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2 de novembro de 2025

A Imensidade

Berghain
ROSALÍA, Björk & Yves Tumor


Já faz algum tempo que não havia dúvida do imenso talento da Rosalía, mas, sinceramente, nada poderia alertar para ouvir a magistral Berghain.

Primeiro single do álbum LUX, a canção é uma desconcertante, impressionante e magnífica experiência sonora em que a cantora resolve ir com toda força, sem olhar para trás, ao entregar a canção mais “de cair o queixo” da sua carreira e, sem nenhuma dúvida, dos últimos anos.

Deixando de lado algumas influências dos seus trabalhos anteriores, mas continuando a explorar os limites da sua sonoridade, Berghain é um trabalho inesquecível que mistura, de maneira genial, art pop, música clássica, avant-garde, orquestral, operático e barroco para criar uma verdadeira pièce de résistance na carreira da cantora. Mostra não apenas a sua capacidade, mas também a clara noção de que o “pop” pode ser muito mais amplo e profundo do que algumas cantoras fazem.

Pode ser experimental, cativante, estranho, nada comercial, revolucionário, grandioso, contemplativo e único — e isso em uma canção de dois minutos e cinquenta e oito segundos. Quando a ouvi pela primeira vez, achei que essa duração curta, especialmente diante da imensidão criativa colocada na canção, seria um grande problema, fazendo-a perder alguma força. De certa forma, isso acontece, pois, se Berghain fosse um minuto ou um minuto e meio maior, poderia explorar ainda melhor seus melhores pontos sem deixar nada a desejar. Todavia, os “pontos” que isso faz a canção perder não são suficientes para que ela deixe de ser considerada uma genialidade magistral.

Com um instrumental irretocável, que dá a base perfeita para toda a força da produção, o maior trunfo da canção é a presença da Rosalía em todos os “cantos”: começando com a sua atuação como produtora, passando por sua marca de compositora e chegando, claro, à sua magistral performance vocal. Sério — sabíamos que a formação clássica dava à cantora um imenso passo de vantagem em comparação com outros artistas, mas aqui tudo é elevado a um novo patamar, com sua dilacerante performance ao misturar a força do canto operístico com sua vertente mais pop.

Todavia, o que dá a liga aqui é a magistral passagem da presença descomunal da Björk, que entrega apenas um verso repetido, mas adiciona uma tonelada de personalidade e significância à canção. Queria algo mais profundo na presença de Yves Tumor, mas seu surgimento final ajuda a manter o toque de imprevisibilidade da faixa intacto.

Por fim, a composição é um triunfo que consegue transitar por três línguas (espanhol, inglês e alemão) sem perder força, mantendo essa deliciosa estranheza temática e de significação sem comprometer a impecável estética. E o mais fascinante é que, possivelmente, o álbum nem seguirá exatamente esse mesmo caminho, o que mostra ainda mais a genialidade da Rosalía.
nota: 9

20 de outubro de 2024

Rosalía, a Mutante

Omega (feat. Ralphie Choo)
ROSALÍA

Acho extremamente interessante que entre os lançamentos dos seus álbuns, a Rosalía lança canções avulsas e que mostram a sua imensa versatilidade sem fazer a mesma perder a sua identidade. Esse é caso perfeito de Omega em parceria com o cantor Ralphie Choo.

A primeira vista, a canção parece uma tradicional balada latin pop, mas quando a gente percebe as nuances é possível ver a sua verdadeira complexidade, especialmente do seu incrível instrumental. Com adição de folk, flamenco, art pop e indie, Omega se transforma em uma perola musical lindamente conduzida, graciosamente inteligente e com uma finalização estupenda. E mesmo adicionando novas nuances para a sonoridade da cantora, a canção é uma evolução natural do que a mesma vem fazendo. Todavia, apesar da sua louvável produção é preciso apontar que sem os vocais incandescentes e brilhantes da Rosalía não seria a mesma coisa, pois é da performance da cantora que a canção encontra o seu coração. E Omega poderia ser melhor se Ralphie Choo estive na mesma altura da sua companheira, mesmo entregando uma boa performance que não tem o mesmo brilhantismo. Espero que a Rosalía continue nos presentando com essas deliciosas excursões até chegar em um novo destino final. 
nota: 8

22 de novembro de 2023

Encontro Entre Água e o Fogo

Oral
ROSALÍA & Björk


Anunciada no mês passado, o lançamento de Oral marca uma das colaborações mais inusitadas dos últimos tempos ao unir a lendária Björk e o fenômeno da Rosalía. E o resultado é a altura das envolvidas, mesmo que existam algumas pontas soltas.

