9 de outubro de 2026

Primeira Impressão

Mule
Orville Peck




Já tinha algum tempo que o nome Orville Peck vinha circulando na minha “órbita” de interesse, mas sempre ficava de fora das minhas prioridades para resenhas aqui no blog. Então, decidi que agora seria a hora de resenhar o seu quarto álbum, Mule. E, queridos leitores, posso afirmar sem nenhuma dúvida que foi uma decisão muito acertada.

Levado ao conhecimento do público pelo seu debut em 2019, com o álbum Pony, o artista é conhecido por usar uma máscara e por ser um artista country abertamente gay. Essas características já o fazem se destacar em um campo que, atualmente, é de uma mediocridade incrível, mas essa sensação aumenta e muito quando a gente nota que o artista faz no álbum o que poucos artistas no country, especialmente os homens, vêm fazendo nos últimos tempos: um bom álbum country. Na verdade, o resultado é bem mais que apenas bom e, sim, ótimo. E o primeiro motivo é meio que seguir algumas cartilhas do gênero bem à risca, especialmente a que se refere à parte lírica.

Uma das mais famosas características do country é a capacidade de transformar suas composições em verdadeiras histórias que, normalmente, possuem começo, meio e fim. E isso, infelizmente, vem se perdendo devido à massificação do gênero. Todavia, Mule cumpre perfeitamente esse quesito com composições inspiradas que têm, de maneira geral, um ponto de vista bem claro e definido, ao ser a história de como Orville, após sofrer uma overdose e quase morrer, foi para uma clínica de reabilitação e começou a reconstruir sua vida. E, na melhor tradição country, a jornada que o álbum nos leva é emocional, pessoal, madura, sentimental e com essa clara qualidade de estarmos diante de alguém contando a sua história em forma de versos que nos prendem do começo ao fim. Não é, porém, nada exatamente de uma genialidade rara, mas, sim, a capacidade de respeitar e explorar as possibilidades que a sonoridade adquirida daqueles que pavimentaram a estrada oferece para usá-la da melhor maneira possível e, principalmente, tendo um claro e íntimo ponto de vista.

Apesar de ser um trabalho honesto sobre o que o artista viveu, Mule nunca é de um sentimentalismo piegas ou uma tentativa de se fazer de uma simples vítima ou desfilar uma coleção de autopiedade. Orville está apenas atrás de contar a sua história de uma forma que possa conectar com quem escutar em vários níveis, sem precisar buscar saídas muito fáceis e, também, nunca deixando a sinceridade e a vulnerabilidade de lado. Sinceramente, o álbum é, na minha visão, um dos trabalhos mais honestos liricamente do ano, pois fica bem nítido que estamos vendo uma pessoa ainda em processo de cura, que usa a sua escrita como forma de expiação.

Isso é refletido em um dos momentos mais poderosos, que é a devastadora The Fall, que narra basicamente os momentos em que o artista tem a overdose e vê a morte de perto. Triste, comovente e de uma força emocional imensa, a canção não quer que a gente “chore” por chorar e, sim, apenas sinta as emoções que o mesmo sentiu e entenda o que o levou a esse momento. E é quando chega a última frase da canção que podemos entender toda a significação da canção para o cantor: “I thought it was goodbye, then I recalled the fall”.

E o álbum é literalmente essa jornada de começo, meio e fim nessa parte da vida do artista, em que podemos ouvir e sentir as emoções de uma maneira tão realista e comovente que termina de maneira agridoce e tocante na faixa que dá nome ao álbum, Mule, ao ser uma bela e triste crônica sobre sobreviver ao inferno e ter esperanças no futuro, mas ainda não estar totalmente curado. A significação da metáfora dele se tornando uma “mula”, ao ser alguém que, apesar do peso que carrega, continua a vida, é realmente pungente e devastadora, pois é fácil encontrar ressonância na vida de qualquer pessoa que passou por maus bocados e não desistiu.

Sonoramente, o álbum não traz nada de novo ou que quebre expectativas, mas é um trabalho country/country rock com traços de americana e indie rock extremamente bem feito, maduro, respeitoso e sempre tecnicamente impecável, até em faixas menores. É tradicional em projetar uma sonoridade mais tradicional sem nunca ser conservadora ou um pastiche sem criatividade. Em um dos momentos mais inspirados, o álbum entrega a forte, dramática e sombria country rock Blue Skies, em que a produção entrega a força emocional perfeita para ser a ponte final da narrativa para o momento da queda (The Fall). Essa inteligência estrutural também é importantíssima para a construção do álbum como essa narrativa bem delimitada.

Entretanto, quem é o fio que dá sentido para tudo isso é a presença poderosa de Orville, que é dono de um timbre grave que consegue preencher qualquer canção facilmente, mas não se apoia apenas nisso, já que consegue mostrar grande versatilidade, assim como vulnerabilidade sincera, uma beleza melancólica e, também, uma graciosidade afetiva em momentos diversos do álbum.

Outros momentos que precisam ser citados como destaque ficam por conta da acidamente melancólica Rehab Blues, da batida “animada” da divertida Ring The Bell, do toque pop rock na construção de Run Out Of Road e, por fim, da interessante “intro” que começa o álbum em Prologue (Eulogy Of A Man Turned Mule), entoada apenas por Emmylou Harris, Noah Cyrus e Allison Russell.

Mule não é exatamente o melhor álbum do ano, mas é uma das melhores surpresas. E isso se deve ao Orville Peck fazer com primor o que se propõe a fazer em todos os sentidos possíveis.


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