29 de março de 2026

A Mais Fraca

Automatic
Jessie Ware


Se todas as canções mais “fracas” de um artista fossem como Automatic, da Jessie Ware, o mundo com certeza seria um lugar bem melhor.

Terceiro single de Superbloom, a canção é a menos inspirada até agora e, mesmo assim, é um trabalho realmente interessante e gracioso. Acredito que o fato de ter menos de três minutos seja um dos fatores que fazem a canção parecer menor do que o esperado, pois parece que fica faltando tempo para trabalhar melhor a deliciosa produção pop soul com boogie e toques de funk, que dá outra faceta à nova era da cantora. Ter esticado mais o aprofundamento dessa sonoridade daria ainda mais força à canção, já que poderíamos ouvir mais do excepcional instrumental.

Todavia, Automatic é um trabalho que emana a essência da cantora devido a essa produção, que capta perfeitamente toda uma aura vintage sem soar datada, pretensiosa ou baseada em uma nostalgia barata. É fino, elegante e sincero, com um toque delicioso que mistura sensualidade com romance — algo que apenas alguém como Jessie é capaz de entregar. Outro ponto alto é a rápida, mas deliciosa, participação do ator Colman Domingo, com um voiceover que abre a canção e adiciona ainda mais personalidade. E isso tudo porque Automatic nem está no mesmo nível que as canções anteriores. Imagine se estivesse.
nota: 8

Uma Para os Gay Emocionados

The Best
Conan Gray


É ainda um pouco desconcertante para uma pessoa como eu, que tenho alguns anos a mais nas costas que as novas gerações de pessoas queers, que possam, apesar de todos os desafios que ainda enfrentamos, ter artistas queers que fazem da sua arte escapes para os seus sentimentos e que encontrem pessoas que os entendem perfeitamente. Em The Best, o Conan Gray entrega um desses momentos que não teríamos a chance de ouvir alguns anos atrás com tanta facilidade no mainstream.

Single da versão deluxe de Wishbone, a canção é uma power balada pop rock/indie pop que casa perfeitamente com a atmosfera do álbum, mostrando a capacidade de Conan de uma maneira tão clara como o dia. E isso não é novidade, pois o artista vem amadurecendo a olhos vistos e entrega aqui uma das suas canções mais refinadas até o momento. Um dos motivos para isso é a sua ótima composição, que se deixa ser sentimental, emocional e dolorida ao contar sobre o final de um relacionamento que não deu exatamente certo do ponto de vista de uma pessoa queer.

A letra, porém, poderia ser facilmente cantada por um artista de outra sexualidade e/ou gênero, que teria a mesma carga de sentimentos, mas ganha novo significado aqui por poder finalmente ter um ponto de vista que não seria possível anos atrás. E isso é tão importante quanto a mesma falar claramente sobre um romance queer, pois dá vazão a sentimentos que, no final das contas, são iguais para todos. Outro grande momento é a performance de Conan, que carrega a canção de maneira segura e com uma interpretação tocante. E isso é algo que faz de The Best uma canção até mais importante do que a gente espera.
nota: 8

Enfim, Um Comeback?

Don't Make Me Love U
Lizzo


Depois de ensaiar um comeback que não deu certo artisticamente ou comercialmente, a Lizzo prepara um novo retorno com o lançamento de Don't Make Me Love U. E tenho que admitir que é bem mais promissor do que eu esperava.

Não acho que a fase de “flop” da cantora irá passar tão cedo, mas o single é realmente um trabalho ótimo, especialmente devido às decisões acertadas da produção. A maior delas é o uso inteligente e criativo de duas interpolações de canções lendárias: The Best, da Tina Turner, e Livin' on a Prayer, do Bon Jovi. As melodias dessas duas músicas ajudam a construir Don't Make Me Love U, dando claramente à faixa — que mistura dance-pop, synth-pop e pop soul — cara, coração e alma dos anos oitenta. E é uma influência que não parece forçada ou baseada em uma nostalgia barata, devido, principalmente, à inteligência da produção em não deixar a canção ser engolida pelos samples, mas, sim, em utilizá-los apenas como base para uma construção independente.

Isso fica claro quando a gente escuta pela primeira vez sem saber dessa escolha criativa, pois dá a sensação de ser apenas uma canção inspirada na estética oitentista, e não fortemente dependente dela. E, quando percebemos, tudo passa a fazer total sentido, criando uma dinâmica bem interessante. Outro grande ponto positivo é a performance sensacional da Lizzo, que entende perfeitamente o estilo da canção e entrega uma carga emocional poderosa, além de um desempenho vocal admirável.

O ponto fraco de Don't Make Me Love U é a composição formulaica sobre dar um ultimato em um relacionamento “ioiô”, mas isso não atrapalha o resultado final a ponto de tornar a canção menor do que realmente é.

Pode não ser a salvação da carreira da Lizzo, mas a faixa é uma amostra de que ela ainda tem muito a mostrar.
nota: 8

ArloPantheress

Get Go
Arlo Parks


A “PinkPanthererização” de Arlo Parks deveria, na teoria, não funcionar — mas, na prática, está saindo bem melhor do que o esperado. E isso fica claro em Get Go.

Single de seu próximo álbum, Ambiguous Desire, a canção remete fortemente à estética de PinkPantheress, especialmente pela construção estilizada que mistura alt-pop com gêneros como drum and bass e UK garage, tudo emoldurado por um verniz contido e bastante radiofônico. Ainda assim, a produção consegue “limpar” os elementos que fariam a faixa soar como uma simples cópia, criando algo com a personalidade de Arlo — principalmente ao adicionar mais dramaticidade e toques que remetem à sonoridade do início de sua carreira.

