Björk
Todavia, o ônus de alcançar esse status trouxe vários problemas, incluindo um que quase custou a vida da cantora. É nesse caldeirão em alta fervura que, em setembro de 1997, é lançado o terceiro álbum da carreira de Björk: o lendário Homogenic. Obviamente, para entender melhor o álbum, precisamos contextualizá-lo tanto artisticamente quanto no âmbito pessoal.
A primeira situação a entender é que a artista vivia seu ápice comercial de maneira inigualável. Após despertar a atenção e a curiosidade do público com Debut, seu sucessor veio para consolidá-la como uma força completamente distinta no mainstream da época: Post foi um fenômeno de vendas e repercussão, com hits como Army of Me, Hyperballad e, claro, It's Oh So Quiet. Além disso, o álbum também começou a mudar a percepção de críticos mais arredios à artista, conquistando críticas melhores, de maneira geral, do que o trabalho anterior. Na minha visão, o álbum é uma verdadeira obra de arte, que considero um dos melhores de todos os tempos. Na ocasião, afirmei que “o grande trunfo de Post ao ser analisado depois de trinta anos não é soar atemporal ao apenas refletir o contexto em que foi lançado, pois várias vezes, quando isso acontece, é fácil ter um álbum atemporal, porém, datado”. A era também foi marcada por uma turnê de sucesso e muito bem recebida, que gerou um álbum ao vivo e um concerto lançado em VHS.
Esse sucesso todo fez com que Björk ficasse sob os holofotes de uma maneira que levou a mídia a se interessar por ela com um olhar microscópico, voltado não apenas à artista, mas também à pessoa. E, claro, sendo uma figura tão distinta e única, a cantora começou a ser rotulada ainda mais como excêntrica, estranha, peculiar e outros adjetivos usados para descrever quem não parece seguir determinados comportamentos que as pessoas consideram padrões ou normais. Devido a essa exposição e curiosidade, Björk começou a ter atritos com parte da imprensa, especialmente em confrontos com paparazzi que a perseguiam. Todavia, o momento pessoal mais importante dessa era aconteceu em setembro de 1996, quando um stalker chamado Ricardo López enviou uma carta-bomba contendo ácido sulfúrico para a cantora. Felizmente, o pacote foi interceptado pela polícia, evitando uma verdadeira tragédia. Com isso, o furor midiático atingiu um novo patamar e levou a cantora a tomar uma decisão importante: mudar-se de Londres para a Espanha para poder trabalhar em Homogenic em paz. Esse foi um dos movimentos importantes dessa era, mas não o único.
Após os dois primeiros álbuns, Björk estava inquieta artisticamente, pois queria definir e delimitar sua identidade sonora e, principalmente, voltar às suas origens e refletir sobre sua terra natal, a Islândia. Todavia, ela não queria recorrer a clichês ou à redundância ao explorar sonoridades e instrumentos folclóricos. A artista queria estabelecer uma sonoridade própria, deixando para trás a exploração diversificada de gêneros dos álbuns anteriores em favor de algo mais coeso. Então, eis que surge uma das decisões-chave: o trabalho com o produtor e músico Mark Bell. Falecido em 2014, Bell e seu trabalho ao lado da própria Björk são indispensáveis para a definição do que hoje entendemos como a sonoridade da artista, ao conduzi-la ainda mais para o eletrônico e estabelecer elementos quase indiscutivelmente associados a ela.
Homogenic é, então, um álbum com uma base totalmente voltada ao eletrônico, que vai sendo introduzida, incrementada e lapidada com texturas vindas do hip hop, da música clássica, do chamber pop, do trip hop, da música experimental, do jazz e, claro, do art pop, entre outros gêneros. Entretanto, o trabalho da produção, comandada basicamente pela cantora e por Bell, com Guy Sigsworth e Howie B responsáveis por uma faixa cada, não se destaca apenas pelas escolhas sonoras e pela maneira como elas são executadas, mas também pela amplitude que o álbum confere à própria sonoridade, levando-a a uma grandiosidade absurda, a um refinamento técnico genial e a uma atemporalidade lendária. Assim como Post, o álbum não apenas estava à frente de seu tempo quando foi lançado, mas continua impressionante quase três décadas depois. Se Homogenic fosse lançado hoje como um novo trabalho de Björk, provavelmente teria um impacto e uma recepção semelhantes por parte da crítica e do público, descontados certos aspectos relacionados ao pioneirismo que a obra carrega em seu cerne. Sua natureza épica e, ao mesmo tempo, tão humana é, talvez, o que faz o álbum ser tão imponente e continuar tão livre das fronteiras do tempo.
Uma das características mais impressionantes de Björk é que, apesar de sua arte ser tão avant-garde, ela também é profundamente humana ao explorar as emoções mais universais. E essa é a essência sonora e lírica de Homogenic, pois é aqui que encontramos uma lapidação do estilo da artista, que parece ter finalmente encontrado seu “lugar”. Como forma de se reapresentar ao mundo, o álbum começa com a canção que dá sentido à nova era, não apenas deixando clara a direção sonora que a artista seguiria dali em diante, mas também revelando um dos motivos para a existência do trabalho: a espetacular Hunter.
