Anitta
Ao terminar a resenha de EQUILIBRIVM, afirmei que o álbum “se torna o ponto de uma guinada muito esperada e demorada na carreira da Anitta, que a ajuda a começar uma nova fase na sua história artística”. E reforço as minhas palavras em relação à segunda parte do trabalho, pois o trabalho continua a deixar exposto o atual ótimo momento artístico da cantora.
Esse “lado B” continua basicamente a mesma toada do “lado A” ao ser um olhar de respeito e carinho à música brasileira, em que a artista usa como base a temática sobre a sua religiosidade e espiritualidade para dar o caminho sonoro e lírico do álbum. E essa não poderia ser uma escolha melhor, pois é fácil perceber a naturalidade com que Anitta navega por essas temáticas, conseguindo criar uma sonoridade muito sólida, rica e de uma base forte. Ainda, porém, não é uma obra-prima, mas, sim, uma continuação do seu melhor momento até hoje na carreira. Na verdade, EQUILIBRIVM II fica um pouco acima devido, principalmente, às três primeiras canções do álbum, que meio que entram diretamente no hall das melhores da trajetória da artista.
Começa pela atmosférica e poderosa abertura em Você Já Sabe, que faz uma mistura sensacional de afrobeats com funk ao criar uma canção que ressalta e glorifica a força das religiões africanas de uma maneira honesta, criativa e realmente inspirada. Em Sal Grosso, a produção continua na mesma jornada, mas aqui é aumentada a batida para dar mais ênfase à força da espiritualidade, e também são adicionados toques realmente bem conduzidos de hip hop, que dão uma dinâmica bem interessante para a canção. E, por fim, o trio de abertura encerra com a deliciosa e cativante Não Me Cutuca, em que a sonoridade dá uma mudada de rumo interessante ao adicionar forró à sua mistura e a participação ilustre do lendário Alceu Valença.
E mesmo o álbum não mantendo o tempo todo o mesmo nível, EQUILIBRIVM II se vale de uma fluidez realmente incrível, que consegue segurar a qualidade em um nível muito bom e sempre linear. Infelizmente, existe um pequeno tropeço quando a cantora decide regravar o clássico Azul, do Djavan, em espanhol, em uma faixa que não é ruim exatamente, mas que não faz o menor sentido dentro do álbum. Se aqui não dá muito certo, a interação com outra lenda da música brasileira se torna o melhor momento do álbum: Ogum Me Rodeia. Uma reconfortante e inspirada MPB/samba, a canção é um trabalho maduro que conta com a participação deliciosa da cantora Letícia Fialho. Entretanto, a canção dá uma boa elevada quando a lendária e magistral Maria Bethânia começa a declamar uma poesia, e é aí que a canção ganha novos e excitantes contornos. Poderia ser uma participação cantada? Sim, mas já vale a pena ouvir a canção por isso.
Outros momentos que valem a pena são a romântica Pra Você Gostar de Mim, em que é usado de maneira inspirada o sample da canção de mesmo nome de Carmen Miranda; a faixa mais pop e internacional do trabalho, a delicinha Devino Sexual; e, por fim, a faixa que encerra com chave de ouro o trabalho, na explosiva Okê.
EQUILIBRIVM II fecha esse projeto de maneira realmente cativante, e espero que essa seja a planta-raiz de todos os projetos que a Anitta irá fazer daqui para frente, pois foguete nunca dá ré e só pode explodir. E isso é algo que a gente não quer, né?


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