10 de novembro de 2020

Antes Tarde do Que Nunca - Versão Single

In the Air Tonight
Phil Collins

O que faz uma canção ser atemporal? Vários fatores contribuem, mas acredito que nenhuma música possa realmente ser atemporal se não conseguir sobreviver de alguma forma aos intempéries do passar do tempo. E por isso irei falar sobre uma canção que, após quarenta anos do seu lançamento, pode ser considerada um viral moderno, um exemplo de como construir uma atmosfera em uma canção, uma lenda urbana, um dos primeiros grandes sucessos quando os clipes começaram a virar uma parte da cultura musical, uma das principais músicas do rock e dos anos oitenta e uma aula de como quebrar as expectativas. Essa canção é a genial In the Air Tonight do Phil Collins.

Lançada em 1981 como primeiro single solo do Phil Collins após ter feito carreira como vocalista do Genesis, In the Air Tonight se tornou uma das assinaturas da discografia do artista desde o momento que o seu legado começou a ser desenvolvido. Além do sucesso comercial quando foi lançada, especialmente ao redor do mundo, a canção continua a performar muito bem ao longo dos anos. Um dos primeiros fatores para isso é a imensa qualidade de produção ao costurar uma memorável e impressionante balada rock épica que gira tudo em torno da construção de uma atmosfera para ser tudo quebrado em um momento que se tornou algo atemporal. 


Para aqueles que não sabem sobre o que estou falando é o seguinte: In the Air Tonight mantem em cerca de três minutos e quarenta uma atmosfera sombria, low key, climática, densa e dramática a base de guitarra e sintetizadores que parece que vai ser assim durante toda a sua duração para tudo ser jogado para a estratosfera com uma das maiores quebras de expectativas da história da música. E qual essa quebra? Uma falsamente simples introdução de tambores que é acentuado pela técnica de gated reverb que acentua a instrumentalização de maneira impressionante. O efeito causado é uma mudança de ritmo e cadencia que complementa de maneira genial toda a construção climática que foi desenvolvida ao longo de boa parte da canção. Ousado, inesperado e genial são apenas alguns dos adjetivos que podem ser usados para definir a produção em In the Air Tonight. Todavia, o legado da canção vai além da sua produção, pois existe uma verdadeira lenda urbana criada em torno. 

A composição escrita por Phil narra brilhantemente um confronto entre uma pessoa contra aquela que, por algum motivo, traiu a sua confiança de forma mortal. Apesar do cantor não nunca ter afirmado que letra teria significado especifico é claro perceber que a letra se trata sobre sentir raiva sobre as atitudes e quer, no mínimo, algum tipo de vingança que seja literal ou não: 

Well, if you told me you were drowning 
I would not lend a hand 
I've seen your face before my friend 
But I don't know if you know who I am 
Well, I was there and I saw what you did 
I saw it with my own two eyes 
So you can wipe off that grin, 
I know where you've been 
It's all been a pack of lies 

Acontece que essa não confirmação sobre o que realmente se trata a canção gerou uma lenda urbana que pendurou durante anos que In the Air Tonight sobre o momento em que Phill teria visto alguém não socorrer uma pessoa que estaria se afogando. Algumas variações dizem, por exemplo, que o artista teria reconhecido essa pessoa em dos seus concertos anos depois, mas a lenda tem basicamente essa mesma base. Claro, tudo isso passa de apenas uma famosa fanfic bem antes de existir o termo. O que importa é a profundidade que a composição consegue alcançar de maneira direta, seca e de uma força emocional quase tocável que combina perfeitamente com a sua produção. Dona de um dos primeiros clipes que ajudaram a consolidar a era da MTV, In the Air Tonight voltou aos holofotes quando dois jovens irmãos gravaram um vídeo de reação escutando pela primeira vez e se surpreendendo com a mudança instrumental, gerando milhares de visualizações e repercussão com a mídia. E é por todos esses motivos que In the Air Tonight é uma das melhores canções de todos os tempos.
nota: 10

8 de novembro de 2020

Quase um Milagre

Don't Say Goodbye (feat. Tove Lo)
Alok & Ilkay Sencan

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O DJ Alok pode ser uma pessoa ótima como se mostra, mas como artista está bem longe de qualquer nota positiva. O ponto fora da curva da massificação da sua sonoridade é Don't Say Goodbye devido a apenas um fator: a presença Tove Lo. 