No entanto, o que realmente faz Get Go funcionar é a lírica única da artista. Há uma criatividade genuína que combina simplicidade cativante com uma emoção direta e tocante. Na canção, Arlo narra as dores de curar um coração partido ao reencontrar uma ex e tentar manter algum tipo de amizade. Com uma honestidade delicada, mas pungente, ela consegue expressar sentimentos complexos sem recorrer a grandes floreios líricos. E esse é justamente um dos seus diferenciais: transformar sutileza em impacto, fazendo de Get Go um trabalho que carrega sua identidade, mesmo dialogando com outras sonoridades.
nota: 7,5

22 de março de 2026

Antes Tarde do Que Nunca

B'Day
Beyoncé



Uma Segunda Chance Para: Beautiful Liar

Beautiful Liar
Beyoncé & Shakira


Para marcar o lançamento da versão Deluxe de B’Day, a Beyoncé resolveu lançar como single a canção Beautiful Liar, que marcou a sua primeira grande parceria feminina com a presença da Shakira. Na época, a canção não bateu tão forte em mim, mas, surpreendentemente, envelheceu melhor do que o esperado.

Não dá para negar que o encontro de duas forças é o grande atrativo da canção e que isso é feito da melhor maneira possível, ao dividir quase que por igual a participação de cada uma. Isso dá uma dinâmica incrível à faixa, que se apropria bem do carisma de ambas, sem que nenhuma perca espaço, criando uma boa química entre as duas. Existe, claro, certa fricção devido a personalidades tão marcantes, mas Beautiful Liar se beneficia disso ao gerar uma identidade realmente interessante. O problema aqui é a mixagem da voz da Shakira em algumas partes que, aliada ao seu sotaque, deixa meio difícil entender o que ela canta quando não se conhece a composição. Não é um problema imenso, mas é algo que afeta o resultado final.

Beautiful Liar é sustentada pela produção, que entrega uma eficiente mistura de latin pop, dance-pop e toques de música árabe, sendo ao mesmo tempo altamente comercial e também um tanto clichê. Apesar disso, o trabalho é refinado devido ao cuidado estético aplicado à canção, que consegue criar um instrumental seguro criativamente e com os toques necessários para ser icônico. E assim a composição caminha, mas aqui existe um toque que considero de genialidade ao ser basicamente o mesmo de The Boy Is Mine, da Brandy e Monica, vindo do ponto de vista de duas mulheres maduras que conseguem acertar as contas depois de descobrirem que estavam “saindo” com o mesmo homem.

Com o passar dos anos, Beautiful Liar melhora ao permanecer na memória como uma surpresa inesperada. E também serve como lembrete de que duetos como esse estão cada vez mais raros.
nota: 8

Primeira Impressão

Nothing's About to Happen to Me
Mitski



Primeira Impressão

Cerulean
Danny L Harle



A Genial Raye

Click Clack Symphony. (featuring Hans Zimmer)
RAYE


Ficar aqui relembrando o quanto talentosa é a Raye é meio que chover no molhado, mas, queridos leitores, é algo que precisa ser feito devido ao merecimento da própria. E isso é resultado de uma canção tão espetacular como Click Clack Symphony.

Depois de dois singles impressionantes, a cantora lança o que já considero como uma das melhores canções do ano e, também, da carreira da britânica. E isso é algo impressionante para alguém que já tem uma lista de canções no mesmo calibre. Entretanto, a cantora novamente acha maneiras de nos surpreender de maneiras completamente inesperadas. E isso se repete em Click Clack Symphony, pois estamos diante de uma das mais complexas, profundas e impressionantes canções dos últimos tempos. Tentar determinar qual é exatamente o gênero da canção é uma tarefa complicadíssima, já que é entregue um dos crossovers mais impressionantes que já há ao unir pop, R&B, progressivo, soul, spoken word, rap, música clássica/orquestral e vários outros subgêneros para criar uma obra épica e inesquecível.


Uma obra que expande os limites da sonoridade da cantora, mas que conversa plenamente com a construção da discografia recente da artista. Completamente imprevisível e sempre com surpresas impecáveis, o single encontra um lugar perfeito e único entre o artístico e o comercial, apresentando momentos de pura engenhosidade criativa, ao mesmo tempo que entrega momentos que facilmente seriam ideais para virarem virais. E isso mostra o quanto a produção entende todos esses elementos de uma maneira única e genial. Quando a gente ouve o resultado final da canção, consegue entender perfeitamente o que passa na mente da Raye, que tem como parceiros de produção Mike Sabath, responsável por Escapism, e o maestro/compositor/condutor/produtor Hans Zimmer, considerado um dos maiores nomes de trilhas sonoras do cinema e que tem no currículo trabalhos como O Rei Leão e Duna, ambos vencedores do Oscar, e só para citar dois exemplos. É dessa completa quebra de expectativas e dessa mentalidade distinta que é possível ter uma canção como Click Clack Symphony.

E é também devido à presença sobre-humana da performance descomunal da Raye. A cantora entrega, na mesma canção, versatilidade, alcance e força emocional que alguns artistas não têm a capacidade de entregar durante toda uma carreira. Isso é algo que a coloca em outro parâmetro, pois, quando a gente a vê ao vivo, entende que a versão de estúdio não esconde ou maquia nada que a mesma não seja capaz de fazer. Gigantesca, emocional, cativante e carismática, Raye carrega a canção de uma maneira que capta não apenas toda a grandiosidade da sua criação, mas, sim, está à altura de tamanho trabalho hercúleo. Liricamente, a canção é outro trabalho impressionante, pois mistura com exatidão profundidade temática e emocional com uma estética pop e de fácil digestão. A canção é uma história de quando a Raye estava na pior e foi ajudada a sair desse estado emocional com a ajuda das suas amigas, refletindo temas como solidão e empoderamento na contemporaneidade, com toques esperançosos e de autoajuda. Tudo isso é feito transitando entre o emocional, o divertido, o clichê e o profundo de uma forma que realmente faz a gente ficar hipnotizado pela maestria. Em especial, o refrão é o grande momento da canção, em que a cantora consegue misturar tudo de maneira perfeita:

Send the call out, send the call out
Calling all my baddest women, it's about to go down
Click-click-click clack symphony, I need that
Click-click-click clack symphony, I love the sound of it

Click Clack Symphony não prova, comprova ou reafirma o talento da Raye, pois isso é algo que a mesma já garantiu há algum tempo. A canção apenas é outro tijolo na construção de uma das melhores artistas do nosso tempo.
nota: 9

2 Por 1 - Holly Humberstone

To Love Somebody
Cruel World
Holly Humberstone


De tempos em tempos, acontece de eu me deparar com uma artista que, teoricamente, já deveria ter encontrado bem antes. Todavia, existem alguns momentos em que fica claro que o momento não poderia ser melhor, como, por exemplo, aconteceu com a Chappell Roan. Parece que o mesmo está acontecendo com a Holly Humberstone.

