Beyoncé
22 de fevereiro de 2026
Antes Tarde do Que Nunca - Versão Single
Work It Out
Beyoncé
Beyoncé
Apesar de estar em algumas edições internacionais de Dangerously in Love, o primeiro single real da carreira solo da Beyoncé foi a canção Work It Out. Uma pena que, devido ao não sucesso comercial da faixa, ela tenha sido meio que deixada de lado dentro da discografia da cantora, mas precisa ser reconhecida como uma grande canção.
Produzida pelo The Neptunes, duo composto por Pharrell Williams e Chad Hugo, a canção foi usada como tema do filme Austin Powers in Goldmember, no qual Beyoncé tem um papel coadjuvante. Para emoldurar o filme, que se passa em uma versão estilizada dos anos 70, Work It Out capta perfeitamente essa vibe ao ser uma eletrizante, vintage e refinada mistura de funk, R&B e soul, que fica perfeitamente na linha entre a paródia e a reverência. E acredito que era essa a atmosfera que a produção desejava, devido ao estilo do filme. Com essa inteligência criativa, a canção se torna um trabalho especialmente marcante para quem a conhece. Todavia, o grande trunfo da faixa é a presença de Beyoncé.
Se Crazy in Love foi o momento decisivo para mostrar a força da artista, Work It Out foi o momento em que ela mostrou que poderia ter essa força. Primeira canção solo da carreira, a performance sensual, contundente e poderosa da cantora deixou bem claro que seu carisma e talento eram capazes de sustentar canções que exigem uma artista versátil e de alcance gigantesco. E é isso que ela deixa transparecer aqui, mesmo não sendo seu trabalho mais marcante. O ponto fraco da canção é a composição, que cumpre bem seu papel, mas não tem um apelo especial para amarrar as pontas soltas aqui e ali.
De qualquer forma, Work It Out é o começo perfeito, mas esquecido, da carreira solo de Beyoncé, que merece muito mais reconhecimento.
nota: 8
Love to Love You, Jessie
Ride
Jessie Ware
Continuando a promoção do álbum Superbloom, a Jessie Ware entrega outro grande momento com a estilosa Ride.
Um pouco menos inspirada do que I Could Get Used to This, a canção é outro deslumbrante acerto da artista ao mostrar novas cores para a sua sonoridade. Apesar de seguir perfeitamente o caminho dance-pop/electropop, com influência pesada de post-disco, Ride segue por uma pegada mais eletrônica, que parece beber da fonte de uma sonoridade retirada dos anos oitenta devido à sua estrutura estilizada e à sua atmosfera mais eurodance. Isso não retira em nada a elegância intrínseca ligada à sempre magistral sonoridade da Ware. E a canção tem o seu ponto alto no uso surpreendente de um sample atemporal.
Boa parte da construção sonora, especialmente na parte dos refrões, vem do uso do clássico cinematográfico Il buono, il brutto, il cattivo (Titoli), que é o tema incidental do filme Três Homens em Conflito, do maestro/compositor Ennio Morricone. Esse uso é feito de uma forma tão inspirada e inesperada que cria para a canção uma personalidade completamente diferente do que a gente poderia esperar para uma música da Jessie, mas que também está perfeitamente alinhada com a sua personalidade artística.
O único problema da canção é a sua composição, mas não por ser ruim ou algo parecido. Buscando se alinhar com a personalidade da música, a escrita em Ride é bem mais contida do que o normal para um trabalho da cantora, deixando a impressão de inspiração em trabalhos importantes do gênero, especialmente os de Donna Summer, pois usa frases de efeito para dar toda a vibe, em vez de se aprofundar tematicamente. Felizmente, o trabalho é muito bem escrito dentro da sua proposta, sendo destaque o seu ótimo refrão.
Ride é outra obra de arte pop vinda diretamente de uma das melhores em atividade.
nota: 8,5
A Balada da Esposa
White Feather Hawk Tail Deer Hunter
Lana Del Rey
Lana Del Rey
Novo e aguardado single da Lana Del Rey, White Feather Hawk Tail Deer Hunter é exatamente uma cápsula das qualidades da cantora. Uma pena, porém, que a produção coloque uma pedra que não deixa a canção “flutuar” perfeitamente.
Com produção da cantora ao lado de Jack Antonoff e Drew Erickson, o single é estilizado, único e texturizado, misturando art pop e toques de uma sonoridade gótica para criar um som que é claramente da artista e apenas dela. E isso é ótimo, mas parece existir uma limitação clara na construção da canção, que parece limitá-la dentro de um quadrado sonoro que a impede de explorar caminhos mais excitantes e épicos. Isso deixa a canção “achatada” e com apenas metade da força que poderia ter caso fosse mais ousada.
Felizmente, White Feather Hawk Tail Deer Hunter ainda tem outros momentos que a fazem valer a pena, especialmente vindos da ótima composição. Ao ser, claramente, uma canção de amor direcionada ao marido de Lana, a letra mantém a qualidade lírica da cantora ao transitar lindamente entre a poesia, o pretensiosismo, a polêmica e a emoção. Gosto especialmente do uso da imagem de um fogão (stove, que também será o nome do álbum) para construir a imagem de Lana como esposa.
Com uma performance única e dinâmica, a cantora ainda mostra boa parte de sua personalidade artística rara. Uma pena que a produção não esteja exatamente no mesmo nível.
nota: 7,5
2 Por 1 - Bebe Rexha
Çike Çike
I Like You Better Than Me
Bebe Rexha
Bebe Rexha
Assim como fez a Raye, a Bebe Rexha decidiu seguir a carreira de maneira independente depois da forma negligente com que sua antiga gravadora a tratou. E, como primeiros singles, foram lançadas as canções Çike Çike e I Like You Better Than Me.
Nenhuma das duas canções, que são singles do Dirty Blonde, é exatamente uma Escapism, mas são bons trabalhos que já marcam positivamente a nova fase da carreira da cantora, especialmente devido à maneira sincera com que ambas são construídas. Menos inspirada está I Like You Better Than Me, pois sua produção descamba para uma mistura batida de electropop com toques de house e eletrônico que não parece muito disposta a encontrar um lugar próprio para a sonoridade da cantora.
