ADÉLA
Quem é a Adéla? Da maneira mais direta, a resposta é: uma cantora eslovaca que foi a primeira eliminada do reality musical que formou o girl group Katseye, mas que, ao seguir a carreira independente, foi notada por uma grande gravadora e agora lança seu primeiro álbum, o aguardado Prima. Todavia, se a gente tenta buscar essa resposta artisticamente, ainda fica difícil descobrir a resposta, ainda mais depois de ouvir o seu álbum de estreia.
A gente nunca espera de fato que, em um primeiro álbum, será o momento em que veremos de maneira total quem é um artista, mesmo que vários tenham entregado debuts realmente incríveis e que mostravam muito bem suas personas artísticas. Todavia, a gente espera que as peças estejam, de certa maneira, dispostas no trabalho que serve como a introdução desse artista ao mundo, mostrando de maneira sólida a sua força artística. Em Prima, o resultado final tem relances de quem é e de quem pode se tornar a Adéla, mas o problema é que não temos nenhuma visão realmente clara e concreta do que realmente estamos diante. E boa parte disso vem da interessante, mas completamente irregular produção, que nunca dá para a cantora uma base que seja forte o suficiente para que a mesma possa se apresentar de maneira definitiva.
Apesar de outros nomes em algumas faixas, a condução geral de Prima é feita por Blake Slatkin e Dylan Brady, que dão para o álbum uma sonoridade bem modelada, que mistura primordialmente pop/alt-pop com R&B, criando um trabalho coeso e limpo do começo ao fim. Essa característica é boa, pois faz a gente “curtir” o álbum de maneira sem grandes tropeços, em que podemos ouvi-lo em uma única “sentada”. Entretanto, como apontado anteriormente, a produção também não consegue modelar, nessa decisão sonora, uma persona que seja forte o suficiente para que a Adéla possa expressar quem é, de maneira a estabelecer a cantora artisticamente. Faltou uma lapidação mais do que técnica e, sim, de entendimento sobre o potencial da artista e como melhor explorar e expressar isso, para que a sua sonoridade possa estar no mesmo nível.
Ouvir Prima é como assistir a um show em Copacabana, mas você estando vendo pela TV no Amazonas: a gente vê tudo que está passando sem realmente sentir a vibe e a atmosfera de quem está no meio da multidão. Felizmente, o álbum realmente contém momentos em que dá para ver os vislumbres de quem é e também de quem pode se tornar a Adéla. E os principais e mais excitantes momentos de Prima são os seus singles lançados previamente: KGB e Ain't In LA.
Em KGB, a produção entrega “uma batida marcada e com elementos bastante “over” na batida, mas, felizmente, sabem lindamente dosar para criar um equilíbrio bem delimitado com o lado mais digestível da canção. Dessa maneira, a canção se torna uma excêntrica, elétrica e explosiva mistura de eletropop, electro house e toques de ballroom e dance-pop, mas com um senso estético para agradar um grupo maior de ouvintes ao não ir com tudo nessas influências”. Já em Ain't In LA, é entregue “uma “esquisita”, grudenta, sexy, marcante e envolvente mistura de alt-pop, trap e synth-pop, Ain't In LA tem uma produção que sabe lindamente equilibrar elementos que poderiam facilmente se tornar irritantes, como, por exemplo, a voz modificada entoando o verso de introdução, que se torna quase um interlude ao longo da canção. Isso cria uma canção madura, mas com um frescor autêntico que faz a gente querer entender quem é Adéla”. Faltou, porém, o álbum como um todo mostrar a cantora de uma forma mais completa e decisiva para quem realmente se interessou pela artista.
Adéla, ainda meio crua e em desenvolvimento, faz um bom trabalho segurando o trabalho em performances que são, no mínimo, sólidas, sem nunca serem sensacionais ou ruins. Falta maturidade e, claro, um material melhor em mãos para que a jovem possa se desenvolver melhor como performer e possa se moldar, assim como a sua sonoridade. Tenho que dizer que, ouvindo Prima, a cantora me lembra um pouco a Sabrina Carpenter, que, claramente, foi amadurecendo ao longo dos anos até encontrar atualmente um lugar que seja a expressão da sua capacidade vocal. Então, acredito piamente que isso pode acontecer com a Adéla.
Outro momento que merece destaque é a sexy, referencial e divertida Nicole Kidman, que brinca com a imagem e a carreira da atriz para construir uma legal composição sobre autoconfiança e sedução e, por fim, Boys tem toques de influência bem-vinda da Britney Spears durante a era In the Zone.
Prima não é exatamente uma boa introdução para a Adéla, mas também passa longe de ser uma bomba. É como aquele aluno com potencial, mas que passa de ano no limite da média. Agora é esperar para saber se o potencial não vai ser desperdiçado.


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