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8 de março de 2026

Novas Camadas

I Had A Dream She Took My Hand
James Blake

Sempre considero algo auspicioso quando um artista consegue adicionar novas camadas à sua sonoridade sem perder nada da essência. Esse é o caso da espetacular I Had A Dream She Took My Hand, de James Blake.

Segundo single do álbum Trying Times, a canção tem toda a atmosfera de um trabalho do artista, mas é moldada de uma forma que quebra expectativas. E a principal razão é a utilização do sample de It Was Only A Dream, da banda Thee Sinseers, que dá à canção uma base big band/jazz vintage que permeia toda a sua construção, mesclando-se e fundindo-se com a estrutura art pop/R&B alternativo da sonoridade de James. Com uma produção refinadíssima, I Had A Dream She Took My Hand se torna um trabalho elegante, tocante e inspiradíssimo, que vai se desenrolando em uma das canções mais magnéticas e emocionais da carreira de James Blake.

A canção, porém, perderia força se não tivesse aliado à sua produção outros elementos que a fizessem realmente se sobressair. E tudo está intimamente ligado à performance sensacional do cantor que, ao retirar certos efeitos vocais, deixa seu belíssimo timbre brilhar de forma mais natural em uma interpretação realmente impactante, desde o seu começo mais contido e delicado até o clímax mais complexo e poderoso. Além disso, a composição é simples, mas eficiente ao relatar, de maneira sensível, o ato de se apaixonar pela primeira vez: “I had a dream she took my hand / I feel higher than storms, lighter than sand”.

Somando-se a esse resultado o de Death of Love, fica claro que James Blake tem a possibilidade de entregar um dos álbuns do ano.
nota: 8,5

1 de fevereiro de 2026

O Sábio

Death of Love
James Blake

Uma das maiores qualidades de James Blake é manter, a cada nova canção lançada, a sua personalidade artística intacta, mas adicionando novas nuances para sair da mesmice. Esse é o caso da ótima Death of Love.

Primeiro single do álbum Trying Times, a canção é um típico trabalho do britânico ao unir, com inteligência e graciosidade, uma mistura de eletrônico, UK bass, R&B, downtempo e trap, criando uma sonoridade madura, vigorosa e bastante familiar. Todavia, Death of Love não é uma mesmice sonora devido à inteligência criativa da produção, que adiciona texturas excitantes para dar vida à canção.

A principal e mais sentida delas é a introdução de um toque religioso, perceptível no sample vocal em hebraico e no coro presente em parte da canção. Dessa maneira, a faixa ganha uma camada de significação mais profunda ao ligar essa atmosfera religiosa à experiência sobre as consequências do fim de um amor, tema abordado na ótima composição, que consegue ser devastadoramente emocional sem soar piegas ou excessivamente dramática.

Com uma performance que exala toda a sua personalidade, mas que é capaz de encontrar perfeitamente novos lugares para explorar, James Blake mostra como se manter fiel a si mesmo e, ao mesmo tempo, buscar novos caminhos.
nota: 8,5

24 de novembro de 2024

O Tema Do Fim

Like The End
James Blake


Acho realmente interessante quando um artista lança canções que não necessariamente vão ser parte de um álbum como é o caso da excepcional Like The End do James Blake.

Possivelmente uma das melhores canções do cantor em anos, Like The End é um retorno a sonoridade mais antiga do cantor ao ser menos experimental ao ser uma balada mid-tempo indie/art pop com uma instrumentalização transcendente, intricada e com uma força incrível. Apesar de não ser nada que o próprio já tenha entrega, James Blake demonstra que aperfeiçoou a sua sonoridade de maneira a faze-la encontrar o estágio de pura perfeição. Todavia, o grande trunfo da canção é a união da composição devastadora que faz uma crônica sobre o mundo atual, especialmente depois da vitória do Trump e o avanço do uso do IA, com a performance sempre inspirada da potente e marcante voz do cantor. Os dois aspectos funcionam bem separadamente, mas é a sua união que faz a coisa realmente ganhar contornos emocionais, melancólicos e de uma verdade sufocante. E mesmo não sendo um trabalho que deve fazer parte de um trabalho maior, Like The End é uma adição espetacular para uma discografia já sensacional.
nota: 8,5

9 de junho de 2024

Ray of Light

Thrown Around
James Blake


Apesar de já ter acostumado com as experimentações sonoras que o James Blake vem fazendo nos últimos tempos da sua carreira ainda me surpreendi com o resultado da sensacional Thrown Around.

