15 de março de 2026

Primeira Impressão

To Whom This May Concern
Jill Scott



A Verdadeira Beleza

Pressha
Jill Scott


Uma das melhores canções de To Whom This May Concern, da Jill Scott, Pressha é uma aula completa de como fazer uma música que a gente ouve e já percebe que é uma obra de valor irrefutável.

Tudo começa com a sua impressionante e forte composição, que relata e reflete sobre a pressão sobre a aparência física da mulher e, especialmente, como essa pressão reflete nos relacionamentos amorosos. Jill narra como foi estar em um relacionamento em que, apesar do interesse do companheiro, ele não a assumia devido à cantora não estar nos padrões.

Devastadora, poderosa, crua e honesta, Pressha é um trabalho de uma força emocional imensa, pois, além de ter uma letra com esse poder, a presença de Jill arremata tudo devido à maneira tão desconcertante que ela carrega a canção, transitando entre o melancólico e contido até o devastador e explosivo. E tudo isso demonstrando claramente o seu atemporal timbre e um alcance vocal impressionante.

Sonoramente, a canção é uma refinadíssima, profunda e adulta neo-soul/R&B com injeções de jazz que é como vinho bom que, quanto mais tempo vai se passando, vai ficando ainda melhor devido à sua instrumentalização classuda e a um trabalho de produção magistral. E essa é a beleza de ouvir uma artista.
nota: 8,5

Primeira Impressão

the apple tree under the sea
hemlocke springs



Um Aceno Ao Seu Passado

Blow My Mind
Robyn

Ao longo da sua frutífera carreira, a Robyn já provou várias vezes que é uma das artistas mais excitantes, não importando qual é o seu momento atual. E, novamente, a cantora comprova isso ao lançar a ótima Blow My Mind.

Não é apenas a qualidade da canção, mas, sim, a sua ideia por trás. O single é, na verdade, uma espécie de remake/nova versão de uma canção da cantora que foi faixa do seu álbum Don't Stop the Music, de 2002. A ideia é bem interessante e poderia, porém, dar errado se não tivesse a produção refinada de Klas Åhlund, que consegue trabalhar a canção original de uma maneira tão peculiar, refrescante e iluminada sem perder a essência da canção original, que já é ótima.

Produzida originalmente por Guy Sigsworth, Blow My Mind é uma refinada mistura de electroclash com eletrônico e indie rock/pop que remete bem à estética do mesmo, especialmente quando a gente compara com outros trabalhos com a sua assinatura como, por exemplo, What It Feels Like for a Girl, da Madonna, e vários da Björk. Na nova versão, a canção mantém certa base, mas se transforma nas mãos de Klas Åhlund em uma canção menos intrigada para uma grudenta, despretensiosa e deliciosa mistura de electrofunk com alt-pop, synth-pop e toques de pop japonês. É uma mudança sentida, mesmo que não seja inimaginável, que constrói toda uma nova personalidade para a canção, tornando-se uma raridade: ser um remix que é, ao mesmo tempo, uma reconstrução e, também, uma nova canção.

Gostaria, porém, que a canção fosse maior para que a produção pudesse mostrar mais das suas ideias. Todavia, a presença sempre iluminada da Robyn em uma performance sensacional e uma composição muito segura e carismática compensam isso. Enfim, Blow My Mind é basicamente um unicórnio que mostra o quão raro é o talento da Robyn.
nota: 8

Kacey das Antigas

Dry Spell
Kacey Musgraves


Desde que ganhou o Grammy de Álbum do Ano por Golden Hour, a Kacey Musgraves entregou bons trabalhos que não estavam exatamente na mesma altura que o seu percursor. Não sei se com Middle of Nowhere isso vai acontecer, mas, pelo primeiro single, a ótima Dry Spell, existem boas possibilidades.

A grande qualidade da canção é vista quando a gente repara que a “velha” Kacey está de volta, mais precisamente a de Pageant Material. E isso acontece devido à composição ácida, divertida, ousada e autodepreciativa ao narrar sobre a “seca” sexual da mesma. Nunca um assunto como esse poderia resultar em algo tão bem escrito e maduro se não tivesse alguém com o tino lírico da cantora, pois a maneira como a canção é escrita dá para perceber toda a sua personalidade exposta e explorada. E isso é algo revigorante, já que é usado para explorar sentimentos como solidão e autocuidado.

Dry Spell também é um trabalho sonoro muito acima da média ao entregar um country-pop/pop rock mais do que eficiente, já que tem uma produção que acerta perfeitamente todos os pontos, criando uma canção que não foge das raízes e não está nada perto dos clichês do gênero atualmente. Poderia explorar mais o seu inspirado instrumental, mas, sinceramente, o trabalho aqui é tão bem amarrado que não há nenhuma ponta solta. E, com uma performance bem característica sua, que entrega exatamente o que a canção precisa e ainda adiciona personalidade, Kacey Musgraves está de volta aos velhos e bons trilhos.
nota: 8


A Volta (Quase) Inesperada

Club Song
The Pussycat Dolls

Em 2019/2020, o The Pussycat Dolls fez um ensaio de comeback quando foram impedidas pela pandemia de Covid. Seis anos depois, a girl group está de volta para finalmente ir para o comeback, mas apenas como um trio, já que duas integrantes não foram convidadas (Carmit Bachar e Jessica Sutta). E como primeiro single foi lançada a legalzinha Club Song.

A canção é uma divertida e dançante mistura de pop e electropop com toques de hip hop, latin pop e reggae, lembrando muito uma prima distante de Beep e Buttons. Todavia, o resultado está longe das suas parentes, pois parece que a produção limita a canção em entregar uma faixa teoricamente explosiva, mas que nunca chega ao seu total potencial. E, quando parece que vai, Club Song termina de maneira meio sem graça e anticlimática.

É preciso dizer, porém, que o refrão parece funcionar melhor do que o esperado, especialmente da metade para frente. Outra boa qualidade da canção é o seu clichê e quase vergonha alheia trabalho lírico, que entrega exatamente o que a gente espera de uma canção do The Pussycat Dolls. Voltando aos vocais principais, Nicole Scherzinger sempre foi uma competentíssima cantora, que precisou ir para o teatro musical provar isso, e entrega uma performance sólida e com personalidade de sobra. E dá para ver as outras integrantes, Ashley Roberts e Kimberly Wyatt, tendo algum espaço que poderia ainda ser maior.

