30 de junho de 2020

Uma Mistureba Pop

Love Not Loving You
Foxes

Durante um bom tempo durante a metade da década passada, a britânica Foxes parecia ser o próximo grande nomes do pop na terra da rainha. E, provavelmente, a próxima grande diva pop mundial. Depois da sua participação na vencedora do Grammy Clarity do DJ Zedd, a cantora lançou dois álbuns que, apesar de algumas boas músicas, nunca tiveram o impacto que a mesma prometia. Após um hiato de quatro anos e uma Dua Lipa no meio, Foxes está de volta com mais outro trabalho promissor: Love Not Loving You.

Love Not Loving You é uma canção estranha e isso não é nada ruim. O grande mote do single é ser uma mistureba de referências pop em apenas uma canção ao juntar em um caldeirão o dance-pop com new wave que encontra a sonoridade da Kylie Minogue com a da Carly Rae Jepsen e uns toques da Cyndi Lauper e uma pitada da Taylor Swift. Mesmo que falte um pouco de personalidade própria no meio, o resultado de Love Not Loving You é bem melhor que o esperado em uma canção efervescente, instigante e que vai crescendo aos poucos na nossa cabeça. A sua melhor qualidade é a esperta e interessante composição sobre a felicidade encontrada após se livrar de um relacionamento tóxico. Espero que a canção possar marcar uma volta de uma artista que esteve várias vezes a beira do estrelato.
nota: 7,5

Faltou Tempo

TKN
ROSALÍA & Travis Scott

A parceria da espanhola Rosalía com o rapper americano Travis Scott em TKN tem um grande defeito: a insuportável sensação de quero mais.

Provavelmente a parceria mais inusitada dos últimos tempos, TKN é uma mistura esquisita, surpreendente e de uma pungência ímpar de latin pop, reggaenton e trap que funciona mais do que qualquer expectativa. Forte desde o primeiro momento, o single tem uma sensação de equilíbrio e reciprocidade entre os dois estilos distintos dos envolvidos que a ajuda encontrar um meio termo inspirado. O mais surpreendente é que a presença de Travis Scott é realmente boa, principalmente o seus versos em espanhol. O problema central da canção é que com apenas dois minutos e nove segundos não há tempo para que realmente consiga chegar no ápice do seu potencial. Se não fosse por isso, TKN poderia facilmente estar no topo das melhores do ano. Mesmo assim, a canção já uma música louvável.
nota: 7,5


28 de junho de 2020

Primeira Impressão

Histórias Da Minha Área
Djonga

Rewind

Primeira Impressão

Ladrão
Djonga



Existem momentos na nossa vida que parece que recebemos um tapa na cara do universo, demandando que a gente acorde. Esse tapa pode ser o momento que transborda o balde para que possamos chuta-lo em uma emprego que não está dando mais certo. Esse tapa pode ser após uma única frase desferida por quem a gente ama, fazendo a gente perceber que essa pessoa não é quem a gente deveria estar. Existem bons tapas como, por exemplo, aquele que faz a gente finalmente decidir qual a profissão seguir. Alguns tapas, porém, não obtêm uma reação da nossa parte e, sim, um despertar reflexivo em relação algum situação que a gente precisar olhar ainda mais profundamente. É nesse último caso que entre o tapa que recebi ao ouvir o álbum Ladrão, terceiro trabalho do rapper brasileiro Djonga.

Não tenho a menor dúvida que o Brasil é um país racista, pois só assim que explica a eleição do atual presidente, oitenta tiros em um carro de pai de família, o assassinato da Marielle e a vencedora de um dos principais programas do Brasil ser uma racista. Apesar de considerar a minha raça como sendo a negra, eu preciso lembrar que o tom claro da minha pele fala mais alto. Nunca passei por problemas que negros com a tonalidade escura passaram como, por exemplo, serem seguidos por seguranças em lojas ao entrar ou ser parado pela polícia simplesmente por estar andando na rua. Não passei por nada disso, mas tenho a consciência que isso é uma realidade vivida por milhares de centenas de pessoas. Essa constatação já faz parte da minha vida já tem alguns bons anos, mas, infelizmente, parece que algo foi "amaciado" em mim. Vivendo no nosso país, especialmente nos últimos anos, tenho a impressão que fui criando um escudo para receber noticias sobre os principais problemas sociais. Isso ajudou a entorpecer a dor, o horror, a raiva e indignação que deveria existir, mas que por uma questão de sobrevivência precisou ser colocado em um modo "automático". Felizmente, existe artistas como o mineiro Djonga para lembrar que precisamos acordar e olhar de verdade para o que está bem na nossa frente. 

