashe

Na história desse blog, sempre tive o maior apreço pelo talento da Tinashe, mesmo que a mesma não entregasse algo exatamente à sua altura. E é por isso que não há surpresa em concluir que Melatonin, novo single do seu próximo álbum, Popstar, é o melhor da sua carreira. Na verdade, a canção é a melhor do ano, sem concorrência nenhuma.

Apesar de esperar algo no mínimo acima da média, a qualidade entregue na canção é algo realmente inacreditável devido a todas as complexas camadas que são adicionadas, que em nenhum momento transformam a canção em algo de difícil assimilação. A produção é uma verdadeira aula de como conseguir incluir várias influências em apenas uma canção, que a faz parecer cerca de três ou quatro canções diferentes, mas consegue dar uma liga tão visceral e poderosa que, ao seu final, tudo parece fundido à perfeição.

Uma mistura inspiradíssima de hyperpop e dance-pop que vai sendo incrementada de EDM, ao mesmo tempo em que é uma refinadíssima construção techno, que é apurada com subgêneros como, por exemplo, Detroit techno e acid techno. E ainda tem toques de R&B e electroclash apenas para serem as cerejas em cima do bolo. Dessa maneira, Melatonin poderia facilmente se tornar algo completamente desjuntado e sem foco.

Felizmente, a produção segura o touro na “unha” criativa e entrega uma canção impressionante, fluida e coesa, apesar de algumas mudanças rítmicas importantes. E tudo isso é acompanhado pela performance extraordinária da Tinashe, especialmente quando a sua voz é alterada para entoar o genial refrão. A composição é icônica devido à sua apuração estética e, principalmente, à temática, que é basicamente um recado para todos que estão “dormindo” para a existência da Tinashe.

E assim a Tinashe encontra o seu merecido paraíso musical com uma canção que já nasce lendária.
nota: 9,5

A Nova Onda do Reizinho

She's the Best
Troye Sivan


O crescente na carreira do Troye Sivan fez com que o cantor se tornasse um dos artistas mais competentes do pop contemporâneo. Chegando ao quarto álbum, o cantor enfrenta uma nova fase da sua carreira em que é preciso mostrar evolução contínua e um amadurecimento crescente. Em She's the Best, primeiro single do álbum do mesmo nome, acredito que isso é alcançado de certa maneira.

A canção não é, definitivamente, a melhor da sua carreira, mas deixa bem claro que o mesmo está pronto para arriscar sonoramente. O single é interessante, ousado e tem aquela qualidade de crescer na gente aos poucos devido à produção que mistura indie/alt-pop, synth-pop, chillwave e trap pop em uma atmosfera construída de maneira a deixar certas arestas cirurgicamente ásperas para dar toda a textura que a canção precisa para funcionar. Bem longe dos trabalhos de maior deglutição do cantor, She's the Best funciona quando a gente percebe que existe possivelmente uma influência das produções do Pet Shop Boys misturada com o pop/eletrônico experimental dos anos noventa.

Funciona? Sim, mas é preciso realmente embarcar na proposta da canção, pois posso ver claramente parte do público não conseguindo ultrapassar a estranheza inicial. Outro motivo é a presença de Sivan, que decide seguir o caminho “spoken word” para entoar, deixando os momentos “cantados” para o refrão. Essa decisão, porém, é que dá a liga na canção para que a decisão sonora realmente funcione. Além disso, na parte final de She's the Best, vão sendo adicionados novos elementos vocais que dão mais sustentação e criam novas texturas bem-vindas. A composição é um trabalho bem feito que tem um apelo “cool” misturado com toques de temática queer e algumas passagens divertidas/cringes, mas que funciona devido à maneira como tudo à sua volta também funciona à base de estranheza.

She's the Best é um começo de uma nova era para o Troye Sivan, que pode ser o seu ápice ou um ponto fora da curva. Aguardemos.
nota: 8

13 de agosto de 2026

Sempre Prince

With This Tear
Prince


Um álbum póstumo de um artista sempre me deixa com as duas pernas atrás. Entretanto, de tempos em tempos surge uma exceção cuja existência realmente faz sentido ao não ser apenas um caça-níquel barato. E acredito que esse possa ser o caso de Timeless, do Prince, pois o primeiro single já demonstra isso claramente na incrível With This Tear.