Preparando-se para lançar o seu segundo álbum, a cantora britânica parece ter todos os elementos para se tornar a próxima sensação do pop. E isso fica claríssimo com o lançamento de dois singles: To Love Somebody e Cruel World. Ambas as canções apresentam a mesma qualidade e, queridos leitores, são altíssimas. E, além disso, as duas canções apresentam aquele “je ne sais quoi” que não dá para entender, mas, sim, apenas sentir nos ossos. A grande qualidade da jovem é ter uma personalidade que parece remeter a outros nomes, como a própria Chappell, com alusões claras a Olivia Rodrigo e um toque de Sabrina Carpenter, além de uma sinceridade no estilo de Olivia Dean, mas que termina sendo uma artista que claramente tem uma personalidade bem definida e já cimentada. Isso é um dos fatores que dá base à minha esperança no futuro de Holly, mas, principalmente, ao resultado das duas canções.

Em Cruel World, a produção de Rob Milton é tão adoravelmente refinada que a gente se sente atraído logo nos primeiros segundos da canção e vai sendo envolvido ainda mais durante a sua iluminada execução. Claramente, a canção tem inspiração dos anos oitenta, mas busca não ser nostálgica para conseguir ser moderna de uma maneira natural e respeitosa. Todavia, a grande qualidade da canção é seu trabalho instrumental cativante e gracioso, em que dá para perceber a inclusão de influências de indie pop, alt pop e pop rock na construção da deliciosa batida synth-pop.

Outro ponto importante na canção é o vislumbre da lírica de Holly: uma temática batida e simples (uma paixão mal resolvida), envolta em uma estética bastante distinta, ao ter acidez, melancolia, delicadeza e um senso de divertimento precioso:

And now the lights are gettin' low
Mirrorballs and pheromones
I can be a social hand grenade
Tick-tick-tick-tick boom

Com a mesma qualidade, mas mais sentimental e dramática, está To Love Somebody. Com uma carga mais alt-pop/pop rock na base synth-pop, a canção é uma balada mid-tempo sobre o lado bom do fim de um amor, em que a cantora preserva as qualidades líricas já citadas, adicionando, porém, uma carga emocional realmente comovente, que tem seu ponto alto no simples, mas completamente eficiente refrão. E aqui também é possível ver com clareza o belo e cristalino timbre de Holly, que carrega as duas canções de maneira distinta, mas muito bem segura do que pode entregar.

Com esses resultados, podem anotar que Holly Humberstone é nome do futuro. Só resta um hit para chegar lá.
notas
To Love Somebody: 8,5
Cruel World: 8,5

15 de março de 2026

Primeira Impressão

To Whom This May Concern
Jill Scott



A Verdadeira Beleza

Pressha
Jill Scott


Uma das melhores canções de To Whom This May Concern, da Jill Scott, Pressha é uma aula completa de como fazer uma música que a gente ouve e já percebe que é uma obra de valor irrefutável.

Tudo começa com a sua impressionante e forte composição, que relata e reflete sobre a pressão sobre a aparência física da mulher e, especialmente, como essa pressão reflete nos relacionamentos amorosos. Jill narra como foi estar em um relacionamento em que, apesar do interesse do companheiro, ele não a assumia devido à cantora não estar nos padrões.

Devastadora, poderosa, crua e honesta, Pressha é um trabalho de uma força emocional imensa, pois, além de ter uma letra com esse poder, a presença de Jill arremata tudo devido à maneira tão desconcertante que ela carrega a canção, transitando entre o melancólico e contido até o devastador e explosivo. E tudo isso demonstrando claramente o seu atemporal timbre e um alcance vocal impressionante.

Sonoramente, a canção é uma refinadíssima, profunda e adulta neo-soul/R&B com injeções de jazz que é como vinho bom que, quanto mais tempo vai se passando, vai ficando ainda melhor devido à sua instrumentalização classuda e a um trabalho de produção magistral. E essa é a beleza de ouvir uma artista.
nota: 8,5

Primeira Impressão

the apple tree under the sea
hemlocke springs



Um Aceno Ao Seu Passado

Blow My Mind
Robyn

Ao longo da sua frutífera carreira, a Robyn já provou várias vezes que é uma das artistas mais excitantes, não importando qual é o seu momento atual. E, novamente, a cantora comprova isso ao lançar a ótima Blow My Mind.

Não é apenas a qualidade da canção, mas, sim, a sua ideia por trás. O single é, na verdade, uma espécie de remake/nova versão de uma canção da cantora que foi faixa do seu álbum Don't Stop the Music, de 2002. A ideia é bem interessante e poderia, porém, dar errado se não tivesse a produção refinada de Klas Åhlund, que consegue trabalhar a canção original de uma maneira tão peculiar, refrescante e iluminada sem perder a essência da canção original, que já é ótima.

Produzida originalmente por Guy Sigsworth, Blow My Mind é uma refinada mistura de electroclash com eletrônico e indie rock/pop que remete bem à estética do mesmo, especialmente quando a gente compara com outros trabalhos com a sua assinatura como, por exemplo, What It Feels Like for a Girl, da Madonna, e vários da Björk. Na nova versão, a canção mantém certa base, mas se transforma nas mãos de Klas Åhlund em uma canção menos intrigada para uma grudenta, despretensiosa e deliciosa mistura de electrofunk com alt-pop, synth-pop e toques de pop japonês. É uma mudança sentida, mesmo que não seja inimaginável, que constrói toda uma nova personalidade para a canção, tornando-se uma raridade: ser um remix que é, ao mesmo tempo, uma reconstrução e, também, uma nova canção.