Todavia, a produção entrega um trabalho seguro e bastante competente dentro do que escolheu seguir sonoramente, o que dá para se empolgar com a farofada em que a canção se transforma. Seu ponto alto, porém, é sua contundente composição sobre as dificuldades que a cantora tem com a própria imagem física, passando longe de ser uma lição de moral e sendo, sim, uma crônica sobre como é viver com esse peso mental. E um dos melhores momentos é quando a cantora revela o sentimento em relação àqueles que tentam “ajudar”: “So stop giving me your toxic positivity/ You know you're only making it worse”.
Com Çike Çike, Bebe mostra o que essa liberdade artística pode alcançar. Melhor canção da cantora praticamente desde que começou a carreira, o single é diferente de tudo o que ela já entregou ao ser uma ousada, divertida e intrigante mistura de eurodance, tech house, eletropop e deep house, que nunca desce aos porões dos gêneros escolhidos, mas também encontra inspiração genuína e surpreendente. A batida é incrementada por texturas únicas que fazem com que resulte em uma canção tão estranhamente interessante que fica difícil não dar atenção. Das adições na instrumentação, o solo de sax é algo desconcertante e divertidíssimo. Uma pena, porém, que a canção se limite a ter apenas um pouco mais de dois minutos, deixando aquele gosto de que faltou mais tempo para explorar tudo o que poderia se tornar. Mesmo assim, Çike Çike tem seus ótimos momentos, como, por exemplo, o refrão cantado em albanês, que é a língua materna da mãe de Bebe.
Espero que essa nova era, longe de amarras, possa ser a que vai revelar para o mundo todo o potencial de Bebe Rexha.
notas
Çike Çike: 7,5
I Like You Better Than Me: 7
17 de fevereiro de 2026
As 100 Melhores Músicas Que Você Não Deve Conhecer
Nos últimos anos, surgiu uma onda de serem lançados remixes de canções que não eram exatamente remixes, mas, sim, apenas a adição de participações especiais para ajudar o lado comercial das mesmas. E isso é algo que, felizmente, diminuiu bastante nos últimos tempos. Todavia, nem todas as canções são caça-níqueis baratos, pois resultam em trabalhos realmente interessantes. Só que, para a gente conhecer qual é o melhor trabalho desse “gênero”, é preciso voltar algumas décadas no tempo para lembrar do...
15 de fevereiro de 2026
Direto de 1988
Dancing On The Wall
MUNA
MUNA
Saber como usar a nostalgia é uma dádiva, pois mostra o quão inteligente e criativo é o talento por trás de um trabalho. Em Dancing On The Wall, single da banda Muna, temos o caso perfeito dessa habilidade.
Claramente, a canção é inspirada no synth-pop/pop rock dos anos oitenta, mas em nenhum momento soa datada, clichê ou como uma cópia barata. Existe uma naturalidade latente que confere à canção uma linda e verdadeira força criativa, tornando-a um trabalho irresistível. E a principal razão disso é a sua lapidada, graciosa e precisa produção, que entrega uma faixa com uma construção instrumental relativamente simples, mas extremamente eficiente e cativante.
Dancing On The Wall, porém, também se beneficia de uma composição realmente inspirada. Ao falar sobre uma relação em que não existe reciprocidade, a letra conta uma história com começo, meio e fim, na qual todos os sentimentos são revelados de maneira sentimental, mas sem pieguice barata e com uma estética pop afinadíssima. Há algo na composição que é difícil de explicar, mas que nos dá vontade de cantar cada verso com força, mesmo sem termos passado exatamente pelas mesmas emoções. E, completando o “pacote”, está a presença deliciosa dos vocais de Katie Gavin, que captam perfeitamente toda a aura da canção.
Dancing On The Wall é o que chamo de uma aula sobre como fazer dar certo algo que poderia resultar muito errado.
nota: 8,5
Gostosinha Demais
Charme
Liniker
Liniker
Tenho um grande apreço por artistas que conseguem se divertir com o seu ofício ao lançar canções leves, descontraídas e despretensiosas. Charme, da Liniker, é um desses exemplos.
Conhecida pelo público devido à apresentação da cantora no Tiny Desk, a canção ganha uma versão de estúdio que capta a sua essência ao ser esse trabalho que não tem a vontade de ser algo grandioso ou profundo, mas, sim, um gostosinho exercício de leveza e divertimento. A batida contagiante de Charme é o seu grande atrativo, pois é impossível ficar impassível com a atmosfera construída, que mistura pop, R&B e boogie de maneira madura e divertida. Não é para elevar a sonoridade da artista e, sim, para fazê-la simplesmente se divertir e divertir o seu público, conduzindo a canção com um carisma solar e radiante. Liricamente, a canção é um trabalho restrito pelas escolhas poéticas que, porém, não atrapalham em nada, já que as escolhas combinam com toda a vibe da canção.
Charme é simples para a gente ficar mais encantado com a presença magnética da Liniker. E isso é o suficiente.
nota: 7,5
Garoto Simpático
Homewrecker
sombr
sombr
Boa parte das canções do sombr passa a vibe de ser algo que poderia ser ótimo, mas, ao ser legal, já é meio que o suficiente. É assim com a boa “Homewrecker”.
Capitalizando no sucesso do seu álbum de estreia, a canção é uma mistura redonda, classuda e mais interessante do que parece de indie pop, pop/yacht rock com elementos de tropical music, que assenta bem quando a gente entende as raízes das influências oitentistas da faixa. Com certeza, a canção está longe de ser um grande acerto, pois não tem aquele toque especial capaz de elevar o resultado final. Todavia, existe uma verdade criativa sincera por trás da produção que faz a gente ficar convencido. Talvez, com uma parte final mais grandiosa, “Homewrecker” pudesse funcionar bem melhor, pois a canção termina de maneira anticlimática. A boa composição, com destaque para o cativante refrão, e a performance sóbria e segura do sombr ajudam a arrematar os detalhes finais da canção.
