21 de setembro de 2026

Erotica

Lucky[Hymn]
Shygirl

Com o segundo single de SWALLOW!, a instigante Lucky[Hymn], a gente consegue entender qual é a vibe da nova era da Shygirl: Erotica.

Não sei de verdade se o álbum é realmente inspirado no álbum da Madonna, mas, sinceramente, ao unir a nova canção com o que a mesma entregou em Alyse, foi na hora que a minha mente foi levada a fazer essa conexão. E aqui a sensação é ainda maior devido à construção sonora, que mistura art pop/deconstructed club com toques de indie folk/rock, criando uma batida envolvente, sensual e madura, que parece claramente ter características básicas de canções como Rain e Deeper and Deeper. Não é, porém, uma referência copiada ou na cara, mas é quase como se a essência criativa fosse a linha que liga com o trabalho da rainha do pop.

A comparação também vai além da sonoridade, pois Lucky[Hymn] também tem semelhanças líricas ao ter uma composição robusta que reflete sobre sentimentos profundos, mas de uma forma acessível e bem talhada estruturalmente falando. Gostaria, porém, que a letra fosse “maior” para poder explorar ainda mais essa crônica sobre se entregar sem medo à paixão de maneira definitiva. Fechando o “pacote”, Shygirl entrega uma ótima performance que mostra uma versatilidade bem grande, especialmente se comparada à canção anterior.

E assim, aos quase quarenta e cinco minutos do segundo tempo de 2026, a Shygirl vai criando um hype para o que pode ser um dos álbuns do ano.
nota: 8,5

Pop Sentimental

Make Believe
Rachel Chinouriri


Apesar de uma mudança considerável, a nova fase sonora da Rachel Chinouriri está bem auspiciosa. Agora é a vez da interessante Make Believe.

Segundo single de I think I spoke too soon, a canção é uma sedosa, intrigante, madura e graciosa alt-pop/synthpop com toques de dark pop em uma instrumental eficientemente simples. A produção não quer revolucionar, mas, sim, criar um pop que possa incrementar a sonoridade da cantora de maneira natural, que seja claramente uma evolução do que a mesma vinha fazendo, ao mesmo tempo que seja uma mudança realmente distinta.

E, sinceramente, isso dá certo para Make Believe porque a personalidade da artista é mantida ao se alinhar com a sóbria e melancólica composição sobre tentar fazer sua paixão realmente se interessar, mesmo que seja meio que pela insistência de um coração desesperado. Além disso, a performance de Rachel cria certa fricção bem-vinda que dá personalidade para a canção devido à forma sentimental, cool e grave que a mesma entoa a canção, aproveitando o máximo do seu grave e melódico timbre.

É uma mudança que pode ainda desabar no contexto do álbum, mas, por enquanto, está sendo muito feliz para a Rachel Chinouriri.
nota: 8

18 de setembro de 2026

Rosadinho

new trick
ROSÉ


De todos os lançamentos solo recentes das integrantes do Blackpink, “new trick”, da ROSÉ, é disparado o melhor. E ainda poderia ter um resultado ainda melhor.

A canção é um cativante e efervescente pop rock/power pop que a gente não ouve atualmente sendo feito. Quase algo que poderia ter sido feito por alguma estrela juvenil do Disney Channel lá pelos anos 2010, mas com uma camada pop punk que dá certa ousadia para a canção e que emoldura também o período de glória da Avril Lavigne. Todavia, a canção é refrescante devido à sua construção atemporal, leve e chiclete. Além disso, ROSÉ entrega uma performance graciosa que acerta a dinâmica da canção ao mostrar uma ótima versatilidade. O problema de “new trick” é a sua boa, mas esquecível, composição, que realmente só tem um momento inspirado no seu direto refrão, que se torna a mola propulsora perfeita para a canção.

Agora só falta a Jennie para fechar esse ciclo e a gente saber quem vence essa “batalha”. Por enquanto, a ROSÉ é a vencedora clara.
nota: 7,5

Ou Vai ou Racha

Party
Troye Sivan


Com o lançamento de Party, segundo single de She's the Best, Troye Sivan deixa bem claro o rumo da sua nova era. É divisivo? Com certeza, mas, sinceramente, eu estou do lado positivo dessa recepção.