Escrita para a cantora no começo dos anos noventa, para a cantora Jevetta Steele, mas que acabou sendo regravada pela Céline Dion para o álbum de 1992, a gravação original do Prince vem à tona para mostrar o tamanho da sua genialidade. Uma power balada R&B/soul, a canção é um trabalho que tem uma complexidade sonora impressionante sem precisar ter um instrumental complexo, mas, sim, de uma força estrutural em que dá para perceber o cuidado com cada detalhe e, basicamente, a perfeição.

Melancólico e intimista e, ao mesmo tempo, emocional e grandioso, With This Tear também é a demonstração da força do letrista Prince em uma composição avassaladora sobre o vazio que sentimos quando alguém deixa as nossas vidas, mesmo que tenham sido feitas juras de “para sempre”. É tematicamente clichê, mas a honestidade e a força que se encontram nos versos são o tipo de coisa que, infelizmente, não se faz mais atualmente. A canção é emoldurada com chave de ouro pela performance gigantesca e atemporal do Prince, que basicamente entrega uma “tour de force” que poucos têm a capacidade de entregar, sendo ainda menor o grupo que “ofusca” uma performance da Céline.

Atemporal e realmente genial, a canção é o tipo de trabalho que faz a gente entender a grandeza do talento de um mestre como o Prince e que, também, faz a gente ter hype para um álbum desse tipo.
nota: 9

Talarica Reversa

Michael.
Rebecca Black


Como reagir a uma música que foi inspirada no namorado da Lady Gaga? Então, não sei você, mas eu estou realmente fascinado pela existência de Michael, da Rebecca Black.

E, sinceramente, nem é devido à sua inspiração, pois é mais uma brincadeira do que algo realmente concreto, mas pelo excepcional resultado da canção, que é uma das melhores da carreira da Black. Uma espetacular dance-pop refinada com progressive house, que torna a batida da canção um trabalho maduro, cativante, elegante e de cair o queixo devido à sua construção instrumental apuradíssima. É o tipo de trabalho que deixa bem clara a evolução a olhos vistos da artista, deixando qualquer desconfiança para trás.

Liricamente, a canção pode ser inspirada por um Michael, mas funciona muito bem como uma história mais ampla sobre o desejo da Rebecca pela namorada do dito cujo:

His name is Michael
And he's got all the things you need
His love is bible
But what if Michael could be me, be me?


Pode ser a Gaga, mas a canção deixa mais evidente que é algo mais genérico. De qualquer forma, o trabalho aqui é muito bem desenvolvido de maneira a criar uma composição sensual, melancólica e de um apuro pop bem construído. E, por fim, Rebecca entrega uma performance vocal edificante, em que mostra sensualidade e um toque de humor enquanto seu timbre vai emoldurando graciosamente toda a canção.

Esse Michael, quem quer que seja, é um sortudo por ter uma canção tão boa como essa em sua “homenagem” torta.
nota: 8,5

12 de agosto de 2026

Uma Segunda Chance Para: Roar

Roar
Katy Perry

Após quatorze anos de seu lançamento, Roar se tornou uma canção que deu para Katy Perry a continuidade da dominação na época das paradas, batendo de frente com Applause, da Gaga, e a vencendo comercialmente. Todavia, arriscadamente, a canção é facilmente notável como aquela que meio que deu a confirmação da limitação da sonoridade da Katy.

Lançada como primeiro single de Prism, sucessor do gigantesco sucesso de Teenage Dream, a canção é um trabalho perfeitamente aceitável que conta com alguns pontos bem positivos, mas não sai em nenhum momento do lugar-comum de um pop que hoje parece meio mofado, especialmente devido ao envolvimento daquele produtor caído em desgraça. O arranjo é grandioso e imponente para sustentar a base pop/pop rock pouco criativa, que sabe aonde quer chegar e não faz muito além do básico. Todavia, a canção tem um problema maior: a sua composição.

Clichê, meio infantil e beirando o pueril, a composição aqui é de um nível de autoajuda que atualmente poderia ser ouvida como tema de algum filme da Patrulha Canina. Todavia, preciso reconhecer que o resultado final funciona como um atestado de que, esteticamente, é um trabalho bem acertado. Até hoje lembro perfeitamente de cada verso da canção, sendo diferente, por exemplo, da canção da Gaga. Além disso, o refrão é realmente um momento que dá vida à canção devido à sua força de grudar nos nossos ouvidos com uma facilidade incrível e definitiva. O ponto alto da canção é a presença da Katy, que entrega aqui a sua melhor performance vocal dessa era e, provavelmente, de toda a sua carreira.

