Phoebe Bridgers
Lost Weekend, terceiro álbum da carreira da Phoebe Bridgers, é um trabalho espetacular que consegue manter a essência da artista e ainda mostra um amadurecimento incontestável. Todavia, o álbum poderia ser ainda melhor se não fosse uma questão estrutural.
Após seis anos de hiato solo, já que seu último álbum foi lançado em 2020 (o excepcional Punisher), a cantora entrega um trabalho que está à altura do hype da espera ao refinar ainda mais a sua já incrível persona artística. É interessante notar que, para isso, a artista expandiu seu ciclo de colaboradores ao adicionar Alexander Giannascoli e, onipresente, Jack Antonoff como produtores, mas ainda continuou com os dois nomes do álbum anterior, nas figuras de Ethan Gruska e Tony Berg, além da sua própria presença na produção.
Essa decisão poderia facilmente quebrar certas expectativas, tanto de maneira dramática quanto decepcionante, mas, felizmente, o resultado é claramente uma continuação com clara evolução sonora, em que podemos ouvir o seu indie folk/pop/rock sendo lapidado de uma forma que apenas aprofunda e refina o que já era algo elevadíssimo, criando novas camadas com texturas vindas do eletrônico, americana, ambient pop, entre outros. O problema que impede Lost Weekend de ser ainda melhor é algo como colocar uma viga no local errado de uma construção de prédio.
A partir da metade do álbum, as escolhas de “localização” das faixas se tornam uma decisão que dá uma brecada na construção emocional e sonora que a primeira metade desenvolve perfeitamente. E isso é devido à presença de quatro faixas que se tornam algo como interludes/intros, que têm tamanho reduzido e uma finalização menos impactante que os outros trabalhos. Não são de maneira nenhuma ruins ou mesmo medianas, mas, sim, trabalhos menores que cortam a fluidez do álbum. Talvez colocá-las mais espalhadas ou tirar uma ou duas poderia facilmente resolver esse problema. Ainda mais quando estamos diante de algumas canções realmente extraordinárias, especialmente quando a gente nota que Phoebe veio com a faca nos dentes, liricamente falando.
Sempre fui admirador da compositora Phoebe Bridgers devido à maneira devastadoramente crua, honesta e poética com que a mesma se abre emocionalmente em suas canções, criando crônicas pungentes, cativantes e de uma inteligência aguçada e fora dos padrões. E, novamente, a artista repete esse caminho, mas aqui temos uma Phoebe mais “raivosa”, especialmente quando a mesma decide falar abertamente de relacionamentos anteriores e não tem medo de deixar bem claro sobre quem. Tente pensar em uma versão da Taylor Swift sem ter nada de pedante ou irritante, sem autopiedade ou cringe. Então, o que temos é uma lírica devastadora, inteligente, cativante, sentimental, madura e que dá tapas com luva de pelica sem soar nada como algo vingativo e, claro, sem tentar soar como vítima ou coisa parecida.
E uma das melhores letras do álbum é vista na delicada e melancólica The Governor's Waltz, em que a cantora narra o distanciamento do fim do relacionamento com o então namorado, o ator Paul Mescal, assim como a maneira como lidou com o novo relacionamento dele, com a também cantora Gracie Abrams. Quando estava ouvindo a canção pela primeira vez, a minha primeira reação foi parecida com a de estar ouvindo uma fofoca “suculenta” que, sinceramente, fiquei até de boca caída ao ouvir o “bafão”. Todavia, ao prestar mais atenção, a maneira como a canção é escrita não tem nada de polêmica, tirando o fato de ser com pessoas famosas, pois é construída de maneira que fica claro ser uma reflexão intimista de uma pessoa falando sobre a sua vida que, por acaso, é uma cantora escrevendo uma canção. Além disso, a canção tem os melhores primeiros versos de uma canção em 2026 quando manda essa canetada: “I was the belle of the Governors Ball/Hiding in the bathroom like Shelley Duvall”.
Só que Phoebe não para por aí em fazer a sua expiação de ex-namorados, pois logo em seguida a cantora manda a sensacional Bobby, em que dá uma aumentada na raiva em um poderoso indie rock/folk para relatar a sua decepção com o relacionamento com o ator/comediante Bo Burnham. Apesar das grandes qualidades nas canções citadas, o grande momento do álbum é Kill Me, ao ser uma devastadora, emocional e poderosa crônica sobre como a mesma se sente em relação ao mundo ao redor, incluindo fatores externos como política e a sociedade e fatores pessoais como, por exemplo, suas amizades e como a mesma se relaciona com a sua própria imagem. É uma letra simples, mas funciona como um soco no estômago.
Outras faixas que merecem destaque são a demolidora abertura em The Outside, que narra sobre como a vida continua mesmo depois de uma perda; a delicada e sonhadora indie folk Haunted e, por fim, a acachapante Still Standing, que retoma o tema sobre perda, mas dessa vez mais diretamente sobre a sua relação com a morte do seu pai abusivo.
Lost Weekend pode até perder alguns pontos devido a uma decisão meio crucial na sua construção, mas, felizmente, nada afeta o brilhantismo e o talento da Phoebe Bridgers em um trabalho admirável.


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