9 de outubro de 2022

A Tradicional

El Pañuelo
Romeo Santos & ROSALÍA

Irei novamente elogiar a imensa versatilidade da Rosalía em ir do experimental ao tradicional sem perder nenhuma gota da sua personalidade. Isso fica claro com a sua participação em El Pañuelo do cantor Romeo Santos.

Single do álbum Formula, Vol. 3, quinto da carreira do Romeo, El Pañuelo é uma tradicional e muito bem produzido mistura de bachata, ritmo nascido na Republica Dominicana que é um derivado do bolero, com latin pop que a Rosalía domina com perfeição, criando a perfeita química com o “dono” da canção. Na verdade, a cantora rouba a cena ao entregar uma performance sensacional, deixando a canção mais com a sua cara do que a do Romeu. Envolvente e romântica, a canção soa levemente arrastada na sua parte final que deveria entregar um clímax mais suculento, mas isso não atrapalha profundamente o resultado final. Gostaria também que os dois cantores pudessem ter divido mais os vocais já que ambos têm suas participações de forma sozinhas. De qualquer forma, El Pañuelo continua a revelar o imenso alcance artístico da Rosalía.
nota: 8

Dance Anime

향기 (Scent)
YUKIKA


Depois de ser exposto a bomba que é o álbum do Blackpink é como ter um balsamo passados nos ouvidos ao ouvir a excepcional 향기 (Scent) da cantora coreana Yukika.

Conhecida principalmente pelo seu trabalho como atriz e dubladora, a artista é uma estrela musical que ainda precisa encontrar o seu lugar comercialmente, mas que deixa bem claro o seu potencial artístico nessa perola. 향기 (Scent) é uma deliciosa, fofa e viciante city pop com toques irresistíveis de post-disco, R&B e k-pop que a transforma em um trabalho que consegue ser ao mesmo tempo atemporal e especifico. Não é exatamente o tipo de canção que faz sucesso atualmente em relação ao k-pop, mas tem um brilhante e vibrante verniz que a faz ser irresistível para um público bem maior como se fosse um tema de um anime que consegue furar a bolha para virar um fenômeno mundial. A doce e delicada voz de Yukika tem uma vibe tão gostosa de ouvir que deixa a canção ainda mais irresistível. 향기 (Scent) não deve fazer sucesso comercial, mas é a prova que dá para ser original dentro do atual k-pop.
nota: 8

Popularidade em Declínio

Popular
M.I.A.

Entender o motivo do declínio da qualidade dos lançamentos da M.I.A. é algo que precisaria ser estudado, pois só assim dá para explicar coisas como Popular.

A canção não é o abismo que é The One, mas ainda é uma verdadeira perda total de tempo. O pior é que a canção apresenta aqui e ali da grandeza que a cantora já entregou em seus áureos momentos. Entretanto, o resultado final ainda é um desastre de trem sem sobreviventes. Produzido pelo Diplo (responsável por clássicos da cantora como Bucky Done Gun e Paper Planes) ao lado de Boaz van de Beatz, Popular é uma mistura pobre, irritante e clichê de electropop e reggaeton que não tem quase nada de original e excitante. Nada aqui funciona direito incluindo a performance no automático da M.I.A., mas é a composição que funciona como o prego para fechar o caixão que tem momentos de vergonha alheia como “I got the best seats, best shoes on my feet/ Pictures of my body cause a stampede, ay/ If you cut me, success I bleed”. Sinceramente, a M.I.A. está precisando de alguém dizer: “amiga, simplesmente pare!”.
nota: 5

4 de outubro de 2022

A Crueldade da Sinceridade

It’s Not Just Me, It’s Everybody
Weyes Blood


Ouvir It’s Not Just Me, It’s Everybody, single da cantora Weyes Blood, é como levar um tapa com luva de pelica. Não vai doer fortemente, mas vai ficar ardendo e incomodando por um bom tempo devido a sua devastadora sinceridade.