Escrita em 1998, a canção terá todos seus lucros revertidos para uma entidade de ativismo ecológico e, por isso, não é o possível começo de um trabalho conjunto entre as artistas. E é uma pena, pois Oral tem algo meio difícil de encontrar atualmente: originalidade. Produzido pelas duas cantoras ao lado de Seda Bodega, a canção é uma inusitada, inspirada e encorpada mistura dancehall, trip hop, art pop e eletrônico em batia elétrica e quase comercial. Na verdade, Oral é provavelmente a canção que mais se aproxima do pop comercial para a islandesa da sua carreira, mesmo que ainda seja envolto em uma teia pesada de excentricidade típica. E, queridos leitores, o resultado é de um brilhantismo sonoro ao fazer o que foi pensado há mais de vinte anos atrás em algo moderno e instigante. O único problema da canção na minha visão é que apesar de uma performance ótima da Rosalía aliado com uma química áspera com a Björk, a espanhola cantar quase tudo em inglês e, não espanhol faz perder certa ousadia que poderia elevar ainda mais o resultado final da canção. E assim temos um encontro para marcar 2023 com louvor que apenas as envolvidas poderia dar.
nota: 8

11 de agosto de 2023

Boa Massificada

TUYA
Rosalía

A Rosalía estabeleceu uma tradição que entre os seus lançamentos de álbuns é visto uma enxurrada de canções menores que parecem feitas apenas para manter a mesma relevante comercialmente. Esse é o caso de TUYA.

A canção é que posso chamar de obra menor da Rosalía. Está longe de ser um grande momento, mas não faz exatamente feio. É uma reggaeton bem feita com uma batida sensual e não vai muito mais que isso. O que adiciona a personalidade é a presença da cantora que com os seus sempre únicos vocais e uma produção vocal sempre criativa consegue dar verdadeira força para TUYA, fazendo a mesma se destacar entre o oceano de canções do gênero. E assim a Rosalía prova que é boa até massificada.
nota: 7

29 de janeiro de 2023

Uma Nova Era?

LLYLM
ROSALÍA

Com a sua consagração definitiva com o sucesso comercial e de critica de Motomami, Rosalía parece já começar a sua nova era com o lançamento da fofíssima e curiosa LLYLM.

A canção é uma cruza da sonoridade original da cantora com a pegada flamenco pop ao ser envernizado pelo toque pop comercial. Essa mistura resulta em uma canção peculiar em que dois mundos se colidem de maneira menos impactante que o esperado, mas de um refinamento ímpar em todos os quesitos. É estranho ouvir algo menos ousado com os trabalhos recentes da cantora, mas LLYLM parece ser um passo importante para Rosalía entrar de forma mais abrangente. Apesar dessa estranheza inicial, a canção consegue realmente se firmar devido a linda e natural performance da Rosalía que consegue embarcar em todas as mudanças da canção sem perder a sua personalidade. A composição funciona até mesmo no refrão de inglês, pois a sua adição soa orgânica devida ao teor da canção. Agora é esperar para ver se essa será o caminho dessa nova era ou apenas um trabalho solto da Rosalía.
nota: 8

27 de dezembro de 2022

Pra Quê?

DESPECHÁ RMX
ROSALÍA & Cardi B

Estamos no fim de 2022 e ainda a pergunta que paira no atual cenário musical: qual a finalidade real de remixes de canções como DESPECHÁ da Rosalía?

Uma das músicas de maior sucesso da carreira da cantora, a canção ganha um remix que não é um remix com a presença da Cardi B. Apesar de muitos não gostarem da rapper, mas, sinceramente, eu a acho talentosa dentro do seu nicho tão especifico. Entretanto, a sua presença aqui é completamente equivocada. E o principal motivo é o fato que as suas partes tem uma qualidade técnica questionável, mostrando claramente que foi uma adição tardia e que não faz sentido artístico e técnico. Outro problema, Cardi entrega uma boa performance, mas seus versos não tem força para dar mais personalidade para DESPECHÁ. O que salva a canção é que a original sozinha já uma explosão de carisma. E acho que em 2023 ainda teremos vários exemplos desse tipo de canção que não tem razão para existir.
nota: 6

9 de outubro de 2022

A Tradicional

El Pañuelo
Romeo Santos & ROSALÍA

Irei novamente elogiar a imensa versatilidade da Rosalía em ir do experimental ao tradicional sem perder nenhuma gota da sua personalidade. Isso fica claro com a sua participação em El Pañuelo do cantor Romeo Santos.