Um pouco fora de “timing” para um retorno, o The Pussycat Dolls ainda tem fagulha que pode chegar em algum lugar. Veremos.
nota: 6,5

8 de março de 2026

Primeira Impressão

Kiss All The Time. Disco, Occasionally.
Harry Styles


A Estética Versus Coteúdo

American Girls
Harry Styles


Segundo single de Kiss All the Time. Disco, Occasionally, American Girls é a representação ideal das qualidades e dos defeitos da sonoridade do Harry Styles.

A produção acerta ao entregar uma animada, mas relativamente contida e atmosférica mistura de alt-pop, soft rock e dance-pop, que tem um instrumental realmente cativante e maduro. Não é exatamente um trabalho brilhante, mas é fácil notar que claramente mostra evolução sonora do Harry ao mesmo tempo em que adiciona novas camadas.

Todavia, American Girls erra novamente no calcanhar de Aquiles do cantor ao ter uma bem-feita, mas vazia composição que parece querer dizer várias coisas que não chegam a ressoar de verdade e, no final, termina sendo uma casca lírica divertida e esquecível. Felizmente, a boa performance de Harry, que capta o espírito da canção, ajuda a aparar algumas pontas soltas.

Uma canção que poderia ser bem mais interessante, mas que termina pelo menos sendo acima da média.
nota: 7,5

Novas Camadas

I Had A Dream She Took My Hand
James Blake

Sempre considero algo auspicioso quando um artista consegue adicionar novas camadas à sua sonoridade sem perder nada da essência. Esse é o caso da espetacular I Had A Dream She Took My Hand, de James Blake.

Segundo single do álbum Trying Times, a canção tem toda a atmosfera de um trabalho do artista, mas é moldada de uma forma que quebra expectativas. E a principal razão é a utilização do sample de It Was Only A Dream, da banda Thee Sinseers, que dá à canção uma base big band/jazz vintage que permeia toda a sua construção, mesclando-se e fundindo-se com a estrutura art pop/R&B alternativo da sonoridade de James. Com uma produção refinadíssima, I Had A Dream She Took My Hand se torna um trabalho elegante, tocante e inspiradíssimo, que vai se desenrolando em uma das canções mais magnéticas e emocionais da carreira de James Blake.

A canção, porém, perderia força se não tivesse aliado à sua produção outros elementos que a fizessem realmente se sobressair. E tudo está intimamente ligado à performance sensacional do cantor que, ao retirar certos efeitos vocais, deixa seu belíssimo timbre brilhar de forma mais natural em uma interpretação realmente impactante, desde o seu começo mais contido e delicado até o clímax mais complexo e poderoso. Além disso, a composição é simples, mas eficiente ao relatar, de maneira sensível, o ato de se apaixonar pela primeira vez: “I had a dream she took my hand / I feel higher than storms, lighter than sand”.

Somando-se a esse resultado o de Death of Love, fica claro que James Blake tem a possibilidade de entregar um dos álbuns do ano.
nota: 8,5

A New Age Of Bebe

New Religion
Bebe Rexha & Faithless


Não esperava que a nova era da Bebe Rexha pudesse ser de verdade o seu triunfal momento de renascimento, mas com New Religion começo realmente a acreditar que isso seja verdade.

Primeiro single oficial de Dirty Blonde, a canção é um trabalho curioso ao ser um “remake” da canção Insomnia, da banda Faithless, sendo algo parecido com o que foi feito em Wild Thoughts. E a grande surpresa é que funciona muito melhor do que o imaginado. Pegando parte da construção da parte final da canção original, New Religion é uma excitante, elegante e eficiente progressive house com dance-pop e diva house que dá certo devido à produção competente e madura, que cria uma canção que funciona sabendo a gente ou não da sua origem. E, mais que isso, há o fato de a produção saber como usar os clichês do gênero de uma maneira inteligente, não duvidando da inteligência de quem escuta.

Outro ponto de destaque é a composição realmente inspirada de New Religion, ao ser um trabalho que tem profundidade temática ao falar sobre alguém se encontrar finalmente na vida. Entretanto, a estética da canção está bem de acordo com os maneirismos do gênero, com frases de efeito que ficam entre o pieguismo e o dramático, mas claramente bem pensadas para exalar de propósito esse estilo. Fechando como a cereja do bolo, está a ótima performance da Bebe, que encontra aqui um dos melhores veículos para demonstrar sua capacidade vocal.

Resumidamente: esse é o novo começo de era para a Bebe Rexha.
nota: 8

New Faces Apresenta: Tiffany Day

START OVER
Tiffany Day


Em um mundo pós-Brat, a possibilidade de ouvir um hyperpop que tenha “inspiração” na Charli XCX é bem alta. Todavia, é refrescante quando nos deparamos com casos em que isso não acontece, como na ótima START OVER, da novata Tiffany Day.

A canção tem como grande qualidade a sua caprichada, autêntica e madura produção, que guia essa mistura de hyperpop e electropop por lugares sonoramente conhecidos, mas que nunca parecem cópias e/ou influências diretas. É uma produção que conhece suas inspirações, criando uma canção que entende muito bem as dinâmicas sonoras e adiciona texturas ao longo de toda a faixa.

Gosto especialmente do seu clímax final, pois consegue adicionar novas nuances sem perder o que foi construído ao longo da canção. Preciso apontar, porém, que tenho certo problema com a batida do sintetizador, que em alguns momentos se sobressai demais em relação ao resto do instrumental, criando certo ruído ao final de START OVER.