Ouvir Ladrão é como acordar de um longo e profundo sono, mas que tivemos previas sobre a realidade dentro dos nossos sonhos. Claro, esse despertar irá surtir efeito provavelmente apenas naqueles que realmente um dia já tiveram realmente a consciência verdadeira sobre o mundo que nos cercas. Para aqueles que acreditam em racismo reverso ou que no Brasil não existe nenhum tipo de preconceito, Ladrão irá ser uma coletânea de canções mimizentas de um cara marrento, arrogante e raivoso que apenas fala despropérios. Se você pensa assim, realmente não será um álbum para vocês e, sinceramente, nem precisa ler nada que sai desse blog. Entretanto, se você realmente sabe a verdade, o álbum irá mostrar ideias que estão ligadas as suas e, ao mesmo tempo, irá expandir a mente ao mostrar o lado da moeda de quem realmente está estampado em relevo.

Nascido em Belo Horizonte, na favela do Índio, Djonga começou a trabalhar com a música aos 16 anos, sendo inspirado por Racionais MCs e pelas poesias que lia na escola. Chegando ao seu terceiro álbum, o rapper não está nada disposto a baixar a cabeça para ninguém e apresenta em Ladrão uma coragem impressionante. Como dito antes, alguns podem achar o rapper arrogante ou marrento, mas essas devem ser características encaradas como sendo extremamente positivas já que são delas que a produção consegue retirar toda a sua força. Djonga não quer apenas meter o dedo na ferida e, sim, rasgar a mesma com a faca mais afiada possível. A intenção do rapper é de provocar para fazer quem ouve repensar, mesmo que seja pelo genuíno choque. Partindo de um ponto de vista que muitos vivem, mas que poucos tem a oportunidade de contarem a sua verdade, o rapper é uma verdadeira metralhadora de verdades nadas secretas, criticas mais ácidas e doloridas que suco de limão nos olhos, reflexões ásperas e uma fúria esmagadora e crônicas nuas e cruas de quem vive à margem da sociedade. Cada faixa é um retrato em alta definição sobre todo o que parte da sociedade quer esconder. Racismo, empoderamento negro, descaso do poder público, cultura afro e embranquecimento são apenas alguns assuntos que Djonga toca em Ladrão. E não apenas tocar, mas, sim, tece uma coletânea de manifestos em forma de música. 

Dono de uma lirica direta, relativamente simples, atual, limpa, sincera e de uma beleza bruta, o rapper alcançar um patamar de criação simplesmente perfeito. Logo na primeira e explosiva faixa já é possível sentir o impacto que o álbum produz no instante que Djonga declara: E parece que liberaram o preconceito/ Pelo menos antigamente esses cuzão era discreto. Hat-Trick é o portal feito de ouro maciço e incrustado de uma verdade desconcertante que dá o tom para toda a verborragia de Djonga. Logo em seguida, o rapper já tinha o chão de qualquer uma ao mandar Bené os versos: O que vale mais: Um jovem negro ou uma grama de pó?/ Por enquanto ninguém responde e morre uma pá. Logo no verso seguindo é possível ver reflexões ainda mais pontuais quando o rapper entoa que "Perplexo só fica quem crê em conto de fadas/ No país onde a facada que não aleija, elege". Ácido, irônico, pontual, atual, sincero e com uma fúria que não nem como não sentir, Djonga faz a sua mensagem ser de uma urgência sufocante. Nem sempre concordo 100% com o rapper, mas não tenho como não desviar os olhos e respeitar cada opinião, cada reflexão e cada critica que o mesmo construir. Lúcido o tempo todo, mas conseguindo sonhar/delirar quando necessário. Forte o suficiente para sustentar as suas mensagens, mas emocional quando o momento pede, principalmente quando toca em assuntos familiares. Conseguindo incorporar o rap internacional com a sua base de influências nacionais, Djonga entrega em Ladrão uma obra de uma grandiosidade que parte do público parece não está pronta para contemplar, mas o mesmo não está disposto a retroceder para agradar quem quer que seja. E olha que sonoramente, o rapper ainda teme espaço para crescer.

