FENOMENAL
Lia Clark
Como avaliar álbuns que são, essencialmente, completamente distintos em todos os sentidos? Essa é uma questão com a qual me debati ao longo dos anos, mas, felizmente, encontrei alguns parâmetros que fazem minhas avaliações terem um norte bem definido. E uma delas é perguntar: qual é a intenção de um álbum e, por consequência, se a mesma foi alcançada. Em FENOMENAL, terceiro álbum da Lia Clark, é possível afirmar que a intenção foi alcançada perfeitamente e de maneira muito mais do que satisfatória.
Lia Clark
Lançado em dezembro passado, mas que estou considerando como 2026 devido à janela que uso como regra no blog, o álbum tem uma clara e bem definida “intenção” ao ser um trabalho de funk “proibidão”/mandelão com música eletrônica, sem medo de ir com força no conceito. E, sinceramente, a produção entrega exatamente isso, sem amarras, sem porém, sem concessões e, principalmente, com uma noção sobre como dar vida ao conceito de maneira vibrante, eletrizante e divertidíssima. Ouvir as treze faixas do álbum é como se a gente estivesse em um baile funk ouvindo o set de um “DJ”, sendo algo parecido com o que Gaby Amarantos fez em Rock Doido. E essa decisão é outro acerto aqui, pois faz do álbum o tipo de trabalho que só dá para curtir plenamente quando a gente o ouve do começo ao fim, devido também à fluidez perfeita e à costura bem firme que liga as faixas.
É preciso dizer que FENOMENAL não é um álbum para todos os públicos e, sinceramente, só de saber sobre o conceito fica claro o motivo. Todavia, se você quer esse tipo de música ou está realmente aberto para se aventurar, vai encontrar, primeiramente, um trabalho muito bem produzido tecnicamente, com construção instrumental robusta, mixagem sonora exemplar e um cuidado em manter sempre a personalidade do álbum e, também, da Lia à frente, deixando a marca da artista de maneira inegável. Outra informação que é preciso apontar é que o álbum é claramente explícito, sexual e, algumas vezes, flerta diretamente com o vulgar. Só que isso faz sentido dentro do que o álbum decidiu fazer conceitualmente, mas, principalmente, pela maneira sincera como as composições são escritas e pela inteligência criativa acima da média. E isso fica bem claro em um dos melhores momentos do álbum, na ótima CHÁ DE PIKA, com a participação do rapper/funkeiro MC 2K.
Acredito que, pelo nome, dá para se ter uma ideia do teor lírico, mas isso não quer dizer que o trabalho seja ruim. Na verdade, a composição é despudoradamente divertida e tem a pérola:
“Filho da puta, cadê o chá de pica?/Eu vou mamar teu pai e vou entrar p'a tua família”.
Entretanto, o grande e melhor destaque é a produção, que entrega uma épica e eletrizante mistura de eletropop/funk com elementos de EDM e trap, criando uma canção que parece estar a 200 km na ladeira, sem freios, e, mesmo assim, não perde o controle, mas, sim, cria uma aventura meio inesquecível.
Outro momento que segue os mesmos caminhos, inclusive em nível de qualidade, é a pesadona 8 HORAS DE PRAZER, que tem o tempero a mais da presença da sempre sensacional MC Carol. Todavia, FENOMENAL é carregado a ferro e fogo pela presença gigante da Lia Clark, que entrega performances no mesmo nível da produção escalafobética e poderosa, exalando um poderoso e único carisma que a faz ser o centro da atenção mesmo quando divide os holofotes com os artistas convidados.
Momentos que precisam ser citados como destaques do álbum ficam por conta da deliciosamente safada ME ALIMENTA, com a presença de MC GW, da batida frenética de EU VOU DAR e da referência direta ao funk melódico dos anos dois mil em DISK NAMORADA, com participação de MARTTE e MC Tha.
FENOMENAL é o tipo de prazer culposo que, de culposo, não tem nada, pois tudo é entregue exatamente como prometido e com louvor verdadeiro.


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