O grande diferencial da canção é que primeira vez Blake entrega uma canção verdadeiramente dançante. Não que o mesmo não tinha feito parecido antes, mas Thrown Around existe uma camada verdadeiramente de animação pura e contagiante que faz a gente abrir um sorriso e, claro, querer dançar. Durante várias vezes durante a canção a sua vibe e batida me lembraram Ray of Light da Madonna, especialmente a transição para a batida mais animada. Apesar dessa mudança, o single ainda mante as qualidades do artista bem pungente como o seu imenso cuidado técnico e, principalmente, o seu magnifico trabalho vocal que é um dos melhores deles nos últimos tempos. E quem diria que um James Blake animadinho seria tão bom quanto o James Blake tristinho.
nota: 8,5

17 de dezembro de 2023

Estranho James

Tell Me
James Blake


Um dos melhores momentos de Playing Robots into Heaven, Tell Me mostra exatamente o que o James Blake queria fazer no resto do álbum, mas tropeçou no resultado final.

Uma atmosférica experimental/eletrônica/trance, a canção é construída em volta da batida densa e cheia de texturas que cria uma cruza perfeito e elevado do poderia facilmente ser uma farofada do Blake. E acho que essa seja a melhor definição para a canção: uma farofada elevada. A inspiração dos anos noventa/dois mil de batidas feitas para fritar pessoas em raves que poderia rapidamente descambar para o massificado ganha um verniz pesado pela sensibilidade elegante do artista que adiciona bastante da sua etérea personalidade vocal. Tell Me poderia, porém, ter uma letra mais bem trabalhada, mas a intenção aqui é dar apenas algo para o cantor adicionar o seus lindos vocais. Se o resto do álbum seguisse assim teríamos não um bom álbum, mas, sim, um brilhante.
nota: 8

31 de agosto de 2021

Os Pequenos Detalhes de Genialidade

Life Is Not The Same
James Blake

Aprendi que nem sempre as melhores canção são aquelas que explodem nos nossos ouvidos, pois de tempos em tempos surge algo como a sensacional Life Is Not The Same do James Blake.

Segundo single de Friends That Break Your Heart, Life Is Not The Same é uma contida, delicada e devastadoramente tocante mistura de indie pop, hip hop, eletrônica e R&B que brilha nos pequenos detalhes. O corro sussurrado que fica por trás da canção durante a sua execução, a leve mudança rítmica entre os versos e o refrão, a texturas elegantes e as nuances delicas que são incorporadas a construção do instrumental, a mudanças vocais de James auxiliado por um backvocal excepcional, a atmosfera levemente melancolia sem perder o romantismo. Cada um desses detalhes auxilia para que Life Is Not The Same em toda a sua falsa simplicidade brilhe como um dos melhores trabalhos de James até hoje. E, por falar no cantor, a maneira como o cantor entoa a faixa com sua versatilidade incrível e a sabedoria de quando e como quebrar expectativas ao adicionar mais força ou acrescentar o momento climático é outra prova do atual momento em que o mesmo se encontra: o seu nirvana.
nota: 9

10 de agosto de 2021

O Assombro da Felicidade

Say What You Will
James Blake

Ouvir alguma canção do James Blake é sempre esperar por uma carga poderosa de emoções que normalmente refletem sentimentos melancólicos e profundos. Em Say What You Will, primeiro single de seu próximo álbum intitulado Friends That Break Your Heart, o britânico parece entregar o primeiro ato de uma nova fase: a descoberta da felicidade.

Liricamente, a canção mostra um James menos tenso ao não se importar com as opiniões de outras pessoas sobre a sua vida, mostrando uma confiança inspiradora e uma positividade orgânica. Em uma época em que a saúde mental está se mostrando cada vez mais importante para o nosso bem viver, James Blake mostra que é realmente possível a gente encontrar esse lugar saudável com nossas emoções e sentimentos. Sonoramente, Say What You Will também reflete essa felicidade com um espetacular indie/eletrônico com toques de post-dubstep em uma atmosfera leve e energética sem perder, porém, a qualidade técnica excepcional com adição de gratificantes e revigorantes nuances e texturas que sempre permeiam a sonoridade de James. Todavia, o grande destaque vai para a avassaladora performance do cantor que coloca toda a força do timbre único em uma entrega vocal que consegue captar o seu estado de espirito e, ao mesmo tempo, encantar de maneira desconcertante. Especialmente a última nota é um verdadeiro soco no estomago. E dessa maneira James Blake prova que a felicidade também pode ser revertida em arte da melhor qualidade.
nota: 8,5

1 de janeiro de 2021

Primeira Impressão - Outros Lançamentos

Covers
James Blake


O Cover Perfeito

The First Time Ever I Saw Your Face
James Blake


Já falei várias vezes sobre o que um artista deve fazer para alcançar o cover perfeito de uma canção. Todavia, tive poucas oportunidades de mostrar na prática como um artista regrava uma canção de forma perfeita. Felizmente, hoje irei mostrar em detalhes a minha teoria na versão do James Blake para o clássico The First Time Ever I Saw Your Face.