Com esse bom caminho, é possível que o sombr continue arrematando a simpatia de parte do público. Veremos.
nota: 7,5
Bossa Mitski Nova
I’ll Change for You
Mitski
Mitski
De tempos em tempos, algum artista que considero talentoso tem a capacidade de me surpreender com algo que eu nunca estaria esperando. E é esse o caso da Mitski ao lançar a sublime I’ll Change for You.
Segundo single do seu novo álbum, a canção é simplesmente uma refinadíssima bossa nova que é de cair o queixo devido à sua magistral produção. Respeitando ao máximo o gênero brasileiro, mas adicionando camadas de chamber pop, jazz pop e indie pop que incrementam a canção para levá-la a um outro lugar criativo que liga diretamente com a personalidade artística da cantora. Todavia, o toque de mestre nesse caldeirão é a pitada magistral de samba que arremata I’ll Change for You com chave de ouro.
Felizmente, porém, a canção não tem apenas essas qualidades, pois tudo é construído em uma pequena e complexa “estufa” de vidro para criar uma canção rara e apaixonante. A simples e contida, mas emocional, composição é uma crônica tocante sobre uma pessoa que tenta entender o fim de um romance ao mesmo tempo que tenta descobrir uma maneira de recuperá-lo. Delicada e pungente, a performance de Mitski é um trabalho que vibra nos nossos ouvidos e corações, pois tem uma mistura de melancolia, tristeza e esperança genuína.
E com esse resultado, que contrasta criativamente tanto com o primeiro single (Where's My Phone?), Mitski vai criando uma jornada completamente inesperada para o que promete ser um dos álbuns do ano.
nota: 8,5
You Better Work
Slight Werk (Club Mix)
Honey Dijon & Bree Runway
Honey Dijon & Bree Runway
Uma das artistas eletrônicas mais importantes da atualidade é, sem dúvida nenhuma, a Honey Dijon. A prova cabal disso é a ótima Slight Werk (Club Mix), com a presença da Bree Runway.
Eletrizante, divertidíssima e contagiante, é uma hip house/tech house com toques pesados e reluzentes de vogue e ballroom. A canção não tenta imitar esses gêneros, mas, sim, é um trabalho que remete perfeitamente a eles devido ao conhecimento prático, teórico e, digamos, espiritual da produção da Honey. Além disso, o trabalho instrumental aplicado na canção é realmente inspirado, pois mostra uma intrincada rede de construção que poderia facilmente se restringir a algumas batidas soltas aqui e ali nas mãos de alguém menos talentoso.
O arremate da canção vem por conta da ótima e cativante performance da Bree Runway, que consegue entender toda a atmosfera da canção ao moldar sua presença para se encaixar nela sem perder personalidade.
E é de personalidade como a da Honey Dijon que a gente precisa ainda mais.
nota: 8
O Caminho Médio
Die For Me
ZAYN
ZAYN
É bastante curioso perceber o caminho que a carreira do Zayn tomou, especialmente em comparação à do Harry Styles. Dois talentosos cantores, mas fica claro que, para o primeiro, faltou trilhar um caminho mais experimental para ter feito a sua carreira explodir como a do segundo. Isso fica claro com o lançamento de Die For Me.
O single, primeiro do seu novo álbum intitulado Konnakol, não é ruim, mas é extremamente seguro e sem um pingo de excitação. Se ele tivesse lançado a canção assim que saiu do One Direction, não faria nenhuma diferença, pois o trabalho não mostra nada de amadurecimento em relação ao que ele mostrou nesse começo da carreira solo. Die For Me é uma power balada pop soul com um instrumental poderoso e grandioso, mas meio arrastado e sem graça. A gente sabe exatamente o que esperar do começo ao fim, tirando boa parte da graça da canção, que poderia ir muito além.
É preciso apontar, porém, que vocalmente Zayn entrega uma performance espetacular ao mostrar não apenas o seu imenso alcance, mas também versatilidade inspirada e uma emoção tangível. Todavia, todo o potencial de Zayn não faz a agulha girar para uma canção melhor, pois Die For Me nasce já sendo um trabalho pouco inspirado, que não está à altura do seu talento. Uma pena.
nota: 6
8 de fevereiro de 2026
O Céu de Loreen
Feels Like Heaven
Loreen
Loreen
Com uma carreira intimamente ligada às suas duas vitórias no Eurovision, a Loreen ainda não havia encontrado uma canção capaz de mostrar todo o seu potencial fora desse contexto. Feels Like Heaven, no entanto, é exatamente essa música.
Sem se afastar radicalmente do território que a cantora já apresentou ao longo dos anos, o single de seu próximo álbum (WILDFIRE) é uma mistura épica, envolvente e madura de electropop, euro-trance e dark pop, que consegue fugir do lugar-comum no momento em que a produção acerta ao adicionar texturas e construir um instrumental robusto e poderoso. Na verdade, grande parte da qualidade de Feels Like Heaven vem justamente do fato de entregar um trabalho técnico primoroso, que praticamente apaga qualquer sensação de clichê ou de algo datado que a canção poderia carregar.
Outro fator determinante para um resultado tão acima da média é a presença vocal estupenda de Loreen, que entrega uma performance explosiva, emocional e deslumbrante. A forma como ela interpreta a letra é completamente única, deixando de lado aquela sensação recorrente de identificar de imediato uma canção escrita ou coescrita por Sia. Claro, depois de saber desse detalhe, é possível reconhecer a marca da autora de Chandelier na composição, mas trata-se de um trabalho competente e seguro, que não pende a balança nem para cima, nem para baixo.
Feels Like Heaven representa um novo ápice na carreira de Loreen, que pode ter em mãos um álbum realmente surpreendente.
nota: 8,5
The Fate do Mediano
Opalite
Taylor Swift
Taylor Swift
Continuando a sua saga de ser a maior artista pop da atualidade com as músicas mais sem graça do pop, Taylor Swift lança Opalite como single de The Life of a Showgirl.
Canção menos pior do álbum, o single é a que tem a batida mais legal de todo o disco, fazendo a gente até bater os pezinhos no compasso. E isso acontece especialmente no refrão que, sinceramente, funciona sonoramente melhor do que o esperado. Todavia, a canção repete todos os cacoetes de todas as outras faixas do álbum ao ser uma mistura sem força, sem criatividade e sem brilho de dance-pop com pop rock e soft rock, que não passa de uma tentativa canhestra de canção pop de verdade.