A faixa que abre o álbum e também foi lançada como terceiro single fala sobre como a artista se vê diante de sua terra natal, a Islândia, sendo o maior nome artístico surgido de lá, e sobre a responsabilidade e o orgulho de carregar essa alcunha, além de seu amor pelas próprias origens. Ela faz isso ao se comparar a uma “caçadora” que sai em busca da “comida” que sustentará seu povo, sem saber se conseguirá voltar em segurança, devido aos perigos que se escondem pelo caminho. É uma construção lírica simples, na qual a maneira de escrever da artista vai se cristalizando ainda mais: ela utiliza estruturas gramaticais simples, mas contundentes, para construir uma imagem complexa e repleta de simbolismo.
Sonoramente, a canção é uma impressionante peça de abertura, que praticamente explica a identidade artística de Björk e a parceria com Bell: um art pop mergulhado em influências eletrônicas primordiais, com pinceladas de drum and bass, ambient e baroque pop. É uma mistura complexa, cuja coerência seria difícil de alcançar, mas que, felizmente, ganha forma com engenhosidade magistral, graças ao pensamento refinadíssimo da produção e a uma sabedoria que entende que a sonoridade construída não vive apenas de sensações, mas também exige compreender como organizá-la para explorar todas as ideias. Isso é alcançado por meio de um instrumental genial, que funde sons orgânicos e eletrônicos.
É importantíssimo apontar que Hunter, ao abrir o álbum, cria uma atmosfera impressionante, soando como a trilha de uma marcha para a batalha que conversa diretamente com a temática da canção. Nesse começo de jornada, nada mais apropriado do que encontrar seu reflexo criativo na faixa que encerra o álbum: a lendária All Is Full of Love.
Dona de um dos clipes mais geniais da história, a canção funciona como um encerramento de jornada que coloca a última pedra fundamental na construção da identidade artística de Björk de maneira inesquecível. Novamente, a composição apresenta uma simplicidade ímpar que, ao mesmo tempo, transmite uma mensagem profunda e emocional, aqui marcada por uma esperança quase infantil, mas capaz de nos fazer sentir a mesma coisa ao dizer, essencialmente, que o amor existe e que você merece senti-lo de alguma forma. Tudo isso é construído de maneira a transformar essa fusão irreparável de art pop com ambient, trip hop e folktronica em algo que transita entre o transcendental e a emoção simples e humana de sair encantado e tocado por uma música.
All Is Full of Love também é um veículo para percebermos que a cantora não é única apenas devido à sua sonoridade e à sua capacidade lírica, mas, principalmente, por sua presença, sustentada por uma identidade inigualável e por uma voz que a coloca em uma categoria completamente intangível.
Desde o primeiro álbum, a maneira de cantar da artista sempre foi algo que “explode” em nossos ouvidos, por ser tão peculiar, inédita e ligada à sua identidade, especialmente quando consideramos o mainstream musical daquela época e, sinceramente, até mesmo o de hoje. Sem esconder em nada seu forte sotaque, a cantora encontra um equilíbrio praticamente perfeito entre sua personalidade gigantesca, seu carisma devastador e suas imensas capacidades vocais, que encontram a base ideal para que ela desfile todo esse talento sem amarras e em seu potencial máximo. E é aqui que entra, na minha visão, o melhor momento do álbum: a majestosa Bachelorette.
Uma power ballad art pop/chamber pop orquestral, épica, climática e magistral, produzida apenas pela cantora, na qual ela continua a encarnar seu alter ego Isobel. A personagem retorna à sua cidade de origem, onde precisa confrontar experiências passadas e viver novas e efervescentes emoções. A canção encontra o ápice vocal da artista em uma performance quase inumana, na qual ela se transforma em uma força da natureza capaz de arrastar emocionalmente qualquer pessoa que a escute. Sua voz é grandiosa, mas também melancólica e emocional. Sua presença é completamente única, mas encontra espaço para se conectar com quem escuta. É experimental, mas também sabe ser mais palatável. É quase como se fosse a versão de Björk de uma balada de Mariah Carey ou Whitney Houston, sem ter absolutamente nada a ver com as duas. Um trabalho realmente genial.
Outros momentos que precisam ser citados como grandes destaques de Homogenic são a órbita cativante e profunda da gigantesca Jóga, a batida descontraída e efervescente da dançante Alarm Call e, por fim, a batida industrial e áspera da sensacional Pluto.
Antes das considerações finais, é preciso apontar que essa era da carreira de Björk é extremamente importante para sua imagem, pois foi quando ela começou a trabalhar com o estilista Alexander McQueen na criação de vários looks icônicos, como o que usa na capa do álbum.
O sucesso comercial e crítico de Homogenic elevou a artista a outro patamar na carreira, tanto em termos artísticos quanto de reconhecimento, e trouxe novas camadas à sua vida profissional e artística. Então, quatro anos depois, a artista lançou um novo álbum que refletia sobre tudo isso, encerrando, de maneira não oficial, uma trilogia que pode ser chamada de “a criação de Björk”.


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