Com uma produção completamente pendendo para o house, especialmente puxando para o acid house, a canção é eletrizante, dançante, grudenta e muito bem construída, com um toque experimental que conversa com a sonoridade do cantor, mas dá alguns passos para sair do pop mais delimitado que ele vem apresentando. Existe uma clara inspiração dos anos noventa e começo dos anos dois mil na elaboração da batida, sem deixar a canção datada. Todavia, a grande qualidade e o que dá o toque perfeito de gênio à batida é o excepcional uso do sample de “Music”, da Madonna, que é a cola perfeita para unir toda a canção. O problema de “Party” é a sua composição.

Tirando a letra vinda da canção da rainha do pop, o single é composto apenas por um verso que vai ser repetido como se fosse um grande refrão. Na verdade, isso não seria um grande problema se o verso fosse realmente bom, pois o que temos aqui é até divertido e “campy”, só que também é raso e menos interessante do que deveria ser. E isso custa à canção alguns pontos importantes, pois sua embalagem é consideravelmente superior ao seu conteúdo. Quanto ao Troye, eu gosto da performance dele mais “spoken word” devido à sua entrega exemplar e carismática, mesmo que eu tenha a certeza de que não deva agradar a todos e que seu melhor momento é quando entoa os versos de “Music”.

Espero que esse seja o tipo de trabalho que a divulgação possa ajudar a dar um hype maior para o álbum, mas, mesmo assim, são corajosas as decisões do Troye Sivan.
nota: 8

11 de setembro de 2026

Primeira Impressão

Dancing On The Wall
MUNA



Uma Segunda Chance Para: I Gotta Feeling

I Gotta Feeling
The Black Eyed Peas

Possivelmente, o gigantesco sucesso de I Gotta Feeling foi um dos últimos arrasa-quarteirões antes da ascensão definitiva do Spotify, lançado em 2008, um ano antes do lançamento da canção do The Black Eyed Peas. Devido a isso, a faixa entrou em um “bolsão” dentro da cultura pop reservado para poucas músicas. Todavia, depois de dezessete anos do lançamento, qual é o sentimento sobre sua qualidade? Valeu o hype ou é uma bomba datada?

Na minha visão, o resultado é meio 50/50, especialmente quando a gente olha em retrospectiva. Quando o grupo decidiu deixar meio de lado o hip hop para se aventurar no eletrônico/EDM/electropop, foi uma decisão arriscada, mas que valeu a pena devido ao sucesso do álbum The E.N.D.. Criativamente, o álbum recebeu uma enxurrada de críticas que variaram do mediano ao negativo, especialmente no quesito sonoridade. E acredito que esse seja o grande motivo para I Gotta Feeling ainda ser uma música divisiva, mesmo tendo qualidades bem interessantes.

A razão principal é que a produção de David Guetta e Frédéric Riesterer já era meio datada e clichê quando foi lançada, criando a sensação de que a faixa era uma cópia passada por um triturador de “popficação” para ficar ainda mais radiofônica e massificada. E isso dá à música um aspecto de farofa tão farofada que fica meio complicado encontrar uma identidade distinta. Entretanto, esse problema também gera sua melhor qualidade: o gigantesco fator “chiclete”.

Ouvir a canção pela primeira vez é algo que, sinceramente, deve ser um portal para qualquer pessoa “viciar” nela, para o bem ou para o mal. A batida é sonoramente nada complexa, mas foi cuidadosamente montada para ser grandiosa, grudenta e ter uma melodia de facílima assimilação desde a primeira vez. Quando toca a primeira nota, a gente já sabe qual música vai começar. E isso é algo que podemos chamar de atemporal, de certa maneira, o que meio que contradiz o cheiro de naftalina que a faixa também exala. Felizmente, existe um termo para isso: prazer culposo. E essa é a melhor definição para a música.