Mesmo sendo um marco do pop, Roar não é exatamente uma das canções mais memoráveis do pop. E, sinceramente, isso é até algo bom, já que a Katy tem canções melhores na discografia.
nota: 7

Uma Segunda Chance Para: Applause

Applause
Lady Gaga

Quatorze anos depois do seu lançamento como primeiro single do Artpop, a canção Applause ainda guarda uma pergunta: um trabalho à frente do seu tempo ou um tropeço pelo ego?

Primeira canção lançada pela cantora depois do arrasa-quarteirão do Born This Way, a nova era da Gaga era um dos acontecimentos mais esperados de 2013 e, por isso, o lançamento da canção foi um acontecimento, especialmente devido a ter sido lançada basicamente junto com Roar, da Katy Perry. E, com isso, a expectativa era algo gigantesco e, infelizmente, não foi correspondida para muitos na época, e isso também afetou a minha percepção sobre a canção que, longe de considerar ruim, considerei apenas “boa”. Olhando em retrospectiva, é preciso dizer que minha visão mudou bastante em relação a Applause.

Respondendo à questão colocada no começo: a canção é exatamente à frente do seu tempo e, muito menos, um tropeço. Talvez, a melhor definição que possa dar é uma canção menor entre os grandes momentos da carreira da Gaga. A grande qualidade da canção é a sua limpa, vigorosa, elétrica e disparadamente dançante produção, que entrega uma eletropop/dance-pop de uma força comercial reluzente e totalmente direta.

Contagiante e divertida, Applause tem uma melodia que gruda na gente logo nos primeiros acordes e vai criando ainda mais força ao longo da sua duração, que culmina em um clímax final grandioso na medida, sendo modelado por um refrão certeiro e redondinho. Outro ponto é a performance da Gaga que, mesmo não sendo uma das suas melhores, é um trabalho que dá energia, personalidade e dinamismo para a canção.

O problema aqui é a composição, pois, apesar de entender a mensagem de amor para os fãs e, também, as cutucadas nos críticos, o resultado fica em uma linha tênue entre o pretensioso, o cringe, o divertido e o inteligente, o que deixa tudo meio embaçado e facilmente termina como o que puxa a canção para baixo, salvando o bom refrão devido à sua simplicidade perfeita.

Passados todos esses anos, Applause tem uma aura de cult classic que faz sentido para o que a canção se tornou: um trabalho que merece ser redescoberto, mesmo não sendo o ápice da Lady Gaga.
nota: 8

11 de agosto de 2026

Disco Carly

Don't Leave Me on the Dance Floor
Carly Rae Jepsen


Continuando a divulgação de Day and Night, a Carly Rae Jepsen lança outro acerto na saborosa Don't Leave Me on the Dance Floor. E a canção já meio que se torna uma das melhores da sua carreira até agora.

Mudando novamente de estilo, a cantora agora navega belissimamente pelas águas da disco em uma elegante, envolvente e deliciosa nu-disco misturada de maneira inteligente com eletrônico, synth-pop, synth funk e dance-pop. A produção cria uma batida realmente especial que entra naquele hall de trabalhos que exalam atemporalidade, mas que está totalmente mergulhado em uma modernidade respeitosa.

Tenho que admitir, porém, que, se o clímax fosse ainda mais apoteótico e grandioso, o resultado final de Don't Leave Me on the Dance Floor ainda seria melhor do que já realmente se tornou. Além da excepcional produção, a canção ainda conta com uma letra simples, eficiente e com uma emoção tangível que se adequa perfeitamente à categoria de “chorar e dançar” na pista, sendo entoada pela sempre competentíssima e versátil presença da Carly.

E assim a Carly vai criando ainda mais hype para um álbum que promete ser um dos pontos altos da segunda metade de 2026.
nota: 8,5

Deus, Ouça Minhas Orações

That's Like
cupcakKe


Peço ao Deus poderoso que tire qualquer vestígio de sucesso da Nicki Minaj e passe todo para a cupcakKe, pois a rapper merece de verdade. Ainda mais quando entrega canções como a sensacional That's Like.