Single do álbum Formula, Vol. 3, quinto da carreira do Romeo, El Pañuelo é uma tradicional e muito bem produzido mistura de bachata, ritmo nascido na Republica Dominicana que é um derivado do bolero, com latin pop que a Rosalía domina com perfeição, criando a perfeita química com o “dono” da canção. Na verdade, a cantora rouba a cena ao entregar uma performance sensacional, deixando a canção mais com a sua cara do que a do Romeu. Envolvente e romântica, a canção soa levemente arrastada na sua parte final que deveria entregar um clímax mais suculento, mas isso não atrapalha profundamente o resultado final. Gostaria também que os dois cantores pudessem ter divido mais os vocais já que ambos têm suas participações de forma sozinhas. De qualquer forma, El Pañuelo continua a revelar o imenso alcance artístico da Rosalía.
nota: 8

5 de agosto de 2022

La Rosalía Comercial

DESPECHÁ
ROSALÍA


Uma das principais características que admiro na Rosalía é a sua capacidade de transitar entre o artístico e o comercial na sua sonoridade sem perder a sua personalidade. Em Despechá, a cantora entrega um hit perfeito feito sob medida para a sua trajetória recente.

Primeira nova canção lançada após o lançamento do Motomami, a canção pode não ter o lado experimental/progressista de suas “primas” recentes na busca de fazer ser um sucesso mundial, mas não tem força suficiente para se destacar na multidão de maneira ímpar. Uma interessante e refrescante mistura de mando e electropop, Despechá é divertida, estilosa, elétrica, dançante e com o fator viral suficiente para fazer ser o próximo sucesso da carreira da cantora. Artisticamente, a canção é mais massificada que o lado mais excêntrico da cantora, mas essa mistura de um estilo latino com outro para resultar em um hibrido original ainda mostra a potencia criativa da artista. Acredito que a primeira parte da canção funciona melhor que o seu final devido ao instrumental mais estilizado, mas isso não afeta o fato da Rosalía entregar uma musica que continua a expandir o seu reinado musical de maneira impressionante e completamente a sua maneira.
nota: 7,5

27 de março de 2022

2 Por 1 - Rosalía

CANDY
HENTAI
Rosalía

Com um dos álbuns mais aclamados dos últimos tempos, a Rosalía continua a sua caminhada para remodelar os conceitos do pop da sua maneira. E essa é a função dos singles Candy e Hentai.

Ambas canções mostram a característica principal da cantora que é pegar o que já conhecido para descontruir ao seu bem prazer em uma nova, excitante e realmente genial sonoridade. Essa percepção é claramente vista na sublime Hentai. A primeira vista, a canção é uma tocante, delicada e quase minimalista balada pop/art pop que tem na voz cristalina de Rosalia a sua aparente principal qualidade. Entretanto, ao olhar com um pouco de mais cuidado irá perceber que a produção capitaneada pelo The Neptunes é uma desconstrução do que era esperado. A espetacular e surpreendente composição que não tem medo de ser uma ode ao sexo de forma explicita e deliciosamente sem vergonha. Empoderada, liricamente refinada e com uma estrutura inteligente, a canção se expandi na sua parte final ao dar uma guinada para adicionar uma batida industrial que marca a canção de forma poderosa e quebra qualquer expectativa. E a voz da Rosalía é de uma ternura envolvente que consegue derreter gelo no ártico. Candy, porém, é a canção mais direta de Motomami, mas ainda consegue entregar uma música com a personalidade da cantora. Uma mid-tempo mistura de R&B alternativo, reggaeton e neoperro, a canção consegue mostrar que é possível fazer uma canção comercial que vá além do lugar comum devido a sua muito bem pensada produção, a introdução de nuances ricas e elegantes e a presença luminosa de uma artista em estado de graça. E assim a Rosalía vai se tornando o maior nome do pop atual sem precisar seguir formulas ou abrir exceções.
notas
CANDY: 8
HENTAI: 8,5



1 de março de 2022

Um Tropeço

CHICKEN TERIYAKI
ROSALÍA


A melhor qualidade da Rosalía é notar que até quando erra é esperado algo que seja no mínimo interessante. A estranha CHICKEN TERIYAKI casa perfeitamente com essa definição.