Liricamente, I Gotta Feeling apresenta a mesma dualidade ao ser uma obra sobre “curtir a vida” da maneira mais clichê e sem profundidade possível, mas também construída de uma forma que conseguimos decorar a letra na hora em que escutamos e nunca mais esquecer. O que realmente se sobressai é a presença de todos os integrantes do Black Eyed Peas, que entregam boas performances. Mas, sinceramente, é só quando Fergie aparece que tudo dá liga de verdade. E essa observação é ainda mais curiosa, pois faz a gente voltar a pensar por que a carreira solo dela não teve mais durabilidade, ainda mais quando associamos isso ao sucesso de The Dutchess.

I Gotta Feeling é uma máquina do tempo datada e nostálgica, que é até mais interessante do que a gente lembra. Só não pode pensar muito além da superfície para ainda se divertir com a canção.
nota: 7

Irmandade & Celebração

Joy. (featuring Absolutely and Amma)
RAYE


Não há como negar que um dos nomes de 2026 é Raye, devido aos frutos da aclamação e do sucesso de THIS MUSIC MAY CONTAIN HOPE. E acredito que nada mais justo do que lançar Joy como single, pois a canção é, basicamente, uma celebração.

A faixa é realmente uma celebração musical em vários sentidos. Primeiro, conta com a participação de suas duas irmãs, também cantoras, Absolutely e Amma, o que dá à produção todo um aspecto de irmandade, carinho e afeição que é a intenção base do trabalho. Além disso, as duas artistas não estão aqui apenas pela ligação fraternal, mas também por serem talentosas e promissoras, ajudando a elevar o resultado.

Todavia, o brilho principal vem claramente da performance solar, cativante e madura de Raye, que invoca todos os sentimentos que a produção quer transmitir nessa verdadeira celebração à vida e sobre entender que é preciso ser sempre otimista, mesmo sabendo que ela é feita de momentos de tempestade. Apesar de meio clichê, a composição de Joy é lindamente bem escrita e passa verdade em sua mensagem. A produção, por sua vez, cria uma sonoridade que capta todos esses sentimentos ao construir um inspirador, animado, contagiante e envolvente pop soul, dance-pop e gospel, que conquista desde os primeiros segundos.

Nada mais justo do que Raye poder celebrar tudo o que vem alcançando, pois a cantora merece — e muito mais, sem dúvidas.
nota: 8,5

2 Por 1 - Tinashe

Pillow Fight
I'd Rather Be Alone
Tinashe


Ainda no hype de Melatonin, a Tinashe lança duas novas canções para a promoção de Popstar: Pillow Fight e I'd Rather Be Alone. Mesmo não estando na mesma altura do single anterior, as duas faixas dão ainda mais alcance sonoro para a nova era da cantora.

Em Pillow Fight, a cantora volta a entregar um R&B/pop soul com toques de trap que não chega a ser algo revolucionário, mas é bem acabado e possui uma melodia relativamente simples, porém adoravelmente cativante. É um trabalho claramente menor, que consegue se sobressair devido à maneira como a cantora o defende, dominando a faixa como se não exigisse quase nenhum esforço.

Em I'd Rather Be Alone, a qualidade melhora devido à dramaticidade da canção, que se apresenta como uma interessante balada electropop/synth-rock/R&B. E isso é outra amostra clara da imensa versatilidade da Tinashe, que consegue navegar por gêneros tão distintos de maneira fluida e sempre muito bem preparada. Aqui, a cantora entrega uma performance contida, mas emocional, que combina perfeitamente com o trabalho. A canção poderia, porém, ser ainda mais profunda sonoramente, o que a faria se tornar mais pungente e épica.

Dessa maneira, Tinashe continua a comprovar que é um talento realmente único em uma carreira inspiradora.
notas
Pillow Fight: 7,5
I'd Rather Be Alone: 8


10 de setembro de 2026

Primeira Impressão

THERAPY AT THE CLUB
FLO




A Vingança é o Sucesso

crank 2
Slayyyter

Apesar de ainda não ter estourado dentro da bolha mainstream, a Slayyyter vem construindo uma carreira bastante auspiciosa, meio que quase ocupando o espaço da Charli XCX antes do estouro de Brat. E isso vai se mostrando com o hype criado para o lançamento de crank 2.

