2 de setembro de 2026

Primeira Impressão

Oh yeah?
Steve Lacy



Terceiro álbum da carreira do Steve Lacy, Oh yeah? é claramente o seu melhor momento até o momento. É preciso dizer que o álbum também está meio longe do que o potencial do artista pode entregar, mas é fácil notar que todos os elementos estão bem dispostos e no caminho certo.

Dono de uma sonoridade bem distinta, ao misturar neo-soul, R&B alternativo, indie rock, alt-pop, psicodelia e bedroom pop, o resultado é uma pegada vigorosa, madura e sempre muito bem pensada. Entretanto, o problema da produção, que tem o cantor como o principal condutor, é nunca dar exatamente um próximo passo sonoramente. Ouvir Oh yeah? é entender perfeitamente a personalidade artística de Steve, mas sem nunca sentir que estamos diante de algo que faça a gente chegar a se impressionar de uma maneira definitiva. E acredito que isso seja devido às próprias amarras criadas pela condução do álbum, que estabelece todas as matrizes-base do que o Steve deve soar, sem nunca, porém, procurar novas saídas ou adicionar novas camadas para o que já está estabelecido. Não é nem uma questão de ousar ou experimentar, mas, sim, de explorar mais a fundo o que o mesmo já tem em mãos.

Todavia, isso não quer dizer que o artista não entregue um trabalho que faz a gente se impressionar com o seu talento. Como já apontado, o álbum é o seu melhor devido ao refinamento sonoro que o mesmo encontra aqui e como tudo está no seu lugar, de maneira a formar um álbum fluido, cativante e de uma inteligência criativa bem apurada. Cativante desde os primeiros momentos, o trabalho faz a gente ser, aos poucos e de maneira quase irredutível, sugado para a sua aura “cool”, especialmente quando um dos vórtices disso é a presença da ótima The Feeling, que é “um inteligente, maduro e sedoso neo-soul com adições bem azeitadas de R&B alternativo e bedroom pop que funciona principalmente devido à construção de uma atmosfera densa, melancólica e bastante climática. Apesar de um pouco linear demais no instrumental, a canção realmente cria essa presença sonora envolvente que vai aos poucos sugando a gente para uma espécie de vórtice da canção”.

Outro ponto muito positivo para Oh yeah? é o fato de ser um trabalho que não tem medo de explorar o íntimo de Steve, especialmente temas ligados à sua sexualidade. Assumidamente bissexual, o cantor faz crônicas pessoais sobre amor e sexo, em que o mesmo expõe pensamentos bem complexos sobre si mesmo e como as pessoas o veem, de uma maneira honesta e meio sinceríssima, como, por exemplo, a sua própria noção sobre seu comportamento em relacionamentos e como, atualmente, tem “preferido” se relacionar com homens. De maneira geral, os trabalhos são muito bem arrematados liricamente, o que reflete bem a persona de Steve, que fala de assuntos complexos sem nunca perder a aura descolada, como, por exemplo, em lovesexdrugbomb, com a presença da cantora Cecile Believe, sobre começar a entender que a imaturidade faz a gente perder grandes chances no amor.

Apesar de um álbum bem fluido, em que todas as faixas estão meio que no mesmo nível, a canção nice shoes / in your world é disparada a melhor do trabalho e, possivelmente, a melhor da sua carreira, ao explorar muito bem todas as possibilidades em um instrumental espetacular. Outros momentos de destaque do álbum ficam por conta da simpática parceria com SZA na boa is it cool? e da presença inspirada de uma guitarra na condução da sólida doom, que tem os melhores versos do álbum: “Just got a word, I heard I'm a bit shitty/ Damn, what a pity, but I smell so pretty”.

Em Oh yeah? é fácil notar o talento de Steve Lacy. Só falta o artista encontrar e terminar de encaixar algumas peças para a sua consagração definitiva.

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