Depois da explosão de Saoko, a espanhola entrega uma grudenta, marcante e falha mistura de reggaeton e trap que gera certo desconforto ao escutar devido a sua batida disjuntada e a sua composição bem estranha. Enquanto a adição de texturas extremas é que fez a canção anterior tão boa, o mesmo efeito em CHICKEN TERIYAKI cria um ruído esquisito e quase irritante. Existe momentos interessantes, mas a canção fica bem em cima da divisa entre uma grande canção e um baita tropeço. Outro problema é a composição que tenta criar momentos marcante, mas termina com toques de vergonha alheia misturado com frases de efeito divertidas. Não que CHICKEN TERIYAKI seja ruim, mas abaixa o hype para o lançamento de Motomami consideravelmente.
nota: 6,5

6 de fevereiro de 2022

100KM

SAOKO
ROSALÍA


Com o lançamento de SAOKO já se pode dizer que a Rosalía não está de brincadeira para o lançamento de Motomami, pois a canção é uma explosão bem na nossa cara.


Mostrando que o tempo que passou do lançamento de El Mal Querer ao mergulhar em uma sonoridade latina mainstream não foi atoa já que estava buscado inspiração para a construção de seu novo trabalho. Depois da divisível LA FAMA, SAOKO é um mergulho de cabeça no reggaeton com o plot twist da visão da cantora em uma veloz, única e poderosa canção que adiciona doses de eletrônico com toques sensacionais de jazz fusion. Essa mistura é o que eleva a canção para um parâmetro em que mostra a Rosalía como uma das artistas mais originais da atualidade. E a composição que ressalta a sua capacidade de metamorfose é ótima devido a suas citações inteligentes, a estrutura certeira e o trabalho refinado que usa do menos é mais da melhor forma. Se o álbum for nessa mesma velocidade, Rosalía entregará todo o hype que a cerca de maneira avassaladora.
nota: 8

12 de novembro de 2021

Falta Contexto

LA FAMA (feat. The Weeknd)
ROSALÍA

Ao conquistar fama mundial, Rosalía se consolidou como um dos principais nomes do pop sem precisar fazer parte do mainstream estadunidense e nem cantar em inglês. Começando os trabalhos do seu aguardado terceiro álbum, a cantora lançou a curiosa LA FAMA.

Mudando de caminho sonoro em relação ao álbum El Mal Querer, a cantora parece que irá buscar novos ares para Motomami. Em LA FAMA, a produção aposta na bachata, gênero criado na Republica Dominicana durante a primeira metade do século vinte. Sonoramente, a canção é impecável no que se propõem em fazer ao fazer uma bachata pelos olhos de artista pop. Entretanto, o resultado não é para todos e deve dividir o público entre quem adorou e quem odiou, especialmente devido o instrumental minimalista e contido. Além disso, a presença de The Weeknd cantando em espanhol não é algo fácil de deglutir, mas é interessa só pelo fato de ser o astro em uma canção tão diferente do que o mesmo é acostumado. Ouvindo LA FAMA parece que a canção é o tipo de trabalho que faz mais sentido dentro do contexto do álbum, mas, por enquanto, é um começo de uma nova era curioso.
nota: 7,5

19 de junho de 2021

Caminho ao Nirvana

Nothing's Special
Oneohtrix Point Never & Rosalía


Dona de inúmeras parcerias desde que estourou mundialmente, Rosalía entrega em Nothing's Special a sua melhor contribuição devido, principalmente, a excepcional produção de Daniel Lopatin, conhecido como Oneohtrix Point Never.

Conceituado produtor de eletrônico com trabalhos solos e ao lado de nomes como The Weeknd e FKA Twigs, Oneohtrix Point Never lançou ano passado o seu nono álbum intitulado Magic Oneohtrix Point Never. Dele foi retirado a faixa Nothing's Special que foi retrabalhada com a presença dos vocais de Rosalía. E, sinceramente, essa decisão parece ter saído dos deuses, pois o resultado é divinal. Sonoramente, Nothing's Special tem uma tocante, contida e poderosa construção que cria toda uma atmosfera melancólica ao misturar ambient pop com art pop de maneira acachapante. Com um cuidado técnico impressionante, a canção se favorece ainda mais da adição dos vocais da cantora espanhola e a sua personalidade indiscutivelmente enriquecedora e deslumbrante. A performance de Rosalía coloca toda a emoção verdadeira e orgânica que a canção pede, complementando a atmosfera quase gélida com um sopro de calor sentimental ao declamar os delicados e poéticos versos em espanhol sobre a perde de alguém que se ama. Mesmo que a canção não tenha sido criada dessa maneira, a versão Nothing's Special parece se abrir como um caminho musical para o nirvana. Espero que os dois artistas possam colaborar mais vezes no futuro.
nota: 8,5

17 de março de 2021

La Quimíca

La Noche de Anoche
Bad Bunny & Rosalía

Apesar de gosta da figura do Bad Bunny ainda tenho certas ressalvas em relação a sua sonoridade. Em La Noche de Anoche, parceria com a Rosalía, o artista entrega a sua melhor canção até o momento.