Ladrão é um excepcional, grandioso e poderoso álbum de rap/hip hop que consegue costurar referencias do rap nacional com toques do norte americano de forma inteligente e sem abaixa a cabeça. A produção é limpa, direta e com uma versatilidade impecável que dá para cada faixa personalidade única, criando um álbum pungente, épico e de uma força artística sem comparação. Todavia, o rapper ainda pode crescer, pois as canções poderiam serem sonoramente ainda mais arriscadas ao sair dessa altíssima zona de conforto que o mesmo alcança. Texturas, fusões como outros gêneros nacionais ou não, parcerias com artistas de fora do rap/hip hop e ainda mais nuances seriam suficiente para elevar Ladrão ainda mais. De qualquer forma, Djonga entrega uma obra espetacular do começo ao fim que, por enquanto, parece perfeita para o momento. Além dos momentos já citados, o álbum apresenta dois outros momentos geniais: a avassaladora parceria com o rapper Filipe Ret em Deus e o Diabo na Terra do Sol e a homenagem emocionante para a avó de Djonga em Bença. Outros momentos de destaque ainda ficam por conta da romântica Leal, a que dá nome ao álbum Ladrão, a intro Mlk Atrevido inspirada em um samba e a que fecha o álbum FALCÃO que termina com um surpreendente e bem vindo sample de Elis Regina cantando Romaria. Após ouvir o álbum e entender perfeitamente as palavras de Djonga acredito que tenha acordado de uma forma que espero que não vou fechar os olhos nem por um segundo por um bom tempo. E, queridos leitores, esse é uma das funções da música.

Rewind 2

As 100 Melhores Músicas Que Você Não Deve Conhecer

O especial de hoje de As 100 Melhores Músicas Que Você Não Deve Conhecer vai falar de uma canção que talvez você possa ter ouvido alguma vez, mas tenho certeza que nunca percebeu a importância da sua composição e como ela é extremamente atual, mesmo tendo sido lançada há quase quinze anos atrás. Na verdade, se essa canção tivesse seu lançamento datado de cinquenta anos atrás teria a mesma relevância como se fosse uma música de 2016. O motivo? A canção fala sobre....



99 Problems
Jay-Z


Quando lançou o seu oitavo álbum The Black Album em Novembro de 2003, Jay-Z já era considerador um dos melhores rappers do seu tempo e um dos melhores artistas daquele momento, pesando nas suas costas clássicos modernos do rap como os álbuns Reasonable Doubt (1996), Vol. 3: The Life & Times Of S. Carter (1999) e The Blueprint (2001). O novo álbum, porém, ajudou a consolidar de vez o seu nome no Olimpo da música devido a uma gama de fatores como, por exemplo, o seu anúncio de aposentadoria (obviamente não cumprida), as melhores vendagens da sua carreira e o lançamento da canção que é o melhor momento da sua trajetória. E olha que 99 Problems nem foi um sucesso comercial tão grande, mas tem uma importância social imprescindível para a cultura negra americana.

Produzido pelo lendário Rick Rubin, 99 Problems é um relato cru e conciso sobre a discriminação sofrida pelos negros nos Estados Unidos. Não apenas sobre o que tange o negro comum, mas também aqueles que, assim como Jay-Z, conseguem destaque ao ganhar muito dinheiro com o seu talento. A composição fala, primeiramente, sobre os críticos do rap que veem o gênero como um tipo menor de música, não dando o devido valor para os seus artistas, colocando a sua experiência com essas pessoas em destaque. Na parte final, Jay-Z discute sobre problemas de rivalidades entre a comunidade negra e problemas que isso causa. Todavia, o grande momento de 99 Problems é o seu segundo verso: o rapper descreve perfeitamente uma batida policial em que ocorre um abuso de autoridade por causa da cor da pele do dono do carro. A narração/descrição é tão bem construída por Jay-Z que é como se ele estivesse pitando um quadro vivo em nossas cabeças. Além da performance avassaladora do rapper, a produção de Rick cria uma batida poderosa para estar no mesmo nível da mensagem passada pela composição ao misturar rap com rock. Em um ano em que o assunto esteve mais em pauta do que nunca, 99 Problems é a canção mais relevante que poderia existir e que vocês precisam conhecer.

26 de junho de 2020

Rewind

Primeira Impressão

A Mulher do Fim do Mundo
Elza Soares



Quando alguém começa a citar quais as maiores cantoras brasileiras de todos os tempos sempre irá aparecer alguns nomes com certeza. Elis Regina, Maria Bethânia e Gal Gosta devem ser os nomes que encabeçam a lista, mas Rita Lee, Clara Nunes, Maysa, Nara Leão, Carmen Miranda (mesmo tendo nascido em Portugal) são figuras constantes nessas listas. Para os mais conhecedores e saudosistas da música nacional citam Dalva de Oliveira, Elizeth Cardoso, Emilinha Borba, Inezita Barroso e Ângela Maria. Nomes mais modernos como Marisa Monte, Ana Carolina, Adriana Calcanhotto e Ivete Sangalo podem ser citados. Claro, ainda existe uma dezena de nomes que ainda podem ser colocados nessa lista, mas existe um que pode passar despercebido, dependendo de quem idealiza a escolha. Esse nome é a da Elza Soares. E quando a cantora não é inclusa em uma dessa lista, acredite querido leitor, é um dos maiores sacrilégios que se pode fazer.