Apesar de ter menos de dois minutos, o single do seu próximo álbum é basicamente uma aula de como fazer uma canção curta ser completamente marcante. A canção tem apenas um grande e contínuo verso, em que exige a mais poderosa, afrontosa, carismática e frenética possível performance, e isso a cupcakKe entrega de maneira realmente impressionante. Não há nenhum momento em que a mesma perde a cadência e/ou força, introduzindo camadas e texturas que apenas adicionam personalidade ao resultado final. E isso é algo que não falta para That's Like.

A produção consegue usar todos os segundos de uma forma que dá substância para a canção e não a deixa perder qualquer pingo de qualidade devido à sua duração. O que é entregue é uma batida marcante que mistura hardcore/industrial hip hop com toques de eletrônico e experimental, que preenche tanto a canção que parece que estamos diante de um trabalho de minutagem bem maior. Liricamente, a verborragia da escrita da rapper é algo admirável, pois a mesma dispara uma metralhadora a potência máxima, sempre com um acabamento perfeito, um flow preciso e um humor tão distinto e marcante.

Espero que o universo escute minhas preces e que a cupcakKe possa, em algum momento, ocupar um lugar no mainstream que já foi bem preenchido no passado.
nota: 8,5

10 de agosto de 2026

Chorar & Dançar

One song away from crying
Rachel Chinouriri


Eu já escrevi várias vezes sobre canções que se encaixam no título perfeito para “chorar e dançar” na pista de dança, sendo a maior delas o clássico Dancing on My Own, da Robyn. Todavia, pouquíssimas vezes esse foi o tema da canção em si, como é o caso de One Song Away from Crying, da Rachel Chinouriri.

Primeiro single do segundo álbum da britânica, a canção é sobre literalmente colocar seus sentimentos na pista de dança e tentar esconder a dor com uma camada de divertimento. E a letra funciona devido à eficiente construção estética e à tocante sensibilidade que fazem a gente se sentir conectado com os sentimentos explorados na letra, pois acredito que todo mundo já se sentiu da mesma maneira em algum momento. No primeiro verso, tem uma passagem que acerta na mosca o sentimento: “I’ve never looked better and I've never felt worse”. E, sinceramente, quem nunca se sentiu assim?

Sonoramente, a canção é levemente estranha, mas funciona melhor que o esperado ao ser uma mistura refinada e magnética de synth-pop/funk e R&B que cria uma batida que passa longe de ser explosiva, mas vai conquistando aos poucos devido à batida cadenciada, contida e grudenta. Rachel não quer fazer a gente dançar como se não houvesse amanhã, mas, sim, fazer a gente balançar o suficiente para esconder as lágrimas. Falando na cantora, sua voz combina bem com o estilo da canção, já que consegue se moldar bem à atmosfera da canção, especialmente no delicioso refrão.

Um começo curioso e auspicioso para a nova era da Rachel Chinouriri. Tem a minha atenção.
nota: 8


Alguns Anos Atrasado

Animal
KATSEYE


“Perdendo” membros mais rápido do que se pode falar, KATSEYE lança uma das suas melhores canções em Animal. Todavia, a canção está alguns anos atrasada.

Uma divertida e até legal dance-pop/R&B que poderia facilmente ser alguma canção da Meghan Trainor no seu auge comercial, o single funciona até bem devido à produção despretensiosa e segura. Só que a canção soa totalmente datada e meio envelhecida devido à escolha sonora. Além disso, a sensação aumenta devido à composição, que tem a assinatura do Ed Sheeran e de colaboradores frequentes do cantor, e isso deixa uma sensação ainda maior de déjà vu, com toques de naftalina em Animal. O que ajuda de fato é a performance solar e realmente carismática das integrantes, que estão no melhor momento como um grupo, pois deixa as integrantes menos expostas às loucuras e exageros vocais de outras canções.

Animal é até boazinha, mas não ajuda a realmente salvar a lavoura do KATSEYE.
nota: 6,5

9 de agosto de 2026

Antes Tarde do Que Nunca

4
Beyoncé



Antes Tarde do Que Nunca - Versão Single

Dance for You
Beyoncé

Lançada como parte da versão deluxe de 4, Dance For You é uma das melhores canções dessa era, pois agrega todas as qualidades do álbum e adiciona mais uma camada de sensualidade. Uma pena, porém, que não seja tão lembrada dentro da discografia da cantora.