Gostaria, porém, que a canção fosse maior para que a produção pudesse mostrar mais das suas ideias. Todavia, a presença sempre iluminada da Robyn em uma performance sensacional e uma composição muito segura e carismática compensam isso. Enfim, Blow My Mind é basicamente um unicórnio que mostra o quão raro é o talento da Robyn.
nota: 8

Kacey das Antigas

Dry Spell
Kacey Musgraves


Desde que ganhou o Grammy de Álbum do Ano por Golden Hour, a Kacey Musgraves entregou bons trabalhos que não estavam exatamente na mesma altura que o seu percursor. Não sei se com Middle of Nowhere isso vai acontecer, mas, pelo primeiro single, a ótima Dry Spell, existem boas possibilidades.

A grande qualidade da canção é vista quando a gente repara que a “velha” Kacey está de volta, mais precisamente a de Pageant Material. E isso acontece devido à composição ácida, divertida, ousada e autodepreciativa ao narrar sobre a “seca” sexual da mesma. Nunca um assunto como esse poderia resultar em algo tão bem escrito e maduro se não tivesse alguém com o tino lírico da cantora, pois a maneira como a canção é escrita dá para perceber toda a sua personalidade exposta e explorada. E isso é algo revigorante, já que é usado para explorar sentimentos como solidão e autocuidado.

Dry Spell também é um trabalho sonoro muito acima da média ao entregar um country-pop/pop rock mais do que eficiente, já que tem uma produção que acerta perfeitamente todos os pontos, criando uma canção que não foge das raízes e não está nada perto dos clichês do gênero atualmente. Poderia explorar mais o seu inspirado instrumental, mas, sinceramente, o trabalho aqui é tão bem amarrado que não há nenhuma ponta solta. E, com uma performance bem característica sua, que entrega exatamente o que a canção precisa e ainda adiciona personalidade, Kacey Musgraves está de volta aos velhos e bons trilhos.
nota: 8


A Volta (Quase) Inesperada

Club Song
The Pussycat Dolls

Em 2019/2020, o The Pussycat Dolls fez um ensaio de comeback quando foram impedidas pela pandemia de Covid. Seis anos depois, a girl group está de volta para finalmente ir para o comeback, mas apenas como um trio, já que duas integrantes não foram convidadas (Carmit Bachar e Jessica Sutta). E como primeiro single foi lançada a legalzinha Club Song.

A canção é uma divertida e dançante mistura de pop e electropop com toques de hip hop, latin pop e reggae, lembrando muito uma prima distante de Beep e Buttons. Todavia, o resultado está longe das suas parentes, pois parece que a produção limita a canção em entregar uma faixa teoricamente explosiva, mas que nunca chega ao seu total potencial. E, quando parece que vai, Club Song termina de maneira meio sem graça e anticlimática.

É preciso dizer, porém, que o refrão parece funcionar melhor do que o esperado, especialmente da metade para frente. Outra boa qualidade da canção é o seu clichê e quase vergonha alheia trabalho lírico, que entrega exatamente o que a gente espera de uma canção do The Pussycat Dolls. Voltando aos vocais principais, Nicole Scherzinger sempre foi uma competentíssima cantora, que precisou ir para o teatro musical provar isso, e entrega uma performance sólida e com personalidade de sobra. E dá para ver as outras integrantes, Ashley Roberts e Kimberly Wyatt, tendo algum espaço que poderia ainda ser maior.

Um pouco fora de “timing” para um retorno, o The Pussycat Dolls ainda tem fagulha que pode chegar em algum lugar. Veremos.
nota: 6,5

8 de março de 2026

Primeira Impressão

Kiss All The Time. Disco, Occasionally.
Harry Styles


A Estética Versus Coteúdo

American Girls
Harry Styles


Segundo single de Kiss All the Time. Disco, Occasionally, American Girls é a representação ideal das qualidades e dos defeitos da sonoridade do Harry Styles.

A produção acerta ao entregar uma animada, mas relativamente contida e atmosférica mistura de alt-pop, soft rock e dance-pop, que tem um instrumental realmente cativante e maduro. Não é exatamente um trabalho brilhante, mas é fácil notar que claramente mostra evolução sonora do Harry ao mesmo tempo em que adiciona novas camadas.

Todavia, American Girls erra novamente no calcanhar de Aquiles do cantor ao ter uma bem-feita, mas vazia composição que parece querer dizer várias coisas que não chegam a ressoar de verdade e, no final, termina sendo uma casca lírica divertida e esquecível. Felizmente, a boa performance de Harry, que capta o espírito da canção, ajuda a aparar algumas pontas soltas.

Uma canção que poderia ser bem mais interessante, mas que termina pelo menos sendo acima da média.
nota: 7,5

Novas Camadas

I Had A Dream She Took My Hand
James Blake

Sempre considero algo auspicioso quando um artista consegue adicionar novas camadas à sua sonoridade sem perder nada da essência. Esse é o caso da espetacular I Had A Dream She Took My Hand, de James Blake.

Segundo single do álbum Trying Times, a canção tem toda a atmosfera de um trabalho do artista, mas é moldada de uma forma que quebra expectativas. E a principal razão é a utilização do sample de It Was Only A Dream, da banda Thee Sinseers, que dá à canção uma base big band/jazz vintage que permeia toda a sua construção, mesclando-se e fundindo-se com a estrutura art pop/R&B alternativo da sonoridade de James. Com uma produção refinadíssima, I Had A Dream She Took My Hand se torna um trabalho elegante, tocante e inspiradíssimo, que vai se desenrolando em uma das canções mais magnéticas e emocionais da carreira de James Blake.

A canção, porém, perderia força se não tivesse aliado à sua produção outros elementos que a fizessem realmente se sobressair. E tudo está intimamente ligado à performance sensacional do cantor que, ao retirar certos efeitos vocais, deixa seu belíssimo timbre brilhar de forma mais natural em uma interpretação realmente impactante, desde o seu começo mais contido e delicado até o clímax mais complexo e poderoso. Além disso, a composição é simples, mas eficiente ao relatar, de maneira sensível, o ato de se apaixonar pela primeira vez: “I had a dream she took my hand / I feel higher than storms, lighter than sand”.