A Mulher Vinda do Planeta Fome

Dentro desses nomes citados, a cantora é a que melhor representa o povo brasileiro, mas não todo povo e, sim, uma pequena grande fração: os excluídos. Na sua trajetória de vida, Elza Conceição Soares enfrentou as maiores barreira para conseguir sobreviver, assim como milhares de pessoas a margem da sociedade. Nascida em 1937 (como aponta a maioria das fontes), Elza nasceu negra e pobre, quase uma sentença de sofrimento para o resto da vida. Aos doze anos foi obrigada a casar por seu pai. Ao quinze já tinha dois filhos. Aos vinte e um já era viúva. Ao se casar com o jogador Garricha, mas nunca teve realmente paz lutando contra o alcoolismo do marido e todas as tragédias que a abateu sobre a sua vida. No plural mesmo, pois foram várias. Não irei recapitular todas aqui, mas para se ter uma ideia Elza perdeu cinco filhos ao longo da vida. A dor de perder um para uma mãe deve ser o pior sentimento do mundo. Imagine cinco filhos.

Um dos momentos mais famosos da sua vida aconteceu aos vinte e um anos quando participou do show de calouros em uma rádio apresentado pelo Ary Barroso. Sempre sarcástico, ao ver aquela mulher mal vestida, magra e humilde o cantor/apresentador perguntou: 

-De que planeta você veio?
-Vim do mesmo planeta que o senhor. - respondeu Elza.
-E posso saber de que planeta eu sou?
-Do planeta fome.

Logo em seguida, Elza cantou e simplesmente arrasou, vencendo o concurso. O dinheiro de prêmio usou para comprar remédios para o seu filho doente. Então, começou uma carreira que já dura mais de cinquenta anos com trinta e cinco álbuns já lançados e algumas conquistas importantíssimas como, por exemplo, ter sido considerada pela BBC de Londres como uma das melhores cantoras de todos os tempos. Entretanto, Elza chega aos oitenta anos de idade no melhor momento artístico da sua carreira genial. Mesmo com a sua saúde debilitada, a cantora lançou no finalzinho do ano passado o álbum A Mulher do Fim do Mundo que já nasceu como um verdadeira marco histórico na história da música brasileira.

A Voz Daqueles Que Não Tem Voz

A importância de A Mulher do Fim do Mundo é de uma grandiosidade pouco vista no atual cenário fonográfico brasileiro por vários motivos. Primeiramente, o álbum é o primeiro na carreira de Elza que possui apenas canções inéditas, isto é, todas as onze faixas nunca tinham sido gravadas por outro artista. Financiado pela empresa Natura Musica, o álbum também marca o primeiro de estúdio da cantora desde 2003. Em segundo lugar, e o mais importante, o álbum é simplesmente a mais pura expressão da genialidade artística.

Produzido por Guilherme Kastrup, A Mulher do Fim do Mundo é uma avassaladora, acachapante, destruidora, lacradora e qualquer outro adjetivo que possa captar toda a genialidade por trás de cada elemento que faz parte do álbum e como eles se misturam para criar uma verdadeira obra de arte. Começa pelas verdadeiras poesias marginais que se passam por simples composições. Afirmando que a sua voz é para levar a luz os dramas das mulheres negras, mas, também, dos gays e das prostitutas. E é isso que podemos ouvir no álbum. Ouvir, não. Sentir cada palavra como se fosse uma pregação divina.

A Mulher do Fim do Mundo já começa de maneira arrebatadora com Coração do Mar, poema de Oswald de Andrade musicado por José Miguel Wisnik:

Coração do mar
É terra que ninguém conhece
Permanece ao largo
E contém o próprio mundo
Como hospedeiro
Tem por nome "Se eu tivesse um amor"
Tem por nome "Se eu tivesse um amor"
Tem por nome "Se eu tivesse um amor"
Tem por nome "Se eu tivesse um amor"
Tem por bandeira um pedaço de sangue
Onde flui a correnteza do canal do mangue
Tem por sentinelas equipagens, estrelas, taifeiros madrugadas e escolas de samba

É um navio humano quente, negreiro do mangue
É um navio humano quente, guerreiro do mangue

Logo em seguida aparece a faixa que dá nome ao álbum: Mulher do Fim do Mundo é sobre muitas mulheres negras que, apesar de enfrentarem todos os problemas do mundo, conseguem deixar tudo isso de lado ao se divertirem durante o carnaval. O seu único escape da vida que levam. O único momento em que podem se dar ao luxo de serem felizes.