Com mais de seis minutos, a canção é um trabalho de uma riqueza sonora admirável devido à espetacular construção instrumental, que vai criando camadas para o desenrolar envolvente, magnético e de uma elegância cativante. Produzido pela cantora ao lado do The-Dream, Dance For You é uma mid-tempo R&B com toques de soul que consegue ter uma batida tradicional sem soar nada datada devido, principalmente, à inteligência com que tudo vai sendo explorado para nunca deixar a canção perder um pingo de interesse, mesmo devido à sua grande duração. É como uma montanha-russa que nunca para de descer, sempre mantendo a adrenalina no alto. O motivo para isso é a sua moldura sensual, sexual e deliciosamente safadinha da ótima composição.

A canção é uma clara declaração de amor em que a pessoa quer mostrar da maneira mais picante possível. E isso é feito de uma maneira explícita, mas totalmente refinada e que nunca chega nem perto do vulgar. É o famoso sexy sem ser vulgar. E, queridos leitores, Dance For You é o tipo de canção que “exala” sexo mesmo sem precisar da composição, pois a parte instrumental já faz o trabalho por si. Quando adiciona a letra, o resultado é ainda mais provocativo e instigante, que é contemplado por uma performance da Beyoncé simplesmente hipnotizante. A cantora parece preencher qualquer lacuna com sua voz, que nunca precisa de grandes modulações, mas, sim, apenas da presença magistral para dar toda a força emocional por trás do desejo expresso na canção.

Apesar de ser um trabalho escondido, Dance For You é uma das canções mais preciosas da carreira da Beyoncé.
nota: 9

Primeira Impressão

petal
Ariana Grande



Primeira Impressão

HALO
Tiffany Day



7 de agosto de 2026

Mães

Love Sensation
Madonna & Kylie Minogue


Eis que chegou o dia que nunca imaginei de verdade que iria acontecer: o lançamento da parceria da Madonna com a Kylie Minogue. Duas das melhores e mais importantes de toda a história da música finalmente se uniram para entregar uma canção que realmente é à altura das suas presenças no remix de Love Sensation.

E a melhor coisa é notar que esse remix faz algo quase impossível de ser feito: melhorar a canção original. Um dos momentos menos inspirados de Confessions II, a canção ganha um grande upgrade devido à excepcional produção, que realmente mantém as qualidades da canção-base e adiciona uma carga imensa de novas texturas e camadas, criando um trabalho grandioso, riquíssimo, divertidíssimo e que consegue dar para a canção todo o peso que a parceria das artistas merece.

Devido à nova visão da canção, Love Sensation funciona não apenas como um excepcional e verdadeiro remix, mas, também, quase como uma nova canção devido às alterações realizadas, sendo quase como se fosse um remake da versão original.

No remix, os elementos do “dance-pop, emoldurado por eurohouse e nu-disco” foram refinados e adicionadas doses de diva/french house e electropop, que criam ainda mais corpo para a canção. Todavia, o toque de mestre é a presença da Kylie, que realmente tem todo o espaço para também reivindicar a canção como sua, adicionando a sua imensa personalidade artística do começo ao fim. Muito bem equilibrado entre as duas, Love Sensation também demonstra a química de duas artistas que chegam a um momento das suas carreiras em que não precisam mais provar nada, que são duas forças da música pop com todo o direito adquirido ao longo dos anos. Liricamente, a canção não tem novos versos, mas a mudança na estrutura e a adição de interludes dão vigor e frescor, especialmente devido ao fato de serem utilizados para dar equilíbrio entre as duas cantoras.

E assim, queridos leitores, a história é feita por aquelas que são a história. Simplesmente lendário.
nota: 9

6 de agosto de 2026

Celebração Merecida

MELHOR NOTÍCIA
Liniker

Acho que ainda muitas pessoas não têm noção da grandiosidade e da importância de a Liniker ser atualmente uma das maiores artistas brasileiras em atividade, vencendo Grammys e lotando shows em uma turnê aclamada. E isso é algo revolucionário, pois mostra que o talento sempre vence no final. Como forma de divulgar a Bye Bye Caju Tour e, acredito, também como forma de agradecimento, a cantora lançou a ótima MELHOR NOTÍCIA.

