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7 de setembro de 2025

A Evolução Urias

Deus
Urias & Criolo


Começando a divulgação do seu próximo álbum (CARRANCA), Urias lança como primeiro single a sensacional Deus, ao lado de Criolo, mostrando que sua nova era promete ser a sua elevação artística definitiva.

Já com uma sólida discografia, a cantora dá aqui um passo importante e nítido para chegar a um patamar ainda mais alto. Isso se deve à incrível construção da canção, que consegue ser a continuação do que ela mesma já entregou e, ao mesmo tempo, uma versão mais madura e refinada, resultando em uma estilosa, potente, única e magistral mistura de art pop, afrobeats, post-industrial, hip hop, latin pop, hard rap e música tradicional brasileira. Esse caldeirão poderia facilmente ter dado errado, mas, felizmente, Deus tem uma produção que não apenas liga perfeitamente os pontos como também funde todas essas influências de maneira irretocável e, em diversos momentos, sinceramente brilhante.

Os dois principais momentos ficam por conta do uso inteligentíssimo do sample de Soca Pilão, da lendária Inezita Barroso, que dá a excêntrica e marcante base da canção, e da quebra de expectativa com a ponte entoada em um instrumental acústico por Urias. É interessante notar que, na verdade, Deus poderia ser uma canção com ainda mais substância, já que sua sólida base “aguentaria” novas camadas sem perder qualidade ou soar excessiva. Mesmo sem alcançar grandes notas, Urias entrega uma performance avassaladora, sabendo usar seus atributos da melhor maneira possível e ainda demonstrando uma versatilidade ímpar.

A participação de Criolo poderia ser mais substancial, mas sua presença ainda é outro ponto auspicioso para a canção. Liricamente, a faixa é forte, urgente e ácida ao abordar o apagamento da cultura e religião dos povos africanos durante o período colonial — ainda que pudesse ser, tecnicamente, mais refinada em certos momentos. Todavia, esses pequenos problemas não impedem que Deus seja, com todo louvor, uma das melhores canções brasileiras de 2025.
nota: 8,5

19 de janeiro de 2025

Resistência Sonora

DEUS EX MACHINA
Jup do Bairro, Urias & Erika Hilton


Música também é arma de resistência quando só da existência dos artistas envolvidos já é um ato de resistência. E é esse o grande trunfo da sensacional DEUS EX MACHINA.

Canção da rapper Jup do Bairro com a presença da cantora Urias e da deputada federal Erika Hilton, o trabalho é uma celebração da existência, da luta e da força de travestis e pessoas trans. Poderosa e invocadora, a composição de DEUS EX MACHINA mostra uma força emocional tocante e descomunal, pois é uma crônica/manifesto pela vida dessas pessoas que ainda estão na margem da sociedade. Todavia, a canção nem precisaria ser sobre isso para ser um ato de resistência, pois apenas pela presença de todas envolvidas já é suficiente para ser exatamente esse manifesto. Felizmente, a canção não se destaque pela sua substancia, mas, também pela sua estética ao ser uma grandiosa, estilizada e ousada electropop/eletrônica/alternativa que conta coma presença de três nomes de carisma único com a descomunal performance da Jub, o toque delicioso da Urias e a oratória de ouro da Erika. Uma música que é maior que a sua própria existência. 
nota: 8

24 de novembro de 2024

2 por 1 - Empress Of

Galina
Allie X & Empress Of


Feminine - Maffalda Remix
Urias & Empress Of

Curioso ver que das melhores canções remixes de 2024 existem duas que tem a presença da Empress Of, sendo uma dela (Feminine) e outra que é convida (Galina).

Entre as duas canções, a melhor é a versão de Galina da Allie X, pois a canção original é a melhor entre as originais também, sendo um dos melhores momentos de Girl With No Face. Nessa versão não existe uma mudança drástica sonoramente ao continuar sendo um irresistível synth-pop/dance-pop com toques de post-disco, apesar de algumas alterações aqui e ali, mas existe um trabalho de integrar a presença da Empress Of de maneira a fazer a sua participação realmente ser justificável e, principalmente, ser natural. E isso acontece especialmente devido a maneira que a canção é reconstruída como um dueto verdadeiro e, não, apenas a adição de um verso solto. Essa decisão é o que faz Feminine perder da força ao seu final. Com a produção do DJ brasileiro Maffalda, a canção ganha um verniz mais remix ao ter adicionado uma camada de farofada que funciona até melhor que o esperado que combina bem com a versão original. O problema da canção que não a faz ser ainda mais interessante é que a presença da Urias é literalmente renega a um ótimo e breve refrão que adiciona personalidade para a canção ao mostrar a força da artista brasileira em toda a sua glória. Entretanto, a falta de uma maior participação da Urias deixa aquele gosto de quero mais que a canção poderia ser um acerto ainda maior, mas termina sendo apenas bom. Todavia, isso é mais do que podemos dizer de várias canções remixes que são lançadas. E isso já está ótimo.
notas
Galina: 8
Feminine - Maffalda Remix: 7,5

12 de abril de 2021

Versatilidade Rara

Foi Mal
Urias

O que falta para as estrelas pop brasileiras? Várias coisas poderiam ser citadas, mas acredito que a maior delas falta é versatilidade para poder caminhar entre estilos sem precisar perder a sua essência. Esse não é caso da Urias que entrega a surpreendente Foi Mal, segundo single do seu primeiro álbum.

