Haute & Freddy
Quase não dou atenção ao álbum que, na minha visão, será um dos melhores de 2026: o magnífico Big Disgrace.
Surgindo de tempos em tempos nas minhas playlists aleatórias, o álbum de estreia do duo Haute & Freddy é o tipo de trabalho que funciona como uma salada mista de sabores, cores, texturas e inspirações das mais diversas, algo que poderia facilmente resultar em uma bomba gigantesca ou mesmo em um álbum completamente sem personalidade, ainda que tivesse qualidade. Felizmente, isso passa completamente longe desse efusivo, divertidíssimo, campy e, por vezes, brilhante mergulho no synth-pop com influências dos anos 1980, mas que também bebe da fonte de vários artistas com sonoridades bem diferentes e diversas.
Tente imaginar uma mistura de Cyndi Lauper, Kate Bush, Pet Shop Boys, Grace Jones, Depeche Mode, New Order, David Bowie, Prince, Madonna e outros, reunidos em um único álbum que parece, ao final, um primo-irmão de Chappell Roan e um primo distante de Gaga. Então, Big Disgrace é exatamente tudo isso e muito mais, mas, ao mesmo tempo, consegue se sustentar completamente em suas próprias pernas, resultando em um trabalho majestoso.
Formado pela vocalista Michelle Buzz (que já trabalhou com nomes como Kylie Minogue, Katy Perry e Bebe Rexha) e pelo músico e produtor Lance Shipp (que tem trabalhos com Kylie, Britney Spears e Calvin Harris), o duo se conheceu nesses círculos e trabalhou no projeto durante dois anos antes do lançamento. Produzindo e escrevendo todo o álbum com a ajuda de alguns colaboradores, a dupla mostra que esse foi um encontro escrito nas estrelas, pois é claríssimo que existe uma compreensão plena do conceito escolhido para a construção da sonoridade do disco. Por isso, a dupla parece apostar em um leque tão amplo de influências e referências: ambos têm uma visão muito precisa de como aproveitar tudo isso para construir um álbum tão dinâmico, refrescante, atemporal e dono de uma personalidade iluminada. Só que Big Disgrace é muito melhor do que qualquer expectativa.
Para começar, o trabalho técnico é espetacular, criando instrumentais impressionantes, alinhados a uma produção vocal excepcional. Todavia, a grande qualidade do álbum está em sua criatividade inteligente, que consegue cumprir perfeitamente todas as suas ambições ao entregar exatamente o que promete desde sua genial abertura, com a incrível e memorável Symphony For A Queen. Melhor faixa do álbum, a canção é o tipo de abertura que todo disco de vertente pop deveria, ao menos, considerar ter: grandiosa, explosiva, cativante e capaz de apresentar, de maneira resumida, a essência do trabalho.
Ao encontrar a letra no site Genius, gostei muito da descrição da canção: “uma balada art-pop guiada por sintetizadores, que entrelaça imagens medievais com batidas aceleradas, criando uma sonoridade dramática e atmosférica”. Uma definição muito correta da faixa, mas que também deixa de fora a majestosa construção climática da canção, que se desenvolve de maneira inspirada até culminar em uma explosão cativante, de personalidade marcante e completamente única.
E essa personalidade é outro diferencial imenso do álbum, pois, ao ouvir a faixa pela primeira vez, imaginei-a como uma peça de um musical sobre Alice no País das Maravilhas, mas inteiramente sob a perspectiva da Rainha de Copas, que tem a oportunidade de expressar os sentimentos de uma “vilã”, assim como acontece em Wicked. Essa interpretação é reforçada por um momento de pura genialidade no refrão:
Começar dessa maneira poderia até justificar uma desaceleração, com o restante do álbum deixando de acompanhar a mesma intensidade. Entretanto, como já apontado, Big Disgrace é um trabalho que se mantém nas alturas do começo ao fim.