Em Opalite, porém, o maior erro está na indulgente e boba composição, que usa e abusa dos clichês que a própria Taylor criou para entregar uma chata canção sobre finalmente encontrar o amor verdadeiro. Dá para ouvir os mecanismos da cabeça da cantora funcionando ao escrever a composição, que parecem feitos apenas para serem consumidos pelo seu público, mais do que uma parte da sua exploração como pessoa e artista. Vocalmente, a canção é um trabalho seguro para a Taylor, ao não sair do lugar de conforto da sua voz.
E, sem maior esforço, a Taylor é o que temos de maior estrela pop. Bom para ela e o seu público, ruim para o resto que gostaria de mais.
nota: 6
Vazio
POSSESSION
Melanie Martinez
Melanie Martinez
Algumas canções são, teoricamente, grandes e profundos trabalhos, mas que, na prática, são um completo nada. Esse é o caso de POSSESSION.
Single do novo álbum de Melanie Martinez, intitulado Hades, a canção funciona como uma crônica sobre um relacionamento tóxico, partindo da visão da vítima que ainda não conseguiu sair completamente dessa situação. A composição constrói imagens fortes, mas elas não causam o impacto esperado por conta da forma como são escritas. Tudo soa excessivamente pretensioso, sem nunca alcançar o clímax emocional que uma canção com essa temática deveria ter.
Todavia, o maior problema de POSSESSION está em sua produção vazia. Seguindo um caminho entre o alt-pop e o indie pop, a faixa entrega uma batida monótona, sem inspiração, totalmente sem força, massificada e quase irritante. É o tipo de canção que quer desesperadamente ser mais profunda do que realmente é, criando um abismo sonoro entre a intenção e o que de fato é entregue. Se não se levasse tão a sério, a música poderia ter muito mais efeito em relação à sua mensagem.
Como ponto menos negativo, Martinez apresenta uma performance madura e sólida que, dentro de suas limitações vocais, combina bem com a atmosfera da canção. Ainda assim, a presença de uma vocalista mais interessante poderia conferir alguma personalidade ao vazio que é POSSESSION.
nota: 5
1 de fevereiro de 2026
O Encontro Pop
Stateside + Zara Larsson
PinkPantheress & Zara Larsson
PinkPantheress & Zara Larsson
Existem alguns unicórnios na música, e um deles é a existência de um remix que consegue ser melhor do que a canção original. Esse feito raro é alcançado no remix de Stateside, de PinkPantheress, ao lado de Zara Larsson.
Uma das melhores canções de Fancy That, o single original já era a prova de que a "sonoridade da PinkPantheress estava se direcionando para uma abordagem mais eletrônica, incorporando influências de house e EDM para enriquecer sua já sólida identidade musical". No remix, a produção — sabiamente — mantém essa base, mas altera o suficiente para que a faixa se apresente, de fato, como um remix verdadeiro, graças a adições muito bem-vindas em sua construção.
A mais pungente delas é a batida mais marcante de electroclash/EDM, que eleva ainda mais o impacto sonoro da canção e se alia perfeitamente à presença de Zara Larsson.
É aqui que o remix realmente brilha. Ao convidar a sueca, a música poderia facilmente optar por caminhos seguros e previsíveis, mas prefere integrar genuinamente a personalidade da convidada à mistura, criando uma parceria real entre as duas artistas. Essa decisão transforma a faixa na fusão ideal de duas potências do pop — e o resultado é recompensador: uma canção que não só rivaliza, como consegue superar a original, realizando um verdadeiro milagre musical.
nota: 8,5
O Retorno Depois do Sucesso
Where's My Phone?
Mitski
Depois do sucesso comercial inesperado de My Love Mine All Mine, Mitski está de volta com o lançamento de Where’s My Phone?, primeiro single de Nothing’s About to Happen to Me.
É fácil perceber que a canção não tem relação direta com seu single de sucesso, mas, felizmente, continua mantendo o nível artístico da cantora bastante elevado. Trata-se de uma faixa reconfortante, madura, graciosa e com forte estética vintage: um noise pop com garage rock que claramente se inspira nos anos setenta, com uma camada noventista, sem, no entanto, soar como um simples exercício de nostalgia. Na verdade, Where’s My Phone? apresenta um trabalho instrumental incrível e complexo, repleto de camadas, que vão se desenrolando gradualmente até alcançar algo muito mais climático e poderoso do que sua primeira metade deixa transparecer. Esse é, sem dúvida, o grande trunfo da canção.
Liricamente, a faixa não é de digestão fácil para quem busca algo mais direto e palatável. Não se trata de uma escrita complexa em sua forma, mas Mitski possui uma capacidade impressionante de expressar sentimentos difíceis de maneira elaborada, sem jamais soar pretensiosa. Aqui, fica claro que a cantora busca traduzir uma angústia existencial típica do mundo contemporâneo, em que estamos constantemente cercados de coisas, mas ainda assim podemos nos sentir vazios e perdidos. Mitski entrega uma performance vocal sólida e poderosa, que se encaixa perfeitamente na proposta da canção; ainda assim, é preciso apontar que a mixagem vocal deixa um pouco a desejar, já que sua voz acaba ficando abaixo do instrumental devido às escolhas de efeitos adotadas.
De qualquer forma, Where’s My Phone? se firma como um dos melhores momentos deste início de ano, que promete ser repleto de destaques como este.
nota: 8
O Sábio
Death of Love
James Blake
James Blake
Uma das maiores qualidades de James Blake é manter, a cada nova canção lançada, a sua personalidade artística intacta, mas adicionando novas nuances para sair da mesmice. Esse é o caso da ótima Death of Love.
Primeiro single do álbum Trying Times, a canção é um típico trabalho do britânico ao unir, com inteligência e graciosidade, uma mistura de eletrônico, UK bass, R&B, downtempo e trap, criando uma sonoridade madura, vigorosa e bastante familiar. Todavia, Death of Love não é uma mesmice sonora devido à inteligência criativa da produção, que adiciona texturas excitantes para dar vida à canção.