Somando-se a esse resultado o de Death of Love, fica claro que James Blake tem a possibilidade de entregar um dos álbuns do ano.
nota: 8,5

A New Age Of Bebe

New Religion
Bebe Rexha & Faithless


Não esperava que a nova era da Bebe Rexha pudesse ser de verdade o seu triunfal momento de renascimento, mas com New Religion começo realmente a acreditar que isso seja verdade.

Primeiro single oficial de Dirty Blonde, a canção é um trabalho curioso ao ser um “remake” da canção Insomnia, da banda Faithless, sendo algo parecido com o que foi feito em Wild Thoughts. E a grande surpresa é que funciona muito melhor do que o imaginado. Pegando parte da construção da parte final da canção original, New Religion é uma excitante, elegante e eficiente progressive house com dance-pop e diva house que dá certo devido à produção competente e madura, que cria uma canção que funciona sabendo a gente ou não da sua origem. E, mais que isso, há o fato de a produção saber como usar os clichês do gênero de uma maneira inteligente, não duvidando da inteligência de quem escuta.

Outro ponto de destaque é a composição realmente inspirada de New Religion, ao ser um trabalho que tem profundidade temática ao falar sobre alguém se encontrar finalmente na vida. Entretanto, a estética da canção está bem de acordo com os maneirismos do gênero, com frases de efeito que ficam entre o pieguismo e o dramático, mas claramente bem pensadas para exalar de propósito esse estilo. Fechando como a cereja do bolo, está a ótima performance da Bebe, que encontra aqui um dos melhores veículos para demonstrar sua capacidade vocal.

Resumidamente: esse é o novo começo de era para a Bebe Rexha.
nota: 8

New Faces Apresenta: Tiffany Day

START OVER
Tiffany Day


Em um mundo pós-Brat, a possibilidade de ouvir um hyperpop que tenha “inspiração” na Charli XCX é bem alta. Todavia, é refrescante quando nos deparamos com casos em que isso não acontece, como na ótima START OVER, da novata Tiffany Day.

A canção tem como grande qualidade a sua caprichada, autêntica e madura produção, que guia essa mistura de hyperpop e electropop por lugares sonoramente conhecidos, mas que nunca parecem cópias e/ou influências diretas. É uma produção que conhece suas inspirações, criando uma canção que entende muito bem as dinâmicas sonoras e adiciona texturas ao longo de toda a faixa.

Gosto especialmente do seu clímax final, pois consegue adicionar novas nuances sem perder o que foi construído ao longo da canção. Preciso apontar, porém, que tenho certo problema com a batida do sintetizador, que em alguns momentos se sobressai demais em relação ao resto do instrumental, criando certo ruído ao final de START OVER.

Vocalmente, a canção não dá muito espaço para entendermos qual é a real capacidade da Tiffany, mas, felizmente, a cantora entrega uma performance encantadora, sólida e que sabe muito bem usar efeitos vocais para ajudar a incrementar o resultado final. Também é preciso dizer que a composição tem ótimos traços, que são auspiciosos, pois mostram profundidade e, ao mesmo tempo, demonstram um bom senso estético. Não é um trabalho exatamente genial, mas START OVER é o tipo de canção que pode fazer diferença na carreira de Tiffany Day.
nota: 8

Sem Salvação

Save Me Tonight
Jennifer Lopez & David Guetta


Não que eu estivesse esperando uma canção memorável da parceria entre Jennifer Lopez e David Guetta, mas Save Me Tonight é o tipo de trabalho que podemos apontar apenas como totalmente esquecível.

Não chega a ser uma bomba, pois, tecnicamente, é uma produção decente. Todavia, a produção careceu de uma dose cavalar de criatividade, pois entrega exatamente o que se espera — e de forma ainda menos inspirada — de uma mistura de europop com electropop e EDM. Dá até para se divertir às três da manhã quando começar a tocar na balada, mas Save Me Tonight é um trabalho que não tem a menor vontade de ser mais do que realmente é: uma farofada bem morna.

Isso é agravado pela composição mediana, que poderia facilmente ter sido feita por IA, devido à falta de qualquer toque que não seja mecânico e massificado. O ponto positivo da canção é a performance segura da J.Lo que, sinceramente, merecia algo bem mais interessante do que essa farofada sem gosto.
nota: 5,5

1 de março de 2026

Primeira Impressão

The Romantic
Bruno Mars



Nada Arriscado

Risk It All
Bruno Mars

Lançado como segundo single de The Romantic, Risk It All realmente não tem nada de arriscado, mesmo trazendo algumas surpresas. Felizmente, o trabalho ainda carrega o selo de qualidade de Bruno Mars.

A grande sacada dessa balada é a adição de influências latinas, especialmente — e deliciosamente — a inclusão do bolero na mistura da segura base de R&B/soul. E isso dá todo o tempero necessário para a canção se tornar realmente um trabalho diferenciado sem, porém, perder a essência básica do artista.

Todavia, o grande destaque de Risk It All é a inspiradíssima performance de Bruno, que não apenas domina a canção primorosamente, mas também nos faz lembrar do quanto o seu timbre é lindo e aveludado quando ele o deixa se expor dessa maneira. A primeira parte da canção, em especial, em que a sua voz é colocada em evidência, é realmente deslumbrante.

Sem correr riscos, Bruno garante mais um momento verdadeiramente inspirado para a sua carreira.
nota: 7,5

A Balada de Um Coração Esperançoso

Nightingale Lane.
RAYE


Depois do sucesso mais do que merecido de WHERE IS MY HUSBAND!, Raye lança mais um single do seu próximo álbum (This Music May Contain Hope), intitulado Nightingale Lane. E o resultado prova por A + B que não há nenhuma outra artista atualmente no nível da britânica.