Single de WOR$T MAN IN AMERICA, a canção é claramente uma irmã/continuação de Crank, lançada no ano passado. Sobre a canção, disse que era “uma sofisticada, borbulhante, barulhenta e potente faixa de industrial pop/electrocash/eletro hip hop que adiciona uma nova camada à construção sonora atual da cantora, mas sem perder o rumo artístico que a mesma vem seguindo”. E, basicamente, essa mesma anotação vale para a nova canção, mas, felizmente, existem outras características que dão personalidade a crank 2.

A primeira, e melhor, é que dá para notar que a canção usa a faixa anterior como base sonora, mas também constrói uma clara personalidade ao realmente apresentar algo novo tanto instrumental quanto melodicamente. Aqui, a atmosfera é mais raivosa e ácida, especialmente devido à composição, que novamente volta a falar sobre o relacionamento da Slayyyter, que terminou nada amigavelmente. Além disso, a produção corrige o erro do clímax final ao dar à canção um encerramento explosivo e poderoso, assim como a performance da cantora, que consegue mostrar uma grande versatilidade sem sair do seu domínio performático. Meu “problema” com crank 2 é que a produção poderia ir bem mais a fundo na construção da batida, fazendo a canção realmente ficar acima da “original”.

Indiscutivelmente, crank 2 continua a cimentar a carreira da Slayyyter como uma força artística que deve ser acompanhada de perto.
nota: 8

9 de setembro de 2026

New Faces Apresenta: Audrey Hobert

Silver Jubilee
Audrey Hobert


Não me incomodo tanto quando um “nepo baby” tem talento de verdade, pois, ao menos, isso compensa a facilidade do artista em alcançar lugares que possivelmente não teria condição de alcançar sem suas conexões. Um exemplo é a cantora Audrey Hobert.

Filha do roteirista Tim Hobert e irmã do músico Malcolm Todd, a cantora ganhou destaque pelo trabalho como compositora para Gracie Abrams e pelo hit moderado de Sue Me no ano passado, mesmo ano em que lançou seu primeiro álbum, Who's the Clown?. Como último single do trabalho, foi lançada a interessante Silver Jubilee.

A grande qualidade é a sua inspirada composição, que mostra claramente a qualidade da sua persona como compositora ao escrever uma letra inteligente, ácida, descolada e divertida sobre perceber o seu envelhecimento e amadurecimento, mesmo sendo uma pessoa que apenas completou vinte e dois anos. A mesma consegue passar uma mensagem com uma personalidade muito bem definida e diferente, sem precisar soar pretensiosa. A produção é um pouco segura demais, mas entrega um eletropop/pop rock eficiente, com uma batida cativante que gruda nos ouvidos no momento em que chega ao seu ótimo refrão.

Se for para ser nepo baby, que seja com talento, como parece ser o caso de Audrey Hobert.
nota: 8

8 de setembro de 2026

Mudanças Amadurecidas

Marianne
Fontaines D.C.


Sempre é interessante tentar entender a evolução sonora de um artista quando ele decide dar uma guinada em uma direção inesperada. Em Marianne, a banda Fontaines D.C. faz exatamente isso.

Primeiro single do novo álbum da banda, Dopamine Chamber, a canção adiciona, de maneira bem nítida, um synth-pop influenciado, aparentemente, pelo Depeche Mode. É uma referência que não é inesperada, mas que dá à faixa um resultado surpreendente e sensacional ao ser lindamente misturada com post-punk, darkwave e dream pop, criando uma melodia hipnótica que emoldura perfeitamente a sensação de uma canção vinda diretamente dos anos oitenta, sem terminar sendo uma cópia barata.

Existe um trabalho muito inspirado, maduro e poderoso na construção de Marianne, especialmente em seu clímax final, que arremata a canção de maneira decisivamente especial. A performance sombria e marcante do vocalista Grian Chatten dá uma ênfase emocional e angustiante à inspirada composição sobre problemas mentais e os efeitos que eles causam nas pessoas.

Entrando no final do ano, o Fontaines D.C. se torna um dos nomes que mais me despertam hype. Veremos.
nota: 8,5

A Maldição do Linear

CLICK
JISOO


Única integrante do Blackpink a não lançar, até agora, um álbum solo, Jisoo continua tentando se consolidar de maneira a “alcançar” suas companheiras de grupo. E a mais nova tentativa é com o single CLICK.

