Beyoncé
Quando, em 24 de junho de 2011, foi lançado o quarto álbum da Beyoncé, que tinha apenas o nome de 4, o público pôde perceber que aquela cantora era um pouco diferente daquela que tinha conquistado, a ferro e fogo, o seu nome entre os grandes nomes do mainstream mundial nos três álbuns anteriores. Todavia, o que apenas os anos de diferença podem mostrar é o fato de que o álbum marcou o começo de uma nova era para a carreira da artista, pois é aqui que a Beyoncé ultrapassa rótulos para começar a se tornar a artista que conhecemos atualmente. E o fator principal para isso foi a liberdade.
Eu tenho uma teoria que divide a carreira da Beyoncé em três círculos que englobam seus álbuns: o primeiro contempla os três primeiros, em que são a criação e consolidação da estrela pop; o segundo são os três próximos, que representam a criação e a consolidação da artista; e, por fim, o atual círculo, que deve se fechar no próximo álbum, é a criação e consolidação da Beyoncé como uma lenda. Então, 4 seria exatamente o primeiro trabalho do segundo círculo, em que a artista começa a sua transformação em uma artista completa e genial. Para isso, porém, Beyoncé precisou se libertar de algumas amarras, sendo a principal delas a gerência da carreira do seu pai, Mathew Knowles. Dona agora completa da sua carreira, a artista finalmente lança o álbum sob o selo da sua gravadora, Parkwood Entertainment, tendo praticamente o total domínio artístico do desenvolvimento do trabalho, escolhendo totalmente o estilo e com quem queria trabalhar na produção. Além disso, a cantora revelou que tinha “matado” o seu alter ego Sasha Fierce, criando quase um rito de passagem da sua carreira. E é nesse contexto que nasce 4.
O resultado comercial do álbum é outro ponto fundamental na construção da imagem da Beyoncé dessa nova era. Apesar de ter estreado em primeiro lugar na Billboard com cerca de 310 mil cópias vendidas, o álbum vendeu cerca da metade dos dois álbuns anteriores e dois terços do debut, ficando atualmente com vendas em torno de 1,5 milhão nos Estados Unidos. Isso também refletiu nas vendas no resto do mundo, pois, atualmente, a estimativa é que o álbum tenha vendido cerca de 3,5 milhões, sendo, por exemplo, menos da metade de I Am... Sasha Fierce, que tem números de cerca de 12,6 milhões em estimativas. E, mesmo não sendo números consolidados, a verdade é que 4 vendeu bem menos que todos os trabalhos anteriores. Além disso, o maior peak foi a 16ª colocação para Best Thing I Never Had na Billboard, fazendo do álbum o único da sua carreira, até hoje, a não ter um single no top 10.
Todavia, a percepção que foi se formando ao longo dessa era foi a de que a Beyoncé não precisa exatamente de números grandiosos para ser grandiosa, pois, acompanhadas por performances icônicas, especialmente a de Love on Top, em que anunciou a sua primeira gravidez, as canções ganharam status culturalmente importantes devido à importância e à abrangência que tiveram, mesmo sem alcançarem grandes posições nas paradas. Além disso, 4 foi o começo de uma nova relação da artista com a crítica, pois o álbum foi o que, de maneira geral, teve as melhores críticas da sua carreira até aquele momento. Não foi exatamente uma aclamação, mas, sim, o começo de uma nova relação dela com a crítica especializada. E, de todos os álbuns da cantora, fica claro que 4 é o que melhor vem envelhecendo, especialmente em comparação com a reação inicial.
Quando o álbum foi lançado, o blog ainda estava nos seus primórdios e não resenhei o álbum, mas os singles que saíram dele. Na minha reação, na época, tinha 4 como um bom álbum, mas abaixo do que esperava da Beyoncé, especialmente comparado com B'Day. E por que essa comparação e não com I Am... Sasha Fierce? Como parte dessa liberdade que a cantora “adquiriu”, o conceito do álbum também refletiu o momento em que ela, não gostando do que ouvia nas rádios na época, decidiu ir totalmente contra a corrente e fazer do álbum uma celebração do R&B, sendo fortemente influenciado pela sonoridade dos gêneros dos anos 70, com influências de soul, pop soul e neo-soul. Essa é boa parte da base do álbum de 2006, mas, no trabalho de 2011, a base é mais tradicional, clássica e “linear”, pois as canções conversam diretamente umas com as outras sonoramente. Essa característica foi a responsável, na época, por eu não dar tanto valor ao que a Beyoncé tinha entregado em 4. Quinze anos depois, a minha visão é bem mais clara e apurada e, sinceramente, posso afirmar que o álbum é um trabalho merecedor de não ser apenas o ponto de início de uma nova Beyoncé, por ser um álbum perfeito de transição, mas, também, um trabalho que merece ser reverenciado por si só.
