Miley
Agora despida do sobrenome Cyrus, Miley chega ao seu décimo álbum da carreira em Bass Persuades, em que está completamente consolidada dentro do panteão da música pop como uma das maiores desse século. Todavia, o álbum também é um trabalho que mostra o atual cenário artístico da sua carreira: uma encruzilhada.
No ano passado, a cantora lançou Something Beautiful que, sinceramente, é para mim disparado o seu melhor e mais maduro álbum na carreira. Sobre o trabalho, afirmei que é uma obra de grande preciosidade, que certamente será redescoberta e reavaliada ao longo dos anos, e continuo apostando exatamente nisso.
Só que o álbum foi um desastre de vendas e nenhum dos singles foi particularmente bem nas paradas. Ainda mais comparado com o sucesso do álbum anterior, Endless Summer Vacation, e, claro, o mega hit de Flowers. Então, quando a cantora anunciou o novo trabalho, imaginei que o mesmo seria para recuperar o sucesso comercial, especialmente depois do lançamento do primeiro e homônimo single. Entretanto, algo parece não ter conectado e Miley parece estar bem longe do sucesso nas paradas, mesmo com o bom recebimento da canção. E a situação se agrava com o lançamento do álbum.
Claro, a morte da madrinha Dolly Parton ajuda a gente a entender o motivo para que a divulgação não esteja tão forte como poderia ser, mas o grande motivo do baque na percepção é que Bass Persuades é um álbum com uma grande falha: não tem personalidade. Na verdade, não é que falte em si, mas, sim, que parece presa em uma tentativa de ficar no meio-termo entre a parte artística de Something Beautiful e a sonoridade comercial de Endless Summer Vacation, sem alcançar em quase nenhum momento uma mistura coesa, uniforme e bem feita entre essas duas referências. E isso é uma pedra que dá uma boa afundada em um álbum que poderia ser uma pérola pop.
Com uma sonoridade pop/soft rock/dance-pop, a produção emoldura a mesma vibe dos trabalhos anteriores, mas em nenhum momento consegue fazê-los fundir de uma maneira que pudesse tirar apenas o melhor de cada um e uni-los em algo realmente excitante. Ouvir Bass Persuades é como ouvir uma colcha de retalhos inacabada e à qual ainda faltam pedaços, apesar de tecnicamente ser esmerado e de ter vários momentos em que dá para ver claramente a ideia realmente ser concretizada. Todavia, essa colcha se mostra sem tecido suficiente para ser algo de encher os olhos completamente e, claramente, faltaram muitos pedaços que fazem toda a diferença. Além disso, como apontei antes, há a falta de apuramento na construção da personalidade sonora, deixando o álbum com a sensação de ser a história de duas Mileys que parecem bater de frente e nunca se entenderem. E o que salva realmente é que, quando o álbum dá certo, o trabalho dá certo de verdade, mesmo não sendo tão inspirado.
E uma dessas canções é a que dá nome ao álbum e foi o primeiro single, Bass Persuades, pois a produção deixa claro que essa é uma Miley pop, mas é um pop maduro e muito bem pensado. Talvez a produção não acerte ao não dar para a parte final algo mais grandioso, deixando o clímax final meio linear, sendo que poderia ser algo realmente épico. Isso não é um grande problema, pois a canção funciona de maneira bem azeitada e com o fator chiclete que vai grudando aos poucos. Em seguida, o álbum dá uma certa guinada em Different Religion, mas que funciona devido à produção refinadíssima ao construir a mais experimental das faixas, mas com um certo verniz comercial para um público mais contemporâneo, na dance-pop com traços interessantes de EDM e industrial, que também conta com a participação inspirada da banda Model/Actriz, que assina a coprodução da canção.
O álbum continua menos experimental e apostando em uma pop rock mais redonda e tradicional, mas que, sinceramente, funciona devido à boa condução e, claro, à presença madura, cativante e versátil da Miley, que não podemos negar que, como vocalista/performer, continua nos seus melhores momentos, e isso ajuda o álbum ao final das contas. A baladinha pop rock/dream pop Let's Get Married funciona devido à sua simplicidade tocante e sua aura romântica e sonhadora. Por fim, o último destaque do álbum é logo em seguida, com a melancólica e dramática balada folk pop/rock com elementos de dream pop Orbit, em que a cantora entrega a sua melhor performance vocal do álbum. Depois dessa faixa, as canções que se seguem não saem do lugar devido a caírem precisamente nos defeitos citados do álbum, indo cada vez mais nessa direção até finalizar inexplicavelmente com um remix descartável de Bass Persuades.
Mesmo não sendo um desastre, o álbum é um trabalho que fica aquém do real potencial da Miley que, sinceramente, deveria estar, nesse momento da carreira, entregando um grande álbum atrás do outro.


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