Vocalmente, a canção não dá muito espaço para entendermos qual é a real capacidade da Tiffany, mas, felizmente, a cantora entrega uma performance encantadora, sólida e que sabe muito bem usar efeitos vocais para ajudar a incrementar o resultado final. Também é preciso dizer que a composição tem ótimos traços, que são auspiciosos, pois mostram profundidade e, ao mesmo tempo, demonstram um bom senso estético. Não é um trabalho exatamente genial, mas START OVER é o tipo de canção que pode fazer diferença na carreira de Tiffany Day.
nota: 8

Sem Salvação

Save Me Tonight
Jennifer Lopez & David Guetta


Não que eu estivesse esperando uma canção memorável da parceria entre Jennifer Lopez e David Guetta, mas Save Me Tonight é o tipo de trabalho que podemos apontar apenas como totalmente esquecível.

Não chega a ser uma bomba, pois, tecnicamente, é uma produção decente. Todavia, a produção careceu de uma dose cavalar de criatividade, pois entrega exatamente o que se espera — e de forma ainda menos inspirada — de uma mistura de europop com electropop e EDM. Dá até para se divertir às três da manhã quando começar a tocar na balada, mas Save Me Tonight é um trabalho que não tem a menor vontade de ser mais do que realmente é: uma farofada bem morna.

Isso é agravado pela composição mediana, que poderia facilmente ter sido feita por IA, devido à falta de qualquer toque que não seja mecânico e massificado. O ponto positivo da canção é a performance segura da J.Lo que, sinceramente, merecia algo bem mais interessante do que essa farofada sem gosto.
nota: 5,5

1 de março de 2026

Primeira Impressão

The Romantic
Bruno Mars



Nada Arriscado

Risk It All
Bruno Mars

Lançado como segundo single de The Romantic, Risk It All realmente não tem nada de arriscado, mesmo trazendo algumas surpresas. Felizmente, o trabalho ainda carrega o selo de qualidade de Bruno Mars.

A grande sacada dessa balada é a adição de influências latinas, especialmente — e deliciosamente — a inclusão do bolero na mistura da segura base de R&B/soul. E isso dá todo o tempero necessário para a canção se tornar realmente um trabalho diferenciado sem, porém, perder a essência básica do artista.

Todavia, o grande destaque de Risk It All é a inspiradíssima performance de Bruno, que não apenas domina a canção primorosamente, mas também nos faz lembrar do quanto o seu timbre é lindo e aveludado quando ele o deixa se expor dessa maneira. A primeira parte da canção, em especial, em que a sua voz é colocada em evidência, é realmente deslumbrante.

Sem correr riscos, Bruno garante mais um momento verdadeiramente inspirado para a sua carreira.
nota: 7,5

A Balada de Um Coração Esperançoso

Nightingale Lane.
RAYE


Depois do sucesso mais do que merecido de WHERE IS MY HUSBAND!, Raye lança mais um single do seu próximo álbum (This Music May Contain Hope), intitulado Nightingale Lane. E o resultado prova por A + B que não há nenhuma outra artista atualmente no nível da britânica.

O oposto do single anterior, a nova música é uma balada épica que mistura com perfeição vários elementos que influenciam a sonoridade da artista, ao fundir jazz, pop e soul em um instrumental simplesmente espetacular e de cair o queixo. A construção direta, mas complexa, do arranjo demonstra não apenas todo o cuidado artístico de Raye, como também uma produção inspirada, madura e encantadora. As camadas que vão sendo desenroladas durante a execução da canção são impressionantes, especialmente devido à quantidade de texturas e nuances adicionadas, que poderiam facilmente fazer da faixa algo cheio apenas de boas intenções — e não um trabalho completamente realizado. Felizmente, Nightingale Lane passa muito longe disso e ainda entrega muito mais. Outro grande trunfo da canção é ser, liricamente, a cara-metade de WHERE IS MY HUSBAND!.

No single anterior, Raye brincava jocosamente sobre encontrar um amor para chamar de seu. Agora, o tom é mais dramático e, ao mesmo tempo, mais esperançoso, pois, ao relatar o primeiro amor da sua vida — que também foi sua maior decepção —, a cantora demonstra uma visão clara de que ainda acredita que viverá seu grande amor. E toda essa grandiosidade emocional é potencializada por uma composição excepcional, que nunca soa piegas, mas sempre explode em emoção sincera e genuína. Ainda há um senso estético apuradíssimo que expressa todos esses sentimentos de maneira igualmente refinada: “We never were quite right for each other, baby / But in the absence of passion in my life / I remember how alive love once was”. Complexo, mas direto e nada pretensioso.

E tudo isso é interpretado de maneira genial por Raye, que simplesmente entrega a melhor performance da sua carreira. Não é apenas uma performance grandiosa, mas, sim, definidora de carreira. Existe um toque da aspereza de Janis Joplin, misturado com a melancolia de Amy Winehouse, com nuances do poder vocal de Mariah Carey e inspiração nas grandes divas do jazz. Tudo isso, porém, está nas entrelinhas, pois Nightingale Lane é uma canção que escancara todo o talento de Raye em sua forma mais pura.

É assim que uma artista se torna uma lenda. Que vida, Raye!
nota: 9

Sem Descanço

OLD TECHNOLOGY
Slayyyter

Quinto single lançado do álbum Worst Girl in America, que só vai ser lançado no final de março, a canção OLD TECHNOLOGY continua a provar que Slayyyter vai entregar um dos álbuns do ano.

Assim como todos os singles anteriores, a canção também é uma exploração refinada dos limites do pop, ao ser uma fusão de electropop com electroclash, com toques de rap pop, punk, industrial e hip hop. O resultado poderia ter sido um pouco mais apurado, mas a produção entrega uma canção com uma pegada tão distinta que vai ajudando a criar uma sonoridade com a cara da Slayyyter, que é rústica, pegajosa, excêntrica e com personalidade inusitada.

Gosto, especialmente, dessa introdução punk na construção da canção, pois é uma nuance que faz com que OLD TECHNOLOGY realmente capture a essência que a artista quer passar na sua sonoridade. Novamente, Slayyyter carrega a canção com uma despretensão vocal excelente, pois se alinha com a condução da produção sem ser sufocada pela mesma. E, mesmo não sendo uma cantora com um grande alcance vocal, Slayyyter sempre vem se mostrando de uma versatilidade excepcional, que é a chave para fazer todas as canções funcionarem.