A principal e mais sentida delas é a introdução de um toque religioso, perceptível no sample vocal em hebraico e no coro presente em parte da canção. Dessa maneira, a faixa ganha uma camada de significação mais profunda ao ligar essa atmosfera religiosa à experiência sobre as consequências do fim de um amor, tema abordado na ótima composição, que consegue ser devastadoramente emocional sem soar piegas ou excessivamente dramática.
Com uma performance que exala toda a sua personalidade, mas que é capaz de encontrar perfeitamente novos lugares para explorar, James Blake mostra como se manter fiel a si mesmo e, ao mesmo tempo, buscar novos caminhos.
nota: 8,5
Tema Filler
Wall of Sound
Charli xcx
Charli xcx
Se a adaptação de O Morro dos Ventos Uivantes parece que vai ser um dos filmes mais divisivos do ano, a soundtrack feita por Charli XCX parece que vai ser um dos álbuns mais interessantes do ano. E olha que Wall of Sound é a menos impactante até agora.
A grande qualidade da canção é a capacidade de criar algo flertando com o orquestral/clássico sem perder a essência eletrônica da artista, criando um amálgama muito bem estruturado. Isso é ouvido perfeitamente na poderosa instrumentalização que dá à canção uma atmosfera épica, cinematográfica e “brat”.
O problema de Wall of Sound, porém, é que a canção não chega de verdade à explosão que a sua base promete alcançar, deixando o gosto de ser uma faixa que funciona bem dentro do álbum, mas que, como single, deixa clara sua natureza filler. Outro problema é a sua composição, que não chega a fazer feio tematicamente, mas deixa espaços vazios em uma letra quase burocrática e com um refrão apenas ok.
De qualquer forma, a canção é um caminho muito auspicioso para que Charli XCX entregue mais uma era inspirada para a sua carreira.
nota: 7,5
Um Reencontro
2SIDED
Arlo Parks
Arlo Parks
Fazia um tempo que não escutava nada da Arlo Parks, mas fico bastante feliz em me deparar com a ótima 2SIDED.
Primeiro single de seu novo álbum (Ambiguous Desire), a canção representa uma mudança bem interessante em relação ao que eu lembrava da cantora, ao partir para uma competente construção de alt-pop com influências de drum and bass e house. Não é nada revolucionário, mas funciona de maneira tão azeitada que nos envolve completamente.
Há um toque de PinkPantheress, mas 2SIDED se beneficia da presença marcante e, ao mesmo tempo, delicada de Arlo, que tem um timbre e uma maneira de cantar tão peculiares que injetam personalidade na canção de forma indiscutível. Além disso, a composição deixa visível sua precisa capacidade criativa de entregar emoção genuína.
Um feliz reencontro com Arlo Parks, que também pode ser o descobrimento da cantora para quem nunca a conheceu.
nota: 7,5
25 de janeiro de 2026
Qual é o Seu Prazer?
I Could Get Used to This
Jessie Ware
Jessie Ware
A volta que todos estavam esperando ganha forma com o lançamento de I Could Get Used to This, da incomparável Jessie Ware. E a cantora já responde, de cara, a uma questão levantada alguns anos atrás: qual é o seu prazer?
Não sei vocês, mas o meu prazer é escutar canções sensacionais como essa produção inspiradíssima. Aqui, é novamente um deleite perceber como a produção consegue compreender perfeitamente toda a personalidade da cantora, mesmo trabalhando com dois novos nomes, Jon Shave e Barney Lister. O resultado é uma canção que mistura com perfeição a vibe do início da carreira de Jessie com aquilo que ela vem apresentando desde o sucesso de What’s Your Pleasure?: uma deliciosa, refinada, elegante, madura, cativante e aveludada fusão de pop soul com post-disco, além de toques de dance-pop, R&B e boogie.
Sem pender para uma nostalgia barata, mantendo um claro verniz contemporâneo sem perder o charme de um bom “revival”, I Could Get Used to This impressiona ao unir pontas tão distintas em uma canção extremamente gratificante e de qualidade técnica notável. Desde sua abertura envolvente e graciosa, que estabelece um clima convidativo e sonhador, até o seu desenrolar preciso, no qual novas camadas sutis, porém pungentes, vão sendo adicionadas, a faixa cresce em força dançante e energia até culminar em um clímax vibrante e suculento.
E nada disso teria o mesmo impacto sem a presença magistral de Jessie Ware, que entrega uma performance brilhante, dominando cada momento da canção com sua voz sedosa e carisma luminoso. Para quem acompanha a cantora, isso não é surpresa, mas ainda assim impressiona o quão poderosa é sua presença de forma tão única e refrescante. Por fim, a composição de I Could Get Used to This atinge um nível altíssimo ao traduzir a elegância da artista em uma deliciosa fábula sobre amor e desejo.
Assim, ainda em janeiro, Jessie Ware já entrega uma das fortes candidatas ao título de melhor canção do ano.
nota: 9
A Primeira Grande Música de 2025
DANCE...
Slayyyter
Slayyyter
Com uma sequência de lançamentos incríveis, a Slayyyter vai finalmente lançar o seu aguardadíssimo quarto álbum (Worst Girl in America). E, para continuar essa impecável sequência de singles, a cantora lançou a primeira grande canção de 2025 com a sensacional DANCE...
É impressionante que todos os lançamentos da cantora consigam ser completamente diferentes entre si, mas ainda assim seguir claramente uma linha de raciocínio criativo clara e impressionante. Aqui, a produção segue para um caminho electropop misturado com acid house, post-disco, dank pop e alternativo, com uma produção mais dramática, soturna e pegajosa.
São elementos que a cantora já mostrou algumas vezes, mas, em DANCE..., são remodelados para dar camadas de personalidade à cantora, mostrando uma total e indiscutível versatilidade. E não é apenas sonoramente que a canção ganha muitos pontos, pois também é fácil notar o tamanho da qualidade instrumental da canção em um trabalho calculadamente complexo de construção técnica. Econômica na lírica, mas eficiente na medida para mostrar um lado mais emocional da cantora, Slayyyter entrega outra vez uma impressionante performance ao deixar brilhar sua voz mais “direta” e sem grandes efeitos, comprovando a sua versatilidade.