A canção é até boazinha, mas perde uma grande oportunidade de ser ótima devido a uma produção que nunca a faz deslanchar. Isso fica ainda mais evidente quando percebemos que a batida synth-pop/dance-pop tinha tudo para se tornar um grande trabalho, pois possui uma melodia interessante e bem pensada, mas nunca chega a lugar nenhum, resultando em uma faixa linear e sem verdadeira pegada. Vocalmente, Jisoo entrega uma boa performance, que, porém, carece de maior dinamismo para realmente saltar aos olhos. A composição segue pelo mesmo caminho, mas com um resultado ainda menos marcante que o restante da canção.

CLICK poderia ser um musicão se conseguisse fugir desse estado de linearidade que a impede de sair do apenas “ok”.
nota: 6,5

7 de setembro de 2026

Primeira Impressão

PRIMA
ADÉLA



Projeto: Icônica (Ainda Em Progresso)

Nicole Kidman
ADÉLA


Mesmo não sendo tão bom quanto era esperado, o debut da Adéla tem algumas pérolas, como é o caso de Nicole Kidman.

Uma deliciosa mistura de R&B, alt-pop e trap pop que poderia ser mais aprofundada sonoramente, explorando novas camadas e texturas. Todavia, a produção acerta na mosca com uma batida cadenciada e envolvente, enquanto Adéla entrega uma performance competente. O grande destaque da canção, porém, é sua divertida composição sobre se sentir “poderosa” e se comparar diretamente com Nicole Kidman, especialmente no refrão, em que filmes da atriz são citados de maneira inteligente e incorporados à narrativa.

E é nesses momentos que a gente vê que Adéla tem potencial de verdade.
nota: 8

Um Encontro Que Não Deveria Funcionar

CONSTANTLY
Tiffany Day & slayr


Existem músicas que parecem não ter sido feitas para dar certo, mas, por algum motivo, o resultado acaba sendo drasticamente melhor do que o esperado. Esse é o caso perfeito de CONSTANTLY.

Parceria da cantora Tiffany Day com o rapper slayr, a canção tem uma sonoridade que poderia facilmente desandar ao ser uma mistura de hyperpop/eletropop com elementos de digicore, pop rap e hip hop. Felizmente, a produção competente e inteligente tem a visão necessária para fazer tudo funcionar. Devido a isso, o resultado fica bem no fio da navalha entre o brilhantismo e o desastre, o que, na verdade, faz com que CONSTANTLY ganhe ainda mais brilho justamente por terminar no primeiro lado.

Além disso, a mistura entre os dois artistas se torna ainda mais interessante devido às suas diferenças. Mesmo assim, a presença de ambos na canção faz sentido, principalmente pela ótima composição, que se constrói como uma crônica profunda sobre o relacionamento entre duas pessoas.

E assim temos uma das canções mais inesperadas do ano, que vai entrar na lista das melhores do ano sem nenhuma dúvida.
nota: 8,5

4 de setembro de 2026

Primeira Impressão

Cry Baby
Vince Staples



Grande Lisa

SaWaDiKa
LISA

SaWaDiKa é uma canção que facilmente poderia terminar bem abaixo da média, mas é salva devido à grandiosa performance da Lisa.

Sonoramente, a canção tem uma boa condução, mas é criativamente rasa. Um pop rap com introdução de elementos de jersey club e trap, a canção tem uma construção linear e que várias vezes esbarra no puro clichê. Sem ter momentos de nuances ou novas texturas, SaWaDiKa é uma canção que fica presa a uma mesma ideia sem nunca realmente explorar as suas possibilidades. Não é exatamente ruim, mas, sim, limitada sonoramente. Todavia, o que eleva a canção de maneira considerável é a presença fenomenal da Lisa, transitando entre a sua persona cantora e a persona rapper de uma forma impactante, que mostra um total domínio, força e um talento refinado da artista.

E salvar uma canção é um talento realmente para poucos. Queria, porém, que a Lisa tivesse um material à sua imensa capacidade.
nota: 7


Uma Nova Mulher

Bass Persuades
Miley


Depois de entregar o melhor trabalho da carreira em Something Beautiful, a Miley (agora sem o Cyrus) está de volta para, possivelmente, reconquistar o território comercial perdido. E, como single do novo álbum, foi lançada a canção que dá nome ao trabalho: Bass Persuades.