Escrita em 1957 pela dupla Ewan MacColl e Peggy Seeger como uma canção folk sobre a história de amor deles, The First Time Ever I Saw Your Face ganhou notoriedade em 1972 quando foi regravada pela cantora Roberta Flack, vencendo as categorias de Canção e Gravação do Ano no Grammy. Desde então, a versão de Roberta sempre entra na lista de melhores músicas de todos os tempos, sendo regravada por dezenas de outros artistas. E é por isso que novas versões sempre terão um peso ainda maior, pois serão regravações de uma regravação perfeita. Felizmente, James Blake entregou tudo sem a gente ter pedido nada em um cover que respeita a versão mais famosa e, ao mesmo tempo, deixa transparecer a personalidade do artista. A versão de James segue com perfeição a minha primeira lei de como fazer um cover perfeito: “respeitar a versão original ao alterar o mínimo possível e dando a melhor na parte técnica possível ou reverter tudo em um trabalho completamente desconstruído e surpreendente, dando o seu toque pessoal”. 


Nessa versão, o grande destaque é a performance vocal genial de James que transmite toda a emoção que a canção contem de forma sincera, melancólica e sabendo dosar efeitos vocais apenas para elevar a sua presença. Transformando a produção soul/jazz da versão de Roberta em uma balada contida e minimalista de indie pop, o artista consegue explorar o que a canção tem de melhor: a sua genial composição. Transitando entre o romântico e o melancólico, The First Time Ever I Saw Your Face é dona de uma das descrições mais belas de amor a primeira vista logo no seu primeiro verso: 

The first time, ever i saw your face 
I thought the sun rose in your eyes 
And the moon and the stars 
Were the gifts you gave 
To the dark, and the endless skies 
My love 
To the dark, and the endless skies 

Se todos os covers tivessem metade da qualidade que James aplica em The First Time Ever I Saw Your Face seria um verdadeiro sonho para aqueles que gostam de música. 
nota: 8,5

16 de agosto de 2020

Sonhos de Uma Noite de Verão

Are You Even Real?
James Blake

Em meio a tanta loucura que vivemos, o James Blake parece um arauto da paz ao ser capaz de falar sobre amor da maneira mais romântica e delicada possível. E assim a base do seu ótimo novo single Are You Even Real?.

Apesar de soar levemente parecida com o single anterior You're Too PreciousAre You Even Real? tem uma qualidade a mais devido a sua excepcional instrumentalização que flerta pesadamente com uma musicalidade clássica em um trabalho de um refinamento primoroso. Seguindo basicamente a mesma sonoridade indie/eletrônica, James Blake não adiciona exatamente nada de novo na sua sonoridade, mas o resulta delicado adiciona suavidade para os tempos em que vivemos. Falando de amor de forma metafórica sobre a maravilha de estar apaixonado, Are You Even Real? parece a trilha sonora de uma noite morna de primavera em que o ar está perfumado pelas rosas recém brotadas. Parece um sonho, mas isso é escapismo necessário atualmente.
nota: 8

15 de maio de 2020

Amor em Tempos de Guerra

You're Too Precious
James Blake

Mesmo com as nossas vidas viradas do avesso ainda existe espaço para sentimentos que não estejam exatamente atrelados ao estado de espírito em que vivemos. E por que não o amor? Essa é a premissa da interessante You're Too Precious do britânico James Blake.

O single não é nada surpreendente, pois James continua entregar a sua sonoridade indie pop/eletrônico com qualidade e, principalmente, personalidade. O que muda, porém, é que You're Too Precious parece ser a canção mais romântica da carreira do britânico. Uma declaração de amor para sua namorada, You're Too Precious é uma delicada, contida e orgânica canção que resulta em uma gostosa quentura no coração. E nem precisa estar amando para sentir a canção, pois a batida criada é envolvente na medida certa. Faltou, porém, uma lapidação que pudesse fazer a boa estrutura da canção ser realmente genial. Não é exatamente o melhor trabalho da carreira de James, mas é um acalanto em forma de música em tempos sombrios.
nota: 7,5

28 de abril de 2013

O Curioso Caso de James Blake

Retrograde
James Blake

Imagine uma mistura de soul music com eletrônico com uma cadencia bem lenta. Contudo, pense de novo sobre o resultado que você obteve usando a perspectiva única do James Blake.

Retrograde, primeiro e único single lançado até agora de Overgrown, é um viagem sonora na cabeça de um
artista impressionantemente diferente. Sua interpretação para a composição magistral de sua própria autoria falando sobre solidão de maneira cativante é um trabalho ousado, com uma força motora quase transcedental e um trabalho técnico único. A estrutura do arranjo quebra paradigmas estáticos do que poderia se esperar para atingir um estado não apenas mais elevado, mas exclusivo que apenas ele consegue no atual cenário musical. Um caso curioso de um artista fora dos padrões.
nota: 9