FLO
Entre todos os atuais girl groups de destaque, é indiscutível que o britânico FLO tem, disparado, a melhor discografia, mas, infelizmente, é também um dos menos valorizados comercialmente. E isso é completamente injusto, pois o grupo entrega em THERAPY AT THE CLUB não apenas um bom álbum como, também, um trabalho comercialmente promissor.
Segundo álbum da carreira do trio, o trabalho ajuda a consolidar sua sonoridade ao estabelecê-las como “crias” do R&B dos anos noventa/começo dos anos 2000, facilmente associáveis a nomes como En Vogue, TLC, SWV e, claro, Destiny’s Child. Misturando dance-pop, hip hop e pop soul, a produção consegue criar uma sonoridade incrivelmente nostálgica e, ao mesmo tempo, moderna na medida certa, sem qualquer sensação de um trabalho datado com cheiro de naftalina. Além disso, existe um claro cuidado em dar uma personalidade própria ao trio, mesmo que isso não seja exatamente algo realmente novo. Na verdade, a construção da persona da FLO é um remendado de outras personas que, felizmente, termina sendo muito bem moldado pela força e pelo talento de cada integrante e pela inteligência da produção.
Essa inteligência não está apenas na elaboração sonora, mas também na construção instrumental dada a cada faixa. É um trabalho em que fica evidente o respeito pelo material de referência e, principalmente, pelo material humano envolvido, que, nesse caso, são as integrantes do FLO. As jovens não são deixadas a ver navios e conseguem, durante quase todo o álbum, trabalhar com um material à altura do potencial do grupo. Um dos melhores exemplos disso é a ótima Leak It, que deveria ser um sucesso mundial:
“Enquanto outras artistas tentam fazer algo que seja divertido, dançante e icônico, o FLO entrega, em uma bandeja, exatamente o tipo de música que deveria virar um grande viral. Uma mistura azeitada e carismática de dance-pop, R&B, crank e electropop que deixa claro que é preciso mais do que uma estética chamativa para fazer esse tipo de canção funcionar, pois Leak It tem uma produção madura, criativa, divertida e que entende bem todos os elementos dessa mistura para que ela funcione perfeitamente”.
Outro ponto importante é que o álbum possui influências bem definidas, mas consegue navegar por várias vertentes do R&B de maneira fluida e confiante, dando dinâmica ao resultado final. Em Remedied, por exemplo, temos uma pegada mais pop/dançante com toques de funk/soul, que usa lindamente o sample de Ain't No Other Man, da Christina Aguilera, na construção da batida, para depois utilizar de maneira ainda mais suculenta o sample de Pump Up the Jam, do Technotronic, em Pose, mergulhando no electro-hop e rap com a boa participação do rapper Juicy J.
Todavia, existe uma qualidade de THERAPY AT THE CLUB que é responsável por boa parte da força do álbum: as integrantes do FLO.
Stella, Jorja e Renée são cantoras com personalidades e vozes distintas, mas não totalmente opostas, que, quando se juntam, criam uma verdadeira magia devido à química e, principalmente, à harmonização sensacional. Não importa a canção, as três entregam vocais sempre muito acima da média, ressaltando suas qualidades de maneira clara e muito bem produzida. Outra grandíssima qualidade é a divisão de “espaço” entre as três integrantes. Nenhuma é ofuscada, mas também nenhuma é elevada ao patamar de ser a “Beyoncé” do grupo. Todas têm basicamente o mesmo destaque, criando uma sinergia perfeita que ajuda a elevar o material.
Entretanto, assim como os artistas que serviram de referência para a construção da sonoridade, THERAPY AT THE CLUB também erra ao apresentar muitos fillers, que desaceleram sua fluidez e criam alguns bolsões aqui e ali. Não são canções ruins de maneira geral, e, sim, menos inspiradas que os melhores momentos do álbum. Acredito que uma tracklist editada de 10/11 faixas daria conta de resolver boa parte desse problema. Outro ponto, mais pessoal, é que o álbum não tem uma baladona romântica, mesmo tendo algumas “baladinhas”. Isso poderia ser facilmente resolvido com uma faixa inspirada na Brandy ou Toni Braxton.
Entre os momentos que precisam ser citados como destaques estão Don’t Break Her Heart, que é “prima em primeiro grau da canção Girl, das Destiny’s Child, pois as duas canções falam sobre amizade feminina e a união contra um “boy lixo” que está fazendo mal a uma amiga”; a deliciosa influência do hip hop em I can’t be high around you anymore; a inspirada abertura Side Effects; e, por fim, a dramática e melancólica Cry Ugly.
Em THERAPY AT THE CLUB, o FLO entrega tudo o que promete em um álbum que deveria ser melhor apreciado comercialmente e que poderia se tornar um dos maiores sucessos de 2026.


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