Assim como todo o Caju, a canção é a prova cabal da qualidade da sonoridade da artista, pois é um trabalho completo, refinado e com a sua marca indiscutível. Uma classuda e envolvente mistura de MPB, soul e psicodelia que vai sendo desenrolada sem pressa em uma construção instrumental substancial, elegante e cativante. A produção não tem medo de fazer uma canção de cinco minutos, já que tem a capacidade de manter o interesse de quem ouve preso do começo ao fim. MELHOR NOTÍCIA ainda conta com a presença sempre impecável da Liniker, que entoa a canção de uma maneira que parece não ter dificuldade alguma, mas é uma performance que apenas alguém com a sua capacidade vocal e emocional é capaz de sustentar tão bem.

E assim a gente sabe que ainda existe esperança no mundo quando vê o “bem” vencendo com o sucesso da Liniker.
nota: 8

Antes Tarde do Que Nunca - Versão Single

Lush Life
Zara Larsson


Se a Zara Larsson só alcançou o atual status que desfruta depois de mais de dez anos de carreira, é preciso que a mesma tenha começado de algum lugar. E a canção que a fez despontar artisticamente e comercialmente foi o hit Lush Life.

Lançada em 2015 como primeiro single do seu segundo álbum (So Good), a canção é o tipo de trabalho ao qual a gente pode até não ter dado atenção na época, mas fica claro que estávamos diante de alguém com potencial. E o grande destaque aqui é a performance segura e carismática da Zara, que segura a canção não apenas bem, mas também adiciona toques de personalidade legítima que fazem a canção ganhar pontos no resultado final. Claro, ainda existe certa noção de estarmos diante de uma jovem que, na época, tinha apenas 17 anos e, por isso, ainda estava aprendendo a usar melhor o seu potencial.

Todavia, Lush Life é o tipo ideal de canção que dá para uma cantora ainda inexperiente a plataforma ideal para começar a explorar vocalmente, pois a canção entrega uma produção tão redondinha e confiável que é a base para artistas poderem brincar com as possibilidades. E é isso que Zara faz ao adicionar doses controladas da sua personalidade para entoar essa simpática, divertida, solar e viciante mistura de tropical pop e electropop.

Com uma letra bem escrita, ingênua, inofensiva e apenas acima da média, Zara faz de Lush Life a sua pedra fundamental na construção da sua carreira, que vai se tornando algo realmente memorável.
nota: 7,5

Quem Ri Por Último

AH HA
Cardi B


Depois de tudo que aconteceu nos últimos tempos, é impossível não afirmar que, no final, quem venceu de verdade foi a Cardi B. Apesar de não estar no topo comercial da carreira, a rapper entrega em AH HA uma das suas melhores canções em muito tempo.

A grande qualidade da canção é a presença da rapper, que entrega uma das suas mais poderosas, classudas e excepcionais performances. Nada de muitas firulas, mas, sim, uma aula de como uma rapper encara uma canção de maneira centrada e direta, sem espaço para qualquer um questionar o seu flow. Além disso, AH HA se beneficia de uma produção segura, bem construída e madura de trap/hip hop, que entrega exatamente o que se propõe a fazer de maneira limpa e com personalidade. E a composição é a celebração merecida do sucesso da rapper, atirando para todos os lados de maneira ácida, divertida e com uma escrita estruturada.

E assim Cardi B ri por último. E merecidamente.
nota: 8

5 de agosto de 2026

O Poder do Refrão

After All
Carly Rae Jepsen


Existem algumas canções que são elevadas simplesmente pelo fato da genialidade de um dos seus componentes. Em After All, single da Carly Rae Jepsen, esse elemento é o espetacular refrão.

Segundo single de Day and Night, a canção é uma produção com o selo de qualidade da cantora, mas aqui mostrando um amadurecimento ainda mais refinado ao entregar uma chic sophisti-pop, cativante e com elementos bem explorados de disco, neo-psychedelia e pop soul. Experimental na medida certa, After All é um trabalho que, apenas por si, já seria um trabalho respeitável, mas, quando entra o refrão, tudo ganha uma nova dinâmica e qualidade.

O refrão quebra qualquer expectativa ao seguir por uma batida completamente diferente do resto da canção, acompanhando também a mudança vocal em que Carly o entoa usando em plenos pulmões o seu falsete, criando um contraste com o resto dos vocais doces, sedosos e contidos. O que poderia fazer de After All um experimento desajambrado termina sendo como a cola que une toda a canção de maneira graciosa e reverberante. Carly sempre entregou muito bons refrões, mas aqui entrega um dos momentos mais inspirados da sua carreira, com uma inteligência criativa aflorada.