Com a base definida, o trabalho desenvolvido em 4 é de uma elegância criativa absurda, pois consegue captar toda essa essência do R&B de maneira excepcional, madura e de uma coesão impressionante. Com apenas 12 faixas na versão standard e um pouco mais de quarenta e cinco minutos, o álbum não tem espaço para grandes tropeços, e isso é aproveitado ao máximo devido às escolhas das canções, dando ao álbum aquela sensação de fluidez deliciosa que faz a gente querer escutar todo o álbum do começo ao fim todas as vezes. Além disso, a sequência em que elas foram dispostas faz toda a diferença, pois ajuda a aumentar essa fluidez e, principalmente, a criar uma coerência sonora justíssima que dá a imagem de um trabalho realmente muito bem pensado e, principalmente, muito bem executado. Tanto que a versão lançada em 2012, que adiciona novas canções e muda a ordem, não parece ter o mesmo impacto. É aí que podemos sentir também o peso das decisões criativas.
Para a produção do álbum, Beyoncé, além de ser a capitã-mestre, chamou uma lista de quem é quem de talentos dentro do R&B contemporâneo e adjacências sonoras como, por exemplo, The-Dream, Tricky Stewart, Babyface, Chad Hugo, Ryan Tedder, entre outros nomes menos conhecidos. Esse cuidado tão específico na escolha dos nomes era claro para deixar bem entendido que agora a cantora estava totalmente no controle da sua carreira em todos os mínimos detalhes, concebendo desde os mínimos detalhes até os grandes acertos finais. Dessa maneira, o que a mesma decidiu estabelecer como conceito foi alcançado de maneira primorosa, pois, de maneira geral, 4 é um trabalho de R&B em sua concepção mais pura, que vai sendo adicionado de toques e introduções de pop, soul, hip hop, neo-soul e dance-pop. Todavia, esses outros elementos sonoros são apenas para enriquecer a base R&B, já que não há como negar que o álbum bebe diretamente dessa fonte sem medo e de maneira espetacular. E, talvez, a sua maior qualidade não esteja exatamente na condução da produção e, sim, na condução instrumental.
Como um todo, 4 é o que apresenta, até aquele momento, o trabalho instrumental mais coeso da carreira da Beyoncé, sem nenhuma dúvida. Não o melhor, mas, sim, o mais preciso em questão de qualidade. Todas as faixas aqui apresentam o mesmo nível de qualidade técnica ao terem instrumentais encorpados, elegantes e de uma maturidade artística primorosa. Mesmo quando a produção em si não entrega o seu melhor momento, a parte de arranjos é realmente interessante e consegue passar toda a vibe conceitual de maneira explícita e muito bem construída. Na verdade, essa qualidade é que faz várias canções se “salvarem” de se tornarem possíveis tropeços que realmente pudessem atrapalhar o resultado final do álbum. Isso é tão verdade que até mesmo ajuda a canção que é o ponto fora da curva do álbum: Run the World (Girls).
Lançada como primeiro single, a canção não colocou em chamas as paradas na época, ficando apenas na 29ª posição da Billboard, mesmo com intensa divulgação que incluiu algumas performances icônicas e um dos melhores clipes da carreira da artista. Além disso, a canção gerou críticas de medianas a positivas, no máximo, vindas da crítica e do público. E, sinceramente, essa era a minha percepção na época e consigo entendê-la perfeitamente até os dias de hoje.
Run the World (Girls) não tem nada a ver com o resto do álbum sonoramente. Ao finalizar o álbum com a canção, é como se fosse uma quebra da cadência do álbum que faz quem escuta quase dar um salto na cadeira quando a mesma começa. Uma explosiva, acelerada e estilizada electropop com R&B, dancehall e jungle terror que sampleia pesadamente Pon De Floor, do Major Lazer. Na verdade, a canção da Beyoncé é quase um remake sonoro, adicionando apenas algumas mudanças sonoras extras. A batida da canção é do tipo ame ou odeie, sem quase meio-termo, pois a mesma é tão “balls to the wall” que fica difícil encontrar um lugar de equilíbrio para as reações. Com o passar dos anos, a minha percepção mudou devido ao meu melhor entendimento da canção e, principalmente, da qualidade técnica de 4.
Como dito antes, a parte instrumental do álbum é realmente primorosa e, em Run the World (Girls), não é diferente. Você até pode não gostar do que está ouvindo, mas dá para perceber que a construção aqui é realmente inspirada. Para segurar a batida vinda do sample e dar personalidade própria para a canção, o instrumental precisou ser afiado, refinado e, ao mesmo tempo, manter intacta toda a cadência frenética dos pronunciados tambores. E isso é algo que poderia realmente descambar para o desastre, mas que aqui foi realmente apurado a ponto de amarrar todas as pontas de uma maneira a extrair o melhor. Se a parte instrumental já impressiona na faixa que tem os maiores “problemas” para muitos, imagine o que é feito para o momento mais inspirado de 4: a genial Love On Top.