Como já mencionado, o álbum é uma viagem pelo synth-pop, mas que vai sendo incrementada, refinada e enriquecida por uma dezena de influências e referências, incluindo art pop, pop rock, electropop, new wave, dance-pop, post-punk, funk-pop, entre outros. Essa profusão de gêneros não é algo que qualquer produção conseguiria sustentar com tanta firmeza, mas a dupla entrega uma fluidez sonora impressionante graças à maneira como costura a teia musical do disco. Apesar das mudanças sonoras, tudo é construído de modo que não sentimos nenhuma aspereza entre as transições que possa prejudicar a cadência e a narrativa musical.
Logo após a introdução com Symphony For A Queen, o álbum apresenta a deliciosa Anti-Superstar, uma faixa de dark pop rock e synth-pop que, mesmo trazendo certa mudança sonora e uma pegada menos “art”, estabelece um casamento perfeito entre sonoridade e letra. Esta última, especialmente, funciona quase como uma continuação da narrativa da Rainha de Copas, já que a canção declara logo na abertura: “I can't be for everyone / If I'm made for you”.
Fechando essa primeira trindade, temos a curta, mas extremamente eficiente Sweet Surrender, uma faixa synth-pop dançante e cativante que parece encerrar esse primeiro arco narrativo com a Rainha se lançando em um novo mundo de descobertas: “Don't be surprised if you see me tonight / With my stockings up high, and my cinnamon eyes”. Embora acredite que ainda seja possível lapidar alguns aspectos aqui e ali, a lírica de Haute & Freddy é outro fator importantíssimo para o sucesso de Big Disgrace.
Embora a comparação com a Rainha de Copas seja uma interpretação pessoal minha, a maior qualidade das composições do álbum está em sua característica narrativa, que se mistura perfeitamente a um senso pop equilibrado, referências apuradas, uma força emocional realmente pungente, independentemente da temática abordada, e uma inteligência rara na construção de composições que incorporam estilos específicos sem, contudo, cair na imitação ou no pastiche. É justamente aqui que consigo perceber com mais clareza a influência de Gaga e, também, a conexão com Chappell Roan, graças a características criativas que evidenciam similaridades estéticas e temáticas.
Por exemplo, um dos momentos mais emocionantes do álbum é a linda balada synth-pop Showgirl At Heart, que fala sobre a esperança de encontrar seu lugar no mundo, mesmo quando tudo parece conspirar contra você: “The spotlight is yours alone to take / Oh, you're just a showgirl at heart, undercover / Dancing like the world is your stage, prima donna”. É possível apontar a canção, de maneira bastante nítida, como uma parente de Pink Pony Club, de Roan, inclusive em termos sonoros. Não se trata de uma cópia, mas, sim, de uma clara conexão geracional e de visão artística entre os dois projetos.
Além disso, a presença magnífica de Michelle nos vocais ajuda a aprofundar ainda mais a personalidade do álbum, graças a uma performance vocal impressionante, capaz de acompanhar qualquer mudança proposta pelo disco. Ela adiciona uma teatralidade preciosa que, no entanto, nunca se torna o único fio condutor de suas interpretações, já que a cantora demonstra um senso pop vigoroso e maduro, aliado a um timbre lindo, ótimo alcance e enorme versatilidade.
Na sensacional Dance The Pain Away, a vocalista entrega algo mais robusto e “rock”, parecendo mirar em David Bowie, para depois mudar de chave e revelar sua persona Kate Bush na inspiradíssima Femme Hysteria. Mais adiante, ela parece misturar diferentes estilos para entoar a elétrica e deliciosa Fields of Versailles.
Ao que parece, o duo já prepara seu segundo álbum. Mas, queridos leitores, não deixem de conhecer esse deslumbre chamado Big Disgrace. Quem sabe, assim, Haute & Freddy não se tornam a próxima e merecida sensação do pop alternativo a virar um fenômeno no mainstream?


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