A cantora sueca injeta uma dose cavalar de personalidade na canção com os seus vocais e consegue obter alguns bons resultados, mas sem salvar de verdade a canção. Na verdade, Tove Lo faz Don't Say Goodbye apenas não ser um desastre total que normalmente é esperado de uma canção/remix que tem o Alok envolvido. Dessa vez, o DJ brasileiro dividi a canção com um tal de Ilkay Sencan, mas parece que nenhum dos dois é capaz de sair do lugar comum de entregar uma EDM clichê e feita para aqueles que gostam de fritar em festas eletrônicas sem pensar em mais nada. E apesar de uma composição até bem pensada que só erra no refrão repetitivo, Don't Say Goodbye é uma quase um milagre de ver o Alok fazer uma canção realmente boa. 
nota: 6

La Química

Pa'Ti - Lonely
Jennifer Lopez & Maluma


Recentemente falei sobre a importância da química entre dois artistas dentro de uma parceria. Dessa vez, essa química é ainda mais importante que o normal, pois é dela que boa parte da qualidade do projeto da Jennifer Lopez com o Maluma recaí. 

Pa'Ti – Lonely é um single duplo que está ligado ao filme Marry Me que será lançado no ano que vem e tem J.Lo e Maluma como dois dos personagens principais. Apesar de duas canções que não se diferenciam muito uma da outra, a força motriz aqui é a ótima química entre os dois artistas que ficam ainda mais nítido no clipe/filme lançado para as duas canções. E essa característica que segura as canções de serem apenas medianas. Pa'Ti tem Jennifer como a principal e apresenta uma envolvente e dançante batida reggaeton que combina perfeitamente com a sensualidade aflorada dos dois artistas. O refrão, infelizmente, é repetitivo demais e a canção não vai muito além do proposto. Em Lonely, o protagonismo passa para Maluma, mas a conexão entre os dois continua praticamente intacta em uma boa trap/latin pop que abusa dos efeitos vocais. De qualquer forma, o projeto é exatamente o que propõem ser: um encontro caliente/sexy de dois astros latinos com carreiras em níveis diferentes. 
notas 
Pa' Ti: 6,5 
Pa' Ti (Spanglish Version): 6,5 
Lonely: 6,5

6 de novembro de 2020

Depois do Paraíso

Let Me Love You Like A Woman
Lana Del Rey


Depois de alcançar um novo e altíssimo pico na sua carreira no ano passado com Norman Fucking Rockwell!, Lana Del Rey irá fazer o seu retorno a música com o lançamento do sétimo álbum. Chemtrails Over the Country Club terá a dura tarefa de manter a qualidade e o hype que envolveu a carreira da cantora no último ano. E a julgar pelo primeiro single, Let Me Love You Like A Woman, a expectativas ainda estão boas, mas bem menos promissoras que se poderia esperar.

Let Me Love You Like A Woman é uma canção padrão de qualidade e construção da Lana Del Rey. Não deve atrair novos fãs, mas afaga aqueles que já a conhecem como artista. Uma balda indie pop com toque vintage de rock que tem na performance distinta e na escrita única de Lana como o seu ponto forte e a sua base. Produzida por Jack Antonoff, a canção é, principalmente, uma amostra nítida da capacidade de compositora de Lana em uma composição profunda, estilosa e com uma melancolia refinada que apenas a cantora é capaz de entregar atualmente. Escolhendo continuar em um caminho mais romântica, Let Me Love You Like A Woman é declaração poética sobre querer que as paredes de quem se ama caiam para que possa ser amada. O problema é que que a canção não vai além do que a gente poderia esperar, deixando pairando a sensação de ouvir mais do mesmo ecoando nos ouvidos. Para aplacar isso, Lana precisa continuar elevando a sua sonoridade para um nível alta para não cair de cara na vala do lugar comum.
nota: 7,5

Cover Competente

Crying at the Discotheque
Sophie Ellis-Bextor


Apesar de ter alcançado o ápice do sucesso comercial no começo dos anos dois mil com a deliciosa Murder on the Dancefloor, a britânica Sophie Ellis-Bextor continuou a sua carreira ao longo dos anos com alguma relevância lá nas terras da rainha. E por isso que a cantora irá lançar o seu primeiro álbum de grandes hits intitulado Songs from the Kitchen Disco e como single lançou o interessante cover de Crying at the Discotheque da banda sueca Alcazar. 


