2 de outubro de 2026

Primeira Impressão

THRASHER
Brandon Flowers




Thrasher, terceiro álbum da carreira solo de Brandon Flowers, é um álbum que notoriamente emoldura uma sonoridade country. Todavia, o trabalho só realmente levanta voo quando a produção se apoia no que o cantor traz de bagagem artística.

É fácil notar que, teoricamente, o álbum está em boas mãos: além do Brandon, a produção coube a Jonathan Rado e Shawn Everett, que têm ambos experiências das mais diversas, indo do pop ao indie rock e até ao country. E isso fica evidente no álbum que, apesar de qualquer crítica, tem uma produção segura que sabe muito bem quais são suas referências e como colocá-las em prática de maneira eficiente e natural. Entretanto, o grande problema é que, quanto mais country tradicional o álbum navega, menos interessante se torna devido à atmosfera genérica e conservadora com que as canções são construídas. Entendo perfeitamente o motivo para isso, mas tem como seguir esse caminho mais puro sonoramente de uma maneira que fosse mais excitante e menos massificada, soando como sendo um “cover” do country do que realmente a visão da produção e do cantor sobre o gênero.

Esse problema afeta basicamente todo o álbum, com alguns lugares menos problemáticos do que outros. Especialmente, a parte inicial é um começo meio “broxante” e que deixa o resto do álbum com um véu com a mesma sensação. Thrasher começa a melhorar e entrar em um eixo quando, primeiro, a essência artística de Brandon começa a aparecer com mais intensidade e, também, quando outros gêneros são introduzidos como, por exemplo, o indie rock e a americana. E isso vai dando vida para as canções, pois as mesmas saem de lugares comuns do country para ganhar camadas e texturas e, mais importante, personalidades que as fazem soar mais como canções originais do que com alguma impressão de serem regravações. E tudo começa pelo single Plans.

"O single é um sólido country rock/alt-country que funciona bem melhor do que poderia ser esperado devido a uma produção eficiente, que entrega uma canção nada inovadora, mas, sim, respeitosa e classuda. E o grande ponto alto é que a produção sabe misturar bem o gênero com a personalidade de Brandon, criando uma canção que não parece estar deslocada demais do que o artista já entregou na sua carreira de maneira geral". A partir desse momento, Thrasher não necessariamente se torna um grande álbum, mas vai ganhando forma definida e a gente vai podendo realmente entrar nessa jornada.

Além disso, a presença da grandiosa, atemporal e poderosa voz de Brandon vai encontrando espaços melhores para deixá-la dominar e entregar momentos inspirados e com uma elegância e graciosidade, pois é nesses momentos que podemos realmente ver o roqueiro como um perfeito vocalista versátil, que se adapta de forma elogiável. Na country rock/americana Angel, a performance do cantor é que dá toda a emoção crua e genuína para uma canção refinada e sombria.

Todavia, o momento mais importante vocalmente é na canção que fecha o álbum, An American Dream, pois a sua performance assombrada, melancólica e devastadora é que dá sentido a essa crônica sobre as consequências da fama e do chamado “sonho americano”. E um dos momentos mais interessantes da canção é quando o mesmo narra um sonho em que encontra Elvis Presley, em que ele pergunta sobre sua filha, Lisa Marie. Só que o momento mais interessante liricamente é na tocante country/americana Miss America, em que a narrativa parte do ponto de vista de uma jovem mulher escrevendo uma carta para alguém da família e falando sobre a sua vida e tal. A narrativa em forma de história, que é uma das bases do country tradicional, se adequa lindamente à persona do compositor Brandon e cria algo realmente emocional e bonito.

Thrasher é um bom álbum que é sustentado pelo talento de todos os envolvidos, especialmente o de Brandon Flowers, mas que poderia ser bem mais com algumas correções de percurso.



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