4 de setembro de 2026

Primeira Impressão

Cry Baby
Vince Staples




Tenho a impressão de que o rap vive uma crise criativa já tem algum tempo e que, tirando alguns nomes, o resto vive na mediocridade criativa, especialmente dentro daqueles que estão no mainstream americano. Todavia, quando a gente olha um pouco para o limite entre o comercial e o alternativo/independente/não comercial, podemos encontrar algumas boas surpresas. E esse é o caso do rapper Vince Staples, que entrega em Cry Baby um dos melhores trabalhos do ano.

A primeira coisa que a gente precisa saber sobre o álbum é que estamos diante de um trabalho com uma temática política que não tem medo de apontar dedos ou jogar sal na ferida. E, sinceramente, isso é algo realmente muito refrescante, pois mostra a total consciência de Vince de uma forma que faz a gente lembrar o quanto poderosa pode ser a música como veículo de manifesto, crítica, reflexão e denúncia em um mundo cada vez mais insano. A grande qualidade das composições em Cry Baby é que, em nenhum momento, o trabalho termina soando como indulgente ou pretensioso, mas também passa longe do simplismo estético ou de construções baseadas em clichês e frases feitas.

Vince e os colaboradores têm uma forma de escrever limpa e refinada, com uma estruturação impressionante devido à maneira como as letras expressam sentimentos e situações complexas sem pesar a mão nas construções metafóricas, sendo desconcertantes de tão diretas que terminam. Também passam longe de serem redutivas, pois estabelecem conexões realmente complexas tematicamente, já que dialogam com várias ideias e diferentes problemas sociais, partindo sempre da visão de um homem negro em nossa sociedade. Todavia, Vince vai além de discutir com genialidade sobre racismo, pois Cry Baby ataca outros assuntos adjacentes, como, por exemplo, o uso da mídia para controle da população (a hipnótica TV Guide) e o poder governamental na construção do sonho americano (Only In America).

Obviamente, nada do que Vince fala é novidade ou algo que não tenha sido já discutido antes em trabalhos de outros artistas. Entretanto, o rapper consegue encontrar o seu lugar de fala devido à qualidade lírica e, também, à qualidade de produção, que caminha em uma trilha de unir o rap a outro gênero que historicamente foi usado para trabalhar com esse tipo de temática: o rock. Cry Baby é um arriscado, mas com um acabamento impecável, trabalho de rap rock que navega tranquilo em referências e influências como post-punk, West Coast hip hop, funk rap e punk rap. Não existe nada revolucionário sonoramente em Cry Baby, mas o trunfo da produção é entender perfeitamente suas ideias e os gêneros que usa como base para criar uma sonoridade que é a melhor visão da fusão de todos os elementos de uma maneira honesta, vigorosa e excitante.

Em The Big Bad Wolf, o álbum explora a influência dos Beastie Boys, com um riff de guitarra que lembra o Red Hot Chili Peppers, em uma canção que demonstra toda a frustração e raiva de Vince com o status quo. A batida quase descontraída da construção de Go! Go! Gorilla contrasta com a sua pungente e urgente composição, que trata diretamente da violência policial direcionada à comunidade negra.

O melhor momento do álbum, porém, vem logo no começo, na genial Blackberry Marmalade, que é um retrato complexo e profundo sobre a experiência das pessoas negras nos Estados Unidos, abordando temas como violência policial e apropriação cultural da cultura negra. Outros momentos que também precisam ser citados são a interessantíssima White Flag, sobre o peso dos problemas sociais no amor e o que isso pode causar, e, finalizando o álbum, 7 In The Morning termina de maneira soturna ao tratar sobre o peso da guerra.

Cry Baby não é um álbum para todos, pois passa longe de qualquer porto seguro daqueles que estão acostumados com o atual cenário do rap. Felizmente, Vince Staples faz música para mostrar que ainda há muito que o gênero pode fazer e o que tem para dizer para quem quer realmente escutar.


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