Apesar de parecer meio que ter as mesmas bases sonoras do álbum anterior, o single é claramente uma versão mais radiofônica e vendável, ao ser um divertido e dançante electropop/electro house com um acabamento elegante e classudo. A produção deixa claro que essa é uma Miley pop, mas é um pop maduro e muito bem pensado. Talvez a produção não acerte ao não dar para a parte final algo mais grandioso, deixando o clímax final meio linear, sendo que poderia ser algo realmente épico. Isso não é um grande problema, pois a canção funciona de maneira bem azeitada e com o fator “chiclete” que vai grudando aos poucos.

Além da produção, o outro destaque é a composição interessante, que parece discutir o fato de a geração atual estar perdida devido ao consumo intenso das novas tecnologias, sem ter espaço para viver de verdade. Também parece apontar para certo crescimento do conservadorismo nessa geração. É uma boa letra que tem um refrão bem convincente que poderia, porém, ser um pouco mais lapidado em alguns momentos, especialmente no segundo verso. E, por fim, Bass Persuades também é a continuidade da demonstração de como a Miley evolui como cantora, ao entregar uma performance versátil e segurar perfeitamente a canção.

Espero que essa nova era da Miley possa reunir o que a mesma mostrou de melhor artisticamente com todo o seu potencial comercial. E isso seria realmente incrível.
nota: 8

3 de setembro de 2026

A Voz Que Faz A a Diferença

Bottle
Remi Wolf


É preciso de muito talento vocal para dar vida a uma canção que poderia facilmente se tornar apenas boa, mas se torna ótima devido a uma poderosa performance. Esse é o caso de Bottle, da Remi Wolf.

Single do seu segundo álbum (Mud), a cantora preenche todos os espaços da canção de maneira primorosa, sem precisar recorrer a estereótipos vocais como, por exemplo, grandes agudos. Com um timbre elegante e melancólico, a cantora mistura contemplação e força na medida certa para carregar essa forte crônica sobre depressão e estar emocionalmente “drenada”. Todavia, a cantora decide seguir um caminho mais sóbrio e menos sentimental, dando a Bottle uma personalidade distinta e muito bem moldada pela sua presença. Sonoramente, a canção é um competente pop rock/soft rock que é elevada devido à presença da sua intérprete, que dá à canção toda uma distinta atmosfera.

E essa é outra prova de que talento sempre é o ingrediente principal de uma boa música.
nota: 8

2 de setembro de 2026

Primeira Impressão

Oh yeah?
Steve Lacy


Antes Tarde do Que Nunca - Versão Single

Hips Don't Lie (featuring Wyclef Jean)
Shakira


Em 2006, Shakira lançou como single a canção Hips Don't Lie, do relançamento de Oral Fixation, Vol. 2. A cantora já era um fenômeno mundial. Na América Latina, a mesma já tinha se consolidado como um nome de peso fazia algum tempo, e o mercado estadunidense e mundial já havia sido introduzido à artista devido ao sucesso de Laundry Service, em 2001. Todavia, o gigantesco sucesso da canção elevou a carreira da colombiana para um outro nível de sucesso estelar, fazendo a cantora se tornar figura carimbada entre as maiores de todos os tempos.

Originalmente, a canção era para marcar a reunião do The Fugees na época, que acabou não saindo do papel. Então, a canção foi “dada” para Shakira, pois a mesma estava cotada para ser parte do remix. E, sinceramente, não acho que, nas mãos de outra pessoa, a canção teria tanto sucesso, pois a canção é embebedada na personalidade da artista, assim como toda a sua estrutura criativa. Claro, a produção e a participação de Wyclef Jean, haitiano de nascimento, também contribuem bastante, mas é claro que existe um tempero extra que apenas a Shakira no ápice da sua criatividade poderia oferecer.