A principal razão do resultado final é a boa interação entre os dois artistas que, mesmo soando completamente diferentes, conseguem criar faíscas reluzentes de pura química. E é por isso que La Noche de Anoche funciona exatamente como a sua proposta sugere: uma conversa tensa/sensual entre dois amantes sobre seus sentimentos. Envolvente do começo ao fim devido fazer a gente esperar para sentir a força da união dos dois artistas, a canção ainda parece errar ao não ir além do que o Bad Bunny normalmente entrega: um bom reggaeton mid-tempo. A canção tem alguns toques suculentos de pop e algumas quebras de expectativas, mas continua a seguir um caminho que pode estar funcionando que irá cansar em algum tempo se o Bunny não der uma chacoalhada para introduzir coisas novas. De qualquer forma, La Noche de Anoche ajuda a mostrar que saber escolher as parcerias podem fazer uma canção superar até mesmo os problemas de construção.
nota: 7

23 de janeiro de 2021

O Delicado Equilíbrio Entre o Conteúdo e a Aparência

Lo Vas A Olvidar
Billie Eilish & ROSALÍA


Provavelmente duas das melhores novatas que surgiram no cenário pop nos últimos cinco anos, a estadunidense Billie Eilish e a espanhola Rosalía fazem uma surpreendente parceria em Lo Vas A Olvidar. A canção poderia ser um dos melhores momentos da carreira de ambas, mas, infelizmente, tropeça ao não ter substância necessária para sustentar o peso de suas participantes. 

Tema do especial da série Euphoria, Lo Vas A Olvidar é dona de uma composição simples e com toques poéticos que não consegue, porém, entregar a força emocional que a produção constrói para a canção. Produzida por Finneas, a canção é uma tocante, madura e exuberante mistura de indie pop, experimental e art pop que consegue com eficiente unir as personalidades distintas das duas cantoras. Todavia, a força emocional é jogada por terra devido a falta de pungência da composição que deixa a desejar. É como se fosse experimentar um molho de pimenta sem estar picante. Pode até ter gosto, mas fica faltando o verdadeiro sabor do condimento. As performances e a química de Billie e Rosalía ajudam a elevar a canção, pois adicionar doses boas de personalidade, mas o delicado equilíbrio entre conteúdo e a aparência foi quebrado como um vaso de cristal.
nota: 7,5

18 de dezembro de 2020

Para Quê?

Blinding Lights (with ROSALIA) - Remix
The Weeknd


Em um ano com vários remixes de canções que não são verdadeiramente remixes eis que surge uma que me pegou de surpresa: Blinding Lights do The Weeknd com participação da ROSALIA. Uma pena que a positividade vinda da surpreendente parceria não repetiu na qualidade do “remix”. 

Blinding Lights é uma música ótima essencialmente e não precisaria de nenhum remix para ganhar qualquer tipo de qualidade. A presença de Rosalia não atrapalha o resultado final, pois a sua iluminada presença dá um toque especial para a canção com a sua voz melódica e os versos em espanhol. O problema é que praticamente nada é alterado nesse remix sonoramente, deixando a grande pergunta no ar: para quê? Artisticamente, não há nada que justifique essa nova versão, ainda mais que a química dos dois artistas não parece algo suficientemente forte para justificar. Comercialmente, a canção volta a ter relevância nos streamings depois de tanto tempo do seu lançamento e logo após a esnobada gigantesca que levou do Grammy. Existe, porém, um momento que essa versão de Blinding Lights mostra realmente para que veio: a partir do terceiro minuto de duração, o instrumental é mudado drasticamente para combinar com a sonoridade de Rosalia, criando um momento de verdadeiro brilho ao combinar os dois envolvidos de forma real e orgânica. Se toda a canção fosse nessa mesma pegada, o remix de Blinding Lights seria um verdadeiro musicão. 
nota: 7

30 de junho de 2020

Faltou Tempo

TKN
ROSALÍA & Travis Scott

A parceria da espanhola Rosalía com o rapper americano Travis Scott em TKN tem um grande defeito: a insuportável sensação de quero mais.