Completamente diferente de Racha, Foi Mal é uma romântica e mid-tempo mistura de synth-pop com indie rock que parece emoldurar uma atmosfera anos oitenta da música brasileira. Apesar de soar estranha no começo, a canção vai conquistando devido a sua magistral construção instrumental que consegue equilibrar todas as referências de forma poética e madura em um instrumental robusto. Devo admitir que apesar de gostar bastante do resultado ainda noto alguns errinhos que poderiam ser melhor elaborados como, por exemplo, a produção vocal um pouco equivocada e a composição que poderia ser mais substancial. De qualquer forma, Urias mostra como uma artista pop pode e deve quebrar expectativas sem perder a essência de forma estilosa e exemplar.
nota: 7,5

13 de janeiro de 2021

Antes Tarde do Que Nunca - Versão Single

Diaba
Urias


Para começar esse especial em 2021 resolvi escolher uma canção que não necessariamente faz parte de uma lista de grandes músicas pop de um passado mais distante. Lançada em meados de 2019, Diaba da cantora Urias é o tipo de trabalho que fez um burburinho bastante nichado, mas que ganhou o reconhecimento merecido por aqueles que a conheceram. E é por isso que a mesma está aqui, pois Diaba precisa ser reconhecida por mais gente por ser um dos melhores trabalhos da música brasileira dos últimos tempos. 

Explosiva do começo ao fim, Diaba é uma excitante mistura de electropop, trap, indie pop e alternativo que criar uma verdadeiro porrada sonora que parece transpirar raiva em uma batida frenética, poderosa e raivosa. A produção da canção injeta doses altas de camada sonoras, nuances ousadas e referências preciosas para elaborar uma canção complexa e de uma riqueza instrumental impressionante para os padrões do atual cenário pop brasileiro. Esse cuidado e inteligência em construir algo tão impactante é necessário no instante que Diaba é sobre a forma que é preciso por pessoas trans em viverem na nossa sociedade. Colocadas na margem, renegadas aos direitos mais simples e marginalizadas de diversas formas, as pessoas trans são verdadeiros sobreviventes em um país que mata essa comunidade. E é por isso que os versos de Diaba cantados por uma mulher trans tem tanto impacto como um soco na cara: 

Sua lei me tornou ilegal 
Me chamaram de suja, louca e sem moral 
Vão ter que me engolir por bem ou por mal 
Agora que eu atingi escala mundial 

Combinando uma sinceridade crua, um tom de urgência aterrorizador e uma força cavalar, a letra Diaba é um trabalho que parece unir perfeitamente o lado intelectual com o lado comercial ao ser de fácil assimilação e com uma linguagem descomplicada. Entregando uma performance certeira e com uma personalidade ímpar ao misturar estilos diversos, Urias fica os seus dois pés no alicerce dessa geração de artistas queers que vieram para mudar a cara da música brasileira com o mesmo pé na porta que é o poder de Diaba. E que assim seja. 
nota: 8,5

6 de dezembro de 2020

Encontros Triunfantes

Vênus Em Escorpião
Gaby Amarantos & Ney Matogrosso & Urias

De tempos em tempos sempre aparece uma parceria entre artistas que a gente coça a cabeça e se pergunta: “como isso foi acontecer?”. A mais nova a entrar nessa categoria é a união da Gaby Amarantos, a novata Urias e a lenda Ney Matogrosso em Vênus Em Escorpião. Felizmente, depois de ouvir a canção o ponto de interrogação na cabeça se torna um maravilhoso ponto de exclamação de felicidade. 

Vênus Em Escorpião é uma surpreendente mistura de tecnobrega, tecnomelody, electropop e dance pop que na teoria não deveria funcionar. Na prática, porém, o resultado é uma excitante, classuda e ousada canção que consegue conquistar aqueles que podem ter algum tipo de problema com estilos nacionais, não apenas pela inclusão de gêneros gringos, mas, principalmente, devido a inteligência na produção em valorizar a sua brasilidade. Entretanto, o que dá liga de verdade para a canção são as presenças magistrais dos três envolvidos, mostrando uma química perfeita, ótima divisão e personalidade individual. Em especial, ouvir a força vocal de Ney é algo que as novas gerações deveriam descobrir. O único problema da canção é a sua composição que apesar de carismática e bem pensada faltou encorpar com mais versos diferentes. De qualquer forma, Vênus Em Escorpião prova que até mesmo os encontros improváveis podem ser grandes momentos quando há talento envolvido. 
nota: 8

Híbrido Brazuca

Racha
Urias


Elevada a ser uma das divas da música queer alternativa no Brasil, a cantora Urias é, provavelmente, um dos nomes mais peculiares da nova safra do pop brasileiro. Depois do sucesso da emblemática de Diaba no  ano passado, a cantora lançou a interessante Racha que comprova essa áurea de nova diva alternativa pop em uma canção explosiva. 

Definir a sonoridade da cantora e, por consequência, do single é necessário usar a imaginação ao criar um híbrido entre a Charli XCX com a DJ Sophie e toques da FKA Twigs com um verniz bem brasileiro. Racha é um indie pop com pinceladas de industrial, trap e electropop que apresenta uma produção madura, encorpada e surpreendentemente cheia de nuances que, normalmente, o pop brasileiro não está acostumado a presenciar. Energética, sombria e com uma batida pesadona, o single passa longe do popular e radiofônico da Pabllo Vittar (curiosidade: ambas são amigas de longa data). Isso não tira nenhum mérito da canção ou de Urias, pois ajuda a artista a ter personalidade única como fica claro na maneira de cantar Racha, misturando rap, declamar com cantar em si. Liricamente, a canção poderia ter mais força, mas a construção aqui é simples, direta e poderosa que combina muito bem com a produção. E que assim vai crescendo o alcance e variedade de artistas queers a alcançarem lugares que são seus de direito. 
nota: 8