O oposto do single anterior, a nova música é uma balada épica que mistura com perfeição vários elementos que influenciam a sonoridade da artista, ao fundir jazz, pop e soul em um instrumental simplesmente espetacular e de cair o queixo. A construção direta, mas complexa, do arranjo demonstra não apenas todo o cuidado artístico de Raye, como também uma produção inspirada, madura e encantadora. As camadas que vão sendo desenroladas durante a execução da canção são impressionantes, especialmente devido à quantidade de texturas e nuances adicionadas, que poderiam facilmente fazer da faixa algo cheio apenas de boas intenções — e não um trabalho completamente realizado. Felizmente, Nightingale Lane passa muito longe disso e ainda entrega muito mais. Outro grande trunfo da canção é ser, liricamente, a cara-metade de WHERE IS MY HUSBAND!.

No single anterior, Raye brincava jocosamente sobre encontrar um amor para chamar de seu. Agora, o tom é mais dramático e, ao mesmo tempo, mais esperançoso, pois, ao relatar o primeiro amor da sua vida — que também foi sua maior decepção —, a cantora demonstra uma visão clara de que ainda acredita que viverá seu grande amor. E toda essa grandiosidade emocional é potencializada por uma composição excepcional, que nunca soa piegas, mas sempre explode em emoção sincera e genuína. Ainda há um senso estético apuradíssimo que expressa todos esses sentimentos de maneira igualmente refinada: “We never were quite right for each other, baby / But in the absence of passion in my life / I remember how alive love once was”. Complexo, mas direto e nada pretensioso.

E tudo isso é interpretado de maneira genial por Raye, que simplesmente entrega a melhor performance da sua carreira. Não é apenas uma performance grandiosa, mas, sim, definidora de carreira. Existe um toque da aspereza de Janis Joplin, misturado com a melancolia de Amy Winehouse, com nuances do poder vocal de Mariah Carey e inspiração nas grandes divas do jazz. Tudo isso, porém, está nas entrelinhas, pois Nightingale Lane é uma canção que escancara todo o talento de Raye em sua forma mais pura.

É assim que uma artista se torna uma lenda. Que vida, Raye!
nota: 9

Sem Descanço

OLD TECHNOLOGY
Slayyyter

Quinto single lançado do álbum Worst Girl in America, que só vai ser lançado no final de março, a canção OLD TECHNOLOGY continua a provar que Slayyyter vai entregar um dos álbuns do ano.

Assim como todos os singles anteriores, a canção também é uma exploração refinada dos limites do pop, ao ser uma fusão de electropop com electroclash, com toques de rap pop, punk, industrial e hip hop. O resultado poderia ter sido um pouco mais apurado, mas a produção entrega uma canção com uma pegada tão distinta que vai ajudando a criar uma sonoridade com a cara da Slayyyter, que é rústica, pegajosa, excêntrica e com personalidade inusitada.

Gosto, especialmente, dessa introdução punk na construção da canção, pois é uma nuance que faz com que OLD TECHNOLOGY realmente capture a essência que a artista quer passar na sua sonoridade. Novamente, Slayyyter carrega a canção com uma despretensão vocal excelente, pois se alinha com a condução da produção sem ser sufocada pela mesma. E, mesmo não sendo uma cantora com um grande alcance vocal, Slayyyter sempre vem se mostrando de uma versatilidade excepcional, que é a chave para fazer todas as canções funcionarem.

Tenho que admitir que não sou exatamente fã da composição, não pelo teor, mas, sim, pela sua forma escrita, que não encontra um lugar de equilíbrio perfeito para poder explorar a contento os meandros que a canção apresenta. De qualquer forma, OLD TECHNOLOGY é outro importante tijolo na ascensão artística e, quem sabe, comercial da Slayyyter.
nota: 8

Free Ava!

KiLL iT QUEEN
Ava Max


Depois de uma batalha com a sua ex-gravadora, a Ava Max está finalmente livre para seguir uma carreira com maior controle sobre seus caminhos a seguir. Como primeiro single, foi lançada a simpática KiLL iT QUEEN.

Longe de ser seu melhor trabalho, a canção parece deixar à mostra que a cantora vai possivelmente explorar mais a sua sonoridade. E isso se dá devido à produção apostar em uma excêntrica construção para a batida electropop da canção, que parece se inspirar na cadência de Bohemian Rhapsody.

Não vi nenhum lugar citando o uso de samples, mas KiLL iT QUEEN ganha claramente essa inspiração, que a faz realmente funcionar melhor que o esperado, especialmente depois de uma segunda ouvida e, especialmente, da sua metade para frente.

O problema da canção é sua “catch”, mas piegas e previsível composição que busca ser sobre amor-próprio e empoderamento, cheia de frases de efeito e sem substância. Felizmente, Ava compensa boa parte desse problema com uma performance realmente acima da média, versátil e com personalidade distinta.

KiLL iT QUEEN não coloca fogo no mundo, mas é um bom recomeço para a carreira da Ava Max.
nota: 7

Diversão Melancólica

She Knows Too Much
Thundercat & Mac Miller

Ouvir She Knows Too Much, single do Thundercat, é um exercício complicado, pois é, ao mesmo tempo, uma diversão pura e também muito triste devido à presença do Mac Miller.

Frequente colaborador do rapper, Thundercat lança a canção oficialmente como single do seu novo álbum depois de seis meses de a mesma ter vazado. E é novamente um trabalho que só deixa escancarado o tamanho gigantesco do talento do Mac. Completamente despretensioso, o rapper entregou uma performance deliciosa, divertida, leve, suingada e de carisma puríssimo em uma canção que não teria a mesma força sem a sua presença. E isso é comprovação da profundidade da capacidade artística de Mac ao encarnar essa deliciosa e dançante mistura de funk com pop rap e jazz fusion. E olha que a produção poderia ainda ser melhor.

Assinada por Greg Kurstin, She Knows Too Much é um trabalho refinado, mas que poderia alcançar seu potencial total no momento em que se soltasse desde o começo. E isso acontece devido ao instrumental só explodir no seu terço final ao ser incrementado por mais instrumentos que dão mais substância para a canção. Até essa parte, a grande força é a presença iluminada de Mac e a harmonia com Thundercat, que toma aqui um papel mais coadjuvante vocalmente. Quando há essa passagem instrumental, a canção ganha toda a sua mágica sonora, conseguindo ser arrematada de maneira deliciosa e excitante.