Com uma composição elegante, sensual e classuda, Carly entrega uma das canções mais interessantes do ano devido, principalmente, ao toque de gênio do refrão.
nota: 8,5

Mãe & Filha

Talk To Me, Zara
Robyn & Zara Larsson


Existe um “meme” de que a Zara Larsson seria a filha/herdeira artística da Beyoncé. E, mesmo adorando a cantora, isso não seria algo menos preciso e verdadeiro. Todavia, eu posso ver a Zara como a “próxima” Robyn, e isso fica bem claro em Talk To Me, Zara.

Remix do single de Sexistential, a canção é o raro remix atual que realmente dá certo. E isso é devido à produção adicionar realmente mudanças que dão para a base original uma nova faceta sem perder a sua essência. Um equilíbrio bem administrado que, sinceramente, é quase um unicórnio perante tantos remixes que nem mereciam ver a luz do dia.

Quando resenhei o single, afirmei que Talk To Me é “uma refinadíssima e deliciosa synth-pop com toques de house e dance-pop que carrega perfeitamente a marca da personalidade da Robyn”. Conservando essa base, Talk To Me, Zara adiciona uma dose concentrada da sonoridade da Zara, dando bastante espaço para que a cantora também se apodere da canção. É um equilíbrio raro nesse tipo de canção, pois ambas as artistas têm espaço suficiente para brilharem e, também, criarem uma química real e deliciosa. Além disso, os versos da Zara são novos, criando ainda mais a sensação de uma parceria real e não apenas um caça-níquel para dar algum up comercial.

Com o resultado de Talk To Me, Zara, a visão é clara de que a Zara pode se inspirar ainda mais na carreira da Robyn, pois existe realmente uma ligação entre as duas.
nota: 8

4 de agosto de 2026

Fofo Até Demais

Less than a Lover
JENNIE


Dona de um dos melhores debuts solo das integrantes do Blackpink, a Jennie tem potencial para entregar canções melhores que a baladinha inofensiva Less than a Lover.

A canção é o tipo de música que é bonitinha, mas não faz peso algum e é completamente esquecível. Uma mistura simpática de bedroom pop com synth-pop e o que parecem ser toques de bossa nova, a produção cria uma canção que dá, ao menos, espaço para a cantora realmente deixar transparecer o seu talento vocal. Contida, delicada e com um timbre aconchegante, Jennie não tem muita dificuldade para carregar a canção, adicionando um pouco da sua personalidade genuína.

Less than a Lover é uma canção passável que poderia ter dado espaço para algo mais interessante na carreira da Jennie.
nota: 6,5

O Começo da Dominação

Ain't In LA
ADÉLA


Será que a Adéla realmente está a um passo da glória? E isso parece estar acontecendo com a repercussão extremamente positiva do desempenho de Ain't In LA.

Single do seu primeiro álbum, PRIMA, a canção não poderia ser melhor para começar a marcar a carreira da artista no mainstream, pois é um trabalho recheado de uma personalidade bem distinta. Uma “esquisita”, grudenta, sexy, marcante e envolvente mistura de alt-pop, trap e synth-pop, Ain't In LA tem uma produção que sabe lindamente equilibrar elementos que poderiam facilmente se tornar irritantes, como, por exemplo, a voz modificada entoando o verso de introdução, que se torna quase um interlude ao longo da canção. Isso cria uma canção madura, mas com um frescor autêntico que faz a gente querer entender quem é Adéla.

Gosto muito da presença da artista na canção, pois ela entrega uma performance segura e com personalidade bem delimitada, deixando claro que é uma artista com capacidade de segurar uma canção tão peculiar de maneira a extrair o seu melhor. A composição, porém, poderia ser mais refinada aqui e ali, mesmo sendo um bom trabalho que demonstra também uma capacidade de dialogar sobre assuntos íntimos ao mesmo tempo em que tenta ser esteticamente pop.

Adéla vai ascendendo de uma maneira que acredito que possamos estar diante da próxima estrela pop. Veremos.
nota: 8


Bad Girl

Sauna
Jessie Ware

Mesmo sem alcançar o mesmo impacto que os dois álbuns anteriores, a Jessie Ware entregou em Superbloom um dos melhores trabalhos do ano. E ainda nos presenteia com o lançamento de singles como a sensacional Sauna.