Queridos leitores, DANCE... é como que todos os anos deveriam começar.
nota: 8,5
Ray Of Harry
Aperture
Harry Styles
Harry Styles
Depois de um hiato de quatro anos em que, sabiamente, descansou a sua imagem, Harry Styles está de volta para o lançamento do seu quarto álbum (Kiss All the Time. Disco, Occasionally). E, como primeiro single, foi lançada a interessante Aperture.
Mantendo o mesmo nível dos lançamentos de primeiros singles da sua carreira, a canção é um trabalho que consegue mostrar bem as qualidades do cantor, assim como seus pontos fracos. A melhor parte do single é que a gente vê nitidamente a evolução sonora do cantor e, principalmente, a sua vontade de buscar novos caminhos. Aperture é uma gratificante, madura e corajosa incursão de Harry no eletrônico, ao entregar uma densa, mas palatável, mistura de progressive house com alt pop, synth-pop e deep house. Bem construída e com personalidade, Aperture dá profundidade à imagem do artista por ser um experimento sincero e com personalidade.
Falta, porém, picância para conseguir elevar o material, já que o resultado flerta com o genérico aqui e ali, mesmo conseguindo sair desses buracos com facilidade devido ao trabalho elogiável de instrumentalização. Acredito que a canção deixa a desejar quando se coloca em um caminho linear demais, não tendo algum momento que faça a gente “levar um tapa” na cara devido à surpresa. É preciso apontar que a produção tem a qualidade de entregar uma canção de mais de cinco minutos que vai contra qualquer manual atual do pop, e isso dá uma sensação de força criativa genuína.
Vocalmente, Harry entrega uma performance realmente competente, já que se molda perfeitamente à atmosfera da canção sem perder a sua personalidade e o seu imbatível charme. O grande problema da canção é a sua composição segura, mas sem deixar clara a evolução lírica do artista. Esse é um dos problemas de Harry na sua carreira, pois, se de um lado ele é capaz de entregar composições com o “tino pop” perfeito, do outro ainda falta certa apuração poética para que sejam trabalhos realmente ótimos. Gosto muito, porém, dos dois primeiros versos, mas a partir do refrão a canção volta a cair no mesmo lugar de outras canções dele.
Aperture não é a melhor canção do Harry nem vai ser uma das melhores do ano, mas é um trabalho que despertou minha curiosidade para o que pode ser a melhor era do cantor.
nota: 7,5
Clichê Bom
Beat Yourself Up
Charlie Puth
Charlie Puth
Sabe o bom e velho clichê? Então, quando ele é realmente bem executado, é possível ter canções como a gostosinha Beat Yourself Up, do Charlie Puth.
Single de seu álbum previsto para este ano, Whatever’s Clever!, a canção é a soma de vários clichês do R&B, pop funk, boogie e dance-pop que poderiam facilmente resultar na música mais sem graça possível. Todavia, a produção classuda do próprio cantor em parceria com o BloodPop suaviza essa impressão ao entregar uma faixa limpa, direta e bastante divertida. Dessa maneira, fica difícil não se deixar levar pela batida leve e envolvente de Beat Yourself Up.
Além disso, o single conta com uma das performances mais encantadoras de Charlie, que encontra não apenas o tom perfeito para a canção, como também adiciona uma vivacidade radiante capaz de equilibrar toda a sua atmosfera. Apesar de ter uma boa letra, o único erro real da faixa é não entregar um refrão verdadeiramente avassalador — algo que poderia elevá-la a outro patamar.
Não chega a reinventar a roda, mas Charlie faz ela rodar lindamente.
nota: 7,5
Razões
Gut Punch
Nick Jonas
Nick Jonas
Ainda não entendo bem o que aconteceu com a carreira do Nick Jonas, que começou sua fase solo com tanto potencial e acabou não chegando a lugar nenhum de verdade. Ouvindo Gut Punch, é possível entender algumas razões.
Single de seu quinto álbum (Sunday Best), a canção é um grande nada, pois não chega a ser ruim, mas passa muito longe de ser boa. Uma balada pop rock inofensiva, incolor e insonsa, Gut Punch é o tipo de canção que parece nunca mostrar, de fato, a razão da sua existência, ao ter uma produção rasa, sem criatividade e completamente esquecível. É o tipo de canção que a gente escuta e esquece logo que termina. A sensação piora quando a gente percebe que a produção até acerta no uso do sample de Impossible, da Shontelle, mas não constrói nada interessante a partir disso. Além disso, a canção não valoriza em nada o timbre do Nick, deixando sua voz soar mais limitada e quadrada, já que não parece se encaixar, mesmo o cantor tendo carisma.
Se essa falta de inteligência criativa é um dos motivos para o Nick não ter estourado, é uma razão bastante válida.
nota: 5
Razões 2
Most Wanted (featuring Valiant)
Leigh-Anne
Leigh-Anne
Depois de um começo bem interessante — que acabou se perdendo pela falta de valorização do seu talento por parte da gravadora —, Leigh-Anne finalmente vai lançar seu primeiro álbum, My Ego Told Me To. É uma pena, no entanto, que o primeiro single seja tão mediano quanto Most Wanted.
Gosto do fato de a cantora buscar um caminho próprio ao apostar em uma pegada afrobeats, mas a produção acaba pecando por ser genérica demais. Dançante e até divertida, Most Wanted não tem força ou identidade suficientes para não parecer uma “cópia” de alguma canção da Tyla, deixando aquela sensação clara de “já ouvi isso antes” ao final da escuta. Ainda assim, Most Wanted apresenta personalidade graças à presença de Leigh-Anne, que consegue se sobressair por conta de seu carisma magnético, e a parceria com Valiant funciona de maneira bastante natural.
