25 de janeiro de 2026

Qual é o Seu Prazer?

I Could Get Used to This
Jessie Ware

A volta que todos estavam esperando ganha forma com o lançamento de I Could Get Used to This, da incomparável Jessie Ware. E a cantora já responde, de cara, a uma questão levantada alguns anos atrás: qual é o seu prazer?

Não sei vocês, mas o meu prazer é escutar canções sensacionais como essa produção inspiradíssima. Aqui, é novamente um deleite perceber como a produção consegue compreender perfeitamente toda a personalidade da cantora, mesmo trabalhando com dois novos nomes, Jon Shave e Barney Lister. O resultado é uma canção que mistura com perfeição a vibe do início da carreira de Jessie com aquilo que ela vem apresentando desde o sucesso de What’s Your Pleasure?: uma deliciosa, refinada, elegante, madura, cativante e aveludada fusão de pop soul com post-disco, além de toques de dance-pop, R&B e boogie.

Sem pender para uma nostalgia barata, mantendo um claro verniz contemporâneo sem perder o charme de um bom “revival”, I Could Get Used to This impressiona ao unir pontas tão distintas em uma canção extremamente gratificante e de qualidade técnica notável. Desde sua abertura envolvente e graciosa, que estabelece um clima convidativo e sonhador, até o seu desenrolar preciso, no qual novas camadas sutis, porém pungentes, vão sendo adicionadas, a faixa cresce em força dançante e energia até culminar em um clímax vibrante e suculento.

E nada disso teria o mesmo impacto sem a presença magistral de Jessie Ware, que entrega uma performance brilhante, dominando cada momento da canção com sua voz sedosa e carisma luminoso. Para quem acompanha a cantora, isso não é surpresa, mas ainda assim impressiona o quão poderosa é sua presença de forma tão única e refrescante. Por fim, a composição de I Could Get Used to This atinge um nível altíssimo ao traduzir a elegância da artista em uma deliciosa fábula sobre amor e desejo.

Assim, ainda em janeiro, Jessie Ware já entrega uma das fortes candidatas ao título de melhor canção do ano.
nota: 9

A Primeira Grande Música de 2025

DANCE...
Slayyyter


Com uma sequência de lançamentos incríveis, a Slayyyter vai finalmente lançar o seu aguardadíssimo quarto álbum (Worst Girl in America). E, para continuar essa impecável sequência de singles, a cantora lançou a primeira grande canção de 2025 com a sensacional DANCE...

É impressionante que todos os lançamentos da cantora consigam ser completamente diferentes entre si, mas ainda assim seguir claramente uma linha de raciocínio criativo clara e impressionante. Aqui, a produção segue para um caminho electropop misturado com acid house, post-disco, dank pop e alternativo, com uma produção mais dramática, soturna e pegajosa.

São elementos que a cantora já mostrou algumas vezes, mas, em DANCE..., são remodelados para dar camadas de personalidade à cantora, mostrando uma total e indiscutível versatilidade. E não é apenas sonoramente que a canção ganha muitos pontos, pois também é fácil notar o tamanho da qualidade instrumental da canção em um trabalho calculadamente complexo de construção técnica. Econômica na lírica, mas eficiente na medida para mostrar um lado mais emocional da cantora, Slayyyter entrega outra vez uma impressionante performance ao deixar brilhar sua voz mais “direta” e sem grandes efeitos, comprovando a sua versatilidade.

Queridos leitores, DANCE... é como que todos os anos deveriam começar.
nota: 8,5

Ray Of Harry

Aperture
Harry Styles


Depois de um hiato de quatro anos em que, sabiamente, descansou a sua imagem, Harry Styles está de volta para o lançamento do seu quarto álbum (Kiss All the Time. Disco, Occasionally). E, como primeiro single, foi lançada a interessante Aperture.

Mantendo o mesmo nível dos lançamentos de primeiros singles da sua carreira, a canção é um trabalho que consegue mostrar bem as qualidades do cantor, assim como seus pontos fracos. A melhor parte do single é que a gente vê nitidamente a evolução sonora do cantor e, principalmente, a sua vontade de buscar novos caminhos. Aperture é uma gratificante, madura e corajosa incursão de Harry no eletrônico, ao entregar uma densa, mas palatável, mistura de progressive house com alt pop, synth-pop e deep house. Bem construída e com personalidade, Aperture dá profundidade à imagem do artista por ser um experimento sincero e com personalidade.