Provavelmente a parceria mais inusitada dos últimos tempos, TKN é uma mistura esquisita, surpreendente e de uma pungência ímpar de latin pop, reggaenton e trap que funciona mais do que qualquer expectativa. Forte desde o primeiro momento, o single tem uma sensação de equilíbrio e reciprocidade entre os dois estilos distintos dos envolvidos que a ajuda encontrar um meio termo inspirado. O mais surpreendente é que a presença de Travis Scott é realmente boa, principalmente o seus versos em espanhol. O problema central da canção é que com apenas dois minutos e nove segundos não há tempo para que realmente consiga chegar no ápice do seu potencial. Se não fosse por isso, TKN poderia facilmente estar no topo das melhores do ano. Mesmo assim, a canção já uma música louvável.
nota: 7,5


5 de abril de 2020

O Pior da Rosalía

Dolerme
Rosalía

Ninguém é perfeito. Todos erramos em algum momento. E assim também é a Rosalía que entrega na mediana Dolerme o seu primeiro erro.

Apesar de apresentar algumas das suas características mais tradicional, Dolerme é uma mudança profunda em relação a sonoridade que a espanhola vem mostrando. Quase uma balada pop rock que, infelizmente, parece pequena para o tamanho do talento da artista. Nada inspirada e com uma produção tradicional demais, a canção ainda erra ao deixar o auto-tune na voz da Rosalia ao máximo, pois a escolha funciona bem nas canções que se arriscam sonoramente. Todavia, o pior da Rosalía é ainda melhor que a maioria das canções de alguns artistas pop. E isso é muito significativo.
nota: 6


3 de fevereiro de 2020

A Primeira Grande Música de 2020

Juro Qué
ROSALÍA

Quando tudo indicava que a Rosalía estava levando a sua sonoridade para um determinado caminho, eis que a espanhola vai e lança Juro Qué, uma volta a sonoridade ouvida em EL MAL QUERER.

Juro Qué é um ótimo flamenco pop com os dois pés fincados na tradição, mas com o olhar para a modernidade. Exatamente como o álbum mais celebrado da cantora até o momento. Deixando de lado a investida no seu lado mais pop, Rosalía retorna ao suas raízes de forma gloriosa, dramática, original e com uma força artística que apenas a jovem espanhola parece capaz de entregar no atual cenário pop. A composição também deixa certos aspectos pop para investir em uma narrativa com começo ao fim sem perder, porém, uma estética muito bem construída para ter a capacidade de virar um hit em potencial. O único erro de Juro Qué é um uso exagerado em alguns momentos abusa do auto-tune, mas o recurso na medida certo aliado ao vocal poderosa da cantora consegue construir uma performance avassaladora. Espero que essa surpresa, que quebrou a minhas expectativas, continue sendo o status quo da carreira da Rosalía.
nota: 8

19 de dezembro de 2019

La Pequeña Gran Revolución da Rosalía

A Palé
ROSALÍA

A história da música pop vive de grandes e pequenos marcos que a ajudam a modelar a sua trajetória. Acredito de verdade que um pequeno, mas importante, marco é o sucesso comercial e de crítica da ROSALÍA. Sem precisar gravar nenhuma música em inglês e construindo um estilo completamente seu, a espanhola vem galgando um espaço que normalmente é reservado para cantora que se deixam "corromper" pelo massificado. E a mesma vem colhendo frutos e, principalmente, continua a sua construção de sonoridade como mostra o lançamento de A Palé.

A canção deixa bem claro que a espanhola está cada vez mais se aprofundando no avant-pop/experimental pop para conseguir elevar a sua sonoridade de raízes espanholas. Não é um trabalho que possa se dizer de fácil assimilação para o público geral e, francamente, A Palé também é meio difícil até para quem curte a cantora, mas a canção é uma pequena pérola devido a pequenos detalhes como, por exemplo, a quebra de expectativa da sua introdução com o resto da canção e a sua construção de imagem com uma história complexa. Acredito que o principal fator do sucesso da cantora é não se preocupar em fazer algo que agrade a gregos e troianos, mas, sim, algo que agrade a própria cantora para depois fazer o público gravitar em torno. E essa é outra pequena grande revolução da Rosalía.
nota: 7