A outra canção mais reconhecida dessa era, a faixa tem uma camada maior de significação devido ao fato de que foi a escolhida para ser apresentada no MTV Video Music Awards em 2011, ocasião em que a Beyoncé, ao final, confirmou a sua primeira gravidez, mostrando a sua barriga para o mundo inteiro. Apresentação lendária que “quebrou a internet” na época e ajudou a popularizar a canção, mesmo não sendo exatamente um sucesso comercial de vendas retumbante. Todavia, a canção tem, de verdade, seus méritos na sua gigantesca qualidade em todos os sentidos, pois é um trabalho que verdadeiramente dá noção do talento da artista na sua forma mais pura. Produzida pela cantora ao lado de Shea Taylor, Love On Top é uma magistral, magnética, deliciosa, atemporal, gigantesca e cativante faixa de R&B/pop soul com toques de soul e new jack swing que emoldura perfeitamente a sonoridade de bandas como New Edition e The Jackson 5.
Boa parte do seu resultado vem do seu impressionante e magistral trabalho instrumental, que se mostra profundo e intrigante, mas sem soar de uma complexidade pretensiosa ou de difícil assimilação. Na verdade, a batida aqui é tão fácil de entrar na nossa cabeça desde os primeiros acordes até o seu final apoteótico. É vintage, mas está completamente fora de qualquer possibilidade de ser datada ou um pastiche das influências escolhidas. Moderna, atemporal e irresistível, Love On Top realmente vira a chave para se tornar não apenas a peça central de 4 como, também, uma das melhores da carreira da Beyoncé. Soma-se a isso a lendária performance da cantora, especialmente na parte final, devido às quatro mudanças de tom ao longo da sua duração, que vão refletindo a paixão clamando pela letra cada vez mais intensamente. E é aqui que a cantora, mesmo já sendo uma notória e excepcional vocalista, ganha outro status no hall das maiores vocalistas de todos os tempos, marcando mais um marco para a sua carreira. E, mesmo sem alcançar o mesmo nível no restante do álbum, a cantora ainda tem momentos inspiradíssimos, especialmente para demonstrar a sua imensa versatilidade.
Abrindo o álbum, a cantora entrega uma poderosa, sentimental e contida performance na balada soul/R&B com toques de soft rock e neo-soul 1+1, que deixa bem clara a riqueza do timbre da cantora e o seu imenso controle vocal e emocional. Logo em seguida, literalmente, a cantora muda totalmente a chave em uma das suas mais dramáticas performances ao entoar a sensacional I Care em uma grandiosa, emocional e cativante power balada R&B/soul. E, para quem já viu uma performance da canção ao vivo, especialmente nessa época, sabe o impacto que tem ouvir a canção devido à performance da Beyoncé. E outra mudança drástica vocal é quando a cantora entoa Best Thing I Never Had.
Segundo single do álbum e a melhor colocada na Billboard, a canção é a mais “comercial” de todas as faixas ao ser uma power balada pop soul que tem referências dos anos noventa, em que a Beyoncé entrega uma performance que é quase como se a mesma estivesse “atuando” devido à maneira como pronuncia os versos, como se fosse uma conversa direta para alguém. E isso é algo muito interessante, pois dá um dinamismo para a canção completamente diferente do restante do trabalho dentro do álbum e, também, da carreira da cantora. E o motivo para essa escolha vocal é a composição da canção, que foi construída como um “desabafo” sobre ter se livrado do famoso “boy lixo” antes que fosse tarde demais. Dentro do álbum, a composição faz parte do grande quadro de 4, que é claramente o álbum romântico da carreira da Beyoncé.
É fácil notar que, tirando algumas exceções, o álbum é sobre o amor e seus estágios, indo da paixão à decepção. Isso o coloca em uma posição curiosa, já que entrega ótimas composições, mas que não têm exatamente um peso em comparação a outros trabalhos da artista. Não é demérito exatamente, mas, sim, algo que deixa 4 em outro patamar. Todavia, é preciso apontar que existem momentos realmente de inspiração pura no álbum, e o melhor deles é a genial composição de Countdown.
Seguindo o mesmo caminho romântico, a canção acerta o tom ao ser mais descontraída, inteligente e contar com uma construção lírica realmente genial. Com mudanças rítmicas que condizem com as mudanças na maneira como os versos são construídos, a canção se torna uma aula de como criar camadas, texturas e quebras de expectativa de uma forma tão impactante, divertida, contagiante e realmente inspirada. E o grande ponto alto é no pré-refrão, em que é incorporada a contagem regressiva de maneira impressionante e genial. E quando digo que, mesmo quando as composições não são tão inspiradas, ainda assim são ótimos trabalhos, é quando temos momentos como a simples, mas extremamente eficiente composição de End of Time. Além disso, a canção se beneficia dos outros elementos em estado de graça, que são o impressionante e magistral trabalho de produção nessa frenética e épica mistura de R&B com afrobeats, neo-soul e dancehall, e da presença magnética da Beyoncé.
4 marcou o começo da segunda fase da carreira da Beyoncé, que é sucedida pelo arrasa-quarteirão Beyoncé e finalizada com o álbum que é a magnum opus da cantora, Lemonade. Apesar de ainda manter certos aspectos de ser o menor dentro da sua carreira, o álbum vem envelhecendo como um bom vinho e precisa ser ainda melhor avaliado por ser um trabalho realmente digno do maior apreço possível.


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