E, com a união de talentos, é criada uma excitante, única, vibrante, original, viciante e atemporal latin pop/dance-pop, que incorpora preciosamente elementos de cumbia e, principalmente, reggaeton, sendo uma das primeiras canções de sucesso mundial que explorou o gênero latino antes da sua popularização. Todavia, Hips Don't Lie não se limita a apenas um caminho, pois a produção cria um instrumental que consegue agregar todas as influências e usá-las da maneira mais inteligente possível, com camadas que dão uma força descomunal, já que a canção é uma das mais reconhecíveis dos anos 2000. Existem, porém, alguns detalhes negativos na canção que é preciso abordar.

Até entendo que seja devido à presença maior do Wyclef Jean, mas a canção parece mais ser um featuring do Wyclef Jean com Shakira do que o contrário, devido à presença do rapper, que é bem grande durante toda a duração. Apesar disso, é preciso apontar que o rapper entrega uma ótima performance, que encontra química com a presença marcante da cantora, que consegue colocar toda a sua personalidade de maneira plena. Tenho que apontar que tenho certo problema com a mixagem da voz da cantora em alguns momentos, mas sua força é tão grande que dá uma apagada nesses “tropeços”. Outra grande qualidade da canção é a sua composição cheia de clichês, mas extremamente eficiente, que gruda na nossa mente e sabe genialmente misturar inglês e espanhol.

Hips Don't Lie é o tipo de canção que poderia muito bem ter sido lançada devido à sua origem, mas é a peça fundamental na carreira de uma das maiores artistas latinas da história.
nota: 8,5

1 de setembro de 2026

Uma Canção Para O Coração Apaixonado

stupid song
Olivia Rodrigo


Uma das melhores canções de you seem pretty sad for a girl so in love e, também, da carreira da Olivia Rodrigo, stupid song é um trabalho tão interessante que até mesmo ultrapassa qualquer possibilidade de comparação com a canção que, claramente, é a sua influência.

A estrutura e a construção da canção são claramente referências ao que é feito em happier than ever, da Billie Eilish. E isso não se torna um problema, pois, como disse na minha resenha do álbum, a canção “funciona tão bem em construir sua própria personalidade que é preciso uma certa ginástica mental (como fiz) para comparar as duas”. A produção de Dan Nigro assegura, de maneira bem pensada, que a base pop rock/indie pop possa ter personalidade suficiente para ganhar vida própria em um trabalho instrumental realmente robusto e bonito. Todavia, o que dá vida e é parte fundamental da personalidade é a performance sensacional da Olivia e a composição primorosa, que fazem de stupid song uma das canções românticas mais originais e criativas em muito tempo, conseguindo transmitir perfeitamente a sensação de estar perdidamente apaixonado de maneira inteligente e potente.

E assim a Olivia Rodrigo vai cravando seu nome entre os melhores expoentes do pop contemporâneo.
nota: 8,5

House Família

Motivation
Carly Rae Jepsen


Quarto single lançado de Day and Night, Motivation é a canção mais “fraca” dessa era da Carly Rae Jepsen até o momento. Felizmente, a canção ainda é um trabalho inspirado e curioso.

Uma eurodance com toques de diva/deep house, a canção poderia facilmente ter uma composição de temática clichê e uma batida igualmente previsível, mas Carly entrega uma crônica bonita e afetuosa sobre o poder da família na vida das pessoas. Nas palavras da própria cantora, a composição é sobre qualquer tipo de família que a gente forma ao longo da vida. Esse toque sentimental, partindo de um tema tão específico, contrasta de maneira interessante com a construção da canção à sua volta, causando um ruído que deixa a canção se destacar de maneira única. E isso é algo realmente inspirador.

Todavia, Motivation poderia mergulhar mais na sua inspiração sonora, pois a produção parece meio receosa de se deixar levar e entregar algo mais dinâmico e explosivo. Criativa e inteligente, a canção falta, porém, aquele momento explosivo para arrematar tudo de maneira bem amarrada. Até entendo que, dependendo da maneira que fizesse, isso poderia diminuir o impacto emocional da canção, mas a produção teria total capacidade de encontrar uma saída para isso sem comprometer as outras qualidades da canção.

De qualquer forma, a canção é outro inspirado tijolo nessa era tão inusitada da Carly Rae Jepsen.
nota: 8