Lançada originalmente em 2000, Crying at the Discotheque é uma nu-disco/dance-pop que parece ter sido criada sob as luzes de 2020. E isso é um ponto positivo para a canção, pois mostra que a tendência de voltar aos anos da discoteca vem em ondas de tempos em tempos. Sem alterar quase nada da versão original, Sophie consegue atualizar a canção devido a sua presença luminosa, elegante e marcante. A vibe da canção se encaixa perfeitamente com a persona da cantora, criando uma canção que soa moderna e única e, não, uma regravação de uma canção de vinte anos atrás. Divertida, alto astral e com um toque dramático devido a sua ótima composição, Crying at the Discotheque é uma um cover bem pensado e melhor ainda construído que consegue preencher todas as lacunas. 
nota: 8

1 de novembro de 2020

Quase

FRANCHISE (feat. Young Thug & M.I.A.)
Travis Scott

Provavelmente o maior nome do rap surgido nos últimos anos, Travis Scott ainda não mostrou exatamente para o que veio artisticamente. Mesmo o elogiável álbum ASTROWORLD de 2018, o rapper parece ainda não ter encontrado o seu lugar definitivo sonoramente. Poderia ser FRANCHISE a canção que pode ser o farol para o rapper? A resposta é: talvez. 

FRANCHISE não é uma canção ótima, mas é melhor que tem direito de ser. E não é só pelo fato da presença surpreendente da M.I.A, apesar desse fato ter um peso importante. Coproduzida pelo próprio Travis Scott, a canção tem uma produção direta, certeira e com uma criatividade acima da média. Misturando rap, trap com toques de electropop aqui e ali, FRANCHISE pode não ser o suprassumo, mas é cativante suficiente para marcar quem ouve com sua batida encorpada. Claro, a grande estrela é a presença da M.I.A que, felizmente, não é apenas uma coadjuvante de luxo e, sim, uma peça fundamental para a canção em momentos inspirados, especialmente da metade para frente. Além disso, a química rola bem com Travis e Young Thug entrega um bom verso. O ponto negativo é a composição que, apesar de apresentar bons momentos, poderia ser claramente bem mais memorável. Se esse caminho for seguido pelo rapper nos lançamentos futuros será possível ver a ascensão como poucos rapper já tiveram. 
nota: 7

Don't Start Now By Melanie C

In and Out of Love
Melanie C

Apesar de ter presenciado o auge das Spice Girls nunca acompanhei a carreira das integrantes em suas carreiras solo. E é por isso que ouvir In and Out of Love, single da Melanie C, é como ouvir uma novata pela primeira vez. O surpreende é notar que uma veterana parece buscar inspiração nas divas pop contemporâneas.

In and Out of Love é perigosamente parecida com o Don't Start Now da Dua Lipa. E quando digo parecida quero dizer, na verdade, quase uma cópia descarada. E não é apenas o fato da canção seguir a onda post-disco/disco pop e, sim, apresentar similaridades melódicas nítidas como, por exemplo, o famoso tamborzinho durante o refrão. Claro, In and Out of Love tem uma estrutura diferente para não ser tão descaradamente igual. Mesmo assim, a produção deixa bem claro qual era a intenção. Isso é algo ruim? Se a Dua e os seus produtores não quererem processar por plágio não vejo nada de mais no final das contas, pois a canção de In and Out of Love é uma legal e dançante canção que dá para a Melanie C cara moderna e divertida. Agora é esperar a cantora encontrar uma cara que seja apenas sua. 
nota: 7