Espero que o futuro de Leigh-Anne siga um caminho parecido com o da Raye, porque talento definitivamente não deveria ser desperdiçado.
nota: 6
18 de janeiro de 2026
13 de janeiro de 2026
11 de janeiro de 2026
As 100 Melhores Músicas Que Você Não Deve Conhecer
Nem sempre um grande artista é reconhecido por algumas qualidades que o mesmo tem e que sempre mostrou ao longo da sua carreira. Hoje irei iluminar uma qualidade da Rainha do Pop que nem sempre é lembrada de forma constante. E é o fato de a Madonna ser também…
O Mesmo Bruno
I Just Might
Bruno Mars
Bruno Mars
Depois de um tempo bem grande sem lançar um álbum, pois são dez anos desde 24K Magic e cinco desde An Evening with Silk Sonic, ao lado do Anderson .Paak, Bruno Mars se prepara para lançar seu quarto álbum, intitulado The Romantic. E, como primeiro single, foi lançada a divertida I Just Might.
Primeiramente, preciso apontar o que muitos corretamente falam: o fator “mais do mesmo” para artistas masculinos. Enquanto cantoras precisam se inovar sonoramente em cada novo lançamento, cantores não têm essa mesma pressão ao continuar no mesmo padrão. E isso fica bem claro que é o caminho do Bruno, pois o single não tem nada de novo do que a gente já ouviu. E isso é um peso importante para a canção. Todavia, I Just Might é exatamente o que o “Bruninho” sabe fazer de melhor e entrega exatamente o que promete.
Uma divertidíssima, sexy, dançante e contagiante pop soul, com elementos de disco, funk e boogie, que o Bruno domina com os olhos fechados. Claro, essa sensação de mais do mesmo é forte, mas é afastada bem pela graciosidade genuína da produção do artista, ao lado de D'Mile. Eficiente e deliciosa, I Just Might também conta com uma performance radiante do Bruno, que encarna com perfeição essa mistura de cantor vintage, romântico inveterado e estrela pop, que o mesmo sustenta no talento e no imenso carisma. O ponto fraco da canção é sua composição, que realmente fica bem perto de ser genérica demais e com um refrão apenas bom, mas que ainda é viciante quanto mais a gente escuta.
Sim, Bruno faz novamente o arroz com feijão de todos os dias, mas ele faz com vontade de fazer a gente encher o bucho.
nota: 7,5
2 Por 1 - Robyn
Sexistential
Talk To Me
Talk To Me
Robyn
Lendo algumas resenhas do público dos dois novos singles da Robyn, parece que há uma sensação de que muitos não conhecem exatamente a discografia da cantora. Pois só assim se explicam algumas resenhas de Sexistential e Talk To Me.
Ambas as canções, apesar de diferentes, apresentam muito bem a personalidade da artista ao ter, de um lado, o pop mais direto e digestível (Talk To Me) e, do outro, o pop mais experimental e “cafona” (Sexistential). Entre as duas, a primeira é com certeza a melhor, pois é a que funciona melhor no que pretende fazer, ao ser uma refinadíssima e deliciosa synth-pop com toques de house e dance-pop que carrega perfeitamente a marca da personalidade da cantora.
O single não é extremamente comercial, mas é facilmente feito para tocar em alta rotação nas playlists pop devido ao seu apelo de fácil assimilação, com sua batida limpa e direta. A canção tem suas experimentações, mas passa longe de ser um trabalho experimental a ponto de afastar aqueles mais sedentos pelo puro pop. Facilmente, a canção é prima direta de faixas como Call Your Girlfriend e Indestructible. E isso meio que muda com a presença de Sexistential.
Bem mais arriscada sonoramente, a canção não é para todos os gostos, principalmente para aqueles que procuram algo mais “redondinho” e de fácil digestão. Também não é algo profundo e complexo, mas, sim, uma desavergonhada e divertida exploração dos limites do pop, misturada com uma dose de vergonha alheia e autodepreciação. E isso vem principalmente de sua controversa composição, em que a cantora discorre sobre a vida sexual de uma mulher quando é mãe e solteira. Acho que os seguintes versos dão uma ideia sobre o tom que a Robyn quer dar à composição: “Hormonal rants on IG / Scrolling my feed while breastfeeding”. Quem tem o paladar simples ou não entra na viagem não consegue aproveitar a zoeira e o fator campy da canção.
Outro ponto é a produção, que entrega uma abordagem minimalista e contida para erguer a batida deep house/eurodance/progressive da canção, resultando em um instrumental que transita bem entre o caricato e o criativo de maneira tênue, mas divertida. E o fator que sustenta ambas as canções é a performance sempre ótima da Robyn e sua presença bastante carismática.
Essa é a Robyn na sua versão mais Robyn. E isso é ótimo.
notas
Sexistential: 8
Talk To Me: 7,5
Talk To Me: 7,5
Encontro Fosco
girl, get up.
Doechii & SZA
Doechii & SZA
Você sabia que a Doechii e a SZA lançaram uma canção juntas recentemente? Não? Então, não se sinta excluído, pois o lançamento de girl, get up. meio que passou despercebido. E olha que é uma boa canção.
Uma elegante, madura e estilizada mistura de hip hop, R&B alternativo e toques de afrobeats, a canção tem um refinamento muito bem-vindo para a construção e evolução sonora da rapper. Todavia, o resultado final da produção é bem menos impactante esteticamente do que o esperado para que a canção pudesse virar um novo hit para as envolvidas. girl, get up é um trabalho competente, mas fica mais como um filler que ganhou a luz do dia. Mesmo assim, a performance contida, mas raivosa, da Doechii e a presença iluminada da SZA — ainda que pudesse ser maior — dão personalidade suficiente à canção. Além disso, a ótima composição, em que a rapper coloca alguns pingos nos is, mostra o quanto a lírica da artista é inteligente, às vésperas de lançar seu primeiro álbum. É um aperitivo muito bom, que dá vontade de sobra para saborear o que está por vir.
nota: 8
6 de janeiro de 2026
4 de janeiro de 2026
Antes Tarde do Que Nunca - Versão Single
Ain't It Funny
Ain't It Funny (Murder Remix) (feat. Ja Rule and Caddillac Tah)
Jennifer Lopez
Ain't It Funny (Murder Remix) (feat. Ja Rule and Caddillac Tah)
Jennifer Lopez
No auge da sua popularidade comercial, Jennifer Lopez conseguiu alguns feitos notáveis que atualmente não parecem mais possíveis de acontecer. E um desses feitos foi o sucesso de Ain’t It Funny, mais precisamente de seu “remix”.