Tenho que admitir que não sou exatamente fã da composição, não pelo teor, mas, sim, pela sua forma escrita, que não encontra um lugar de equilíbrio perfeito para poder explorar a contento os meandros que a canção apresenta. De qualquer forma, OLD TECHNOLOGY é outro importante tijolo na ascensão artística e, quem sabe, comercial da Slayyyter.
nota: 8

Free Ava!

KiLL iT QUEEN
Ava Max


Depois de uma batalha com a sua ex-gravadora, a Ava Max está finalmente livre para seguir uma carreira com maior controle sobre seus caminhos a seguir. Como primeiro single, foi lançada a simpática KiLL iT QUEEN.

Longe de ser seu melhor trabalho, a canção parece deixar à mostra que a cantora vai possivelmente explorar mais a sua sonoridade. E isso se dá devido à produção apostar em uma excêntrica construção para a batida electropop da canção, que parece se inspirar na cadência de Bohemian Rhapsody.

Não vi nenhum lugar citando o uso de samples, mas KiLL iT QUEEN ganha claramente essa inspiração, que a faz realmente funcionar melhor que o esperado, especialmente depois de uma segunda ouvida e, especialmente, da sua metade para frente.

O problema da canção é sua “catch”, mas piegas e previsível composição que busca ser sobre amor-próprio e empoderamento, cheia de frases de efeito e sem substância. Felizmente, Ava compensa boa parte desse problema com uma performance realmente acima da média, versátil e com personalidade distinta.

KiLL iT QUEEN não coloca fogo no mundo, mas é um bom recomeço para a carreira da Ava Max.
nota: 7

Diversão Melancólica

She Knows Too Much
Thundercat & Mac Miller

Ouvir She Knows Too Much, single do Thundercat, é um exercício complicado, pois é, ao mesmo tempo, uma diversão pura e também muito triste devido à presença do Mac Miller.

Frequente colaborador do rapper, Thundercat lança a canção oficialmente como single do seu novo álbum depois de seis meses de a mesma ter vazado. E é novamente um trabalho que só deixa escancarado o tamanho gigantesco do talento do Mac. Completamente despretensioso, o rapper entregou uma performance deliciosa, divertida, leve, suingada e de carisma puríssimo em uma canção que não teria a mesma força sem a sua presença. E isso é comprovação da profundidade da capacidade artística de Mac ao encarnar essa deliciosa e dançante mistura de funk com pop rap e jazz fusion. E olha que a produção poderia ainda ser melhor.

Assinada por Greg Kurstin, She Knows Too Much é um trabalho refinado, mas que poderia alcançar seu potencial total no momento em que se soltasse desde o começo. E isso acontece devido ao instrumental só explodir no seu terço final ao ser incrementado por mais instrumentos que dão mais substância para a canção. Até essa parte, a grande força é a presença iluminada de Mac e a harmonia com Thundercat, que toma aqui um papel mais coadjuvante vocalmente. Quando há essa passagem instrumental, a canção ganha toda a sua mágica sonora, conseguindo ser arrematada de maneira deliciosa e excitante.

De qualquer forma, a canção ainda é um trabalho que precisa ser ouvido, mesmo que seja uma forma de homenagear Mac Miller.
nota: 8

K-Pop Brasil

TIC TIC
NMIXX & Pabllo Vittar


Depois da primeira parceria, a Pabllo Vittar volta a trabalhar com o girl group coreano NMIXX, mas dessa vez como participação especial. E o resultado de TIC TIC parece mostrar que a união deu samba de verdade.

Dessa vez, porém, a canção tem mais elementos de K-pop, usando o funk como influência na construção da batida. E isso não é um problema, pois, novamente, é feito de uma maneira muito bem pensada, divertida e inteligente, sabendo extrair o melhor das influências.

Novamente, o single é clichê, mas é o tipo de canção que só realmente funciona com esse toque, já que, se explorasse demais, é bem possível que desse muito errado. E olha que a batida mais eletrônica da canção é ainda mais acentuada do que em MEXE, mas isso não afeta muito o resultado final. O destaque da música é, mais uma vez, a performance de todas as envolvidas e a química verdadeira entre elas, pois a canção dá tempo para que se mostrem no melhor de cada uma e ainda sejam “divas”.

Com mais um acerto, começo a querer um álbum em parceria entre o NMIXX e a Pabllo Vittar, pois seria algo, no mínimo, divertidíssimo.
nota: 7,5

Um Pouquinho

How I Get
Laufey


Mantendo um nível alto de qualidade nos seus lançamentos, a Laufey dá uma leve caída com a canção How I Get.

Single da versão deluxe/relançamento de A Matter of Time, a canção tem uma estrutura que não soa tão fluida como é o costume nas canções da cantora. É um exercício interessante, pois dá uma vivacidade interessante para a discografia da cantora ao ter toques mais pronunciados de chamber pop e ambient pop. Todavia, How I Get não tem a mesma áurea que os trabalhos mais ousados da cantora. E outro motivo vem da sua composição.

Bem escrita, a letra da canção demora um pouco mais a fazer a gente embargar na emoção que a cantora quer passar, mas acaba encontrando seu caminho com o seu lindo final. Na verdade, é o seu clímax impecável que faz a canção funcionar e ter algumas arestas corrigidas. Outro sustento da canção é a classuda e melancólica performance da cantora, que carrega todo o peso emocional da canção.

Apesar de um pouquinho inferior, How I Get é ainda outro trabalho exemplar da Laufey.
nota: 7,5

Um Pouquinho 2

DISNEY PRINCESS
Melanie Martinez


Depois de entregar novamente uma canção bem abaixo da média, a Melanie Martinez traz uma surpresa em DISNEY PRINCESS: uma canção mediana.

A melhora é pequena, mas suficiente para que a faixa fique acima da média da própria cantora. E o grande motivo é que a produção tem mais substância do que o esperado, sendo um pop rock/alt pop seguro que, com interessantes traços de pop punk e breakbeat, consegue apresentar uma sonoridade realmente com alguma personalidade.