De qualquer forma, a canção ainda é um trabalho que precisa ser ouvido, mesmo que seja uma forma de homenagear Mac Miller.
nota: 8

K-Pop Brasil

TIC TIC
NMIXX & Pabllo Vittar


Depois da primeira parceria, a Pabllo Vittar volta a trabalhar com o girl group coreano NMIXX, mas dessa vez como participação especial. E o resultado de TIC TIC parece mostrar que a união deu samba de verdade.

Dessa vez, porém, a canção tem mais elementos de K-pop, usando o funk como influência na construção da batida. E isso não é um problema, pois, novamente, é feito de uma maneira muito bem pensada, divertida e inteligente, sabendo extrair o melhor das influências.

Novamente, o single é clichê, mas é o tipo de canção que só realmente funciona com esse toque, já que, se explorasse demais, é bem possível que desse muito errado. E olha que a batida mais eletrônica da canção é ainda mais acentuada do que em MEXE, mas isso não afeta muito o resultado final. O destaque da música é, mais uma vez, a performance de todas as envolvidas e a química verdadeira entre elas, pois a canção dá tempo para que se mostrem no melhor de cada uma e ainda sejam “divas”.

Com mais um acerto, começo a querer um álbum em parceria entre o NMIXX e a Pabllo Vittar, pois seria algo, no mínimo, divertidíssimo.
nota: 7,5

Um Pouquinho

How I Get
Laufey


Mantendo um nível alto de qualidade nos seus lançamentos, a Laufey dá uma leve caída com a canção How I Get.

Single da versão deluxe/relançamento de A Matter of Time, a canção tem uma estrutura que não soa tão fluida como é o costume nas canções da cantora. É um exercício interessante, pois dá uma vivacidade interessante para a discografia da cantora ao ter toques mais pronunciados de chamber pop e ambient pop. Todavia, How I Get não tem a mesma áurea que os trabalhos mais ousados da cantora. E outro motivo vem da sua composição.

Bem escrita, a letra da canção demora um pouco mais a fazer a gente embargar na emoção que a cantora quer passar, mas acaba encontrando seu caminho com o seu lindo final. Na verdade, é o seu clímax impecável que faz a canção funcionar e ter algumas arestas corrigidas. Outro sustento da canção é a classuda e melancólica performance da cantora, que carrega todo o peso emocional da canção.

Apesar de um pouquinho inferior, How I Get é ainda outro trabalho exemplar da Laufey.
nota: 7,5

Um Pouquinho 2

DISNEY PRINCESS
Melanie Martinez


Depois de entregar novamente uma canção bem abaixo da média, a Melanie Martinez traz uma surpresa em DISNEY PRINCESS: uma canção mediana.

A melhora é pequena, mas suficiente para que a faixa fique acima da média da própria cantora. E o grande motivo é que a produção tem mais substância do que o esperado, sendo um pop rock/alt pop seguro que, com interessantes traços de pop punk e breakbeat, consegue apresentar uma sonoridade realmente com alguma personalidade.

Mesmo que a combinação não seja original e já tenha sido feita por outros artistas de maneira mais interessante, DISNEY PRINCESS é um trabalho que consegue tirar leite de pedra graças à sua instrumentalização. A outra surpresa é que Melanie entrega uma performance boa, especialmente porque a produção vocal combina bem com a atmosfera proposta pela faixa, criando um bom amálgama entre esses dois pontos. O que de fato atrapalha a canção é, novamente, sua composição vazia e irritante, mesmo tocando em uma temática espinhosa, que é o peso da fama para quem entra na indústria ainda muito jovem. Falta, porém, uma maturidade estética que possa lapidar toda essa sensação de pretensiosidade que habita profundamente a lírica da artista.

É uma melhora? Sim. Pequena, mas é algo. Isso não muda muito a minha visão sobre a Melanie Martinez, de qualquer forma.
nota: 6

22 de fevereiro de 2026

Antes Tarde do Que Nunca

Dangerously in Love
Beyoncé



Antes Tarde do Que Nunca - Versão Single

Work It Out
Beyoncé

Apesar de estar em algumas edições internacionais de Dangerously in Love, o primeiro single real da carreira solo da Beyoncé foi a canção Work It Out. Uma pena que, devido ao não sucesso comercial da faixa, ela tenha sido meio que deixada de lado dentro da discografia da cantora, mas precisa ser reconhecida como uma grande canção.

Produzida pelo The Neptunes, duo composto por Pharrell Williams e Chad Hugo, a canção foi usada como tema do filme Austin Powers in Goldmember, no qual Beyoncé tem um papel coadjuvante. Para emoldurar o filme, que se passa em uma versão estilizada dos anos 70, Work It Out capta perfeitamente essa vibe ao ser uma eletrizante, vintage e refinada mistura de funk, R&B e soul, que fica perfeitamente na linha entre a paródia e a reverência. E acredito que era essa a atmosfera que a produção desejava, devido ao estilo do filme. Com essa inteligência criativa, a canção se torna um trabalho especialmente marcante para quem a conhece. Todavia, o grande trunfo da faixa é a presença de Beyoncé.

Se Crazy in Love foi o momento decisivo para mostrar a força da artista, Work It Out foi o momento em que ela mostrou que poderia ter essa força. Primeira canção solo da carreira, a performance sensual, contundente e poderosa da cantora deixou bem claro que seu carisma e talento eram capazes de sustentar canções que exigem uma artista versátil e de alcance gigantesco. E é isso que ela deixa transparecer aqui, mesmo não sendo seu trabalho mais marcante. O ponto fraco da canção é a composição, que cumpre bem seu papel, mas não tem um apelo especial para amarrar as pontas soltas aqui e ali.

