Denzel Curry & Kenneth Blume
Infelizmente, o ano de 2026 não está sendo exatamente muito bom para o rap/hip-hop, com poucos lançamentos dos gêneros realmente interessantes e/ou relevantes. Felizmente, sempre há aqueles que salvam a lavoura, e um deles é o ótimo projeto ii, do rapper Denzel Curry com o produtor Kenneth Blume.
Não espere algo que seja exatamente comercial ou com força para virar algo viral, pois o interessante aqui é um hip-hop/rap que possa se fundir, sem muitas amarras, com gêneros diversos, indo do acid jazz à psicodelia, passando pelo hardcore hip-hop e boom bap até chegar ao soul e ao experimental. Mistura essa já feita várias vezes por rappers que conseguem ter o que dizer sonoramente, mas aqui fica bem claro que a dupla está atrás de uma criação que possa encontrar uma vazão criativa realmente distinta e com personalidade. E isso é alcançado principalmente devido à concisão criativa da produção.
Com nove faixas e menos de vinte e cinco minutos, ii não perde tempo, muito menos fica devendo em questão de construção sonora, sendo possível ver claramente o que a produção se propõe a fazer e como consegue isso da maneira mais limpa possível. É meio estranho fazer essa comparação, mas o álbum é muito parecido com o que o diretor Zach Cregger fez no novo Resident Evil, ao entregar uma obra sem barrigas criativas e sem desperdiçar tempo, criando algo redondo e extremamente assertivo. Claro, assim como no filme, a qualidade da execução é tão boa que eu não ligaria de ouvir mais meia hora facilmente, mas o que temos aqui é a grandeza de uma produção que sabe o que faz e sabe que fez muito bem.
Tudo começa pela suingada e pela influência da psicodelia na sensacional abertura GONE FISHING, passa pela batida vintage e cativante de CANDLELIGHT, chega ao soul orgânico de BENJAMIN e termina na batida cadenciada e madura de COLD NIGHT IN HELL. Esses são os pontos altos de ii, mas o projeto também pode ser facilmente escutado como uma obra inteira, sem medo, devido à coesão da produção. E isso é elevado de maneira decisiva pela presença marcante de Denzel, que entrega uma sequência impressionante de performances que realmente solidificam o álbum como um trabalho autoral e de força criativa impressionante.
E isso é o que o ano ficou devendo ao hip-hop/rap: mais Denzels e menos Drakes. Felizmente, ii é um dos momentos mais interessantes do ano, sem nenhuma dúvida.


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