Primeiro single do próximo trabalho da cantora intitulado And in the Darkness, Hearts Aglow, a canção tem uma das letras mais poderosas dos últimos tempos ao falar de forma honesta e desconcertando sobre o sentimento de solidão que todos nos sentimentos mesmo quando estamos cercados por pessoas. Longo nos primeiros versos, a letra já acerta a gente em cheio e completamente sem aviso:

Sitting at this party
Wondering if anyone knows me
Really sees who I am
Oh, it's been so long since I felt really known

E a canção alcança um outro patamar quando Weyes afirma que esse sentimento é algo que realmente todos passamos em algum momento, deixando a canção com gosto ainda mais dolorido e potente. Sonoramente, It’s Not Just Me, It’s Everybody amplifica a mensagem ao ser uma contemplativa e melódica indie/ chamber pop com uma instrumentalização sensacional que ao escolher por caminhar em uma crescente que não chega a explodir drasticamente, preferindo seguir uma linha intima que parece remeter a uma conversa calma em um fim de noite. E com a performance tocante, melancólica e sóbria de Weyes Blood, It’s Not Just Me, It’s Everybody se torna um dos trabalhos mais marcantes de 2022 ao ser de uma sinceridade cruel e verdadeira.
nota: 8,5


Volta aos Trilhos

Talking To Yourself
Carly Rae Jepsen


Depois de um curioso tropeço em Beach House, Carly Rae Jepsen volta aos trilhos com o lançamento da divertida Talking To Yourself.

A canção remota diretamente ao que a cantora entregou no já cult Emotion ao ser uma excelente, divertida, elegante e cheia de personalidade synthpop. Existe quase uma áurea que se torna tão especifica que a Carly adiciona para esse tipo de canção que a mesma pode nem ser exatamente a mais original de todas, mas ainda é de frescor sonoro excitante e viciante. É como reencontrar uma velha amiga e sair para a balada depois de tomar uns drinks tropicais e doces. Esquisito essa imagem, mas é o que sinto ao ouvir a Carly voltar para esse estilo. Talking To Yourself também tem outra qualidade da cantora ao entregar uma composição sentimental, bem escrita e com um refrão extremamente eficiente. Com três single já lançados ainda está difícil dizer como vai ser a experiência de ouvir The Loneliest Time, mas deve ser no mínimo interessante.
nota: 8

Uma Canção Que Parece, Mas Não É

YUKON (INTERLUDE)
Joji


Depois do sucesso de crítica e público da surpreendente Glimpse of Us, Joji anunciou o lançamento do álbum Smithereens. Como segundo single a escolhida foi a curiosa Yukon (Interlude).

Na resenha anterior disse que o cantor tinha uma sonoridade que apresentava aspectos parecidos com o James Blake, mas conseguiu achar a sua personalidade devido, especialmente, a sua sublime performance. Em Yukon (Interlude), porém, o cantor parece emoldurar exatamente todas as qualidades de Blake ao entregar uma refinada alternative R&B/synthpop que passeia na mesma praia minimalista e experimental. Na verdade, a música parece um cover do astro britânico e, não, uma canção original do Joji. Felizmente, essa é uma boa canção com um apuro estético certeiro e reluzente. Vocalmente, Joji soa quase como James Blake, faltando apenas a gravidade. Isso não atrapalha o resultado, mesmo que deixe quem escuta meio confuso. O problema de Yukon (Interlude) é não ter força suficiente para ser um single ao parecer um filler de respeito, especialmente comparado com a genialidade de Glimpse of Us. Espero que as próximas canções do Joji possam ter mais cara própria. E nem precisa ser genial.
nota: 7,5

Detalhes Tão Pequenos

Smells Like Me
Charlie Puth


Entre um biscoito e outro nas redes sociais, o Charlie Puth lança algumas músicas até legalzinha como é o caso de Smells Like Me.

Longe de ser um suprassumo, o single é uma agradável, porém falha, mistura de pop, pop rock e synthopop que lembra levemente trabalhos lançados nos anos oitenta. Fofa e inofensiva, a canção teria toda a capacidade de ser ótima se Charlie se aprofundasse nas próprias ideias e entregasse algo com maior apuro estético. Parece que o cantor está satisfeito em ser apenas fofo e inofensivo com essa balada mid-tempo, ficando mais claro devido a mediana composição que, felizmente, apresenta um refrão bem amarrado. O grande ponto alto de Smells Like Me é a sólida performance de Charlie que se torna uma das melhores do cantor em muito tempo. Querido Charlie, os biscoitos estão ótimos, mas seria bom rechear a sua carreira com um “creme” mais consistente.
nota: 7