Mesmo que a combinação não seja original e já tenha sido feita por outros artistas de maneira mais interessante, DISNEY PRINCESS é um trabalho que consegue tirar leite de pedra graças à sua instrumentalização. A outra surpresa é que Melanie entrega uma performance boa, especialmente porque a produção vocal combina bem com a atmosfera proposta pela faixa, criando um bom amálgama entre esses dois pontos. O que de fato atrapalha a canção é, novamente, sua composição vazia e irritante, mesmo tocando em uma temática espinhosa, que é o peso da fama para quem entra na indústria ainda muito jovem. Falta, porém, uma maturidade estética que possa lapidar toda essa sensação de pretensiosidade que habita profundamente a lírica da artista.

É uma melhora? Sim. Pequena, mas é algo. Isso não muda muito a minha visão sobre a Melanie Martinez, de qualquer forma.
nota: 6

22 de fevereiro de 2026

Antes Tarde do Que Nunca

Dangerously in Love
Beyoncé



Antes Tarde do Que Nunca - Versão Single

Work It Out
Beyoncé

Apesar de estar em algumas edições internacionais de Dangerously in Love, o primeiro single real da carreira solo da Beyoncé foi a canção Work It Out. Uma pena que, devido ao não sucesso comercial da faixa, ela tenha sido meio que deixada de lado dentro da discografia da cantora, mas precisa ser reconhecida como uma grande canção.

Produzida pelo The Neptunes, duo composto por Pharrell Williams e Chad Hugo, a canção foi usada como tema do filme Austin Powers in Goldmember, no qual Beyoncé tem um papel coadjuvante. Para emoldurar o filme, que se passa em uma versão estilizada dos anos 70, Work It Out capta perfeitamente essa vibe ao ser uma eletrizante, vintage e refinada mistura de funk, R&B e soul, que fica perfeitamente na linha entre a paródia e a reverência. E acredito que era essa a atmosfera que a produção desejava, devido ao estilo do filme. Com essa inteligência criativa, a canção se torna um trabalho especialmente marcante para quem a conhece. Todavia, o grande trunfo da faixa é a presença de Beyoncé.

Se Crazy in Love foi o momento decisivo para mostrar a força da artista, Work It Out foi o momento em que ela mostrou que poderia ter essa força. Primeira canção solo da carreira, a performance sensual, contundente e poderosa da cantora deixou bem claro que seu carisma e talento eram capazes de sustentar canções que exigem uma artista versátil e de alcance gigantesco. E é isso que ela deixa transparecer aqui, mesmo não sendo seu trabalho mais marcante. O ponto fraco da canção é a composição, que cumpre bem seu papel, mas não tem um apelo especial para amarrar as pontas soltas aqui e ali.

De qualquer forma, Work It Out é o começo perfeito, mas esquecido, da carreira solo de Beyoncé, que merece muito mais reconhecimento.
nota: 8

Primeira Impressão - Outros Lançamentos

Fleeting
Sarah Kinsley



Love to Love You, Jessie

Ride
Jessie Ware

Continuando a promoção do álbum Superbloom, a Jessie Ware entrega outro grande momento com a estilosa Ride.

Um pouco menos inspirada do que I Could Get Used to This, a canção é outro deslumbrante acerto da artista ao mostrar novas cores para a sua sonoridade. Apesar de seguir perfeitamente o caminho dance-pop/electropop, com influência pesada de post-disco, Ride segue por uma pegada mais eletrônica, que parece beber da fonte de uma sonoridade retirada dos anos oitenta devido à sua estrutura estilizada e à sua atmosfera mais eurodance. Isso não retira em nada a elegância intrínseca ligada à sempre magistral sonoridade da Ware. E a canção tem o seu ponto alto no uso surpreendente de um sample atemporal.

Boa parte da construção sonora, especialmente na parte dos refrões, vem do uso do clássico cinematográfico Il buono, il brutto, il cattivo (Titoli), que é o tema incidental do filme Três Homens em Conflito, do maestro/compositor Ennio Morricone. Esse uso é feito de uma forma tão inspirada e inesperada que cria para a canção uma personalidade completamente diferente do que a gente poderia esperar para uma música da Jessie, mas que também está perfeitamente alinhada com a sua personalidade artística.

O único problema da canção é a sua composição, mas não por ser ruim ou algo parecido. Buscando se alinhar com a personalidade da música, a escrita em Ride é bem mais contida do que o normal para um trabalho da cantora, deixando a impressão de inspiração em trabalhos importantes do gênero, especialmente os de Donna Summer, pois usa frases de efeito para dar toda a vibe, em vez de se aprofundar tematicamente. Felizmente, o trabalho é muito bem escrito dentro da sua proposta, sendo destaque o seu ótimo refrão.

Ride é outra obra de arte pop vinda diretamente de uma das melhores em atividade.
nota: 8,5

A Balada da Esposa

White Feather Hawk Tail Deer Hunter
Lana Del Rey


Novo e aguardado single da Lana Del Rey, White Feather Hawk Tail Deer Hunter é exatamente uma cápsula das qualidades da cantora. Uma pena, porém, que a produção coloque uma pedra que não deixa a canção “flutuar” perfeitamente.

Com produção da cantora ao lado de Jack Antonoff e Drew Erickson, o single é estilizado, único e texturizado, misturando art pop e toques de uma sonoridade gótica para criar um som que é claramente da artista e apenas dela. E isso é ótimo, mas parece existir uma limitação clara na construção da canção, que parece limitá-la dentro de um quadrado sonoro que a impede de explorar caminhos mais excitantes e épicos. Isso deixa a canção “achatada” e com apenas metade da força que poderia ter caso fosse mais ousada.

Felizmente, White Feather Hawk Tail Deer Hunter ainda tem outros momentos que a fazem valer a pena, especialmente vindos da ótima composição. Ao ser, claramente, uma canção de amor direcionada ao marido de Lana, a letra mantém a qualidade lírica da cantora ao transitar lindamente entre a poesia, o pretensiosismo, a polêmica e a emoção. Gosto especialmente do uso da imagem de um fogão (stove, que também será o nome do álbum) para construir a imagem de Lana como esposa.