Falta, porém, picância para conseguir elevar o material, já que o resultado flerta com o genérico aqui e ali, mesmo conseguindo sair desses buracos com facilidade devido ao trabalho elogiável de instrumentalização. Acredito que a canção deixa a desejar quando se coloca em um caminho linear demais, não tendo algum momento que faça a gente “levar um tapa” na cara devido à surpresa. É preciso apontar que a produção tem a qualidade de entregar uma canção de mais de cinco minutos que vai contra qualquer manual atual do pop, e isso dá uma sensação de força criativa genuína.

Vocalmente, Harry entrega uma performance realmente competente, já que se molda perfeitamente à atmosfera da canção sem perder a sua personalidade e o seu imbatível charme. O grande problema da canção é a sua composição segura, mas sem deixar clara a evolução lírica do artista. Esse é um dos problemas de Harry na sua carreira, pois, se de um lado ele é capaz de entregar composições com o “tino pop” perfeito, do outro ainda falta certa apuração poética para que sejam trabalhos realmente ótimos. Gosto muito, porém, dos dois primeiros versos, mas a partir do refrão a canção volta a cair no mesmo lugar de outras canções dele.

Aperture não é a melhor canção do Harry nem vai ser uma das melhores do ano, mas é um trabalho que despertou minha curiosidade para o que pode ser a melhor era do cantor.
nota: 7,5

Clichê Bom

Beat Yourself Up
Charlie Puth


Sabe o bom e velho clichê? Então, quando ele é realmente bem executado, é possível ter canções como a gostosinha Beat Yourself Up, do Charlie Puth.

Single de seu álbum previsto para este ano, Whatever’s Clever!, a canção é a soma de vários clichês do R&B, pop funk, boogie e dance-pop que poderiam facilmente resultar na música mais sem graça possível. Todavia, a produção classuda do próprio cantor em parceria com o BloodPop suaviza essa impressão ao entregar uma faixa limpa, direta e bastante divertida. Dessa maneira, fica difícil não se deixar levar pela batida leve e envolvente de Beat Yourself Up.

Além disso, o single conta com uma das performances mais encantadoras de Charlie, que encontra não apenas o tom perfeito para a canção, como também adiciona uma vivacidade radiante capaz de equilibrar toda a sua atmosfera. Apesar de ter uma boa letra, o único erro real da faixa é não entregar um refrão verdadeiramente avassalador — algo que poderia elevá-la a outro patamar.

Não chega a reinventar a roda, mas Charlie faz ela rodar lindamente.
nota: 7,5

Razões

Gut Punch
Nick Jonas


Ainda não entendo bem o que aconteceu com a carreira do Nick Jonas, que começou sua fase solo com tanto potencial e acabou não chegando a lugar nenhum de verdade. Ouvindo Gut Punch, é possível entender algumas razões.

Single de seu quinto álbum (Sunday Best), a canção é um grande nada, pois não chega a ser ruim, mas passa muito longe de ser boa. Uma balada pop rock inofensiva, incolor e insonsa, Gut Punch é o tipo de canção que parece nunca mostrar, de fato, a razão da sua existência, ao ter uma produção rasa, sem criatividade e completamente esquecível. É o tipo de canção que a gente escuta e esquece logo que termina. A sensação piora quando a gente percebe que a produção até acerta no uso do sample de Impossible, da Shontelle, mas não constrói nada interessante a partir disso. Além disso, a canção não valoriza em nada o timbre do Nick, deixando sua voz soar mais limitada e quadrada, já que não parece se encaixar, mesmo o cantor tendo carisma.

Se essa falta de inteligência criativa é um dos motivos para o Nick não ter estourado, é uma razão bastante válida.
nota: 5

Razões 2

Most Wanted (featuring Valiant)
Leigh-Anne

Depois de um começo bem interessante — que acabou se perdendo pela falta de valorização do seu talento por parte da gravadora —, Leigh-Anne finalmente vai lançar seu primeiro álbum, My Ego Told Me To. É uma pena, no entanto, que o primeiro single seja tão mediano quanto Most Wanted.

Gosto do fato de a cantora buscar um caminho próprio ao apostar em uma pegada afrobeats, mas a produção acaba pecando por ser genérica demais. Dançante e até divertida, Most Wanted não tem força ou identidade suficientes para não parecer uma “cópia” de alguma canção da Tyla, deixando aquela sensação clara de “já ouvi isso antes” ao final da escuta. Ainda assim, Most Wanted apresenta personalidade graças à presença de Leigh-Anne, que consegue se sobressair por conta de seu carisma magnético, e a parceria com Valiant funciona de maneira bastante natural.

Espero que o futuro de Leigh-Anne siga um caminho parecido com o da Raye, porque talento definitivamente não deveria ser desperdiçado.
nota: 6