Uma das melhores faixas do álbum, a canção é uma cativante, atemporal e deliciosa italo-disco/funky disco/dance-pop que parece ter saído de uma sessão de gravação de Giorgio Moroder com Donna Summer, especialmente da que resultou no clássico Bad Girls. E isso é uma comparação celestial, pois estamos falando de uma das melhores canções da era disco.

Em Sauna, o grande mérito da produção é o primor da construção do instrumental, que demonstra um total domínio do material de inspiração devido ao resultado vintage, mas ainda soando moderno e encorpado. A composição é outro ponto altíssimo da canção, pois consegue fazer as mais deliciosas metáforas safadinhas sobre o desejo sexual, mantendo, porém, a elegância da Jessie intacta e graciosa. E a cantora entrega uma performance realmente inspirada, sexy e aveludada, em quase estado de graça.

Mesmo sem a repercussão que merece, Jessie Ware ainda continua no topo da sua força criativa.
nota: 8,5

3 de agosto de 2026

A História em Forma de Música

Danceteria
Madonna


Poucas canções já nascem com o peso da história já fazendo efeito na visão que as pessoas vão ter sobre elas. E apenas uma artista como a Madonna consegue fazer isso, como é o caso da já lendária Danceteria.

Melhor canção de Confessions II e da carreira da artista, especialmente da sua fase madura, o single é um daqueles momentos em que as pessoas que talvez não entendam a importância da artista podem ter essa visão em apenas uma única música. Nomeada devido à boate que a cantora frequentava no começo da carreira e que é basicamente o local onde a mesma ganhou as suas bases artísticas e, também, de vida, Danceteria narra uma noite comum no local em que a artista vai encontrando nomes que fizeram e/ou fazem parte da sua vida e carreira.

É basicamente um quem é quem da cena criativa pop/eletrônica da época, que também é a base de parte significativa da música e das artes em geral. O grande toque de mestre é a maneira divertida, graciosa e fluida como a letra é construída, pois é como se fosse quase uma conversa em que a Madonna apenas narra, com um “interlude” do refrão, criando uma estrutura espetacular e fluida que encapsula a intenção lírica e, claro, a produção de uma vez só. E é aqui que está o melhor momento vocal da Madonna, pois a maneira como entoa os versos em uma mistura de fala e rap funciona genialmente, sendo contrabalanceada pela parte cantada em um refrão extraordinário. Sonoramente, Danceteria é uma irresistível e viciante diva house com dance-pop, nu-disco e french house que arremata tudo como um laço dourado cravejado de brilhantes.

E, queridos leitores, isso é história de verdade vinda de quem continua a fazer história.
nota: 9

A Balada da Slayyyter

brand new chanel$
Slayyyter


Parece que a Slayyyter vem ocupando o posto que antes era da Charli XCX ao ser a nova “diva do pop/indie eletrônico fora do mainstream”. Depois do sucesso de crítica de Worst Girl in America, a cantora já prepara o seu sucessor/trabalho-irmão intitulado Worst Man in America. Como primeiro single foi lançada a sensacional brand new chanel$.

Apesar de manter a mesma personalidade, a canção apresenta uma mudança perceptível na direção da sonoridade da artista ao seguir uma estrutura mais tradicional e menos experimental para a mistura de electropop/dance-pop com elementos de french house e EDM. E, sinceramente, isso é realmente muito interessante, pois o resultado é algo maduro, poderoso e inesperado que, ao mesmo tempo, casa muito bem com o que a gente espera da Slayyyter. É como se fosse a outra face de uma mesma moeda, mas que vale exatamente o mesmo, e é um valor bem alto.

Com um instrumental sensacional, o grande toque de mestre da produção é o sample da canção Beat Up Chanels, que dá a cola ideal para selar o recente passado da artista com esse atual presente. Outro grande destaque da canção é a sensacional presença da Slayyyter, que deixa de lado efeitos vocais estilizados e entrega uma performance mais natural, deixando a gente perceber de fato a extensão da sua voz e seu poder, mantendo, claro, a sua personalidade bem intacta. A canção também funciona quase como uma balada na visão da artista, pois a pungente e honesta composição de brand new chanel$ fala abertamente dos seus sentimentos quando descobriu uma traição do ex-namorado um dia antes de lançar o álbum anterior.

Mais um grande momento da carreira da Slayyyter, que parece estar apenas começando.
nota: 8,5