De qualquer forma, Work It Out é o começo perfeito, mas esquecido, da carreira solo de Beyoncé, que merece muito mais reconhecimento.
nota: 8

Primeira Impressão - Outros Lançamentos

Fleeting
Sarah Kinsley



Love to Love You, Jessie

Ride
Jessie Ware

Continuando a promoção do álbum Superbloom, a Jessie Ware entrega outro grande momento com a estilosa Ride.

Um pouco menos inspirada do que I Could Get Used to This, a canção é outro deslumbrante acerto da artista ao mostrar novas cores para a sua sonoridade. Apesar de seguir perfeitamente o caminho dance-pop/electropop, com influência pesada de post-disco, Ride segue por uma pegada mais eletrônica, que parece beber da fonte de uma sonoridade retirada dos anos oitenta devido à sua estrutura estilizada e à sua atmosfera mais eurodance. Isso não retira em nada a elegância intrínseca ligada à sempre magistral sonoridade da Ware. E a canção tem o seu ponto alto no uso surpreendente de um sample atemporal.

Boa parte da construção sonora, especialmente na parte dos refrões, vem do uso do clássico cinematográfico Il buono, il brutto, il cattivo (Titoli), que é o tema incidental do filme Três Homens em Conflito, do maestro/compositor Ennio Morricone. Esse uso é feito de uma forma tão inspirada e inesperada que cria para a canção uma personalidade completamente diferente do que a gente poderia esperar para uma música da Jessie, mas que também está perfeitamente alinhada com a sua personalidade artística.

O único problema da canção é a sua composição, mas não por ser ruim ou algo parecido. Buscando se alinhar com a personalidade da música, a escrita em Ride é bem mais contida do que o normal para um trabalho da cantora, deixando a impressão de inspiração em trabalhos importantes do gênero, especialmente os de Donna Summer, pois usa frases de efeito para dar toda a vibe, em vez de se aprofundar tematicamente. Felizmente, o trabalho é muito bem escrito dentro da sua proposta, sendo destaque o seu ótimo refrão.

Ride é outra obra de arte pop vinda diretamente de uma das melhores em atividade.
nota: 8,5

A Balada da Esposa

White Feather Hawk Tail Deer Hunter
Lana Del Rey


Novo e aguardado single da Lana Del Rey, White Feather Hawk Tail Deer Hunter é exatamente uma cápsula das qualidades da cantora. Uma pena, porém, que a produção coloque uma pedra que não deixa a canção “flutuar” perfeitamente.

Com produção da cantora ao lado de Jack Antonoff e Drew Erickson, o single é estilizado, único e texturizado, misturando art pop e toques de uma sonoridade gótica para criar um som que é claramente da artista e apenas dela. E isso é ótimo, mas parece existir uma limitação clara na construção da canção, que parece limitá-la dentro de um quadrado sonoro que a impede de explorar caminhos mais excitantes e épicos. Isso deixa a canção “achatada” e com apenas metade da força que poderia ter caso fosse mais ousada.

Felizmente, White Feather Hawk Tail Deer Hunter ainda tem outros momentos que a fazem valer a pena, especialmente vindos da ótima composição. Ao ser, claramente, uma canção de amor direcionada ao marido de Lana, a letra mantém a qualidade lírica da cantora ao transitar lindamente entre a poesia, o pretensiosismo, a polêmica e a emoção. Gosto especialmente do uso da imagem de um fogão (stove, que também será o nome do álbum) para construir a imagem de Lana como esposa.

Com uma performance única e dinâmica, a cantora ainda mostra boa parte de sua personalidade artística rara. Uma pena que a produção não esteja exatamente no mesmo nível.
nota: 7,5

2 Por 1 - Bebe Rexha

Çike Çike
I Like You Better Than Me
Bebe Rexha

Assim como fez a Raye, a Bebe Rexha decidiu seguir a carreira de maneira independente depois da forma negligente com que sua antiga gravadora a tratou. E, como primeiros singles, foram lançadas as canções Çike Çike e I Like You Better Than Me.

Nenhuma das duas canções, que são singles do Dirty Blonde, é exatamente uma Escapism, mas são bons trabalhos que já marcam positivamente a nova fase da carreira da cantora, especialmente devido à maneira sincera com que ambas são construídas. Menos inspirada está I Like You Better Than Me, pois sua produção descamba para uma mistura batida de electropop com toques de house e eletrônico que não parece muito disposta a encontrar um lugar próprio para a sonoridade da cantora.

Todavia, a produção entrega um trabalho seguro e bastante competente dentro do que escolheu seguir sonoramente, o que dá para se empolgar com a farofada em que a canção se transforma. Seu ponto alto, porém, é sua contundente composição sobre as dificuldades que a cantora tem com a própria imagem física, passando longe de ser uma lição de moral e sendo, sim, uma crônica sobre como é viver com esse peso mental. E um dos melhores momentos é quando a cantora revela o sentimento em relação àqueles que tentam “ajudar”: “So stop giving me your toxic positivity/ You know you're only making it worse”.

Com Çike Çike, Bebe mostra o que essa liberdade artística pode alcançar. Melhor canção da cantora praticamente desde que começou a carreira, o single é diferente de tudo o que ela já entregou ao ser uma ousada, divertida e intrigante mistura de eurodance, tech house, eletropop e deep house, que nunca desce aos porões dos gêneros escolhidos, mas também encontra inspiração genuína e surpreendente. A batida é incrementada por texturas únicas que fazem com que resulte em uma canção tão estranhamente interessante que fica difícil não dar atenção. Das adições na instrumentação, o solo de sax é algo desconcertante e divertidíssimo. Uma pena, porém, que a canção se limite a ter apenas um pouco mais de dois minutos, deixando aquele gosto de que faltou mais tempo para explorar tudo o que poderia se tornar. Mesmo assim, Çike Çike tem seus ótimos momentos, como, por exemplo, o refrão cantado em albanês, que é a língua materna da mãe de Bebe.

Espero que essa nova era, longe de amarras, possa ser a que vai revelar para o mundo todo o potencial de Bebe Rexha.
notas
Çike Çike: 7,5
I Like You Better Than Me: 7