MUNA
Algumas características de uma esfera são não ter vértices ou arestas e ter simetria perfeita. E é por isso que avalio Dancing On The Wall, quarto álbum da banda MUNA, como sendo uma verdadeira esfera.
Com produção de Naomi McPherson, integrante da banda, o álbum é um trabalho de synth-pop ornado com toques de electropop, alt-pop, dance-pop e pop rock, tão redondo que não apresenta pontas soltas ou mal aparadas e tem uma fluidez tão compacta que o torna exatamente uma esfera sonora. Não é perfeito, mas, sim, entrega perfeitamente o que se propõe, o que o torna um trabalho que termina de maneira cativante do começo ao fim. Claro, a escolha sonora ajuda, pois o trabalho busca influência da sonoridade dos anos oitenta e noventa. Todavia, a produção nunca peca por ser uma tentativa de cópia despudorada, mas, sim, uma referência para alcançar o que é pensado para o álbum. A sonoridade aqui não tem nada complexo sem ser simplista, misturando com uma vibe familiar e confortável, sem soar, porém, clichê ou estagnada. Dancing On The Wall é o tipo de álbum que tem uma visão clara sobre o que é e sobre o que entregar e faz isso de maneira exemplar, madura e com toque despretensioso, que torna tudo ainda mais delicioso.
Outro ponto importante que dá personalidade para o álbum é que o mesmo é despudoradamente queer. Na verdade, Dancing On The Wall é um álbum que pode ser designado como “feito de sapatonas para sapatonas, mas que todo mundo pode apreciar”. E isso é algo sensacional, pois dá para o trabalho a “ousadia” e personalidade para conseguir tirar qualquer resíduo negativo que seja um trabalho sem uma personalidade definida e genérico. Essa qualidade é que ajuda a elevar mais o álbum e encontrar um lugar original dentro da sua construção. Todavia, as canções no álbum não se destacam apenas pela temática, mas pela maneira refinada como são escritas, que conseguem terminar sendo trabalhos de uma estética pop na sua melhor forma. E o grande momento do álbum deixa muito bem clara essa qualidade na faixa que dá nome ao seu título: Dancing On The Wall.
“Ao falar sobre uma relação em que não existe reciprocidade, a letra conta uma história com começo, meio e fim, na qual todos os sentimentos são revelados de maneira sentimental, mas sem pieguice barata e com uma estética pop afinadíssima. Há algo na composição que é difícil de explicar, mas que nos dá vontade de cantar cada verso com força, mesmo sem termos passado exatamente pelas mesmas emoções”. Além disso, a canção é um trunfo sonoro ao ter uma “lapidada, graciosa e precisa produção, que entrega uma faixa com uma construção instrumental relativamente simples, mas extremamente eficiente e cativante”.
Tematicamente, a sensacional Eastside Girls é outro grande momento em todos os sentidos do álbum, ao ser uma cativante synth-pop/pop rock que fala sobre os vai e vens de um relacionamento em que a narradora finalmente pode tentar viver seu romance depois que a sua “paquera” foi largada após a decisão de se mudar da então namorada. É meio complicado explicar assim, mas, acredite, a canção faz isso de maneira simples, cativante e com um toque de humor muito bem-vindo. E é preciso elogiar a presença da vocalista Katie Gavin, que comanda todo o álbum com uma segurança ímpar e também um toque sensível até mesmo nas canções mais explícitas, como na ótima pop rock/pop punk Wannabeher, sobre o poder da força de uma mulher, em que a narradora quer ficar com a mesma ou ser a mesma.
O álbum ainda conta com outros momentos de destaque sobre a mensagem política/social de Big Stick, a batida sensual e, ao mesmo tempo, melancólica de On Call, sobre querer alguém que não está a fim da gente e, por fim, a interessante e profunda Mary Jane, sobre o que a adicção pode causar em um relacionamento.
Dancing On The Wall é um álbum que desce redondo e de maneira realmente gratificante para quem der uma chance. E isso é devido à capacidade de apurar a sua sonoridade da MUNA.


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