16 de outubro de 2026

Primeira Impressão

She's the Best
Troye Sivan




Uma das bases das minhas análises é a trindade produção, vocais e composição. Sempre tento explicar o que cada uma contribui para o contexto de um álbum e, claro, para o seu resultado final. Mesmo tendo essa visão “separatista”, também acredito que a coesão entre os três elementos é de muitíssima importância para a saúde de um trabalho. A questão, então, é: quando um desses elementos é bem inferior aos demais, qual é o resultado final? Isso podemos ver em She's the Best, do Troye Sivan.

Quarto álbum da carreira do artista, o trabalho é bom, mas fica aquém do que ele já entregou e se torna o seu pior até o momento devido a um elemento que destoa de todo o resto: as composições. E isso literalmente puxa todo o álbum para baixo, pois cria uma espécie de trava que impede que a ótima produção e a presença carismática de Troye façam o trabalho realmente se elevar. E não é o caso de as letras serem ruins ou algo parecido, mas fica bem claro que o trabalho criativo aqui está menos lapidado, menos eficiente e repleto de decisões que ficam entre o estilo apenas pelo estilo, a profundidade de uma piscina para crianças e os bons momentos que ficam espalhados aqui e ali. O resultado é como se fosse a casca da capacidade que o cantor já demonstra, pois apresenta a mesma personalidade, navega em temáticas parecidas e, sinceramente, até apresenta uma evolução nesse quesito. Entretanto, o conteúdo soa mais como um vazio preenchido apenas por ar aromatizado do que por uma massa realmente consistente.

E, claro, isso não tem nada a ver com o fato de Troye falar sobre coisas “gays”, como vi sendo criticado nos últimos tempos, pois, primeiro, ninguém questiona isso quando artistas héteros falam sobre mulheres, sexo e relacionamentos; segundo, esse foi e continua sendo um dos diferenciais da carreira do artista desde o começo. O problema de She's the Best é que a maneira como ele escreve sobre esses assuntos soa aqui bem distante da maestria e da inteligência de outros momentos de sua carreira. Por exemplo, quando resenhei o sensacional Bloom, de 2018, afirmei sobre a parte lírica: “falando sobre assuntos como descoberta sexual, desejos, corações quebrados, dores de cotovelo, paixonites e autoconhecimento, Troye constrói um dos álbuns pop de maior alcance temático dos últimos tempos e de uma profundidade impressionante, sem que em nenhum momento soe pedante ou muito menos perca o senso de que, no final das contas, Bloom é um álbum pop”. E toda essa beleza, esse cuidado e essa força na parte escrita são justamente o que fica faltando, especialmente quando fazemos uma comparação direta.

O melhor exemplo do que estou apontando se concentra, de maneira bem didática, no single Party: “o single é composto apenas por um verso que vai ser repetido como se fosse um grande refrão. Na verdade, isso não seria um grande problema se o verso fosse realmente bom, pois o que temos aqui é até divertido e ‘campy’, só que também é raso e menos interessante do que deveria ser. E isso custa à canção alguns pontos importantes, pois sua embalagem é consideravelmente superior ao seu conteúdo”. Mesmo que essa decisão estrutural não se repita ao longo do álbum, a sensação de que falta algo é permanente em vários momentos. Assim como o single mostra o que está errado no álbum, também mostra sua maior qualidade: a produção.

“Com uma produção completamente pendendo para o house, especialmente puxando para o acid house, a canção é eletrizante, dançante, grudenta e muito bem construída, com um toque experimental que conversa com a sonoridade do cantor, mas dá alguns passos para sair do pop mais delimitado que ele vem apresentando. Existe uma clara inspiração dos anos noventa e do começo dos anos dois mil na elaboração da batida, sem deixar a canção datada”.

De maneira resumida, She's the Best é um trabalho pop competente, efervescente, divertido, redondo e com personalidade definida, incrementado por doses bem-vindas de alternative dance, bedroom pop, alt-pop, electropop, neo-psychedelia, entre outros gêneros em menor escala. Com a produção do próprio Sivan em várias faixas, além de nomes como Jack Antonoff, Cirkut e Styalz Fuego, o álbum tem um curioso e bem-vindo verniz experimental, no qual dá para notar a vontade de criar algo realmente diferente, que converse diretamente com o que o artista já vem fazendo. Nem sempre é algo que acerta o alvo, mas é revigorante e tem um senso pop apurado. Um dos melhores momentos está justamente na faixa que dá nome ao álbum, She's the Best: “bem longe dos trabalhos de maior deglutição do cantor, o single funciona quando a gente percebe que existe possivelmente uma influência das produções dos Pet Shop Boys misturada com o pop/eletrônico experimental dos anos noventa”.

Gosto também de como Troye se arrisca vocalmente, criando novas texturas para suas performances e mostrando grande versatilidade. Entendo que algumas dessas decisões, especialmente as que envolvem uma performance bem puxada para o spoken word, não sejam tão atrativas para alguns, mas, para mim, funcionam bem. E, quando o cantor tem em mãos uma canção à altura de sua entrega, ele oferece seu melhor momento no álbum com a sexy, dançante e suculenta Canada Dry. Outros bons momentos do trabalho são a delicada e cativante balada mid-tempo Embarrassingly e a dramática e romântica FF.

She's the Best é o pior álbum da carreira de Troye Sivan, pois faltaram as palavras certas para que ele pudesse se expressar da maneira adequada. Todavia, o trabalho ainda é uma ótima jornada pop de um artista que continua a mostrar seu imenso talento.


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