16 de setembro de 2026

Primeira Impressão

Memórias Póstumas
Jão





O maior popstar masculino do Brasil é um homem e que ele é um homem “queer”, e isso é algo realmente de celebração. Todavia, eu consigo entender de onde vêm boa parte das críticas contra a carreira do Jão, mas, sinceramente, acho bastante exagerada a reação de parte do público, especialmente devido ao fato de que Memórias Póstumas é o melhor trabalho da carreira do cantor.

Quinto álbum da sua carreira e primeiro depois de uma pausa na carreira, o trabalho é, sem nenhuma dúvida, o mais maduro que o cantor já entregou até o momento, principalmente devido ao fato de sua sonoridade parecer estar encontrando um lugar para finalmente evoluir a sua visão do pop/pop rock com traços de MPB. E é aqui que começa uma das grandes críticas em relação ao artista, pois parte do público acha essa sonoridade insossa, sem criatividade e repetitiva. Na verdade, essas foram basicamente as mesmas conclusões que apontei na resenha de Super, que apontava que o trabalho era no “máximo morno, sem muita inspiração e repetitivo, mas bem feito e com certo charme devido ao Jão ser carismático”. Entretanto, não posso deixar de apontar que em Memórias Póstumas há lapsos do que pode ser, de verdade, a sonoridade do Jão quando todas as arestas forem aparadas e afinadas.

Acredito que o principal problema é o pretenciosismo que a produção exala do começo ao fim, pois é fácil notar que estamos diante de um álbum que quer ser muito mais inteligente e criativo do que realmente tem a capacidade artística de ser. E isso é uma pedra que fica puxando o álbum, especialmente quando a gente pensa que o mesmo vai decolar. Tenho que dizer que sinto que é uma pretensão sincera, que dá para dar um desconto aqui e ali, mas, independentemente, é algo que dá uma apagada no que poderia ser algo verdadeiramente honesto. O que dá uma boa elevada no contexto geral, e algo que é muito interessante, é a qualidade técnica do álbum.

Instrumentalmente falando, Memórias Póstumas é um trabalho impecável, robusto e bem construído do começo ao fim, deixando claro que existe talento real por trás. E isso dá uma base sólida para a sonoridade que, porém, não consegue ir muito além das próprias construções já estabelecidas para a persona do Jão. Só que ouvir uma canção com arranjamento tão bons deixa a sensação de estarmos diante de algo bem mais profundo e robusto de verdade, mesmo que seja só mais uma embalagem para a falta de um conteúdo mais aprimorado. E ainda tem o problema mais complicado: as composições.

Escritas pelo próprio ao lado de Pedro Tófani, que é seu namorado, as letras em Memórias Póstumas mantêm o tom que o artista já apresentou, mas se mostram mais amadurecidas. Isso, porém, não quer dizer que são exatamente melhores, pois Jão tem uma lírica até distinta, mas que vai costurando frases feitas, clichês, emoção genuína e uma clara pretensão irritante de querer ser a Marisa Monte. E isso não é algo que tenha como maquiar, pois a gente fica em uma montanha-russa de se sentir emocionado misturado com uma vergonha alheia alta e toques de entendimento, especialmente em quesito à temática.

Refletindo quase que por completo, o álbum é sobre o relacionamento dele com o Pedro, entre as idas e vindas e tudo no meio disso. Poderia ser até interessante, mas fica fazendo círculos e círculos e mais círculos sem chegar a nenhum lugar e ainda fazendo a gente ser levado para assistir de camarote. Acredito que Jão precisa de novas colaborações de compositores que possam introduzir novas ideias de como expressar os pensamentos do artista. Na esfera pessoal, eu aconselharia, sei lá, os dois abrirem o relacionamento, ou terminarem de vez, ou casarem, enfim, pois, honestamente, se esse vai e vem que é relatado aqui é totalmente real, acho que algo de certo não está nesse relacionamento. O que não posso apontar muitos defeitos é nas performances de Jão que, quando o mesmo encontra o equilíbrio perfeito, seu timbre contido e melancólico é realmente eficiente.

Como apontado anteriormente, o álbum tem bons momentos, apesar de esparsos e concentrados todos na primeira parte do álbum, pois é a sua segunda metade que faz o trabalho desandar devido a concentrar os momentos mais questionáveis e criticáveis. Esses momentos bons são: a boa abertura Catedral, sobre a morte do pai do Jão e suas reflexões emocionais; a sensual e quase dançante Aurora; a dramática Por Você e, por fim, a tocante e grandiosa Literatura.

Não, Memórias Póstumas não é o pior álbum do ano, mas também é um álbum bem abaixo do potencial verdadeiro do Jão. Quem sabe no futuro, né? Se até a Anitta achou seu caminho, então não é algo impossível de acontecer para o cantor.


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