Na verdade, a grande surpresa, digamos assim, não é o sucesso de Ain’t It Funny (Murder Remix), mas sim o fato de que, apesar de se apresentar como um remix, trata-se, na realidade, de uma canção totalmente nova. Lançada como quarto e último single do segundo álbum da cantora (J.Lo), a versão original não teve bons resultados comerciais nos Estados Unidos, mas se saiu bem ao redor do mundo, alcançando um top 3 no Reino Unido. Sonoramente, Ain’t It Funny é uma mistura melhor do que o esperado de pop latino com toques de salsa e disco, contando com uma ótima instrumentalização. Dançante, sensual, comercial e realmente cheia de personalidade, a canção figura entre as melhores da carreira da cantora.
A música ganharia uma nova chance nas paradas quando o remix de outro single do mesmo álbum, I’m Real, atingiu o topo da Billboard ainda em 2001, levando a cantora a lançar o álbum de remixes J to tha L–O! The Remixes, tornando-se o primeiro trabalho do gênero a alcançar o primeiro lugar em vendas nas paradas. Como primeiro single oficial, foi lançada Ain’t It Funny (Murder Remix). Entretanto, a canção não tem, de fato, nada a ver com sua versão original, sobrando apenas o nome e seu uso no refrão. Na prática, trata-se de uma música nova em todos os sentidos, principalmente no aspecto sonoro e lírico.
Do pop latino para o R&B/hip hop, Ain’t It Funny (Murder Remix) é uma canção um pouco presa ao seu tempo, já que é facilmente perceptível que sua sonoridade pertence a um período bastante específico que, devido a essas limitações, não carrega uma sensação de atemporalidade. Todavia, a música consegue ser nostálgica na medida certa, pois possui uma força estética poderosa graças à produção inteligente, que oferece a todos os envolvidos a plataforma perfeita para brilhar. Nunca conhecida como uma grande vocalista, J.Lo entrega uma performance segura e carismática, mesmo quando comparada ao que poderia ter sido com a então novata Ashanti, que, além de coescrever a canção, pode ser ouvida em várias partes como backing vocal. E a presença marcante de Ja Rule é um dos motivos pelos quais a música é, ao mesmo tempo, inesquecível e um fruto claro de sua época. Uma relíquia do passado que mostra que, querendo ou não, o legado de Jennifer Lopez é maior do que muitos tentam reduzir.
notas:
Ain't It Funny: 8
Ain't It Funny (Murder Remix):: 7,5
Ain't It Funny (Murder Remix):: 7,5
O Retorno de Uma Diva
Beautiful People
Jill Scott
Jill Scott
Depois de um hiato de mais de dez anos, Jill Scott, um dos nomes mais celebrados do R&B/soul contemporâneo, está de volta para lançar, este ano, o seu sexto álbum (To Whom This May Concern). E, como primeiro single, foi lançada a ótima Beautiful People.
Uma celebração sobre o que existe de melhor na raça humana – algo de que estamos precisando –, a canção é um glorioso e cativante R&B/soul que não tem pressa para ir envolvendo em sua teia sedosa, garantindo uma experiência transcendental para quem escuta do começo contido até o seu poderoso final. Classudo, elegante e maduro, Beautiful People é o tipo de canção para quem gosta de verdade de música, pois é a exemplificação do talento em forma de canção devido à presença magistral e escultural de Jill Scott, que domina a faixa com uma sabedoria que apenas uma lenda seria capaz de ter. E que o ano possa trazer mais retornos como esse deleite sonoro.
nota: 8,5
Eficiente
LOVE YOU LESS
Joji
Joji
Algumas canções nos surpreendem por fazerem exatamente aquilo a que se propõem. Esse é o caso de LOVE YOU LESS, do Joji.
Single de seu próximo álbum (Piss in the Wind), a faixa é uma eficiente indie rock/dream pop que consegue agrupar todos os seus elementos de uma maneira tão encaixada que esconde que, sonoramente, a canção não tem nada de especial de verdade. Bem instrumentalizada, mas sem nenhum grande toque especial, LOVE YOU LESS se destaca pelo fato de conseguir pegar o básico e fazê-lo de maneira tão bem-feita que tem a capacidade de esconder a sua falta de inspiração extra.
E isso, sinceramente, é algo que precisa ser elogiado. Também é preciso apontar que a composição caminha nesse mesmo espaço, mas que tem alguns momentos de inspiração nessa crônica sobre não ser correspondido à altura em um relacionamento. O melhor deles é no refrão, quando Joji entoa de maneira melancólica e quase como uma súplica: "If I love you less, will you love me more?". Uma canção que faz o famoso arroz com feijão bem-feito.
nota: 8
Um Encontro Quase Inusitado
Zombie
YUNGBLUD & The Smashing Pumpkins
YUNGBLUD & The Smashing Pumpkins
Um dos nomes mais surpreendentes de 2025 foi o YUNGBLUD, que vem colhendo ótimos frutos como resultado do lançamento do álbum Idols, como, por exemplo, três indicações ao Grammy. Outro fruto é poder contar com o respeito de veteranos, como é o caso da banda The Smashing Pumpkins, com quem o britânico regravou a sua canção Zombie.
Single lançado no ano passado, a canção é “uma competente, sólida e cativante power balada pop rock/rock alternativo” que mostra claramente a evolução artística do cantor. A versão com a presença da banda não altera praticamente nada da produção, mesmo soando um pouco mais “pesada” devido à presença instrumental e à sonoridade dos convidados. Isso é interessante, pois dá a essa versão de Zombie uma sensação de algo mais profundo e poderoso.
Todavia, a regravação erra no momento em que os versos cantados pelo vocalista Billy Corgan são exatamente os mesmos da versão original, deixando uma impressão estranha de que faltou certa personalidade verdadeira para a canção, criativamente falando. Vocalmente, Billy consegue se adaptar à canção, ao mesmo tempo em que impõe sua marca, mas também faltou mais polimento para criar realmente uma fusão entre todos os envolvidos. É um trabalho que mostra apenas o quanto de potencial o YUNGBLUD possui.
nota: 7,5
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