Eu quero cantar até o fim
Me deixem cantar até o fim
Até o fim eu vou cantar
Eu vou cantar até o fim
Eu sou mulher do fim do mundo
Eu vou cantar, me deixem cantar até o fim

Ao final dessas duas músicas já estamos rendidos. O que vem em seguida é um verdadeiro prego no caixão emocional de quem escuta. Cada faixa é uma verdadeira crônica nua e crua sobre as vidas das pessoas que estão a margem da sociedade. Com nomes poucos conhecidos como compositores, mas extremamente competentes, Elza tem em mãos verdadeiras preciosidades de uma ferocidade tocante ao falar sobre violência doméstica, sexo, transexualidade e drogas. Existe uma verdadeira urgência em cada letra que, também, emanam uma sensação de contemplação que dá o tom perfeito o álbum. Moderno, ousado, angustiante, triste, necessário, grandioso, deslumbrante. Todos esses adjetivos são perfeitos para qualificar A Mulher do Fim do Mundo. Mas não para por aí.

O Som Ao Redor e A Voz Interior

A melhor descrição para o sonoridade ouvida no álbum é a que Celso Sim, um dos colaboradores no álbum, estabeleceu: punk-samba. A aspereza ouvida na inacreditável mistura de dezenas de instrumentos só pode ser classificada como punk, mas a cadencia, muitas vezes melódica e swingada, vem diretamente do melhor samba que se pode encontrar. Como uma ópera de malandro, a sonoridade no álbum tem uma dramaticidade suja que condiz perfeitamente com os assuntos levantados, sem nunca ser maior ou menor. Não é fácil ouvir o trabalho do começo ao fim. Existe uma especie de "pedra" no caminho, pois não estamos acostumados com tantos socos direto no estômago de uma vez só. Passada essa sensação, A Mulher do Fim do Mundo ainda guarda o seu melhor aspecto em plena força vital: Elza Soares.

Claro, a senhora de quase oitenta anos não possui a mesma voz que há vinte ou trinta anos atrás, porém, assim como uma verdadeira fênix, Elza se reinventa sem perder os seus grandes trunfos. Sempre visceral em todos os momentos, a cantora continua com a mesma gutural voz que é capaz de entoar notas que nenhuma outra cantora no mundo é capaz. É de Elza toda a alma e coração de A Mulher do Fim do Mundo. A sua bússola vital. A força da natureza que move os moinhos. O começo e o fim. Elza é a mulher no fim do mundo. Citar momentos de destaque no álbum é praticamente impossível, mas aconselho que prestem um pouco mais de atenção nas faixas Maria da Vila Matilde, Pra Fuder, Benedita e Firmeza para conhecerem o que é perfeição na música brasileira. Com A Mulher do Fim do Mundo, a cantora mostra definitivamente para os brasileiros o que vários "gringos" já tinham descobrido décadas atrás: Elza Soares é uma das maiores artistas de todos os tempos mundialmente.

Primeira Impressão - Outros Lançamentos

Dolores Dala Guardião do Alívio 
Rico Dalasam

Rewind 2

Freedom (feat. Kendrick Lamar)
Beyoncé


Apesar de ser a mais "tradicional" na questão de sonoridade dentro de Lemonade, Freedom tem a mensagem mais avassaladoramente direta e desconcertantemente atual, principalmente devido ao cenário de tensão racial nos Estados Unidos. A composição fala sobre se libertar das amarras que a sociedade impõe, mas principalmente aquelas amarras postas por a gente mesmo e que nos impede de gritar por nossa liberdade. Liberdade de sermos quem somos sem precisar "prestar" conta ou muito menos se adequar ao comportamento que uma parte da sociedade acha que é certo. A construção de diversas imagens acachapantes (Estou dizendo a essas lágrimas que me deixem, me deixem/ E que a última delas queime em chamas) são as responsáveis para elevar Freedom em parâmetros estratosféricos, transformando a canção em um hino de protesto moderno assim como Formation. O diferencia aqui, porém, é a presença poderosa e perturbante de Kendrick Lamar em um verso desconcertante em todos os sentidos, mas é Bey que invoca a sua cantora gospel interior para dar o tom da sua performance épica em uma batida que une perfeitamente neo soul, hip hop e, claro, gospel para criar uma sonoridade impactante e inesquecível para quem ouvir. Nenhuma das duas músicas precisam de sucesso comercial para validar a imensa qualidade quem ambas carregam. E nem a Beyoncé precisa validar mais nada na sua carreira.
nota: 10