Com uma performance única e dinâmica, a cantora ainda mostra boa parte de sua personalidade artística rara. Uma pena que a produção não esteja exatamente no mesmo nível.
nota: 7,5

2 Por 1 - Bebe Rexha

Çike Çike
I Like You Better Than Me
Bebe Rexha

Assim como fez a Raye, a Bebe Rexha decidiu seguir a carreira de maneira independente depois da forma negligente com que sua antiga gravadora a tratou. E, como primeiros singles, foram lançadas as canções Çike Çike e I Like You Better Than Me.

Nenhuma das duas canções, que são singles do Dirty Blonde, é exatamente uma Escapism, mas são bons trabalhos que já marcam positivamente a nova fase da carreira da cantora, especialmente devido à maneira sincera com que ambas são construídas. Menos inspirada está I Like You Better Than Me, pois sua produção descamba para uma mistura batida de electropop com toques de house e eletrônico que não parece muito disposta a encontrar um lugar próprio para a sonoridade da cantora.

Todavia, a produção entrega um trabalho seguro e bastante competente dentro do que escolheu seguir sonoramente, o que dá para se empolgar com a farofada em que a canção se transforma. Seu ponto alto, porém, é sua contundente composição sobre as dificuldades que a cantora tem com a própria imagem física, passando longe de ser uma lição de moral e sendo, sim, uma crônica sobre como é viver com esse peso mental. E um dos melhores momentos é quando a cantora revela o sentimento em relação àqueles que tentam “ajudar”: “So stop giving me your toxic positivity/ You know you're only making it worse”.

Com Çike Çike, Bebe mostra o que essa liberdade artística pode alcançar. Melhor canção da cantora praticamente desde que começou a carreira, o single é diferente de tudo o que ela já entregou ao ser uma ousada, divertida e intrigante mistura de eurodance, tech house, eletropop e deep house, que nunca desce aos porões dos gêneros escolhidos, mas também encontra inspiração genuína e surpreendente. A batida é incrementada por texturas únicas que fazem com que resulte em uma canção tão estranhamente interessante que fica difícil não dar atenção. Das adições na instrumentação, o solo de sax é algo desconcertante e divertidíssimo. Uma pena, porém, que a canção se limite a ter apenas um pouco mais de dois minutos, deixando aquele gosto de que faltou mais tempo para explorar tudo o que poderia se tornar. Mesmo assim, Çike Çike tem seus ótimos momentos, como, por exemplo, o refrão cantado em albanês, que é a língua materna da mãe de Bebe.

Espero que essa nova era, longe de amarras, possa ser a que vai revelar para o mundo todo o potencial de Bebe Rexha.
notas
Çike Çike: 7,5
I Like You Better Than Me: 7

17 de fevereiro de 2026

Primeira Impressão

My Ghosts Go Ghost
By Storm



As 100 Melhores Músicas Que Você Não Deve Conhecer

Nos últimos anos, surgiu uma onda de serem lançados remixes de canções que não eram exatamente remixes, mas, sim, apenas a adição de participações especiais para ajudar o lado comercial das mesmas. E isso é algo que, felizmente, diminuiu bastante nos últimos tempos. Todavia, nem todas as canções são caça-níqueis baratos, pois resultam em trabalhos realmente interessantes. Só que, para a gente conhecer qual é o melhor trabalho desse “gênero”, é preciso voltar algumas décadas no tempo para lembrar do...


15 de fevereiro de 2026

Primeira Impressão

Wuthering Heights
Charli xcx



Direto de 1988

Dancing On The Wall
MUNA

Saber como usar a nostalgia é uma dádiva, pois mostra o quão inteligente e criativo é o talento por trás de um trabalho. Em Dancing On The Wall, single da banda Muna, temos o caso perfeito dessa habilidade.

Claramente, a canção é inspirada no synth-pop/pop rock dos anos oitenta, mas em nenhum momento soa datada, clichê ou como uma cópia barata. Existe uma naturalidade latente que confere à canção uma linda e verdadeira força criativa, tornando-a um trabalho irresistível. E a principal razão disso é a sua lapidada, graciosa e precisa produção, que entrega uma faixa com uma construção instrumental relativamente simples, mas extremamente eficiente e cativante.

Dancing On The Wall, porém, também se beneficia de uma composição realmente inspirada. Ao falar sobre uma relação em que não existe reciprocidade, a letra conta uma história com começo, meio e fim, na qual todos os sentimentos são revelados de maneira sentimental, mas sem pieguice barata e com uma estética pop afinadíssima. Há algo na composição que é difícil de explicar, mas que nos dá vontade de cantar cada verso com força, mesmo sem termos passado exatamente pelas mesmas emoções. E, completando o “pacote”, está a presença deliciosa dos vocais de Katie Gavin, que captam perfeitamente toda a aura da canção.

Dancing On The Wall é o que chamo de uma aula sobre como fazer dar certo algo que poderia resultar muito errado.
nota: 8,5

Gostosinha Demais

Charme
Liniker


Tenho um grande apreço por artistas que conseguem se divertir com o seu ofício ao lançar canções leves, descontraídas e despretensiosas. Charme, da Liniker, é um desses exemplos.

Conhecida pelo público devido à apresentação da cantora no Tiny Desk, a canção ganha uma versão de estúdio que capta a sua essência ao ser esse trabalho que não tem a vontade de ser algo grandioso ou profundo, mas, sim, um gostosinho exercício de leveza e divertimento. A batida contagiante de Charme é o seu grande atrativo, pois é impossível ficar impassível com a atmosfera construída, que mistura pop, R&B e boogie de maneira madura e divertida. Não é para elevar a sonoridade da artista e, sim, para fazê-la simplesmente se divertir e divertir o seu público, conduzindo a canção com um carisma solar e radiante. Liricamente, a canção é um trabalho restrito pelas escolhas poéticas que, porém, não atrapalham em nada, já que as escolhas combinam com toda a vibe da canção.

Charme é simples para a gente ficar mais encantado com a presença magnética da Liniker. E isso é o suficiente.
nota: 7,5

Garoto Simpático

Homewrecker
sombr

Boa parte das canções do sombr passa a vibe de ser algo que poderia ser ótimo, mas, ao ser legal, já é meio que o suficiente. É assim com a boa “Homewrecker”.

