Ariana Grande
Acredito que a Ariana Grande chegou a um patamar da carreira que apenas poucos nomes conseguiram, e isso é algo realmente acalentador e louvável, pois foi conquistado ao longo dos anos com talento e bastante trabalho. E, para alguém como eu, que venho acompanhando desde o começo, é fácil ver esse feito em toda a sua glória. Todavia, isso não impede que também reconheça que a artista está meio presa sonoramente às suas próprias amarras, mesmo tentando experimentar no decepcionante Petal.
Longe de ser exatamente um álbum ruim, o oitavo álbum da cantora é um trabalho que entende perfeitamente a sonoridade que a mesma deseja passar, em todas as suas qualidades e, também, os defeitos. De maneira geral, a produção da Ariana ao lado de Ilya e Max Martin entrega uma mistura refinada de uma visão própria que mistura synth-pop, R&B, trap e bedroom pop com doses de alt-pop. Muito bem conduzida, instrumentalmente precisa e elegante e com uma fluidez absurda, a sonoridade aqui também é presa a uma cartilha muito delimitada que foi construída nos últimos álbuns sobre qual é a atmosfera das canções da Ariana. E isso qualquer pessoa pode notar ao analisar o que estamos falando, já que isso meio que se tornou a cara da artista, especialmente se a gente comparar as canções dos primeiros álbuns com o que ela vem fazendo desde Thank U, Next, para ser mais exato. Se isso dá para a cantora toda uma personalidade completamente única, também vem sendo o que a mesma precisa “modificar” para sair desse lugar que definitivamente não a pertence.
Essa mudança é até tentada aqui, já que fica claro que estamos diante de algumas tentativas de inserção de experimentos sonoros devido a algumas texturas, nuances e camadas que dão certos vislumbres do que poderia ser a sonoridade da cantora se realmente isso fosse levado para um patamar mais arriscado e melhor explorado. O problema sonoro de Petal é que a base é tão forte e predominante que esses experimentos são engolidos, deixando mais como toques do que verdadeiras buscas por novos caminhos. E um desses casos é em like i do. Eu gosto da batida mais forte, puxando para o hip hop e dark pop. Só que a estrutura mais synth-pop/R&B segue à risca a cartilha da já estabelecida sonoridade, e isso impede que a canção realmente ganhe uma nova forma que realmente misture todos os elementos. Isso, infelizmente, se torna o lema de todo o álbum. Entretanto, o grande erro que vem acometendo a carreira musical da Ariana é a mesma se podar vocalmente.
Todos sabem da capacidade vocal da cantora e, se alguém tinha alguma dúvida, a sua presença em Wicked provou definitivamente a sua imensa capacidade e domínio vocal. Só que a cantora entrega aqui performances que, sim, combinam com a estética da sonoridade ao seguir um caminho mais estilizado, contido e linear. Isso limita demais o que a Ariana pode fazer vocalmente, e não estou falando de alcance vocal e, sim, mais de versatilidade, pois, no final das contas, parece que todas as canções são entoadas com a mesma dinâmica, mudando apenas algumas variações aqui e ali. E, claro, sinto falta do poder da voz da cantora, que sempre é capaz de elevar e muito as canções. Esse problema fica bem claro no que é a melhor canção do álbum: hate that i made you love me. A canção “soa ainda mais contida e menor devido à performance contidíssima de Ariana, que entoa a canção de maneira calma, reflexiva e quase melancólica. E isso, sinceramente, não é problema nenhum, mas deixa uma lacuna quando a gente sabe bem que Ariana é capaz de muito, mas muito mais”.
Outros momentos que dão certa qualidade para o álbum são o seu abre-alas na simpática kiss me, a quase realmente interessante bad thing (bunny hop) e, por fim, a canção que dá nome ao álbum, petal.
Espero que a pausa anunciada pela cantora recentemente para cuidar da sua saúde possa ajudar a começar uma nova era na sua vida e, claro, na sua carreira musical, ao finalmente descobrir como evoluir a sua sonoridade já desgastada.


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