Capitalizando no sucesso do seu álbum de estreia, a canção é uma mistura redonda, classuda e mais interessante do que parece de indie pop, pop/yacht rock com elementos de tropical music, que assenta bem quando a gente entende as raízes das influências oitentistas da faixa. Com certeza, a canção está longe de ser um grande acerto, pois não tem aquele toque especial capaz de elevar o resultado final. Todavia, existe uma verdade criativa sincera por trás da produção que faz a gente ficar convencido. Talvez, com uma parte final mais grandiosa, “Homewrecker” pudesse funcionar bem melhor, pois a canção termina de maneira anticlimática. A boa composição, com destaque para o cativante refrão, e a performance sóbria e segura do sombr ajudam a arrematar os detalhes finais da canção.

Com esse bom caminho, é possível que o sombr continue arrematando a simpatia de parte do público. Veremos.
nota: 7,5

Bossa Mitski Nova

I’ll Change for You
Mitski

De tempos em tempos, algum artista que considero talentoso tem a capacidade de me surpreender com algo que eu nunca estaria esperando. E é esse o caso da Mitski ao lançar a sublime I’ll Change for You.

Segundo single do seu novo álbum, a canção é simplesmente uma refinadíssima bossa nova que é de cair o queixo devido à sua magistral produção. Respeitando ao máximo o gênero brasileiro, mas adicionando camadas de chamber pop, jazz pop e indie pop que incrementam a canção para levá-la a um outro lugar criativo que liga diretamente com a personalidade artística da cantora. Todavia, o toque de mestre nesse caldeirão é a pitada magistral de samba que arremata I’ll Change for You com chave de ouro.

Felizmente, porém, a canção não tem apenas essas qualidades, pois tudo é construído em uma pequena e complexa “estufa” de vidro para criar uma canção rara e apaixonante. A simples e contida, mas emocional, composição é uma crônica tocante sobre uma pessoa que tenta entender o fim de um romance ao mesmo tempo que tenta descobrir uma maneira de recuperá-lo. Delicada e pungente, a performance de Mitski é um trabalho que vibra nos nossos ouvidos e corações, pois tem uma mistura de melancolia, tristeza e esperança genuína.

E com esse resultado, que contrasta criativamente tanto com o primeiro single (Where's My Phone?), Mitski vai criando uma jornada completamente inesperada para o que promete ser um dos álbuns do ano.
nota: 8,5

You Better Work

Slight Werk (Club Mix)
Honey Dijon & Bree Runway


Uma das artistas eletrônicas mais importantes da atualidade é, sem dúvida nenhuma, a Honey Dijon. A prova cabal disso é a ótima Slight Werk (Club Mix), com a presença da Bree Runway.

Eletrizante, divertidíssima e contagiante, é uma hip house/tech house com toques pesados e reluzentes de vogue e ballroom. A canção não tenta imitar esses gêneros, mas, sim, é um trabalho que remete perfeitamente a eles devido ao conhecimento prático, teórico e, digamos, espiritual da produção da Honey. Além disso, o trabalho instrumental aplicado na canção é realmente inspirado, pois mostra uma intrincada rede de construção que poderia facilmente se restringir a algumas batidas soltas aqui e ali nas mãos de alguém menos talentoso.

O arremate da canção vem por conta da ótima e cativante performance da Bree Runway, que consegue entender toda a atmosfera da canção ao moldar sua presença para se encaixar nela sem perder personalidade.

E é de personalidade como a da Honey Dijon que a gente precisa ainda mais.
nota: 8

O Caminho Médio

Die For Me
ZAYN


É bastante curioso perceber o caminho que a carreira do Zayn tomou, especialmente em comparação à do Harry Styles. Dois talentosos cantores, mas fica claro que, para o primeiro, faltou trilhar um caminho mais experimental para ter feito a sua carreira explodir como a do segundo. Isso fica claro com o lançamento de Die For Me.

O single, primeiro do seu novo álbum intitulado Konnakol, não é ruim, mas é extremamente seguro e sem um pingo de excitação. Se ele tivesse lançado a canção assim que saiu do One Direction, não faria nenhuma diferença, pois o trabalho não mostra nada de amadurecimento em relação ao que ele mostrou nesse começo da carreira solo. Die For Me é uma power balada pop soul com um instrumental poderoso e grandioso, mas meio arrastado e sem graça. A gente sabe exatamente o que esperar do começo ao fim, tirando boa parte da graça da canção, que poderia ir muito além.

É preciso apontar, porém, que vocalmente Zayn entrega uma performance espetacular ao mostrar não apenas o seu imenso alcance, mas também versatilidade inspirada e uma emoção tangível. Todavia, todo o potencial de Zayn não faz a agulha girar para uma canção melhor, pois Die For Me nasce já sendo um trabalho pouco inspirado, que não está à altura do seu talento. Uma pena.
nota: 6

8 de fevereiro de 2026

O Céu de Loreen

Feels Like Heaven
Loreen

Com uma carreira intimamente ligada às suas duas vitórias no Eurovision, a Loreen ainda não havia encontrado uma canção capaz de mostrar todo o seu potencial fora desse contexto. Feels Like Heaven, no entanto, é exatamente essa música.

Sem se afastar radicalmente do território que a cantora já apresentou ao longo dos anos, o single de seu próximo álbum (WILDFIRE) é uma mistura épica, envolvente e madura de electropop, euro-trance e dark pop, que consegue fugir do lugar-comum no momento em que a produção acerta ao adicionar texturas e construir um instrumental robusto e poderoso. Na verdade, grande parte da qualidade de Feels Like Heaven vem justamente do fato de entregar um trabalho técnico primoroso, que praticamente apaga qualquer sensação de clichê ou de algo datado que a canção poderia carregar.

Outro fator determinante para um resultado tão acima da média é a presença vocal estupenda de Loreen, que entrega uma performance explosiva, emocional e deslumbrante. A forma como ela interpreta a letra é completamente única, deixando de lado aquela sensação recorrente de identificar de imediato uma canção escrita ou coescrita por Sia. Claro, depois de saber desse detalhe, é possível reconhecer a marca da autora de Chandelier na composição, mas trata-se de um trabalho competente e seguro, que não pende a balança nem para cima, nem para baixo.

Feels Like Heaven representa um novo ápice na carreira de Loreen, que pode ter em mãos um álbum realmente surpreendente.
nota: 8,5

The Fate do Mediano

Opalite
Taylor Swift


Continuando a sua saga de ser a maior artista pop da atualidade com as músicas mais sem graça do pop, Taylor Swift lança Opalite como single de The Life of a Showgirl.

Canção menos pior do álbum, o single é a que tem a batida mais legal de todo o disco, fazendo a gente até bater os pezinhos no compasso. E isso acontece especialmente no refrão que, sinceramente, funciona sonoramente melhor do que o esperado. Todavia, a canção repete todos os cacoetes de todas as outras faixas do álbum ao ser uma mistura sem força, sem criatividade e sem brilho de dance-pop com pop rock e soft rock, que não passa de uma tentativa canhestra de canção pop de verdade.

Em Opalite, porém, o maior erro está na indulgente e boba composição, que usa e abusa dos clichês que a própria Taylor criou para entregar uma chata canção sobre finalmente encontrar o amor verdadeiro. Dá para ouvir os mecanismos da cabeça da cantora funcionando ao escrever a composição, que parecem feitos apenas para serem consumidos pelo seu público, mais do que uma parte da sua exploração como pessoa e artista. Vocalmente, a canção é um trabalho seguro para a Taylor, ao não sair do lugar de conforto da sua voz.

E, sem maior esforço, a Taylor é o que temos de maior estrela pop. Bom para ela e o seu público, ruim para o resto que gostaria de mais.
nota: 6


Vazio

POSSESSION
Melanie Martinez


Algumas canções são, teoricamente, grandes e profundos trabalhos, mas que, na prática, são um completo nada. Esse é o caso de POSSESSION.

Single do novo álbum de Melanie Martinez, intitulado Hades, a canção funciona como uma crônica sobre um relacionamento tóxico, partindo da visão da vítima que ainda não conseguiu sair completamente dessa situação. A composição constrói imagens fortes, mas elas não causam o impacto esperado por conta da forma como são escritas. Tudo soa excessivamente pretensioso, sem nunca alcançar o clímax emocional que uma canção com essa temática deveria ter.

Todavia, o maior problema de POSSESSION está em sua produção vazia. Seguindo um caminho entre o alt-pop e o indie pop, a faixa entrega uma batida monótona, sem inspiração, totalmente sem força, massificada e quase irritante. É o tipo de canção que quer desesperadamente ser mais profunda do que realmente é, criando um abismo sonoro entre a intenção e o que de fato é entregue. Se não se levasse tão a sério, a música poderia ter muito mais efeito em relação à sua mensagem.

Como ponto menos negativo, Martinez apresenta uma performance madura e sólida que, dentro de suas limitações vocais, combina bem com a atmosfera da canção. Ainda assim, a presença de uma vocalista mais interessante poderia conferir alguma personalidade ao vazio que é POSSESSION.
nota: 5

1 de fevereiro de 2026

Primeira Impressão

locket
Madison Beer


O Encontro Pop

Stateside + Zara Larsson
PinkPantheress & Zara Larsson


Existem alguns unicórnios na música, e um deles é a existência de um remix que consegue ser melhor do que a canção original. Esse feito raro é alcançado no remix de Stateside, de PinkPantheress, ao lado de Zara Larsson.

Uma das melhores canções de Fancy That, o single original já era a prova de que a "sonoridade da PinkPantheress estava se direcionando para uma abordagem mais eletrônica, incorporando influências de house e EDM para enriquecer sua já sólida identidade musical". No remix, a produção — sabiamente — mantém essa base, mas altera o suficiente para que a faixa se apresente, de fato, como um remix verdadeiro, graças a adições muito bem-vindas em sua construção.

A mais pungente delas é a batida mais marcante de electroclash/EDM, que eleva ainda mais o impacto sonoro da canção e se alia perfeitamente à presença de Zara Larsson.

É aqui que o remix realmente brilha. Ao convidar a sueca, a música poderia facilmente optar por caminhos seguros e previsíveis, mas prefere integrar genuinamente a personalidade da convidada à mistura, criando uma parceria real entre as duas artistas. Essa decisão transforma a faixa na fusão ideal de duas potências do pop — e o resultado é recompensador: uma canção que não só rivaliza, como consegue superar a original, realizando um verdadeiro milagre musical.
nota: 8,5

O Retorno Depois do Sucesso

Where's My Phone?
Mitski

Depois do sucesso comercial inesperado de My Love Mine All Mine, Mitski está de volta com o lançamento de Where’s My Phone?, primeiro single de Nothing’s About to Happen to Me.

É fácil perceber que a canção não tem relação direta com seu single de sucesso, mas, felizmente, continua mantendo o nível artístico da cantora bastante elevado. Trata-se de uma faixa reconfortante, madura, graciosa e com forte estética vintage: um noise pop com garage rock que claramente se inspira nos anos setenta, com uma camada noventista, sem, no entanto, soar como um simples exercício de nostalgia. Na verdade, Where’s My Phone? apresenta um trabalho instrumental incrível e complexo, repleto de camadas, que vão se desenrolando gradualmente até alcançar algo muito mais climático e poderoso do que sua primeira metade deixa transparecer. Esse é, sem dúvida, o grande trunfo da canção.

Liricamente, a faixa não é de digestão fácil para quem busca algo mais direto e palatável. Não se trata de uma escrita complexa em sua forma, mas Mitski possui uma capacidade impressionante de expressar sentimentos difíceis de maneira elaborada, sem jamais soar pretensiosa. Aqui, fica claro que a cantora busca traduzir uma angústia existencial típica do mundo contemporâneo, em que estamos constantemente cercados de coisas, mas ainda assim podemos nos sentir vazios e perdidos. Mitski entrega uma performance vocal sólida e poderosa, que se encaixa perfeitamente na proposta da canção; ainda assim, é preciso apontar que a mixagem vocal deixa um pouco a desejar, já que sua voz acaba ficando abaixo do instrumental devido às escolhas de efeitos adotadas.

De qualquer forma, Where’s My Phone? se firma como um dos melhores momentos deste início de ano, que promete ser repleto de destaques como este.
nota: 8